8 - COM A MÃO NA CHARRUA

8 - COM A MÃO NA CHARRUA

Maravilhado com os ensinos espirituais e motivado pelo despertar dos ideais superiores, sairia eu a trabalhar.

Embora tentasse, empenhadamente, retirar de papai o seu cruel sentimento de culpa, os mentores afiançavam que naquilo não estava o mérito de minha ação, que aquilo fazia parte do aprendizado daquele espírito. Adiantaram-me que ele permaneceria um tanto angustiado, mas que não se envolveria com o suicídio, porque isso lhe acarretaria um prejuízo moral ainda muito maior.

Senti-me motivado a tornar-me um guardião daquele irmão, mas fui advertido de que aquele não era o meu trabalho. Esclareceram, entretanto, que a bondade do Pai permite que auxiliemos as criaturas necessitadas, mas que papai não estava sozinho e desamparado.

De fato, olhando detidamente para papai, observei que ao seu lado estava uma irmã bondosa que era a minha avó, uma criatura muito religiosa e que havia feito na Terra um meritório trabalho, atendendo as criaturas enfermas. Ela transformara o seu próprio lar num local de assistência a pessoas tomadas de doenças infecciosas. Ela também desencarnara com aquele mesmo tipo de enfermidade. Estava ali a postos, ajudando papai.

Senti-me mais alegre e animado com tal constatação. Mas aquela criatura guardiã não nos podia ver, pois estava sob as vibrações de outro plano mental, ligada que estava ainda aos fatores religiosos da Igreja Católica.

Nossa missão se processava diferentemente, em torno da ideologia espírita, para que dessa forma específica pudesse frutificar sobre a Terra, seguindo os esclarecimentos do bondoso e atencioso Alexander.

Assim sendo, encerramos a nossa visita à Polônia e retornamos à nossa colônia espiritual. Ali chegando, fiz-me acompanhar de Denise na visita a amigos que ali se instalavam.

Lá havia espíritos com vários comportamentos. Alguns estavam felizes e sorridentes, enquanto outros amargavam uma patente melancolia.

Naquela tarde realizava-se a costumeira reunião no edifício erguido no meio da colónia. Sentamo-nos no banco. Irmã Denise fez uma prece, enquanto uma música angelical parecia sair de dentro da Terra, subir, subir, em notas maravilhosas.

Olhei para um lado e outro, mas não vi nenhum instrumento musical. E a melodia encantava, ao som da comovida oração daquela irmã.

Sentia-me extremamente feliz ouvindo aquilo, participando de tudo. E a música continuava, suave, encantadora. Era como se fosse um prato de saudável alimento chegando à mesa de quem tem fome... Uma coisa gratificante! E, encerrando Denise a sua prece, Alexander começava a sua palestra, falando da imortalidade da alma, do Evangelho de Jesus, relembrando as suas parábolas maravilhosas. Ele caminhava de lá para cá fazendo aquela preleção instrutiva, mostrando a essência das leis divinas e os legítimos valores formando criaturas do bem, criaturas buscando no Cristo a inspiração à transformação moral do homem. E as suas palavras exalçavam a grandeza do espírito imortal evoluindo cada vez mais, embora nos passos lentos da nossa imperfeição.

Emocionei-me com tantas palavras sábias e belas saídas da boca daquele irmão, despertando-nos às lembranças do que já havíamos aprendido. E o quanto é bom recordar as coisas boas!

Alexander convidou-me a fazer a prece de encerramento.

— Eu?! — indaguei surpreso.

— Sim, você!

Todos aqueles irmãos fixavam o olhar em mim. Então aproximei-me de Alexander e Denise, e ambos me abraçaram. Comecei a falar:

— Amado Jesus! Que tua luz resplandeça em todos os lugares onde os homens te conheçam! Que teu amor supremo se irradie àquele irmãozinho acamado no leito da dor! Envia neste momento os mentores amigos para que façam chover nos quatro cantos da Terra o teu amor para aqueles que ainda te desconhecem e tentam afastar-se de ti, por não compreenderem a grandeza do teu amor, a graça de amar! Faze, Mestre Jesus, que os homens possam conhecer-te e abrir a mente tanto quanto a minha foi aberta, para que possam amar-te tanto quanto eu te amo! Peço, Jesus, não por mim, mas por meus irmãos, para que eles possam entender a graça de amar e respirar esse ar de gratificante liberdade, quando amamos a todos como a nós mesmos, tal como tu nos ensinaste!

