PARÁBOLA DAS OVELHAS E DOS CABRITOS

EM BUSCA DO MESTRE - PEDRO DE CAMARGO ( VINÍCIUS )

"Quando vier o Filho do homem em glória e poder, acompanhado dos santos anjos, julgará todas as nações. Separará os justos dos iníquos, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. À direita ficarão os escolhidos; à esquerda, os rejeitados. Aos primeiros direi: Vinde a mim, benditos de meu Pai, possuí como herança o reino que vos está destinado desde a fundação do mundo. Pois achei-me faminto, sedento, nu, peregrino, enfermo e encarcerado, e vós me assististes. Quando, Senhor, te vimos em tais condições e te prestamos assistência? Objetarão eles. Retrucarei, então: Em verdade vos digo que todas as vezes que assististes aos meus irmãos mais pequeninos, foi a mim mesmo que o fizeste. Voltando-me à sinistra, prosseguirei: Apartai-vos de mim, réprobos, para o fogo eterno, aparelhado para o diabo e seu anjos, porque me encontrei faminto, sedento, nu, peregrino, enfermo e encarcerado e jamais me valestes. Nunca, Senhor, te vimos sob tais condições e te abandonamos, dirão eles. Responderei abertamente: Em verdade vos digo que sempre que voltastes as costas aos pequeninos da Terra, foi a mim mesmo que desdenhastes. E irão os justos para a vida eterna e os réprobos para o fogo eterno".


Ao Espiritismo coube a glória de interpretar a magnífica parábola em apreço, gravando em seu estandarte a sapientíssima legenda: Fora do Amor não há salvação. Esta sentença encerra, em síntese, toda a moralidade da dita alegoria.

Nada obstante, vamos comentá-la pormenorizadamente, considerando a farta messe de lições que ela encerra. Da primeira vez, Jesus veio ao mundo em pobreza, sob as mais humilhantes condições. Da segunda, porém, virá em glória e poder. Outrora foi perseguido, flagelado e morto pelos homens de seu tempo. Agora, isto é, no advento dos acontecimentos preditos, virá julgá-los.


O planeta que habitamos, como, aliás, sucede ao corpo onde se encontra enclausurado nosso espírito, terá um fim. Eis, então, o momento da separação ou julgamento. Os que se acharem aptos seguirão o Mestre para novas Terras onde habita a Justiça, segundo o dizer de Pedro. Os reprovados, apartar-se-ão do Cristo, ingressando em mundos inferiores, compatíveis, onde os espera o fogo eterno das provas e expiações, aparelhado para vencer e domar os rebeldes e obstinados no mal, até que se habilitem, como filhos de Deus, à herança paterna que para todos está destinada desde todos os tempos.

O fogo é eterno porque sempre haverá seres em evolução que necessitam de reparação; logo, porém, que se convertam e se regenerem, prosseguirão sua marcha, deixando o plano de sofrimento. É possível, outrossim, que a presente parábola reporte-se, como opina distinto confrade, apenas a uma grande reforma periódica de ordem moral. Cumpre sempre termos em vista que, sobre o Evangelho, jamais alguém dirá a última palavra.

Conforme se vê pela letra parabólica, a grande dificuldade está em vencermos o nosso egoísmo, causa de nossos padecimentos e insucessos no plano moral. Para vencê-lo temos que cultivar o sentimento oposto que é o Amor, esse Amor que é caridade compreendida em sua íntima essência e legítima expressão.

Jesus nada pede para si mesmo. Não quer catedrais suntuosas, nem hosanas, nem homenagens e honrarias. Ele tem em si próprio a glória e o poder. De nós, míseros terrícolas, nada precisa, nada deseja. Quer, apenas, que nos amemos uns aos outros, vivendo como irmãos, solidários com aqueles que, ao nosso lado, lutam e sofrem. Tampouco lhe importarão os pormenores de nossa fé, as particularidades de nosso credo ou religião. Um quesito somente Ele formulará, dependendo de sua resposta, negativa ou afirmativa, nossa ventura ou nossa desdita.

Esse quesito relaciona-se com a conduta que adotamos. Como vivemos? Sob o império do egoísmo, ou sob o influxo do Amor? Se o egoísmo nos domina, nossas obras serão fatalmente impiedosas e más, porque o egoísmo é a fonte de todos os males. Se reina o amor em nossos corações, nossas obras serão naturalmente boas, de vez que o Amor é a fonte do Bem e do Belo, do Justo e do Verdadeiro.

Não há, portanto, necessidade de referências particulares e de minúcias fastidiosas. Não nos iludamos, pois: Fora do Amor não há salvação — tal a frase luminar que dardeja claridade no roteiro da Vida, esclarecendo nossa razão e afinando as cordas dos nossos sentimentos.

Nesta, como em outra parábola já comentada, a de Lázaro e o Rico — verificamos que somos responsáveis não só pelo mal que praticamos, como também pelo bem que deixamos de fazer. É importante tomarmos nota desta lição. Aqueles que se encontravam à esquerda, isto é, os cabritos, foram condenados pelo indiferentismo em que se mantiveram diante do sofrimento alheio; e não porque tivessem diretamente cometido delito e maldades contra alguém.

Achando-nos, como nos achamos na sociedade terrena, dela fazendo parte integrante como fazemos, não poderemos, sem incorrer em falta grave, nos desinteressar pelos padecimentos alheios e consequentemente, pelos problemas sociais da miséria, da enfermidade, do vício e do crime, problemas esses claramente prefigurados naquele dizeres: Estive faminto, sedento, nu, enfermo e encarcerado, e não assististes.