PARÁBOLA DA FIGUEIRA ESTÉRIL

 

 

"Pela manhã, ao voltar Jesus à cidade, teve fome. E vendo uma figueira à beira do caminho, dela se aproximou, e não achou nela senão folhas; e disse-lhe: Nunca jamais nasça de ti frutos, no mesmo instante secou a figueira. E vendo isto, os seus discípulos maravilharam-se e perguntaram: Como é que repentinamente secou a figueira? Respondeu-lhes Jesus: Em verdade vos digo que se tiverdes fé e não duvidardes, fareis não só o que foi feito a figueira, mas até se disserdes a este monte: Levanta-te e lança-te ao mar, isto será feito e tudo o que, com fé, pedirdes em vossos corações, haveis de receber".

(Mateus, XXI 18-22 - Lucas, XIII, 6-9)

1 - CAIRBAR SCHUTEL

Magnífica parábola! Estupendo ensinamento! Quantas lições aprendemos nestes poucos versículos do Evangelho! Se encararmos a narrativa pelo lado científico, observaremos a morte de uma árvore em virtude de uma grande descarga de fluidos magnéticos, que imediatamente secaram a mesma. A Psicologia Moderna, com suas teorias edificantes e substanciosas, e com seus fatos positivos, mostra-nos o poder do magnetismo, que utiliza os fluidos do Universo para destruir, conservar e vivificar.

A cura das moléstias abandonadas pela Ciência oficial é a mumificação de cadáveres pelo magnetismo, já se acham registrados nos anais da História, não deixando mais dúvida a esse respeito. No caso da figueira não se trata de uma conservação, mas ao contrário, de uma destruição, semelhante à destruição das células prejudiciais e causadoras de enfermidades, como na cura dos dez leprosos, e outras narradas pelos Evangelhos.

A figueira não dava furto porque sua organização celular era insuficiente ou deficiente, e Jesus, conhecendo esse mal, quis dar uma lição aos seus discípulos, não só para lhes ensinar a terem fé, mas também para lhes fazer ver que os homens e as instituições infrutíferas, como aquela árvore sofreriam as mesmas consequências. Pelo lado filosófico, realça da parábola a necessidade indispensável da prática das boas obras, não só pelas instituições, como pelos homens.

Um indivíduo, por mais bem vestido e mais rico que seja, encaramujado no seu egoísmo, é semelhante a uma figueira, da qual, em nos aproximando, não vemos mais que folhas. Uma instituição, ou uma associação religiosa, onde se faça questão de estatuto, de cultos, de dogmas, de mistérios, de ritos, de exterioridades, mas que não pratique a caridade, não exerce a misericórdia; não dá comida aos famintos, roupa aos nus, agasalho e trato aos doentes; não promove a propaganda do amor ao próximo, da necessidade do erguimento da moral, do estabelecimento da verdadeira fé, esta instituição ou associação, embora tenha nome de religiosa, embora se diga a única religião fora da qual não há salvação (como acontece com o Catolicismo de Roma), não passa de uma "figueira enfolhada, mas, sem frutos".

O que precisamos da árvore são os frutos. O que precisamos da religião são as boas obras. Os dogmas só servem pra obscurecer a inteligência; os sacramentos, para falsear os ensino do Cristo; as festas, passeatas, procissões, imagens, etc.. para consumir dinheiro em coisas vãs e iludir o povo com um culto que foi condenado pelos profetas dos tempos antigos, no Velho Testamento, e por Jesus Cristo, no Novo Testamento. A religião do Cristo não é a religião das "folhas" mas sim, a dos frutos!

A religião do Cristo não consiste nesse ritual usado pelas religiões humanas. A religião que o Cristo preconizou, não foi, portanto, a fé em dogmas católicos ou protestantes, mas, sim, a fé na vida eterna, a fé na existência de Deus, a fé, isto é, a convicção da necessidade da prática da caridade! Aquele que tiver essa fé, aquele que souber adquiri-la, tudo o que pedir em suas orações, sem dúvida receberá, porque limitará seus pedidos àquilo que lhe for de utilidade espiritual, assim como se tornará apto a secar figueiras, dessa figueiras que perambulam nas ruas seguidas de meia dúzia de bajuladores; dessa figueiras, como as religiões sem caridade, que iludem incautos com promessas ilusórias, e com afirmações temerosas sobre os destinos das almas. A figueira sem frutos é uma praga no reino vegetal, assim como os egoístas e avarentos são pragas na Humanidade, e as religiões humanas são pragas prejudicialíssimas à seara do Senhor. Não dão frutos; só contêm folhas.

