PARÁBOLA DA GRANDE CEIA

" Um homem deu uma grande ceia, e convidou a muitos; e à hora da ceia enviou o ser servo para dizer aos convidados: Vinde, porque tudo já está preparado. Começaram todos à uma a escusar-se. Comprei um campo, disse um, e preciso ir vê-lo; rogo-te que me dês por escusado. Comprei cinco juntas de bois, disse outro, e vou experimentá-las; rogo-te que me dês por escusado. Casei-me, disse outro ainda, e por isso não posso ir. O servo voltou e contou isto ao seu senhor: Então, irado, o dono da casa disse ao ser servo: Sai depressa para as ruas e os becos da cidade e traze aqui os pobres, os aleijados, os cegos e os coxos. Disse o servo: Senhor, feito está o que ordenaste e ainda há lugar. Respondeu-lhe o senhor: Sai pelos caminhos e atalhos e obriga a todos a entrar, para que se encha a minha casa; porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados, provará a minha ceia".

(Lucas, XIV, 16-24)

O apego ao mundo e às coisas do mundo priva o homem das bençãos de Deus. Certa vez, encontrando Jesus um moço de qualidade e rico, que observava todos os mandamentos, mas não observava o principal dos mandamentos que se constitui no desapego às coisas do mundo, disse: "É mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha, do que um rico salvar-se". O homem superior, o Espírito evoluído, jamais prefere os bens da Terra em detrimento dos bens dos Céus, porque sabe que aqueles se extinguem e estes permanecem para sempre.

Não há campo, não há bois, não há casamentos, capazes de desviar o homem de bem dos seus deveres espirituais Ele sabe atender com solicitude a todos os apelos do Alto, embora se arruinem os campos, fiquem os bois sem serem experimentados e se transfira o casamento. O contrário se dá com o homem do mundo: preso aos negócios, às diversões, à ganância louca, esquecem-se de seus deveres para com Deus, de seus deveres para com o seu próximo, de seus deveres para consigo mesmo, isto é, dos deveres espirituais que tem de realizar no mundo.

Nesta parábola, Jesus faz alusão às suas próprias prédicas, que se constituem no banquete espiritual; a diversidade de ensinos sistematizados a bela e excelente Doutrina Cristã, são os "pratos" variados da grande mesa em que todos podem fartar-se, para não mais sentir aquela fome de saber. Os convidados foram os grandes, os potentados, os afazendados, que negaram a ouvir a palavra do Reino de Deus, que não quiseram comparecer a esse banquete celestial. São estes os excluídos das bênçãos do Céu, porque as recusaram, preferindo os deleites do mundo.

Os pobres, coxos, aleijados e cegos são os que não têm campos, não têm bois para experimentar, nem casamento para privá-lo do comparecimento à ceia. São os deserdados das mundanas glórias, das mundanas pompas, dos bens mundanos e os que consideram os chamados do Céu superiores aos chamados da Terra. De fato, a palavra de Jesus exclui todas as honras, etiquetas e preconceitos terrenos! Para chegarmos a ele precisamos nos comparar a uma criança que não tem idéias preconcebidas, que não tem campos, bois, casamentos, porque a palavra de Jesus é superior a tudo e requer de nós o máximo respeito, a máxima consideração, o maior acatamento".

E essa palavra não passou! A mesa continua cheia de manjares de várias qualidades, capazes de satisfazer os mais exigentes paladares, assim como os grandes do mundo, os proprietários de campos e de bois continuam recusando-se a comparecer a tão atencioso convite. A parábola é a figura do que acontecia na época do nascimento do Cristianismo, e é a figura do que acontece nos nossos tempos: os "graúdos" deste mundo não querem responder ao apelo que lhes faz, por isso os pequenos e deserdados enchem a mesa, embora, como disse o servo encarregado do convite: "Ainda há lugar para os que quiserem comparacer".

O Cristianismo, em seu complemento espírita, realiza novamente esse chamado, e estamos certos de que todas as ovelhas que constituirão o único rebanho do supremo Pastor ouvirão os incessantes chamados que lhes estão sendo feitos, e corresponderão com solicitude e boa vontade, aos divinos convites que partem de todos os recantos do mundo.