A música aumentava a sua vibração no decorrer da prece, enquanto todas aquelas criaturas ali presentes oravam enternecidamente.

O silêncio cobriu toda aquela praça...

Uma luz desceu lá de cima. Um grande esplendor! Lá em cima formou-se uma figura belíssima com a face de Jesus. Tentei ajoelhar-me e os irmãos me detiveram para que eu permanecesse de pé. Então palavras maravilhosas rasgaram os céus:

— Bemaventurados aqueles que são brandos de coração, porque eles herdarão os céus!

Lágrimas desciam do meu rosto! Sim, porque nós não merecíamos aquilo! Mas meus irmãos justificavam:

— Se nós fizemos um bom trabalho na Terra, tal trabalho não tem o seu valor? E hoje estamos aqui...

Olhava para o céu e já me antecipava no espírito que já vivia a Terra prometida por Jesus, o reinado do amor!

Naqueles instantes um cortejo de vinte e cinco pessoas chegou por uma estrada luminosa. Na frente vinha uma irmã a quem indaguei:

— Quem é você?

— Sou a coordenadora de um trabalho que você vai assumir.

— De onde vêm esses irmãos?

— De um lugar onde sofriam demais, pagando as suas dívidas... Foram encaminhados para cá para que você passe a cuidá-los.

— Mas quem são esses irmãos?

— São aqueles que você já conheceu lá na Terra...

Lembrei-me daqueles irmãos aprisionados junto comigo. Fitei aquela irmã e ela sorriu, beijando-me ao rosto e me abraçando, a dizer:

— Há quanto tempo não o vejo!

Senti-me muito feliz. Aqueles irmãos adentraram o recinto e foram depois instalados no local certo daquela casa. Todos eles estavam em estado de sono. Indaguei sobre isso àquela bondosa irmã que ali chegara, e a quem eu desconhecia.

Abraçamo-nos novamente e em rápidos relances de memória entendi que já tivéramos juntos um trabalho na Terra. Ela disse:

— Você trabalha aqui, enquanto eu trabalho num plano um pouco mais baixo que este, atendendo os espíritos que desencarnam na guerra. Mas como a guerra já se acabou, estamos agora trabalhando na recuperação desses irmãos que nela participaram.

Emocionado com as últimas e gratificantes impressões, disse eu:

— Cuidarei deles com muito amor e muito carinho.

Aquela irmã já saía, juntamente com os que a acompanhavam. E ela se despedia assim:

— É muito bom ver você aqui de novo. Até logo mais!

Num sorriso ela retornou ao seu lugar de origem.

Passei a tomar conta daquelas criaturas deixadas a meu cargo.

Pensei em fazer então uma visita ao Brasil, para ver como era a vida no seu plano físico. Denise sorriu e disse:

— Ora, o Brasil é isto que você vê aqui... Estamos aqui no Brasil. Você vai constatar que é tudo pobre, tudo muito simples. Os espíritos que lá estão são sofredores como estes que vemos aí...

— Mas e esses irmãos que já têm a compreensão da imortalidade e das belezas do reino do amor? E esses que mesmo de longe, como nós, ouviram as palavras de Jesus?

— Isso não acontece comumente. É que estávamos em prece. E você invocou Jesus com tanto amor, que ele nos transmitiu a sua mensagem para todos os que estão aqui. Porém, esses que aí estão também são missionários que estão em repouso. Esses são irmãos que na Terra tornar-se-ão adeptos da Doutrina dos Espíritos, para auxiliar as criaturas, tanto quanto você também o fez e fará.

— E quando todos formos embora, isto aqui vai ficar vazio, sem ninguém?