Estudada pelo lado científico, a parábola é um portento, porque, de fato, Jesus, com uma palavra, fez secar a figueira. Nenhum sábio da Terra é capaz de imitar o Mestre! Encarada pelo lado filosófico, a lição da figueira que secou é um aviso do que vai acontecer aos homens semelhantes à figueia sem frutos; e às religiões que igualmente só têm folhas! Nesta parábola aprende-se ainda que a esterilidade, parece, é mal inevitável! Em todas as manifestações da Natureza, aqui e ali, se vê a esterilidade como que desnaturando a criação ou transviando a obra de Deus! Nas plantas, nos animais, nos humanos, a esterilidade é a nota dissonante, que estorva a harmonia universal.

Na Ciência, na Religião, na Filosofia, até na Arte a na Mecânica, o ferrete da esterilidade não deixa de gravar o seu sinal infamante! Acontece, porém, que chegado o tempo propício, a obra estéril desaparece para não ocupar inutilmente o campo de ação onde se implantou. A figueira estéril da parábola é a exemplificação de todas essas manifestações anômalas que se desdobram às nossas vistas. Para não sair do tema em que devemos permanecer e constitui o objeto deste livro, vamos comparar a figueira estéril com as ciências humanas e as religiões sacerdotais.

À primeira vista, não parece ao leitor que a parábola se adapta perfeitamente a estas manifestações do pensamento absoluto e autoritário? Vemos uma árvore, reconhecemos nessa árvore uma figueira; está bem entroncada, bem enfolhada, bem adubada, vamos procurar figos e nem uma fruta encontramos! Vemos uma segunda "árvore", que deve ser a da vida reconhecemos nela uma religião que já permanece há muitos anos e vem sendo transmitida de geração a geração; procuramos nela verdades que iluminem, consolos que fortifiquem, ensinos que instruam, fatos que demonstrem, e nada disso achamos, a despeito da grande quantidade de adubo que lançam em redor dessa mesma "árvore".

O que falta ao Catolicismo Romano para assim se encontrar desprovido de frutos? Falta-lhe porventura igrejas, fiéis, dinheiro, livros, sabedoria? Pois não tem eles seus sacerdotes no mundo todo, suas catedrais pomposas, seus templos? Não tem ele com o seu papa a maior fortuna que há no mundo, completamente estéril, quando deveria converter esse tesouro, que os ladrões alcançam, naquele outro tesouro do Evangelho, inatingível aos ladravazes e aos vermes? Não tem ele milhões e milhões de adeptos que sustentam toda a sua hierarquia?

Por que não pode a Igreja dar frutos demonstrativos do verdadeiro amor, que é imortal? Por que não pode demonstrar a imortalidade da alma, que é a melhor caridade que se pode praticar? E o que diremos dos seus ensinos arcaicos e irrisórios, semelhantes às folhas enferrujadas de uma figueira velha? Do seu dogma do Inferno eterno; do seu artigo de fé sobre a existência do diabo; dos seus sacramentos e mistérios tão caducos e absurdos, que chegam a fazer de Deus um ente inconcebível e duvidoso?

E assim como é a religião, é a ciência de homens, desses mesmos homens que, embora completamente divergentes dos ensinos religiosos dos padres, por preconceito e por servilismo andam com eles de braços dados, como se cressem na "fé" pregada pelos sacerdotes! Essa ciência terrena que todos os dias afirma e todos os dias se desmente! Essa ciência que ontem negou o movimento da Terra e hoje o afirma; que preconizou a sangria para depois condená-la; que proclamou as virtudes do emético para anos depois execrá-lo como um deprimente; que hoje, de seringa em punho, transformou o homem num laboratório químico, para amanhã ou depois, condenar como desumano esse processo!

E o que falta à Ciência para solucionar esse problema da morte, que lhe parece como fantasma funesto? Faltar-lhe-á "adubo"? Mas não estão aí tantos sábios? Não tem ela recursos disponíveis para investigação e experiência? Não lhe aparecem a todos os momentos fatos e mais fatos de ordem supra-materiais, meta-materiais para serem estudados com método? Senhor! Está vencido o ano que concedestes pra que cavássemos em roda da "árvore" e deitássemos adubo para alimentar e fortificar suas raízes! Ela não dá mesmo frutos e os adubos que temos gasto só tem servido para tornar a árvore cada vez mais frondosa e enfolhada, prejudicando assim o já pequeno espaço de terreno! Manda cortá-la e recomenda a teus servos que não só o façam, mas que também lhe arranquem as raízes! Ela ocupa terreno inutilmente.