CAIRBAR SCHUTEL

VIDA: CONVITE AO APRENDIZADO

VIDA: CONVITE AO APRENDIZADO

Todos os seres humanos se defrontam vez ou outra com a pergunta: quem sou eu? Quando nos fazemos essa pergunta, a maioria das pessoas se depara com um iceberg. Como é um iceberg? Um iceberg tem 5% que fica sobre a água e 95% sob a água, fica imerso na água.

Um iceberg simboliza, na verdade, o processo de consciência humana. Nós temos dois níveis de consciência: a chamada consciência e a chamada subconsciencia, grande parte das pessoas vive de forma subconsciente, isso significa que elas não sabem quem elas, verdadeiramente, são. Como funciona a própria vida, fato que faz com que haja superficialidade em relação à vida.

Como é viver de uma maneira subconsciente? Viver de uma maneira subconsciente é viver de forma que a pessoa não vê um sentido para a vida.

Hoje em dia existem muitas doenças que são existenciais, tais como a depressão, a tendência ao suicídio, alcoolismo, drogadição, ansiedade generalizada, doenças degenerativas várias, etc.
Infelizmente, muitas pessoas têm essa visão subconsciente de vida, fazendo-as se tornar profundamente superficiais.

Normalmente, as pessoas com tendência suicida estão vivendo nessa subconsciência. Elas acreditam que a vida não tem um sentido e que ao morrer tudo acaba e vivem nessa autoilusão, nesse autoengano.

Neste capítulo trabalharemos exatamente o que fazer para que nos tornemos mais conscientes, para tornarmos a nossa vida mais próxima da realidade essencial, da realidade espiritual a que todos nós somos convidados a desenvolver.

Na questão 919 a de O Livro dos Espíritos, Santo Agostinho nos diz que O conhecimento de si mesmo é, portanto, a chave do progresso individual. É fundamental que todos nós utilizemos a vida para o autoconhecimento. Conhecer quem nós somos, nos tornando cada vez mais conscientes de nós mesmos, mergulhando profundamente nesse iceberg, na parte subconsciente da nossa vida para nos tornarmos mais conscientes.

Nós somos convidados a ir ao encontro da Verdade Universal para podemos internalizar essa verdade dentro de nós e nos autoconhecer para realizarmos essa internalização.

Ao nos conhecer vamos perceber as limitações que trazemos e a partir do conhecimento da Verdade Universal nós somos convidados a superar essa vida mais subconsciente, libertando-nos de uma vez por todas das causas da depressão, das causas do suicídio, enfim das causas de todas as doenças existenciais, que fazem com que tenhamos um movimento de viver de forma contrária à vida, para assumirmos o compromisso de ir ao encontro da essência da vida.

Para isso é fundamental para todos nós buscarmos a Verdade Universal. A síntese da Verdade Universal está no Evangelho de Jesus. O Evangelho de Jesus é a maior fonte de autoconhecimento e conhecimento da verdade que existe para a Humanidade, desde que busquemos percebê-lo em "espírito e verdade" como Ele nos recomendou.

Vamos refletir sobre uma parábola do Evangelho de Jesus e trabalhar essa parábola no tema que nós estamos desenvolvendo que é sobre o suicídio. Essa parábola, que se intitula "Parábola da Grande Ceia", está no Evangelho de Lucas, capítulo 14 w. 16 a 23.

Jesus diz o seguinte:

Porém, ele lhe disse: Um certo homem fez uma grande ceia, e convidou a muitos. [...] E à hora da ceia mandou o seu servo dizer aos convidados: Vinde, que já tudo está preparado. [...] E todos começaram a escusar-se. Disse-lhe o primeiro: Comprei um campo, e importa ir vê-lo; rogo-te que me hajas por escusado. [...] E outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-los; rogo-te que me hajas por escusado. [...] E outro disse: Casei, e portanto não posso ir. [...] E, voltando aquele servo, anunciou estas coisas ao seu senhor. Então o pai de família, indignado, disse ao seu servo: Sai depressa pelas ruas e bairros da cidade, e traze aqui os pobres, e aleijados, e mancos e cegos. E disse o servo: Senhor, feito está como mandaste; e ainda há lugar. [...] E disse o senhor ao servo: Sai pelos caminhos e atalhos, e força-os a entrar, para que a minha casa se encha.