— Não! Uns vão e outros novos irmãos aqui chegam. Assim, esta colônia vai evoluindo, de conformidade com a evolução da Terra, pois não podemos passar por nada à frente do progresso. Por isso é que ainda vemos aqui tantas casas cobertas com folhas de coqueiro. Valemo-nos de tudo de acordo à necessidade dos nossos irmãos, para que, assumindo aqui uma vida simples, possam assim mesmo continuar sendo na Terra, dentro dos mesmos princípios da humildade. Você olhou para um e outro lado, não viu nenhuma igreja, senão este galpão maior aqui no centro da praça. Colocamo-lo aqui por que aqui funciona como que um centro espírita. Aqui é o local onde nos reunimos para orar, para fazer as nossas palestras para invocar Jesus, para amealhar forças e reendereçá-las aos nossos irmãos na Terra. Então copiamos tudo da própria simplicidade terrestre, já porque este local é habitado somente por irmãos simples e que desenvolverão um meritório trabalho sobre o planeta.

Eram ali vinte e cinco espíritos, dois dos quais eram meus irmãos carnais na Polônia, abatidos na guerra. Com muita energia de prece, recebemos a graça de poder ajudá-los. Mas aqueloutros que haviam sido trazidos, todos presos e sentenciados, também eram irmãos que já haviam melhorado bastante. Então fomos devagar despertando-os, mostrando-lhes os parâmetros de sua nova situação no plano espiritual. Nenhum deles manifestou sentimento de revolta.

Lá naquele centro de reunião promovíamos os encontros, programando as novas encarnações daqueles irmãos, mostrando-lhes os novos lares que iriam habitar no plano carnal.

Indaguei de Denise sobre o motivo de estarmos instalados naquela colônia, lá no sertão de Minas e da Bahia, longe da costa marinha. Atenciosa sempre, ela esclareceu:

— Aqui ficamos longe das emanações fluídicas dos irmãos ainda inferiorizados, jungidos a práticas mediúnicas de baixo escalão. Assim, ficam impedidos de conturbar os nossos trabalhos e os próprios preparativos reencarnatórios.

Aplicava-me no desejo e necessidade de melhor entender a natureza daquelas populações, apreender melhor o sentido de simplicidade caracterizando o modo de ser daqueles irmãos brasileiros.

Era tudo muito simples, muito agradável de se ver e sentir.

Despertos, aqueles irmãos europeus foram entrando no esquema de conscientização e recuperação, sem muita dificuldade.

Eu transmitia a todos aqueles irmãos, tanto aos que me haviam sido consanguíneos quanto aos outros, o mesmo amor que tomava o meu coração. Os meus irmãos legítimos então se enciumavam um pouco com tal igualdade, mas eu lhes explicava do nosso preparo conjunto para assumirmos nova reencarnação, dessa feita como espíritas, tentando alavancar a Doutrina dos Espíritos.

Ali eram preparados vários futuros médiuns: de cura, de oratória e de outras modalidades mais. Cada casa daquela colônia era habitada por irmãos com o mesmo tipo de mediunidade, recebendo dos mentores as informações certas. De vez em quando os líderes nos reuníamos para troca de experiências e a busca de conhecimentos dos planos superiores. Ali então chegavam irmãos de maior nível espiritual, fazendo palestras, levando conforto e esclarecimentos.

Certa feita oportunou-se a minha primeira visita aos locais do plano terrestre brasileiro. Fomos a um lugarejo simples, mas muito gracioso. Aquela cidadezinha se chamava Pardo. As casas eram singelas, como o seu povo.

Depois fomos a Montes Claros, admirando a sua beleza. E, assim, correndo o norte do Estado de Minas Gerais, me entusiasmava com o que via, admirando a paisagem bela, os riachos.

Vi a luta positiva dos sacerdotes católicos com os seus fiéis. Conheci Belo Horizonte, cidade já bem grande.

Como estávamos próximos da Bahia, visitamos também algumas de suas cidadezinhas, os centros espíritas da época. Estudávamos as formas de introduzir os futuros médiuns naqueles trabalhos que presenciávamos.

Uma visita maravilhosa! Mas logo estávamos de volta à nossa colônia.