Em três dias faremos nasceu em seu lugar uma que preencha os seus fins, e tantos serão seus frutos que a multidão que nos rodeia não vencerá apanhá-los! A esterilidade é mal incurável, que se manifesta nas coisas físicas e metafísicas. Há pessoas que são estéreis em sentimentos afetivos, outras em atos de generosidade, outras o são para as coisas que afetam a inteligência. Por mais que se ensinem, por mais que se exaltem, por mais que se ilustrem, as mesmas permanecem como figueira da parábola: não há esterco, não há adubos, não há orvalho, não há água que se façam frutificar! Estas, só o fogo tem poder sobre elas!

CAIRBAR SCHUTEL

2 - PAULO ALVES GODOY

"Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha, e foi buscar fruto nela, mas não o achou.
Disse então ao que cultivava a vinha:
- Olha, faz já três anos que venho buscar fruto a esta figueira e não o acho; corta-a, pois, pelo pé; para quem está ela ainda ocupando a terra?
Mas o outro, respondendo, lhe disse:
-Senhor, deixa-a ainda este ano, enquanto eu a escavo em roda, e lhe lanço esterco; se com isto der fruto, bem está, e se não, virás a cortá-la depois." (Lucas, 13:6-9)

Eis um dos numerosos ensinamentos de Jesus, que deixaria de ter sua razão de ser, se examinado à luz da unicidade da existência física. Como seria possível enquadrar a majestosidade da Parábola da Figueira Estéril, na estreiteza do dogma da existência única do Espírito na carne?

Qualquer análise, mesmo superficial da parábola em tela, leva à conclusão de que o objetivo do Mestre, ao ensiná-la, foi de dar prova patente da multiplicidade das existências físicas do Espírito.

Em Sua infinita misericórdia e amor, Deus propicia a todas as almas a possibilidade de se reencamarem sucessivamente, no propósito de assegurar-lhes a evolução através dos embates inerentes à vida corporal. Não foi outra a idéia do Cristo, quando asseverou a Nicodemos a imperiosidade do renascimento da água e do Espírito, equivalente à reencarnação do próprio Espírito no corpo material.

Na parábola acima, o Nazareno ensinou que o Pai enseja a reencarnação, porém, exige a devida contra-prestação representada na retribuição, através das boas obras: os frutos bons da ação desenvolvida no plano terreno. Ao Espírito não é dado permanecer, obstinadamente, na improdutividade ou na prática das más ações, sem que venha a sofrer o impacto da aplicação da lei eterna e imutável, que rege os destinos de todas as criaturas humanas, traduzido em expiação e resgate.

A parábola em foco, interpretada em seu verdadeiro sentido, contém em suas entrelinhas uma ocorrência vedica e comum de reencamação.

Um Espírito obtém do Alto a graça da reencarnação neste ou em outro planeta, entretanto, decide-se a levar vida inútil e prejudicial a si e ao próximo.

A morte física arrebata-o e a vida no além-túmulo dá-lhe a devida corrigenda, todavia, ao reintegrar-se novamente no convívio dos encarnados, continua o mesmo gênero de vida desregrada e improdutiva.

O episódio da morte se repete com seu inenarrável cortejo de sofrimento no plano espiritual, porém, Deus misericordioso e bom dá-lhe outras oportunidades de reintegração no mundo corpóreo.

Ainda, mais uma vez, não houve a esperada produtividade e evolução, e a lei torna a exigir o devido ajuste. O Mestre, na parábola representado pelo vinhateiro, roga ao Senhor dos Mundos para que nova oportunidade seja dada ao Espírito recalcitrante, cercada de outros carinhos e em outro ambiente (com a terra escavada e adubada), esperando, paciente, que, desta vez, surjam os esperados frutos.

A atitude que vier a ser tomada pelo Espírito reencarnado é que irá resolver a situação. Se ele continuará a reencarnar (a ocupar o lugar na Terra), ou se cederá o lugar a outro e ser punido, por longo período, pelos sofrimentos indescritíveis de um umbral terrificante, onde há "choro e ranger de dentes", até que se decida, um dia, a merecer a dádiva generosa de poder, novamente, se reintegrar no mundo e submeter-se a nova série de experiências soerguedoras.

Os livros espíritas nos dão esclarecimento de Espíritos que passam séculos e séculos no adormecimento ou entorpecimento. São estes, os Espíritos que estão resgatando, no tempo e no espaço, a falta oriunda da nulidade que representaram na Terra, e do mau uso que fizeram das oportunidades que o Pai lhes concedeu.

O Pai não quer a morte do ímpio, mas quer que se redima e viva, consoante o que nos ensinou o profeta; entretanto o Espirito que malbarata os talentos e os dons preciosos que o Alto lhe concede, passará por longos períodos expiatórios nos planos inferiores da espiritualidade, deixando de ocupar a Terra inutilmente, e cedendo o lugar a seres mais predispostos ao trabalho e à produtividade. Certamente ele não se perderá, mas longos séculos decorrerão antes que venha a obter a graça de novas oportunidades de reintegração no ambiente físico.