Façamos uma exegese psicológica transpessoal dos versículos dessa parábola.

Quem é esse homem quando Jesus diz: Um certo homem? Esse homem representa Deus na parábola.

Fez uma grande ceia. O que é essa grande ceia? A grande ceia, na verdade, são as oportunidades reencarnatórias que temos para desenvolver as virtudes, as chamadas qualidades do coração, as virtudes fundamentais para tornar a nossa vida mais consciente. As iguarias servidas na ceia são essas virtudes.

Todos nós somos convidados quando reencarnamos a desenvolver as virtudes. Portanto, as iguarias que existem na grande ceia nada mais são do que as virtudes divinas que nós já trazemos de forma latente dentro de nós, e que cabe a nós desenvolvê-las gradativamente.

Todos nós somos convidados a participar dessa grande ceia. No versículo 17 Jesus diz: E à hora da ceia mandou o seu servo dizer aos convidados: Vinde, que já tudo está preparado.

Isto significa que todos nós quando reencarnamos somos convidados a compartilhar dessa grande ceia, a compartilhar desse convite amoroso de usufruir dessas iguarias, em que vamos desenvolvendo as virtudes do coração, as virtudes do amor, da caridade, da mansidão, da humildade, da serenidade e muitas outras virtudes que nos cabem desenvolver ao longo da vida.

E todos começaram a escusar-se. Disse-lhe o primeiro: Comprei um campo, e importa ir vê-lo; rogo-te que me hajas por escusado.

O primeiro disse que não poderia ir até a grande ceia, porque havia comprado um campo e que o campo que ele havia comprado era mais importante do que a ceia que o Senhor havia preparado.

E outro disse: Comprei cinco juntas de bois, e vou experimentá-los; rogo-te que me hajas por escusado. O outro coloca os seus bois como mais importantes do que a ceia que o Senhor havia preparado.

E outro disse: Casei, e portanto não posso ir. Esse terceiro havia casado e que precisava, muito provavelmente, ir para a lua de mel usufruir das delícias do sexo e, portanto, não poderia aceitar o convite do Senhor para a grande ceia.

Os três primeiros convidados representam todos aqueles que estão voltados para uma vida puramente sensual, materialista, hedonista, na qual o que importa e o dinheiro, o poder, o sexo, enfim todas as questões militaristas e materialistas.

E, voltando aquele servo, anunciou estas coisas ao seu senhor. Então o pai de família, indignado, disse ao seu servo: Sai depressa pelas ruas e bairros da cidade, e traze aqui os pobres, e aleijados, e mancos e cegos. E disse o servo: Senhor, feito está como mandaste; e ainda há lugar.

E disse o senhor ao servo: Sai pelos caminhos e atalhos, eforça-os a entrar, para que a minha casa se encha.

O Senhor pede, então, para o servo buscar todos aqueles que estavam em situação de necessidade e os trouxesse para a grande ceia.

Quando o servo diz que ainda havia lugar, o Senhor pede que ele volte e busque nos atalhos da cidade e force aqueles que precisavam vir para a grande ceia a entrar para que a casa dele se enchesse.
Aprofundemos um pouco mais na explicação transpessoal da parábola. Já vimos que a grande ceia são as virtudes que Deus nos convida a desenvolver ao longo das nossas várias encarnações.
Quem é o primeiro servo? O primeiro servo é o amor, que nos convida a passar pelas provações que estarão nos auxiliando a desenvolver as virtudes do coração.
Deus sempre nos convida amorosamente à prática das virtudes, para que possamos desenvolver as virtudes no coração pelo conhecimento da verdade, desenvolver tudo aquilo que de nós é solicitado nas várias existências sucessivas até a felicidade plena, para que nós nos aproximemos d'Ele, conforme nos diz a questão 115 de O Livro dos Espíritos.

