6 - A VIDA ALÉM DA VIDA

6 - A VIDA ALÉM DA VIDA

Estendido ao chão, eu tentava erguer-me, pensando que eles haviam errado os tiros, que ainda estava vivo. Imaginava que tudo não passara de uma brincadeira...

Olhava para aqueles companheiros levados comigo ao fuzilamento e via muita gente perto deles, ajudando-os.

Olhei daqui, olhei dali. Um senhor idoso, de uniforme branco, parecendo um médico, segurou em minhas mãos, e foi aí que vi o meu corpo inerte no chão...

Lençóis brancos eram jogados por sobre os corpos. Permanecemos ali vendo as cenas que ocorriam.

Meu pai se ergueu e colocou a sua arma por sobre a mesa que havia ao lado, destinada a acolher os pertences dos sentenciados, ora destinados ao Estado.

Desesperado, ele saiu dali chorando. Tentei movimentar-me para o seu lado, mas Alexander me segurou pelo braço, impedindo-me.

Saímos dali e fomos conduzidos para um imenso castelo, com soldados por todos os lados. Chegando à porta, foi anunciada a nossa chegada e nos deram permissão de entrada.

Ali estava um povo muito esquisito. Nossa roupa diferia bastante da que envergavam aquelas criaturas.

Correria e gritaria aturdiram de repente a minha cabeça. À minha frente surgiu uma imensa igreja, onde eu adentrava. Atulhava-a uma multidão, com muitos sacerdotes.

Aquilo se mostrava tão autêntico, que acreditava-me ainda vivo. Alexander me segurava pelo braço e eu apalpava o meu corpo para constatar se ainda estava vivo.

Apalpava-me e pensava: estou apenas sonhando, não passei pela morte.

Alexander dizia:

— Continue pensando assim...

E fomos entrando ainda naquele local. Mas, ao relembrar papai e o seu estado, tudo aquilo sumia de minha frente.

Fomos caminhando. Vi-me numa pacata cidadezinha. Povo tristonho, sofrido. Fomos penetrando por ali. No meio, uma pequena praça.

Olhávamos daqui e dali, víamos aquelas pessoas envolvidas na sua melancolia, na sua amargura. Pensei: também isto vai desfazer-se agora mesmo...

E realmente quase aconteceu. Se estou vivo ou morto — pensei —, devo seguir este homem. Este captava os meus pensamentos e recomendava:

— Você deve seguir firmemente! Chegamos numa casa. Lá dentro vi grandes cômodos: sala, quartos. Não havia ninguém lá dentro. Embora fosse uma construção muito grande, era tudo muito simples.

Projetei este pensamento: será que ficarei sozinho num lugar desse?! E o bondoso irmão disse:

— Não, você não vai ficar sozinho aqui. Você cumpriu a sua missão na Terra. Tinha algo do passado a ser pago...

Uma confusão se formava em minha cabeça, enquanto eu olhava para aqueles cinco quartos enormes. Pensei: para que isso?

— Não se preocupe — pediu Alexander.

De repente apareceu Denise, uma irmã bondosa, de cabelos louros muito belos, olhos maravilhosos. Ela deu-me um abraço e um beijo, dizendo:

— Aqui também estou para ajudá-lo. Vou ficar aqui com você.

— Como posso ficar aqui?! E como você vai ajudar-me, aqui, nesta imensa casa, sem ninguém dentro?...

Seguimos para a área da frente da casa, um local muito bonito.

Lembrei-me da Europa, do frio que lá enfrentava, e observava que ali não havia nenhuma proteção de aquecimento, que era tudo aberto. Pensava: quando chegar o frio, isto aqui vai ser horrível!

Denise esclareceu:

— Já esperávamos que você chegasse aqui e que manifestasse tais pensamentos. Você se apegava muito na religião, tinha muita piedade do seu pai e daquelas outras criaturas, razão porque, ao desencarnar, você fora levado àquela fortaleza militar. Todavia, como ali não era o seu lugar próprio, por sua força e memória religiosa você foi levado ao ambiente de uma grande igreja. E, entretanto, também aquele não era o seu lugar, pelo que você foi trazido para cá, para esta calma cidade, para aqui receber orientação.