Resolvemos então fazer uma visita em massa, com todos os mentores e candidatos a reencarne, àquelas entidades espíritas das regiões mais próximas e dos lugares mais pobres.

Estavam todos contentes com aquela visita, todos motivados a retornar à Terra em nova encarnação, nova oportunidade de trabalho e aprendizado.

Eu porfiava em me aprofundar no conhecimento maior da Doutrina dos Espíritos, da sua filosofia grandiosa.

De volta à colônia, todos se alojaram nos respectivos lugares, preparando-se ainda para logo ingressar no laboratório da reencarnação.

Eu, Alexander e Denise penetramos, certa feita, no padrão vibratório de um facho de luz a nos envolver e levar a um determinado local. Vimos um templo de pilares antigos, numa cidade toda cheia de pedra. Sentamo-nos numa daquelas pedras e ficamos a admirar aquela cidade muito antiga. Parecia mesmo que voltávamos ao passado bem remoto. Imediatamente surgiu um homem barbudo, cabelos longos. Era uma criatura estranha, desconhecida de nós três. E ele se apresentou:

— Eu sou o guardião deste local. Aquele homem, portando um grande cajado, aproximou-se de nós dizendo ainda:

— A minha voz soou no deserto! Abordei os homens e conclamei aos homens!

Notamos tratar-se de João Batista. Estremeci à sua presença. Também Denise e Alexander ficaram um tanto pasmos perante aquela figura majestosa. De dentro daquela criatura de repente brilhou uma grande luz, muito bela, esplendendo todo o seu porte respeitoso.

De dentro de mim saía a indagação: se viemos aqui para saber de espiritismo, por que ver aqui João Batista? E a sua voz forte se fez ouvir:

— Quereis saber algo da Doutrina Espírita? Eu também passei por várias reencarnações, eu também fiz parte da humanidade do plano terrestre, percorri na carne a sua História. Ah! É tão fácil ser simples, é tão fácil seguir Jesus, é tão fácil aderir ao Mestre! Ora, usei o batismo das águas, e o Mestre batizava em nome do Espírito — e quantos batizam em nome das águas, e quantos falam em nome do Espírito? Porque aquele que fala da água nada sobre as águas, forma-se dentro das águas e nasce das águas, mas aquele que faz condensar no Espírito o seu batismo, entende que aquilo que vem do Espírito é o Espírito!

Perturbamo-nos um tanto com aquelas palavras, envoltos todos numa altíssima vibração, sem muito entender a situação. E a voz solene continuou:

— Tentar entender os mistérios da vida é desvendar a vida — e aí está a dificuldade. Se falo da reencarnação, falo também da Doutrina dos Espíritos, porque, nas tantas vezes que fordes atraídos à água, à água tornareis, para que vos torneis homens. Porque no ventre de uma mãe é formada uma criança, é consagrada a vida.

De minha parte, eu já estava plenamente consciente daquilo, do processamento das leis da reencarnação vigindo na educação de todas as almas. Mas o velho profeta ainda dizia:

— Se quiserdes entender, entendereis ainda muito e muito mais... Lembrai-vos de tudo o que Jesus nos ensinou — e isto é tudo na vida! Seguir esse Mestre, seguir essa Luz é tudo o de que precisais na vida. Porque na Doutrina do Cristo estão todas as leis dos homens, todas as leis da Terra. Se entenderdes Jesus alcançareis que a Doutrina dos Espíritos é a presença do Mestre na Terra.

Compreendemos enfim o sentido das palavras daquele homem: não precisaria aprofundar-nos tanto no que seria a Doutrina Espírita, porque ela era simplesmente a presença de Jesus e sua doutrina se implantando na Terra como a Terceira Revelação.

À vibração daquele sopro de entendimento tomando nosso espírito, João Batista sorriu. Não conseguimos nos acercar mais dele, porque o seu campo vibracional era muito forte, ainda inatingível a nós, por se tratar de um espírito de tanta grandeza. Mas recebemos as suas palavras no mesmo tom e sentido de quando ele as pregava na Terra, com a mesma intensidade e o mesmo amor.