O amor é o primeiro servo que Deus envia. Quando o servo amoroso vem e nos convida, dizendo que existe uma Grande Ceia, existem muitas iguarias as quais nós somos convidados a conquistar, o que nós pretextamos, na maioria das vezes? Em razão da subconsciencia que ainda nos caracteriza, nós preferimos uma vida totalmente material, totalmente voltada para as questões secundárias da vida e deixamos de ir à grande ceia.

Podemos fazer isso? Nós podemos utilizar o nosso livre-arbítrio para viver de uma forma subconsciente não indo ao encontro das virtudes necessárias à nossa evolução? Podemos, mas não nos convém agir assim porque se nós não aceitarmos os convites do primeiro servo, que é o amor provacional, para desenvolver um processo de maior consciência frente à vida e desenvolver as virtudes que nos cabem, vem o segundo servo para nos convidar.

Quem é o segundo servo? O segundo servo é a tlor expiatória. Por isso, o segundo convite vem para as pessoas que estão cegas, mancas, surdas, mendigas, etc., simbolizando as pessoas que usaram mal os recursos divinos em uma existência anterior e agora estão expiando as suas faltas. Aquele que usou mal os seus olhos para i egar outras pessoas, como é o caso de Camilo Castelo Branco, que estudaremos mais à frente, renascem para expiar na cegueira as suas faltas.
Muitas das pessoas que estão, verdadeiramente, em processo expiatório já estão um pouco mais humildadas no seu orgulho, estão um pouco mais amansadas em sua rebeldia, e pela dor que caracteriza as pessoas em processo expiatório, quando elas realmente aceitam a expiação, retornam, a partir da dor, ao caminho do amor, no qual deveriam ter atendido ao convite e não se afastado, alegando coisas mais importantes a fazer.

Por isso elas aceitam o convite do Senhor para ir até a Grande Ceia, para conquistar as virtudes do coração, as iguarias a serem conquistadas na Ceia, que cabiam a elas desenvolver. Elas já foram convidadas pelo servo amoroso, mas recusaram o convite. Como recusaram o convite vem o segundo servo, que é a dor expiatória, para que, a partir dessa dor elas possam desenvolver as virtudes que não quiseram fazer pelo amor.
Contudo, muitas vezes, o que acontece quando a dor expiatória vem, nem todos aceitam o convite porque continuam rebelando-se contra as Leis Divinas, rebelando-se contra a Lei maior que é a Lei de Amor, que nos convida a desenvolver as virtudes. Muitos entram em uma revolta surda contra tudo e todos, contra Deus, e buscam a morte pelo suicídio.

Aí surge o terceiro servo. Quem é o terceiro servo? O terceiro servo é o sofrimento. Quando a pessoa se rebela contra a dor expiatória, surge o sofrimento. Percebamos que Jesus diz para o terceiro servo sair pelos atalhos e os forçasse a entrar para a Ceia. O sofrimento força a pessoa a se encaminhar até a Grande Ceia, porque ninguém gosta de sofrer, e, cedo ou tarde, o sofrimento vai humildar o orgulho e amansar a rebeldia para que a pessoa possa transformar o desamor que ela nutre em amor.

O sofrimento força a pessoa a buscar as virtudes necessárias para seu próprio equilíbrio.

Diante da vida temos sempre três opções: seguir

0 convite do amor provacional, seguir o convite da dor expiatória ou aguardar pelo sofrimento, que já não faz n m convite, porque cedo ou tarde o sofrimento irá nos forçar a busca das virtudes, porque em sã consciência ninguém gosta de sofrer.
Toda pessoa que se suicida, pelo menos a maioria delas, se suicida para fugir de uma situação. Normalmente é de uma situação dolorosa, em que é convidada a passar pela dor para retornar ao amor.

Ao invés de aceitar o convite da dor para retornar ao amor, o qual ela não deveria ter recusado, mas como já recusou a única alternativa positiva é aceitar a expiação de uma forma amorosa, branda e humilde de coração como nos ensina Jesus.
No entanto, ela pode usar o seu livre-arbítrio para recusar o convite da dor expiacional. Deus permite que a pessoa faça isso e se suicide, porém a pessoa vai, com essa atitude, gerar sofrimentos muito intensos para si mesma, fazendo com que, a partir desse sofrimento Merbo, causado pelo mau uso do seu livre-arbítrio, ela possa superar a indolência, a sua tendência a não querer desenvolver as virtudes, conforme fez Camilo Castelo Branco ao suicidar-se por ter ficado cego, caindo em verdadeiro abismo de sofrimento, para somente depois começar a pensar na prática das virtudes do coração, conforme veremos posteriormente.