Eu sentia a estranheza daquele lugar. Não era em nada similar às localidades européias. Também, jamais vira casas naquele estilo.

Notava que pelos interstícios da cobertura poderia penetrar muita friagem.

Ao mesmo tempo, dizia-me: já deixei mesmo o meu corpo e não preciso mesmo de nada daquilo que imagino necessitar; e é por isso que as coisas aqui são assim diferentes, tal como as vejo e sinto.

— Qual é o meu serviço aqui? — indaguei. Vi que chegava um protetor para criaturas que ali também chegavam. Estranhava a diferença daquela casa, em seu tamanho, em relação às demais moradias do lugar, com exceção daquela construção lá na praça, onde as pessoas se agrupavam em reuniões.

E a mentora indagou:

— Como é que você sabe que lá são feitas reuniões?

Não tendo visto nenhum prédio de maior tamanho, nem mesmo uma igreja naquela cidade, imaginei que aquela grande construção lá na praça fosse um local de reunião daquelas pessoas que se sentavam lá na pracinha.

Disse isto aos mentores e ouvi:

— Você está indo muito bem!

Fiquei contente em ouvi-la me elogiando. Em seguida ela disse:

— Aqui estão cinco quartos e vinte e três pessoas. Porém, precisamos socorrer mais três criaturas, e temos de colocar mais camas aqui. Você está de acordo?

— Sim, estou de acordo — respondi. Mas não sabia o que me agradava.

— Então vamos lá para a praça.

Segui conversando com Denise, enquanto outros irmãos preparavam aquele local para que eu iniciasse um trabalho que, de resto, eu ignorava como seria. Sentamo-nos naqueles convidativos bancos.

Olhei para o telhado daquela construção e notei que era coberto de folhas de coqueiro, mas era um trabalho artesanal muito belo, com o que me encantei sobremaneira, a ponto de exclamar:

— Deve ser um grande artista aquele que faz este trabalho de arte!

Denise explicou:

— Aqui tudo é feito com as facilidades de que dispomos. Saiba que você é muito especial. Nós já o aguardávamos há muito tempo por aqui.

— Por quê? — indaguei.

— Ora, é o momento de conversarmos, tentar esclarecer as nossas dúvidas. Nos seus primeiros passos, quando na Terra, nós já cuidávamos de você como podíamos. Você se desenvolveu muito bem sob o teto da sua religião, sendo amigo dos sacerdotes e das demais pessoas. Foi uma vida muito boa. Todavia, você haveria de passar por um determinado teste. Foi lançado à guerra quando ainda era muito jovem, para que lá fosse testada a sua força moral, para ver se realmente você estava preparado para novas missões. Idéias e conceitos passavam por sua cabeça, dentro do que se apegava em sua ideologia religiosa, dentro da Escritura que você lia e em que acreditava. Entendendo a grandeza de Jesus, compreendeu que não nascera para matar ninguém, mas sim para salvar as criaturas. Sob tais ideais é que pudemos estar mais eficientemente do seu lado. Quando você jogou fora a arma e atendeu as criaturas caídas ao chão, tentando salvar-lhes a vida, você mostrou o amor que vibrava em sua alma. Você sabia que não era covardia deixar de matar o semelhante. Naquele desespero perante os disparos da destruição, você pôde acudir uma e outra das criaturas tombadas, agindo como verdadeiro cristão, valendo-se da grandiosa força que está sobre a Terra, que é o amor verdadeiro. Estamos então muito felizes de recebê-lo aqui. Na Terra não alcançaram o herói que você é, e aqui vemo-lo assim: como um autêntico herói!

Fiquei um tanto desconcertado com aquelas palavras amáveis e manifestei a minha surpresa. Ela continuou:

— Você é um espírito muito preparado. Perante situações adversas, você foi o vencedor.

Você aportou ao plano terrestre para resgatar dívidas e também para atender as criaturas necessitadas, que foram aqueles vinte e três irmãos que passavam por aquela mesma provação.