Deus, em Sua infinita misericórdia, concede sempre novas oportunidades a Seus filhos, quando estes fracassam nas tarefas que lhes são confiadas.

A Parábola da Figueira Estéril é bastante decisiva. Nela vemos o empenho do lavrador em conseguir do Senhor da Seara que nova oportunidade fosse dada à figueira. No caso em apreço: um trato todo especial e com redobrado carinho, pois assim, talvez, ela viesse a produzir os frutos esperados.

O Mestre comparou a figueira ao homem, entretanto, devemos convir que, muitos homens não conseguiram produzir boas obras, devido ao fato de terem sido conspurcados os mananciais dos ensinamentos revelados por Jesus Cristo. A mensagem viva que Ele nos legou, e que deve servir de roteiro para todas as criaturas, sofreu o impacto dos interesses mundanos e o seu esplendor foi ofuscado, temporariamente, pelos preceitos e por princípios doutrinários de natureza humana.

As religiões passaram a acenar aos homens com mensagens dúbias; adornaram seus templos com pompas e riquezas; fizeram com que as tradições inócuas se constituísssem no ponto alto de suas cogitações; fomentaram lutas sangrentas e fratricidas por causas de dogmas petrificados; apresentaram um Deus com os mesmos atributos que eram conferidos ao Jeová, dos idos de Moisés; enfim, "ataram pesados fardos nos ombros dos seus prosélitos, mas nem com os dedos ousaram tocá-los", segundo o dizer judicioso de Jesus.

Esse estado de coisas, agravado com o fato de se punir com a morte todo aquele que entrasse em comuunicação com o mundo espiritual, fez com que os homens tivessem um falso conceito da Misericórdia Divina, passando a ver no Pai de amor e de justiça, que Jesus nos apresentou, um deus despótico, irascível, o deus de Torquemada, de Loyola, das cruzadas, da noite de S. Bartolomeu.

A fé foi abalada, as convicções foram solapadas e os sentimentos de amor e de fraternidade se esfriaram. Os homens foram privados daquele manancial de água-viva que constituiu a cogitação primária de Jesus, e, como decorrência, arrefeceram-se os esforços em favor da reforma íntima e muitos se escudaram num sistema através do qual se delegam a terceiros os problemas intransferiveis da chamada salvação. O acesso ou não ao reino dos Céus passou a ser uma questão de servir ou não servir a determinada igreja.

Os homens, que na parábola são comparados à figueira, deixaram de produzir as obras esperadas. Cresceram, agigantaram-se na conquista das posses terrenas e esqueceram-se do "Amai-vos uns aos outros". Passaram a adorar um deus de feição profundamente humana, deixando de lado o Deus misericordioso, piedoso e perfeito que nos foi legado por Jesus Cristo. A figueira tomou-se improdutiva. O Senhor da Seara, através da aplicação das suas leis sábias e eternas, aceitou a solicitação do Meigo Agricultor, de permitir que a figueira fosse beneficiada com novos recursos, estercando-a e revolvendo-se a terra, onde estava plantada. Através do Espiritismo foram revelados novos mananciais de ensinamentos, susceptíveis de se operar uma reforma, uma transmutação no Espírito do homem, que, assim, jamais poderá alegar falta de desvelo, de carinho, de dedicação.

O Meigo Rabi da Galiléia está restaurando na Terra as primícias da sua Doutrina, "derramando do Seu espírito sobre toda a carne", conforme vaticinou o profeta Joel.

As "figueiras" estão sendo "adubadas" com novos recursos, o que equivale a dizer que os homens estão sendo aquinhoados com novos ensinamentos. Novas luzes estão se descortinando nos horizontes do mundo.

Deste modo, ninguém poderá alegar ignorância, já que a luz agora é difusa. As mensagens não são mais bitoladas, circunscritas, censuradas. Elas surgem de modo amplo, irrestrito, ilimitado, em todos os lares, em todas as cidades, em todas as nações.

As vozes do Céu penetram pelos telhados, avassalam os corações, empolgam as almas.

Quando a Jerusalém dos desencantos, das maldades e da incompreensão for totalmente eclipsada, baixará dos Céus a Nova Jerusalém, de Amor, de Paz, de Luz, e, então, cumprir-se-á o vaticínio do Mestre, e a Humanidade poderá exclamar jubilosa: "Bendito Aquele que veio em nome do Senhor." (Mateus, 23-39)

Paulo Alves Godoy

3 - RODOLFO CALLIGARIS

Esta parábola encerra mais uma das extraordinárias alegorias com que o Mestre retrata a situação moral da Humanidade terrena e, ao mesmo tempo, adverte-a sobre a sorte que a aguarda, caso não tome melhores rumos.