É muito importante refletirmos que a vida é um convite ao aprendizado. Primeiro, um convite amoroso. Se nós recusarmos o amor, vem a dor expiatória, que nos convida novamente. Podemos, a partir da dor expiatória, retornar ao amor, aceitando o convite para ir até a Grande Ceia, como Jesus nos explica na parábola ou podemos ainda recusar, veementemente, o convite e esperar que o sofrimento venha.
Quando o suicida, acreditando que ao matar o corpo, matará a vida em si mesmo vai, simplesmente, criar um sofrimento acerbo que o forçará a se encaminhar ao amor.

A tendência suicida é gerada pela ausência de sentido na vida causada pela rebeldia e negativismo, que produzem muito sofrimento. Chega um momento em que a revolta se torna tão intensa que a pessoa deseja a morte, deseja o autoaniquilamento. Nesse momento, na verdade, ela está expressando revolta consciente, ou subconsciente, em relação a Deus que a criou.

Quando a pessoa com tendência suicida tem alguma crença em Deus, pergunta-se por que Deus a criou, por que Ele não acaba logo com a sua vida, etc. Muitos passam a viver dessa forma, inconformados com a vida, promovendo para si mesmos um suicídio lento, pois a pessoa não o consuma diretamente, mas de forma indireta, geralmente produzida por uma doença somática, que a mata. Esse desejo de morte acaba produzindo uma doença no corpo físico que a mata gradativamente.

Em sua maioria, porém, as pessoas com tendência suicida têm profunda descrença em si mesmas, na Vida e em Deus. Muitos entendem que, matando o corpo, tudo vai se acabar, e mesmo aqueles que acreditam na vida após a morte acham que depois tudo vai ser diferente, o sofrimento vai acabar após a morte.

Essa descrença na Vida, em si mesmas e em Deus faz com que muitas pessoas cheguem nesse extremo de acreditar que morrendo tudo acaba, profunda ilusão, profundo autoengano, que cabe a todos nós refutar, porque, conforme vimos no capítulo anterior, a morte não existe. O que existe é sempre a vida, seja no corpo ou fora do corpo.

A pessoa com tendência suicida ao matar o corpo, com as atenuantes ou agravantes de cada caso, torna o seu sofrimento acerbo, pois os seus problemas não residem no corpo, mas no Espírito que ela é. Como o Espírito continua vivo após a morte do corpo, além dos problemas que já trazia, somam-se aqueles provocados pela morte prematura do corpo.

Analisando-se dentro de uma perspectiva psicológica mais profunda, na verdade o suicida não quer se autoaniquilar, tampouco matar o corpo, mas matar o sofrimento, que é gerado por ele mesmo.

Como nós vimos na parábola da Grande Ceia, o sofrimento é causado por ele mesmo pelo fato de ele não aceitar o convite amoroso da vida.

Nós convidamos a todos aqueles que por algum motivo pensam ou já pensaram, em algum momento, em se matar a refletir sobre a questão da vida. O que é mais importante: matar-se, negando a vida, viver em tédio ou buscar amorosamente aquilo que nos cabe adquirir, tanto conhecimento quanto amor, para poder ir ao encontro da Vida e não viver contra ela, como muitas vezes nós fazemos.

A pessoa com tendência suicida tenta acabar com o sofrimento de forma equivocada, criando mais revolta dentro e em torno de si. Com isso somente amplia o sofrimento, até chegar a níveis inimaginados por ela própria. Esse sofrimento persistirá até o momento em que ela tomar consciência de seus atos. Nesse instante compreende que é ela própria a causa do sofrimento, e que esse sofrimento é causado pelo seu orgulho, onipotência e prepotência, momento no qual é convidada pela Vida a desenvolver o poder real de realizar ações de transformação, com o intuito de melhorar a sua vida, a partir de seus próprios esforços, aceitando com humildade as contingências da vida as quais ela não pode mudar e, modificando, gradativamente, aquilo que é da sua alçada.

