VENTURA DA PRECE

VENTURA DA PRECE - SANTO AGOSTINHO Paris, 1861


23. Vinde, todos vós que desejais crer: acorrem os Espíritos celestes e vêm anunciar-vos grandes coisas! Deus, meus filhos, abre os seus tesouros, para vos distribuir os seus benefícios. Homens incrédulos! Se soubésseis como a fé beneficia o coração e leva a alma ao arrependimento e à prece! A prece! Ah! como são tocantes as palavras que se desprendem dos lábios na hora da prece! Porque a prece é o orvalho divino, que suaviza o excessivo calor das paixões.

Filha predileta da fé, leva-nos ao caminho que conduz a Deus. No recolhimento e na solidão, encontrai-vos com Deus; e para vós o mistério se desfaz, porque Ele se revela. Apóstolo do pensamento, a verdadeira vida se abre para vós! Vossa alma se liberta da matéria e se lança pelos mundos infinitos e etéreos, que a pobre Humanidade desconhece.


Marchai, marchai, pelos caminhos da prece, e ouvireis a voz dos Anjos! Que harmonia! Não são mais os ruídos confusos e as vozes gritantes da terra: são as liras dos Arcanjos, as vozes doces e meigas, quando brincam nas ramagens dos vossos arvoredos. Com que alegria então marchais! Vossa linguagem terrena não poderá exprimir jamais essa ventura, que vos impregna por todos os poros, tão viva e refrescante é a fonte em que bebeis através da prece! Doces vozes, inebriantes perfumes, que a alma ouve e aspira, quando se lança, pela prece, a essas esferas desconhecidas e habitadas!

São divinas todas as aspirações, quando livres dos desejos carnais. Vós também, como o Cristo, orai, carregando a vossa cruz para o Gólgota, para o vosso Calvário. Levai-a e sentireis as doces emoções que lhe passavam pela alma, embora carregasse o madeiro infamante. Sim, porque Ele ia morrer, mas para viver a vida celestial, na morada do Pai!

l. Os Espíritos sempre disseram: "A forma não é nada, o a pensamento é tudo. Faça cada qual a sua prece de acordo com as suas convicções, e da maneira que mais lhe agrade, pois um bom pensamento vale mais do que numerosas palavras que não tocam o coração." Os Espíritos não prescrevem nenhuma fórmula absoluta de preces, e, quando nos dão alguma, é para orientar as nossas ideias, e, sobretudo, para chamar a nossa atenção sobre certos princípios da Doutrina Espírita.

Ou ainda com o fim de ajudar as pessoas que sentem dificuldades em exprimir suas idéias, pois estas não consideram haver realmente orado, se não formularam bem os seus pensamentos. O Espiritismo reconhece como boas as preces de todos os cultos, desde que sejam ditas de coração, e não apenas com os lábios. Não impõe, nem condena nenhuma. Deus é sumamente grande, segundo o Espiritismo, para repelir a voz que implora ou que lhe canta louvores, somente por não o fazer desta ou daquela maneira. Quem quer que condene as preces que não constem do seu formulário, demonstra desconhecer a grandeza de Deus. Acreditar que Deus se apegue a determinada fórmula, é atribuir-lhe a pequenez e as paixões humanas.


Uma das condições essenciais da prece, segundo São Paulo é a de ser inteligível, para que possa tocar o nosso espírito. Para isso, entretanto, não basta que ela seja proferida na língua habitual, pois há preces que, embora em termos populares, não dizem mais à nossa inteligência do que as de uma língua estranha, e por isso mesmo não nos tocam o coração. As poucas idéias que encerram são em geral sufocadas pela superabundância das palavras e pelo misticismo da linguagem.


A principal qualidade da prece é a clareza. Ela deve ser simples e concisa, sem fraseologia inútil ou excesso de adjetivação, que não passam de meros ouropéis. Cada palavra deve ter o seu valor, exprimir uma idéia, tocar uma fibra d'alma. Enfim: deve levar à reflexão. E somente assim pode atingir o seu objetivo, pois, de outro modo não passa de palavrório. Vemos, entretanto, com que distração e volubilidade elas são proferidas, na maioria das vezes. Percebemos que os lábios, se agitam, mas, pela expressão fisionômica e pela própria voz, notamos que é um ato maquinal, puramente exterior, de que a alma não participa.

ESE, cap.XXVIII