Há muitos e muitos séculos o Senhor da fazenda, que é Deus, vem esperando pacientemente que esta nossa infeliz Humanidade, simbolizada pela figueira, produza bons frutos, ou seja, alcance a maturidade espiritual, implantando na Terra o reinado do Amor, da Justica e da lídima Fraternidade.

Jesus, representado na parábola pelo abnegado e diligente vinhateiro, tem-na agraciado com sucessivas revelações, cada qual mais perfeita, visando a despertar-lhe a consciência, fazê-la compreender os seus deveres para com Deus, para consigo mesma e para com o próximo; lamentàvelmente, porém, ela não os tem levado a sério, continua presa às suas ilusões e fantasias, persiste em viver apenas para si, para a satisfação de seus gozos turvos, nada realizando no campo do Altruísmo.

Como derradeira ajuda no sentido de salvá-la da esterilidade a que se abandonou, Jesus houve por bem enviar-lhe o Espiritismo, para mostrar ao vivo, com o testemunho das próprias almas trespassadas, a felicidade reservada aos bons, aos que procuram ser úteis, aos que obram com misericórdia, aos justos, aos humildes, aos pacíficos e pacificadores, aos limpos de coração, aos que se consagram ao bem-estar da coletividade, e, por outro lado, os sofrimentos por que passam os infrutuosos, os vingativos, os avarentos, os depravados, os orgulhosos, os opressores, os déspotas, os fazedores de guerras, os que se dão, por interesses vis, a toda a sorte de especulações, levando as massas populares à aflição e ao desespero.

Se com isto os homens se regenerarem e aprenderem a viver em paz, vinculados pelo amor, dando cada um a contribuição de seu melhor esforço para uma nova civilização, em que desapareçam as conquistas, as sujeições de um povo a outro povo, os privilégios, os desníveis sociais, etc., bem está; caso contrário, todos quantos se mostrem recalcitrantes, insensíveis ou indiferentes a esse despertamento espiritual, serão transferidos para outros planos inferiores, a fim de que não continuem ocupando lugar neste planeta, do qual se terão tornado indignos, eis que, no correr do terceiro milênio, a Terra se irá transformando em um mundo regenerador, com melhores conndições físicas e morais, propiciando a seus futuros habitantes uma existência incomparàvelmente mais tranquila e mais feliz.

Precatem-se, portanto, os homens e as instituições humanas!

Os tempos são chegados, e o Senhor virá, em breve, buscar os frutos esperados.

Desta vez, se não os achar, o machado entrará em ação, pondo abaixo toda galharia infrutífera.

Rodolfo Calligaris

4 - A FIGUEIRA ESTÉRIL (2ª) - THEREZINHA DE OLIVEIRA

Esta parábola é narrada por Lucas (13:6/9) e diz:

Um homem tinha uma figueira plantada na sua vinha

Na Palestina, era comum plantarem-se outras árvores no vinhedo, para aproveitar bem o terreno, fazê-lo produzir ao máximo, por isso não se estranha que a figueira estivesse plantada numa vinha.

Efoi buscar fruto nela, mas não o achou.
E disse ao vinhateiro:
- Eis que há três anos venho procurar fruto nesta figueira, e não o acho;

A figueira estava bem situada, cuidados necessários não lhe faltariam. Então, por que não dava frutos e só lhe vinham galhos e folhas? Acaso sofreria de uma anomalia ou insuficiência na sua organização celular? Isso já durava três anos!
Então, o dono disse ao viticultor:

...corta-a, para que está ela ocupando a terra inutilmente?

A ordem tem sua razão de ser: o solo precisava ser bem aproveitado; não produzindo, a figueira o tornava Inútil.

E, respondendo ele, disse-lhe:
- Senhor, deixa-a por mais este ano até que eu cave. em roda e lhe deite adubo.

Apenas deixar por deixar? Nada mudaria... Mas o viticultor se propunha a prestar cuidados especiais.

...e se der fruto, bem está; mas, se não, cortá-la-ás.

Dizem alguns exegetas que esta parábola, na época em que foi pronunciada, se aplicava aos judeus, sendo Deus o senhor da vinha e Jesus, o viticultor. E que Jesus teria solicitado a Deus o adiamento do "corte" da nação judaica, enquanto descia à Terra para ajudá-los. Era o que estava tentando fazer há três anos!... Mesmo assim não estavam dando frutos. Por isso, a nação judaica viria a ser "cortada", perderia sua oportunidade de liderança espiritual no campo do mundo.