E você ajudou-os bastante. Então quer saber agora qual é o seu trabalho aqui? Você vai ajudar ainda muito mais aqueles irmãos...

Tentei aprofundar melhor aquilo que via e ouvia. Indaguei:

— Mas que lugar é este? Que situação esquisita é esta?

Ela sorriu e disse:

— Esta região está fora do ambiente europeu, e é por isto que aqui tudo se mostra estranho para você. Lá, em face das guerras, do egoísmo das pessoas se destruindo mutuamente, não podemos realizar um bom trabalho. Aqui você está quase no centro do Brasil, num local bem pobre. Por isso é que você vê tudo assim, pois as edificações aqui obedecem as características das próprias regiões sobre que pairam. Os espíritos são atendidos naquilo que necessitam. Assim, atendemo-los na mesma simplicidade a que se acostumaram na Terra. Então você hoje recebe os seus vinte e três amigos. Eles vão ser transferidos para cá. Esta casa que você vê é como que um hospital, um local muito simples, mas adequado ao que se propõe.

Encantei-me com a possibilidade de poder trabalhar. Quis saber mais sobre o Brasil, sobre este país que Denise mencionara com tanto amor, a tal ponto de tremer de emoção a sua voz ao citá-lo.

E pensei: se os irmãos daqui são brasileiros, como é que vou manter comunicação normal com eles?

Captando minhas dúvidas, ela disse:

— Ora, meu irmão, o pensamento é a linguagem universal dos espíritos. Nós não temos idiomas, pois todos nos expressamos sob as vibrações das ondas mentomagnéticas.

O espírito é a verdadeira essência viva, é a grande energia que corre pelo universo.

E, falando ela do Brasil, mais e mais me apaixonava por tal país. Sentia uma grande vontade de ver como era o plano físico dos irmãos brasileiros.

Depois encantei-me bastante com a sua opulenta natureza, com a maravilha daqueles sítios onde, na simplicidade, via-me como que internado em majestosos palácios.

Aquela cidade espiritual tinha um traçado esférico, tendo no centro aquela pequena praça. Não havia nenhuma igreja, como já observara, nem mesmo outro prédio, a não ser as casas normais e aquela espécie de quiosque no centro da praça.

Tudo ali, para mim, era encantamento. Fugia-me ainda a lembrança dos meus familiares deixados lá na Terra, e mesmo dos meus irmãos que haviam sido abatidos na guerra.

Olvidava o luto em que mamãe se cobria.

Fiquei bastante tempo conversando com aquela maravilhosa mentora Denise. Era um clima agradabilíssimo.

O solo era arenoso, branco, com gramados e touceiras de lírios. Havia uma flor branca chamada margarida, muito linda. Árvores também enfeitavam aquele local.

De mãos dadas com Denise, encaminhei-me para aquela residência que me fora destinada.

Notava que as pessoas saíam para fora das casas e ficavam a examinar-me, como se eu fora um viajor estranho ao lugar.

Eu estava de roupa branca, e aquelas pessoas vestiam-se com simplicidade, todas descalças. Algumas usavam camisas de manga comprida, que enrolavam para cima dos braços.

Vendo aquele costume, resolvi também tirar o meu próprio calçado, pois via que até a bela Denise estava descalça.

Resolvi mudar o itinerário e dar um passeio pelo lugarejo, acompanhado daquela criatura boníssima. Caminhamos por aquela areia, como so fosse ali uma praia.

Senti uma imensa alegria, e até a vontade de correr e brincar! Ela se motivou a expandir os mesmos sentimentos, e então começamos a correr, a correr...

Recordei os meus tempos de infância, quando também corria, com os meus cabelos lisos esbatendo sobre a minha cabeça, quando ouvia, lá longe, mamãe gritar o meu nome, e eu gritava para ela...

De repente assaltou-me uma saudade imensa de mamãe e do meu lar. Denise segurou fortemente em minha mão e disse:
— Não tenha medo! Está tudo bem.

Ela sorriu divinamente, com seus dentes alvíssimos, e me segurou com mais firmeza, enquanto eu sentia fraco o meu corpo, quase tombando à areia. Ela me carregou, enquanto chegava Alexander a me pegar e levar consigo.