Estudemos, a seguir, em três versículos do Evangelho de Jesus como realizar as ações para que nós nos libertemos da dor e do sofrimento e nos encaminhemos ao amor.

Vejamos em Mateus: 11, 28 a 30 Jesus diz: Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei. [...] Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei comigo, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. [...] Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

Nesses três versículos, extremamente profundos e significativos, existe a chave para podermos nos libertar completamente do sofrimento, nos libertar completamente da dor expiatória e nos encaminhar de uma vez por todas aceitando o convite do servo amoroso, que nos convida a irmos até a Grande Ceia para praticar as virtudes do coração.

Nesses versículos são demonstradas as seis etapas do chamado autoencontro amoroso; etapas essas fundamentais no processo de autoconhecimento e autotransformação.

1ª.. Etapa: Reconhecer-se em sofrimento, aflito e sobrecarregado a partir das próprias ações de desamor, rebeldia e orgulho diante da Vida.

Todos nós que estamos de alguma maneira aflitos e sobrecarregados, sofrendo é importante que nós nos perguntemos: - Quem é o verdadeiro causador desse sofrimento? A própria pessoa.
É a própria pessoa causadora desse sofrimento. Se não foi na experiência atual de vida, foi em existências anteriores, nas quais a pessoa escolheu o caminho do desamor, da rebeldia e do orgulho e produziu a dor expiatória, conforme estudamos.
A maioria das pessoas com tendência suicida está passando por essa dor expiatória. Essas pessoas veem a dor que elas estão passando como algo inconcebível, algo além de suas forças, porque ainda estão cultivando o desamor, a rebeldia e o orgulho que geraram a própria dor.

Para que existe a dor expiatória? Para que possam verdadeiramente reconhecer que são elas próprias as causadoras dessa dor, para gradativamente se encaminharem ao amor.
Quando Jesus diz: Vinde a mim todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei, Ele está nos oferecendo uma dica. Que nós, uma vez reconhecidos que estamos sobrecarregados pela nossa própria incúria, pelas nossas próprias ações de desamor, de rebeldia e de orgulho nos encaminhemos ao encontro d'Ele, exemplo de amor incondicional, para receber o alívio que o amor proporciona.
Muitos atribuem a Deus, atribuem à má sorte, atribuem a uma vida desgraçada que todos estão fadados a trilhar a causa do próprio sofrimento. Então, enquanto as pessoas estão revoltadas contra a vida, elas não reconhecem isso, não estão aptas a irem ao encontro do amor, ao encontro do primeiro servo para entrar na Grande Ceia.

Elas ficam revoltadas e, muitas vezes, se matam gerando sofrimentos acerbos, dos quais elas vão se arrepender de uma forma muito trágica no seu futuro espiritual.
É importante reconhecer que a vida é um convite ao aprendizado. O primeiro passo é reconhecer que as dificuldades pelas quais passamos amigo leitor, não são propriamente um processo de punição que Deus está gerando para você, para que você sofra sem remissão, sem Um alento, muito pelo contrário, é um convite para que você vá ao encontro das virtudes necessárias para sua vida. Portanto, é muito importante que você reconheça que é você mesmo que está causando esse sofrimento.

A partir desse reconhecimento vamos para a:

2ª.. Etapa do autoencontro amoroso: Após esse reconhecimento, ir ao encontro do amor que Jesus representa com o objetivo de conseguir alívio ao sofrimento e à sobrecarga, para que possa se tornar um aprendiz do Mestre.