Aplicando a parábola à nossa atualidade

Entretanto, que significado poderíamos tirar, hoje e para nós, deste ensino de Jesus?

Os humanos, somos seres espirituais, imortais. Pela reencarnação, Deus nos "plantou na Terra" e aqui estamos ocupando o seu solo e utilizando os seus recursos, tendo a obrigação de dar frutos.

De que tipo? Curiosamente, a figueira não produz frutos mas flores inclusas. Uma "floração interna"! É símbolo muito apropriado para o desenvolvimento e aperfeiçoamento interior nos seres humanos, o desabrochar de todas as suas possibilidades intelectuais, de todos os seus atributos e faculdades espirituais, a serem evidenciados pelas virtudes e boas obras.

Esse é o fruto que o ser humano deve apresentar e, para produzi-lo, é que estamos encarnados na Terra. Ninguém deve viver de modo inútil, cada um de nós é Célula viva e valiosa do grande organismo chamado humanidade e deve nele desempenhar bem a sua função. Todos usam o solo do planeta, todos consomem os seus recursos, e todos têm a obrigação de produzir adequadamente, segundo as suas possibilidades.

Há séculos Deus espera pacientemente pelo desenvolvimento intelecto-moral da humanidade, pelo progresso de cada um de nós.

Em várias épocas e lugares, enviou viticultores espirituais, missionários capazes e amorosos, para ajudar que a humanidade alcance maturidade e saiba implantar na Terra o reino de Deus, pela justiça, fraternidade e espiritualização de todos. O maior de todos esses mensageiros divinos foi Jesus.

Agora, Deus nos envia o Espiritismo, para nos mostrar, evidenciar, através da assistência dos bons Espíritos e com o testemunho dos próprios "mortos", as consequências felizes ou infelizes que nos esperam no Além, conforme nos fizermos "figueiras produtivas" ou não.

Se, mesmo após tanta ajuda espiritual, ficarmos indiferentes ou recalcitrantes à obrigação de "dar fruto", que é de se prever? Que venhamos a ser "cortados" do planeta Terra, indo reencarnar em mundos inferiores e lá sermos submetidos a processos mais enérgicos de desenvolvimento intelecto-moral.

Como a figueira da parábola está plantada na "vinha do Senhor", enderecemos o ensino mais especialmente aos que já estão em trabalho na seara espiritual: os religiosos, de modo geral.

Há muito estamos reencarnando neste planeta. Nesta encarnação, mesma, já estamos aqui há bastantes anos... Estaremos produzindo o bem que podemos e devemos oferecer à humanidade? Ou será que, pela justiça divina, já deveríamos estar "cortados" da vida neste planeta, por improdutivos?

Quer sejamos líderes religiosos ou não, certamente, nossos guias e protetores têm rogado a Deus que nos dê um pouco mais de tempo, porque querem se empenhar junto a nós, procurando modificar nossa difícil situação.

Quanto eles vêm se empenhando nisso! "Cavam a terra ao nosso redor", revolvendo, modificando, as situações de nossa vida, para que "despertemos" e prestemos mais atenção ao que está acontecendo; adubam-nos, com oportunidades renovadas de ensino, exemplos e estímulos ao bem. Tudo para que nos resolvamos a "dar fruto", para que comecemos a melhorar atitudes e sentimentos, e nos tornemos úteis, prestativos, fraternos.

Como estamos reagindo a tanto empenho e dedicação? Não sejamos "figueiras estéreis"! Aproveitemos o concurso do Espiritismo e dos bons Espíritos para conseguirmos produzir, em nós e no mundo, os frutos dos bons sentimentos e das boas ações, pois Jesus, nosso amado Mestre, "tem fome" deles!...

5 - AS LIÇÕES DA FIGUEIRA ESTERIL

A parábola da figueira estéril proporciona profundas reflexões em torno da questão da fé e da prática religiosa

De manhã, ao voltar para a cidade, teve fome. E vendo uma figueira à beira do caminho, foi até ela, mas nada encontrou, senão folhas. E disse à figueira: 'Nunca mais produzas fruto!' E a figueira secou no mesmo instante. Os discípulos, vendo isso, diziam, espantados: 'Como assim, a figueira secou de repente?' Jesus respondeu: Em verdade vos digo: se tiverdes fé, sem duvidar, fareis não só o que fiz com a figueira, mas até mesmo se disserdes a esta montanha: Ergue-te e lança--te ao mar', isso acontecerá. E tudo o que pedirdes com fé, em oração, vós o recebereis ". Mateus (21:18-22) A parábola da figueira estéril - sim, trata-se de uma parábola - proporciona profundas reflexões em torno da questão da fé e da prática religiosa.