De repente o seu clarão mais se acendeu, ele sorriu e disse:

— Lembrai-vos do Mestre: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei! Esta é a nota máxima da música que deve melodiar nossos corações!
João Batista subiu, subiu e desapareceu... Naqueles instantes se aproximou de nós um homem de barba e cabelos brancos, a dizer-nos:

— Não temais! Aqui estou eu para auxiliar-vos, para mostrar-vos o rumo a tomar. Viestes saber sobre o Espiritismo, e a Providência vos acudiu o mérito para que entendais melhor a Doutrina Espírita. Falamos do Espírito e vemo-lo renascer...

Mas quando ele nasce, nada sabemos dele — e sabemos que a doutrina dele nasce quando ele renasce entre os homens. Entendendo essa verdadeira ideologia, entendemos que a sua doutrina o acompanha pelo desenrolar de todos e todos os seus anos... Mas o Espírito mais se enriqueceu quando Jesus veio à Terra. Porque, conturbado perante outros ensinos, sem um líder legítimo a seguir, perdia-se com os profetas, calcado numa Escritura que não esclarecia a chama dos seus ideais. Chumbados às tradições, os homens deixavam de entender todos os fatores religiosos. Então a codificação do amor abriu um elo muito forte entre o mundo carnal e o mundo espiritual. Fora aberto o primeiro sinal com Moisés, como médium, assessorado por uma plêiade de Espíritos promovendo maravilhas por sobre a Terra. Então lá já havia mediunidade, já havia Espiritismo. O povo, mergulhado nas leis carnais, apegado às suas violências, transgredia as leis maiores mandando cortar as mãos dos que roubavam, surrar os que surravam. Era o império do olho-por-olho, dentre-por-dente, mostrando-se o poder e ferocidade das garras humanas, implantando na Terra o regime da própria e falha justiça, alentados todos pelo que previniam as leis mosaicas. E a mediunidade era vigente nos princípios da essência espiritual. Mas Jesus se fez presente à Terra como a Segunda Revelação e as suas leis de amor nos iluminam intensamente...

Nem sabíamos quem era aquele outro homem que nos ilustrava com a sabedoria das suas palavras. Envergonhados estávamos de indagar-Ihe o nome. Imaginávamos: seria um discípulo de Jesus? Seria um antigo profeta? Inibidos perante aquela figura sublime, mantínhamos o nosso silêncio e respeito. Contudo, ele percebeu as nossas vibrações de certa admiração mista de curiosidade, e, sorrindo, disse:

— Preocupai-vos com quem eu possa ser? Não, não sou nenhum dos discípulos de Jesus, porque estive na Terra antes deles, e retornei à Terra um punhado de vezes. Quereis mesmo saber? Pois sou um vosso amigo e meu nome é Demétrius.

Estou aqui para esclarecer as vossas dúvidas.

Fiquei deveras maravilhado com as palavras e o proceder daquele homem, que continuou a sua palestra à nossa frente. Falou ainda da força das leis mosaicas se arrastando pela Terra, pelo Oriente Médio, fazendo com que as criaturas se aprisionassem às próprias dívidas, até que a Luz do Cristo iluminasse a Terra com a as suas leis de amor, tão relegadas pelos homens. Relembrou que o profeta Isaías já falava daquele Mestre que haveria de vir, do Messias aguardado pela Terra.

Mas de que forma ele viria? Não se entendia a própria mensagem conduzida pelos livros judaicos. E Jesus cumpriu a sua missão.

De repente formou-se à nossa frente um grande quadro. Retornando ao passado, vimos Jesus ao centro da mesa, ladeado de doze criaturas. E o Mestre dizia:

— Vós acalentareis as doze tribos de Israel. E perguntou Pedro:

— Não teremos então um traidor?

— Simão Pedro, todos vós sereis testados, todos vós tendes uma determinada missão a cumprir, e todos vós estareis comigo — isto vos posso afirmar. Porque todos vós sois meus escolhidos.
Ficamos maravilhados com aquela cena posta à nossa frente, provocada por aquele espírito que insistia em nos retornar àqueles tempos do Cristo.