Tudo que nos acontece é um convite ao aprendizado. Nós aprendemos pelo amor. A dor, como nós vimos na parábola da Grande Ceia é apenas um mecanismo para abrandarmos a nossa revolta e humildarmos o nosso orgulho.
Jesus é o grande modelo para irmos ao encontro do amor. Quando Ele diz: Vinde a mim todos que estais cansados, oprimidos e sobrecarregados e eu vos aliviarei, significa que ir ao encontro d'Ele, não a Ele pessoa simplesmente, mas ao amor que Ele representa, alivia. Jesus é o modelo de amor. É o modelo que Deus nos oferece, o Espírito mais evoluído que Deus nos oferece como modelo e guia como nos diz a questão 625 de O Livro dos Espíritos.
Todos nós somos convidados a ir ao encontro do amor que Ele representa. Quando nós vamos ao encontro do amor, esse simples ato de ir ao encontro do amor aliviará a nossa sobrecarga. Ao invés de matar o corpo nós somos convidados a ir ao encontro do amor.

Se nós aceitarmos a Vida como uma dádiva indo ao encontro do amor, com certeza a dor gradativamente vai sendo aliviada e nós vamos realmente ir ao encontro da Vida para aprender aquilo que a Vida nos convida.
Na:

3ª. etapa vamos tomar o amor como diretriz de vida para poder aprender.

Quando Jesus diz: Tomai sobre vos o meu jugo. O que é jugo? Jugo é uma diretriz de vida. Qual é a diretriz de vida que nos oferece Jesus? É o próprio amor. Então, ir ao encontro do amor, não para ficar simplesmente de uma forma passiva, esperando que o amor nos alivie eternamente, sem exercitar de uma forma ativa aquilo que nós queremos: a nossa melhoria cada vez maior e a diminuição cada vez maior da dor. Isso só é possível quando nós tomamos o jugo de Jesus em nossas mãos e nós nos tornamos aprendizes d'Ele.
Ao tomarmos a diretriz que Jesus nos oferece, a diretriz do amor, nós estaremos aptos a entrarmos na:

4ª. etapa do nosso processo de aprendizado amoroso.

A 4a etapa diz o seguinte: Tornar-se, efetivamente, um aprendiz do Mestre amoroso, brando e humilde de coração.
Jesus é esse mestre amoroso, brando e humilde de coração. Quando Ele diz: aprendei comigo que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para a vossa alma.
É fundamental que aceitemos efetivamente o compromisso de sermos um aprendiz do Grande Mestre Jesus. Ê muito importante refletir profundamente sobre o significado de ser um aprendiz de Jesus, um aprendiz que aprende as virtudes do amor, da mansidão e da humildade de coração, buscando sentir no coração essas virtudes.
Toda pessoa com tendência ao suicídio, revoltada contra a vida, traz exatamente a antítese dessas virtudes.

Ela traz um desamor muito grande dentro de si, uma rebeldia muito grande e muito orgulho, que necessitam lei transmutados pelo amor, pela mansidão e humildade.
Nós temos os convites dos três servos, o amor provacional, a dor expiatória e o sofrimento. É fundamental que não esperemos que o sofrimento acerbo nos alcance. A dor expiatória muitas vezes é necessária porque já chegamos a situações vividas em nosso passado espiritual, que não é possível mais não ter a dor expiatória. Contudo, quando aceitamos o convite amoroso de Jesus ptra aprendermos com Ele que é manso e humilde de coração, a nossa vida se transforma, pois transmutamos a rebeldia e o orgulho em virtudes de amor.

Esse aprendizado vai gerar a :

5a etapa do processo do autoencontro amoroso.
A 5a etapa diz: Encontrar a serenidade e a harmonia gerada pela condição de ser um aprendiz.
Quando nós nos tornarmos aprendizes de Jesus alcançaremos o descanso para a alma. Quando Jesus diz:

Aprendei comigo que sou manso e humilde de coração e encontrareis descanso para vossa alma. Descanso significa serenidade e harmonia. Mesmo passando pela dor expiatória de uma cegueira, conforme veremos no caso de Camilo Castelo Branco, extraído, da monumental obra Memórias de um Suicida, psicografia de Yvone Pereira, editado pela Feb, em que nós estudaremos vários trechos nos próximos capítulos.
Mesmo em uma situação difícil como a cegueira, a mudez, a paralisia, etc., que o segundo servo busca para participar da Grande Ceia, mesmo nessas condições, quando nós aceitamos o convite para aprender com Jesus, aprender com Ele que é brando e humilde de coração, nós vamos encontrar o descanso para a nossa alma.