Fora uma repentina fraqueza a me tolher os movimentos das pernas. Não conseguia erguer o meu corpo. Denise recomendou:

— Você está um tanto despreparado ainda. Procure não recordar o seu passado terrestre. Fir-me-se apenas nos momentos que estamos vivendo aqui.

Sorrindo, ela conversava e tocava carinhosamente em meu rosto. Devagar me recompus, enquanto ouvia-a dizer novamente:

— Não, você ainda não está suficientemente preparado para a sua tarefa aqui.

— Qual trabalho? — indaguei.

— O de cuidar dos seus amigos. Sim, o passado pode surpreendê-lo negativamente...

Alexander ficou ao lado. Conversamos sobre aquela tarefa que me era destinada. Na sala da casa nos sentamos.

Foram convidadas as várias pessoas dali para uma reunião, onde todos se davam as mãos. Uma prece muito sincera era efetuada.

De repente abriu-se um clarão no meio da casa. Surgia ali uma criatura maravilhosa, com cabelos e barbas longas. E Denise disse:

— Eis aí um discípulo de Jesus. Pedro está aqui entre nós!

Ouvimos palavras de muito amor, palavras de encantamento que eu jamais poderia esquecer.

Ali relembrava os fatores religiosos que me haviam envolvido quando na Terra, a imagem de São Pedro na Igreja. E ele ali dizia:

— As glórias rendidas na Terra ao homem são glórias que ficam na Terra. Já as virtudes de amor que glorificam o homem falam da grandeza de aceitar e acudir as necessidades dos nossos irmãos. É a grandeza de, mesmo no momento da morte, tentar fazer alguma coisa para auxiliar os desajustados. Na Terra vi Jesus agir assim, principalmente com os doentes, com os caídos, e jamais vi nele qualquer laivo de revolta por estar no plano físico. Mas também você não se revoltou. Lembre-se sempre do que disse Jesus: O reino não é deste mundo. Hoje você está sob o reinado de Jesus. Porém, a morada do Pai, tal como afirmava o Mestre, se mostra de várias e várias formas, e de acordo à necessidade de cada um. Você está hoje neste local, nesta pequena colônia onde se sentiu muito bem e para a qual foi trazido pela extensão do seu próprio mérito. Garanto-lhe que quando eu sair daqui você se sentirá fortalecido, porque os nossos desejos são realizados quando temos amor no coração, quando, ao invés de matar alguém, trocamos pelo amor a nossa vida. Isto é muito importante, porque Jesus deu este exemplo e pediu que, onde fôssemos, o levássemos junto a nós. Estamos junto ao Mestre administrando este imenso planeta, atendendo aos carentes do nosso amor. Muitas vezes temos que chegar até um irmão menor e não temos a graça de estar junto dele, porque o padrão vibratório não o permite, e talvez possamos prejudicar alguém com as nossas energias, por estar talvez despreparado. Todavia, são enviados inúmeros espíritos para atender tais necessidades, tanto quanto você, nestes dias, também passa por tal preparo. Lembre-se de Jesus e do que disse perante aquele cortejo fúnebre: Deixem que os mortos enterrem os seus mortos! Então deixe, também você, o passado no passado, porque ele está morto; então que os mortos fiquem com os seus próprios mortos...

Queria eu indagar algo, mas a luminosidade era tão grande que um nó se formava em minha garganta. Os mentores pediram que me aquietasse. E o bondoso e venerável Pedro disse:

— Que a paz do Senhor esteja convosco para todo o sempre!

Sorrindo, ele se retirou.

Com aquelas palavras a mim direcionadas, senti-me bastante fortalecido, mal me cabendo dentro de mim. E meus irmãos disseram:

— Ele agora está preparado!

E como seria a preparação apenas com o reflexo das palavras de um espírito grandioso? É que aquele padrão vibratório nos dá a força, a recuperação das energias perdidas no desencarne.

E a bondosa Denise indagou:

— Quereria você ver alguma coisa do Brasil, no plano físico?

— Não! — respondi. — Quero ver como estão papai e mamãe!

JERÔNIMO