Passei a imaginar, confuso: mas e Judas Iscariotes? Ele é um traidor, ele entregou Jesus...
O quadro bíblico se desvaneceu e aquele homem disse:

— Lembrai-vos do que está escrito na Bíblia? Isaías não falava de um Messias? Jesus não falava de um Espírito Consolador? E não afirmava que os doze apóstolos assumiriam as doze tribos de Israel? Quem estaria então errado: Jesus, os seus Evangelhos, os seus discípulos? Ora, se há um traidor, haveríamos de executá-lo? Não! Cada homem vem à Terra com uma determinada missão. Se não Judas, talvez pudesse ter sido Pedro ou qualquer outro deles. Mas haveria de ser um daqueles amados apóstolos. E feliz ou infelizmente — como queirais entender — foi Judas. Ele fez o que vós acompanhais pela Escritura. O seu maior erro foi o suicídio. E vemos os demais discípulos também crucificados, vemos Simão Pedro também abatido em nome de Jesus, todos padecendo pelas forças contrárias à implantação do nome e da doutrina de Jesus na Terra. E se eram doze, obviamente que Judas também haveria de estar ao lado do Mestre. A bondade da Providência colocou Judas na Terra para auxiliar os homens. E a mensagem de Jesus se implantava... E o retorno do Mestre Consolador era aguardado... A França fora a escolhida. Quase fora derrotada pela força do Vaticano, colocando homens contra homens, e a Inglaterra se serviu daquele poder marchando contra a França. E se esta se tornasse um império comandado pela força inglesa e religiosa? Tudo teria sido em vão! E a bondade divina, sabedora de que nela nasceria Kardec e o Espiritismo, enviou-lhe, bem antes, esse espírito benfeitor chamado Judas, mostrando ao mundo inteiro o poder da força mediúnica na figura de uma mulher. Debateu com todas as facções contrárias, enfrentou o alto poderio católico e, condenada pelos efeitos da própria mediunidade, já mostrava o nascimento do próprio Espiritismo na França. Uma mulher guerreira diretamente ligada ao Mundo Espiritual, recebendo as mensagens certas para amparar o seu exército, se fez vencedora sob o dom da humildade. Viu seu corpo jogado a uma fogueira, ao mostrar que Deus é único, indivisível. E assim a Terra recebia a primeira criatura a difundir a Doutrina Espírita. Porque depois daquele episódio da história francesa surgiriam cultos e cultos alavancados pelos soldados que secundaram Joana D'Arc. Perseguidos por seu próprio povo, foram deixando a Europa, infiltrando-se no Brasil e noutras partes, disseminando os ideais espiritistas por diversos focos esparsos pelo planeta. Depois chegou Kardec para codificar a Doutrina dos Espíritos, quando então, a mando de Jesus, aquela mesma heroína se assimilou a esse novo esforço, na qualidade do Espírito da Verdade, mostrando ao mundo as leis de amor. Tanto quanto os demais discípulos, também esse veio determinado a cuidar da décima segunda tribo de Israel. Espíritos reencarnados no Oriente Médio haviam chegado reencarnatoriamente à França para perseguir o último discípulo de Jesus a passar pelo martírio — e ele teve a fé e a coragem, não estremeceu perante a persecução e a fogueira. Agradecido pela oportunidade de se redimir nas chamas , foi resgatado mais uma vez pelas mãos de Jesus e levado à companhia dos demais discípulos. E recorde-se as palavras do Mestre ao dizer: Ó Pai, santifica-me na Terra como eu te santifiquei! Permite que, para onde vou, possa também levar esses que me confiaste! Então lá está Jesus, no mais alto escalão evolutivo da Terra, com os seus braços abertos a toda a humanidade, governando este imenso planeta, assessorado pelos seus discípulos. E Kardec reviveu a codificação do amor, mostrando os legítimos caminhos dos nossos ideais!

Aquele respeitável homem nos beijou a cada um de nós e saiu andando pela cidade. De imediato seguimos à nossa colônia.