Ela é citada nos evangelhos de Mateus (21:18-22) e Marcos (11:12-14 e 20-26). Mateus narra a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém (montado em um burrinho) e sua ida ao Templo como acontecimentos ocorridos no mesmo dia; o episódio da figueira teria acontecido no dia seguinte, de manhã, ao voltar para Jerusalém com os discípulos. Já Marcos coloca a entrada de Jesus em Jerusalém em um dia e, no dia seguinte, o episódio da figueira seguido da ida de Jesus ao Templo. Preferimos o de Mateus para não nos alongarmos em demasia. Mateus inicia o capítulo 21 citando: "Quando se aproximavam de Jerusalém... ".

Vista de longe, a cidade de Jerusalém impressionava. O templo do Rei Salomão se impunha aos judeus, como expressão máxima da fé judaica. Ali eram tratados todos os negócios judaicos, tanto as questões civis quanto as religiosas, o que incluía a venda de animais para os sacrifícios e o câmbio de moedas estrangeiras, pois nesses negócios só se aceitava a moeda do próprio Templo. Ele havia se tornado, além de um local para a prática da fé, também um local de interesses financeiros de tal porte, que os ricos ali deixavam guardados os seus tesouros, pois era o lugar mais seguro de toda Israel. O uso legalizado dessas práticas não evitou os abusos.

[...] a figueira seca é uma parábola, um símbolo empregado por Jesus para afirmar que, infelizmente, os judeus daqueles tempos apenas aparentavam a idéia de um povo fervoroso mas, na verdade, aquela fé não produzia nenhum fruto, nem espiritual, nem moral.

A visão da cidade se assemelha a uma árvore coberta de folhas, causando a impressão de grande agitação para a manutenção da vida religiosa. De fato, qualquer pessoa que se deslocasse a caminho de Jerusalém, vei aquele cenário imponente da Cida Sagrada e seu templo rico e majestoso. Mas eram apenas aparências.

Jesus sabia que por trás daqueles muros, os negócios materiais, com toda a gama de interesses mesquinhos que despertam, dominavam local destinado ao cultivo da fé ! Deus Único. Por esse motivo, descortinar tal paisagem, sabendo que a realidade era outra, Jesus lamentava a postura do povo judeu principalmente dos fariseus e dos sacerdotes, os quais passavam a impressão de serem pessoas irrepreensíveis e fervorosas.

Por este motivo, a figueira seca uma parábola, um símbolo empregado por Jesus para afirmar que, infelizmente, os judeus daqueles tempo apenas aparentavam a idéia de um povo fervoroso mas, na verdade aquela fé não produzia nenhum fruto, nem espiritual, nem moral.

Não se pode acreditar que Jesus amaldiçoasse qualquer ser vive pois isso seria uma contradição com aquele que representava amor em sua expressão mais sublime. Deve-se entender, portanto que a figueira foi um símbolo utilizado para representar o povo d' Israel, rebelde e orgulhoso aos ensinamentos que Jesus trazia.

Analisemos, com mais destaque, alguns trechos dessa passagem.

"De manhã..."

E de manhã que surgem os primeiros raios de Sol e a vida recomeça... É o que de fato Jesus, como Governador Espiritual da Terra, tem feito desde os primeiros momentos da formação do nosso planeta e dos primeiros seres vivos que aqui surgiram... Ele trabalha desde muito cedo, desde as primeiras eras da humanidade terrena... "... teve fome. "

É claro que Ele não sentiu fome de comida. O sentido de fome aqui é de um anseio: Jesus anseia ver a humanidade transformada, redimida e evangelizada. E não adianta apresentarmos a Ele as aparências de uma fé vaidosa e orgulhosa, uma fé sem obras, uma fé que não produz frutos... Para se obter bons frutos, é necessário cultivar uma fé operante e confiante!

"E vendo uma figueira à beira do caminho, foi até ela, mas nada encontrou, senão folhas".

A expressão "foi até ela " representa a presença de Jesus perante o povo judeu (Jesus veio até nós!), tão próximo da grande cidade (da humanidade!), observando e analisando a verdadeira condição espiritual de seus habitantes, mas eles (nós!), tão preocupados com as exterioridades do culto religioso, não se aperceberam da grandeza espiritual daquele divino visitante...

"E disse à figueira: 'Nunca mais produzas fruto'. "

O efeito da esterilidade é a ausência de frutificação.

Sob o ponto de vista material, : se uma árvore, embora coberta de folhas, não dá frutos, é porque alguma anomalia existe em seu metabolismo. Ela se nutre de todos os ingredientes do solo, do ar e da água, mas não os converte em frutos. Sob esse aspecto, a esterilidade seria uma anomalia, não apenas para uma árvore, mas para todo ser vivo.