Isso não significa que a dor vai desaparecer, mas nós vamos passar pela dor com maior serenidade, com maior harmonia, porque estaremos desenvolvendo o amor, a mansidão e a humildade. Nós estaremos aprendendo tanto com as nossas conquistas-êxito, quanto com as nossas conquistas-aprendizado, e estaremos sempre serenos em quaisquer circunstâncias, seja nas circunstâncias em que nós estivermos passando pelas provações, em que o amor nos convida a superar as questões puramente materiais da vida nos encaminhando para a Grande Ceia, para o desenvolvimento das virtudes, ou quando já envolvidos pela dor expiatória aceitarmos o convite do segundo servo e nos encaminhar à prática das virtudes.
As virtudes fundamentais na prática de nosso dia-a-dia são o amor, a mansidão e a humildade, que estarão gerando todas as demais virtudes a que nós somos convidados pelo Mestre a desenvolver.
Todos nós, ao aceitarmos o convite de sermos um aprendiz de Jesus, vamos entrar nesse estado de serenidade e de harmonia que vai fazer com que nós permaneçamos na 6a etapa do autoencontro amoroso.

A 6a etapa é tornar a própria vida suave e a evolu¬ção, por meio do aprendizado, um fardo leve de ser car¬regado.

Vejamos que Jesus conclui os versículos dizendo: Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.

Percebamos que existe sempre um fardo a ser carregado, que é o trabalho de exercitar as virtudes do coração. Esse fardo com Jesus será sempre leve, mesmo que estejamos passando pela dor expiatória, passando por situações dolorosas; por maiores que sejam essas situações dolorosas elas são mínimas, comparadas ao sofrimento acerbo que um suicídio gera.

Todos nós, portanto, somos convidados a carregar o nosso fardo. Percebamos que quando aceitamos o convite do primeiro servo esse fardo é infinitamente leve. É o fardo apenas de nós colocarmos os valores espirituais em primeiro plano e os valores materiais e puramente sensuais em segundo. Eles são importantes na vida do corpo, mas são secundários na nossa vida. O jugo será muito suave, o fardo será muito leve.

Quando nós já nos rebelamos contra as leis divinas e somente aceitamos o convite do segundo servo, que é a dor expiatória, esse fardo já é um pouquinho mais difícil de ser carregado, mas aceitando o jugo de Jesus, a condição de ser um aprendiz d'Ele, com certeza esse amor passamos a nutrir ao aceitarmos o convite de Jesus, que faz com que o fardo seja leve mesmo na dor expiatória.

Se caso não aceitarmos os convites do primeiro servo e do segundo servo e optarmos pelo suicídio, o jugo se torna profundamente perverso, o fardo se torna profundamente pesado como nós veremos nos próximos capítulos.
O nosso convite a todos é para refletirmos juntos que a vida é um convite ao aprendizado. Todos nós somos convidados a modelar Jesus, a ir ao encontro da suavidade e da leveza, o descanso para a nossa alma. Todos nós podemos agir assim. Todos nós podemos modelar Jesus, o caminho, a verdade e a vida que nos conduz a Deus.

É fundamental nos encaminhar para essa jornada profunda de autoconhecimento e autotransformação, fazendo exercícios para nos sentir aprendizes do grande Mestre, realizando exercícios de amor, de mansidão e de humildade, virtudes que nos libertarão completamente da tendência ao suicídio.

Para concluir este capítulo vamos repetir o convite do Mestre para irmos ao encontro d'Ele, irmos ao encontro d'Ele para aprendermos a valorizar a vida, a darmos valor a todos os convites que a vida nos faz, sejam os convites amorosos, sejam os convites dolorosos. Não vale a pena esperar que o sofrimento acerbo causado pelo suicídio bata em nossa porta, para poder somente depois de muito sofrimento retornar ao amor.
Escolhamos o caminho amoroso, escolhamos o caminho que Jesus nos convida: Vinde a mim todos os que estais sobrecarregados, aflitos, amargurados, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei comigo, que sou brando e humilde de coração, e encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve.

Alírio de C. Filho