E há tanto mistérios sobre os Céus e a Terra, que o homem às vezes não compreende, já porque não é mesmo fácil entender, ver ou sentir!

Permaneci na faina de preparar os irmãos para o reencarne. Encaminhei um a um aos respectivos setores reencarnatórios, almejando-lhes êxito e felicidade. Acompanhava-os nos locais em que assumiam a sua reencarnação, vendo-os cada qual com sua parte na missão de fazer crescer o Espiritismo. Eram médiuns aptos a fazer progredir essa ideologia naqueles locais em que seu espírito aportava.

Fiquei feliz com aquele trabalho, e de repente novas criaturas eram encaminhadas à nossa colônia. Esta crescia, crescia, recebendo a visita de irmãos de várias plagas.

Por volta de 1935 foi preparada a minha própria reencarnação. Vivi muito pouco na Terra, tentando realizar algo de bom, dentro do que me foi possível, tomado por uma enfermidade que me tolhia os movimentos. Sentia-me muito feliz por abraçar o Espiritismo e amparar os necessitados na querida Minas Gerais.

Retornei à colônia, após o desencarne, sentindo-me agraciado com o auxílio do irmão Eurípedes.

No mundo vivemos para amar, para auxiliar os sofredores. O ideal da Doutrina Espírita não se imanta ao desejo de as criaturas se medirem forças mutuamente, através do fator mediúnico. Há de se assumir a mediunidade com simplicidade, pensando em ajudar os homens na transformação moral por que passa o nosso planeta.

Ser médium é entender a força de privilégio doada por Deus para que, nos caminhos da humildade, sigamos estendendo as mãos aos nossos irmãos, retirando dos corações a vaidade, mostrando aos homens o caminho correto a trilhar, reafirmando que as dificuldades é que nos vêm lapidar o espírito, extirpar as mágoas. Assim é que nos irmanamos às leis de amor e nos mostramos aptos a perdoar as criaturas.

Ser médium é abraçar amoravelmente os nossos irmãos.

Ser médium é entender o que é ser simples e humilde, é ter a brandura de se tornar pequeno para que cresçam os demais.

Ser médium é se rebaixar, tornar-se como que uma escada onde as criaturas possam pisar aos ombros para subir mais um degrau na escala evolutiva.

Ser médium é agraciar-se da grandeza que nos inspiram as leis da verdade, é acatar os bons sentimentos da alma, é atender a todo momento uma criatura necessitada.

Ser médium é ajudar o progresso, a fim de que essa Doutrina maravilhosa se torne vista e entendida por todas as religiões, mas jamais erguendo a espada do debate, e sim a mão do apoio moral, para que a grande revelação espiritual ascenda ao seu mais alto patamar, exalçando na simplicidade a grandeza maior do dom mediúnico, para que a luz se tome forte. Porque o que deve ser destacado é a Doutrina dos Espíritos, e não a figura humana do médium. Este é apenas o apoio para que essa beleza ideológica resplandeça em todos os corações, para que o eco de chamado à evolução possa zumbir nos ouvidos mais distantes.

Que a figura do médium seja apenas o incentivo a que as criaturas trilhem o caminho da verdade!

Ser médium é assumir com franqueza o dom da beleza com que a Espiritualidade nos brinda para elevar a alma ao entendimento dessa doutrina maravilhosa pela qual lutamos sem cessar. E que todo médium contribua para que toda religião participe dessa essência de princípio que é a evolução da alma!

O desejo íntimo do espírito é o progresso. E a Doutrina dos Espíritos nos mostra isso sob vários ângulos e parâmetros. E é chegado o momento para que todas as religiões se assimilem a essa mesma luz!

Tudo isso está nas mãos dos médiuns, embora às vezes se torne muito difícil assumir, porque a vaidade ainda muito abate aqueles que ainda não entenderam que são os mensageiros de Jesus, encarregados de mostrar a Doutrina dos Espíritos na sua mais profunda essência, para que entre os Céus e a Terra essa luz pura do Mestre ilumine os homens. Porque entre os Céus e a Terra permanece Jesus administrando todo este planeta com o seu imenso amor!

Jerônimo