Sob o ponto de vista moral e espiritual, representa todo aquele que, mesmo tendo abundância de recursos (materiais e espirituais, nos quais se inclui a fé religiosa), pode ser útil ao seu semelhante mas não o é, pois o orgulho, a vaidade e o egoísmo -verdadeiras "anomalias morais" - o inibem para tais realizações.

"E a figueira secou no mesmo instante. Os discípulos, vendo isso, diziam, espantados: 'Como assim, a figueira secou de repente? "

Setenta anos após a morte de Jesus, a cidade de Jerusalém foi arrasada pelo exército romano, sob o comando do General Tito (39-83 d.C). O Templo foi incendiado. Fatos verdadeiros que, de forma alegórica, mostram o destino de toda organização religiosa que não cumpre seu papel perante a humanidade. Chega sempre o momento em que seus propósitos mesquinhos secarão totalmente, deixando espantados todos aqueles que, de alguma forma, se beneficiavam de seus trâmites escusos. Nota-se, nesse trecho, o forte simbolismo: os que são estéreis (homens ou instituições), fatalmente secarão; ou então: secaram porque eram estéreis...

"Em verdade vos digo: se tiverdes fé, sem duvidar, fareis não só o que fiz com a figueira, mas até mesmo se disserdes a esta montanha: Ergue-te e lança-te ao mar', isso acontecerá. E tudo o que pedirdes com fé, em oração, vós o recebereis. "

Quanto à resposta de Jesus aos discípulos, ela parece sem sentido; no entanto, compreendendo o significado do símbolo da figueira seca, fica fácil entender. Os judeus daquela época não procediam conforme a fé que afirmavam possuir; era uma convicção religiosa sem obras úteis. Com essa resposta, Jesus destaca a diferença entre a fé superficial e a fé verdadeira, que cada um pode cultivar em seu coração, sem necessidade de externá-la de forma suntuosa, nos templos e sinagogas.

Aquele que possui a fé realmente verdadeira passa a vivenciá-la no auxílio incessante ao próximo, sobretudo; esse sim pode realizar obras extraordinárias, pois suas orações a Deus serão pautadas no bom-senso, naquilo que realmente é necessário.

Em sua extraordinária obra Parábolas e Ensinos de Jesus, Cairbar Schutel afirma com ênfase em seus comentários sobre esta parábola1:

"O que precisamos da árvore são os frutos. O que precisamos da religião são as boas obras. [...] A fé que o Cristo preconizou não foi, portanto, a fé em dogmas católicos ou protestantes, mas, sim, a fé na vida eterna, a fé na existência de Deus, a fé, isto é, a convicção da necessidade da prática da caridade!

"Aquele que tiver essa fé, aquele que souber adquiri-la, tudo o que pedir em suas orações, sem dúvida receberá, porque limitará seus pedidos àquilo que lhe for de utilidade espiritual, assim como se tornará apto a secar figueiras, dessas figueiras que perambulam nas ruas seguidas de meia dúzia de bajuladores; dessas figueiras, como as religiões sem caridade, que iludem incautos com promessas ilusórias e com afirmações temerosas sobre os destinos das almas."

Allan Kardec [...] analisando essa passagem, afirma que a figueira seca representa todo indivíduo ou toda instituição, incluindo as religiosas, que pode ser útil mas que não produz nada de bom [...].

Allan Kardec, em O Evangelho Segundo o Espiritismo (cap. XIX, item 9), analisando essa passagem, afirma que a figueira seca representa todo indivíduo ou toda instituição, incluindo as religiosas, que pode ser útil mas que não produz nada de bom; "que todos os sistemas, todas as doutrinas que não produziram nenhum bem para a humanidade, serão reduzidas a nada..." Ele inclui aqui os médiuns que não querem se comprometer com o exercício da mediunidade como forma de exercer a caridade aos que sofrem moral e espiritualmente: "se recusam-se a torná-la proveitosa para os outros; se nem mesmo para si tiram os proveitos da melhoria própria, então assemelham-se à figueira estéril. Deus, então, lhe retirará um dom que se tornou inútil entre as suas mãos..."

1. Schutel, Cairbar. Parábolas e ensinos de Jesus. Matão, SP, 26. ed., Casa Editora o Clarim, 2012. pg.62-68.

Considerando-se o contexto em que essa parábola foi apresentada, intercalada entre a entrada de Jesus em Jerusalém montado num jumento (imagem altamente simbólica na tradição hebraica), sua visita ao Templo e suas lições sobre a prática da oração, com base na verdadeira fé -a que produz bons frutos - compreende-se, enfim, o profundo alcance dessas advertências.

Maroísa F. Pellegrini Baio | maroisafpb@gmail.com