PARÁBOLA DO ADMINISTRADOR INFIEL

 

 

(PARÁBOLA DO ADMINISTRADOR OU MORDOMO INFIEL)

"Disse Jesus aos discípulos: Havia um homem rico, que tinha um administrador; e este lhe foi denunciado como esbanjador dos seus bens. Chamou-o e perguntou-lhe: que é isto que ouço dizer de ti? Dá conta da tua administração; pois já não pode mais ser meu administrador. Disse o administrador consigo: Que hei de fazer, já que o meu amo me tira a administração? Não tenho forças para cavar; de mendigar tenho vergonha. Eu sei o que hei de fazer para que, quando for despedido do meu emprego, me recebam em suas casas.Tendo chamado cada um dos devedores do seu amo, perguntou ao primeiro: Quanto deves ao meu amo? Respondeu ele: Cem cados de azeite. Disse então: Toma a tua conta, senta-te depressa e escreve cinquenta. Depois perguntou a outro: E tu, quanto deves? Respondeu ele: Cem coros de trigo. Disse-lhe: Toma a tua conta e escreve oitenta. E o amo louvou o administrador iníquo, por haver procedido sabiamente; porque os filhos deste mundo são mais sábios para com a sua geração do que os filhos da luz. E eu vos digo: Granjeai amigos com as riquezas das iniquidades, para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos. Quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco, também é injusto no muito. Se, pois, não fostes fiéis nas riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras? E se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que é vosso? Nenhum servo pode servir a dois senhores; porque ou há de aborrecer a um e amar a outro, ou há de unir-se a um e desprezar ao outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas".

(Lucas, XVI, 1-13)

1 - CAIRBAR SCHUTEL

O sentido oculto desta parábola visa a estas duas qualidades, pelas quais se reconhece a bondade ou a maldade do homem: fidelidade e infidelidade. Fidelidade é a constância, a firmeza e a lealdade com que agimos em todos os momentos da vida; na abastança como na pobreza, nas eminências dos palácios como na humanidade das choupanas, na saúde como na enfermidade, e até nos umbrais da morte como no apogeu da vida.

O apóstolo Paulo, demonstrando sua lealdade, sua constância, sua fidelidade, sua firmeza de caráter, dizia: "Quem me separará do amor de Cristo?" A fidelidade é a pedra de toque com que se prova o grau do caráter do homem. É fiel nos seus deveres? Tem forçosamente todas as qualidades exigidas ao homem de caráter: reconhecimento, gratidão, indulgência, caridade, amor, porque a verdadeira fidelidade não se manifesta com exceções ou preferências. Aquele que caminha para se aperfeiçoar em tudo, obedece à sentença de Jesus: "Sede perfeitos como perfeito é o vosso Pai celestial".

Pelo que se conclui: expondo a parábola, Jesus teve por fim exortar seus discípulos a se aplicarem nessa virtude, que se chama fidelidade, para que pudessem um dia representá-la condignamente, tal como se manifesta nos Céus. Como tudo na Natureza e como tudo o que se faz mister para a perfeição, quer no plano físico ou na esfera intelectual e moral, a fidelidade vai-se engrandecendo em nós, à proporção que nela nos aperfeiçoamos. Não a adquirimos de uma só vez em sua plenitude, mas paulatinamente, gradativamente. E aquele que já a possui em certo grau, como o "administrador infiel" da parábola, faz jus à sua benevolência divina.

Pelo estudo analítico da parábola vemos que o administrador foi acusado por alguém, ou por outra, foi denunciado como esbanjador dos bens de seu patrão, pelo que este resolveu chamá-lo à ordem, perguntou-lhe: "O que quer dizer esta denúncia que tive de ti? Dá conta da tua administração; pois dessa forma não podes mais ser meu empregado". Pela prestação de contas verificou-se não ter havido esbanjamento, mas sim facilidade em negócios, que prejudicaram o patrão. O prejuizo constava de vendas feitas sem dinheiro e sem documentos: cem cados de azeite e cem coros de trigo. Tanto assim que, legalizadas as contas, com as letras correspondentes ao valor de cinquenta cados de azeite e oitenta coros de trigo", "o amo louvou o administrador iníquo por haver procedido sabiamente.

E salientando a seus discípulos a boa tática comercial do empregado que não só garantia a empresa que lhe fora confiada, mas também constituía um bom meio de granjear amigos, disse-lhes: "Granjeai amigos com a riqueza da iniquidade, para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos". É o mesmo que dizer: auxiliai, com as vossas sobras, os que têm necessidade e sede também indulgentes para com os pecadores não lhes imputando o mal que fazem; mas antes, ao que devem cem cados de mal, mandai-o escrever só cinquenta, e, ao que deve cem coros de erros, mandai-os escrever oitenta; mas observai-os, que precisam trabalhar para resgatar essa dívida.

Fazei como fez o administrador infiel, assim chamado pelos seus acusadores, mas que, na verdade, procedeu sabiamente "porque quem é fiel no pouco, também é fiel no muito; e quem é injusto no pouco, também é injusto no muito". "Se não fostes fiéis nas riquezas injustas, quem vos confiará as verdadeiras? E se não fostes fiéis no alheio quem vos dará o que é VOSSO?". As riquezas da iniquidade são os bens materiais, dos quais não somos mais que depositários, são riquezas injustas e não são NOSSAS, porque não prevalecem para a OUTRA VIDA.

O que é NOSSO são os bens incorruptíveis, dos quais Jesus falou também a seus discípulos, para que os buscassem de preferência, porque "os vermes não os estragam, a ferrugem não as consome, os ladrões não os alcançam nem a morte os subtrai". Os discípulos, - como têm obrigação de fazer, todos os que querem ser discípulos de Jesus - deveriam servir somente a Deus, que não é o AMO, não se escravizando a qualquer inconsciente endinheirado ou pseudo-sábio que lhe queira dominar a consciência: não se pode servir a Deus e a Mamon!

Conclui-se de tudo o que acabamos de ler, que o título de infiel, dado ao administrador, foi mal aplicado, torcendo por completo o sentido que Jesus deu à mesma parábola. A palavra divina, por ser falha quando de humana interpretação, faz-se mister que recorramos às entidades superiores do espaço, para que lhe compreendamos sempre o sentido em Espírito e Verdade.

CAIRBAR SCHUTEL

2 - EM BUSCA DO MESTRE - PEDRO DE CAMARGO ( VINÍCIUS )

"Havia um homem rico, que tinha um administrador; e este lhe foi denunciado como esbanjador de seus bens. Chamou-o e perguntou-lhe: Que é isto que ouço dizer de ti? dá conta de tua mordomia; pois já não podes mais ser meu mordomo. Disse, então consigo, o administrador: Que farei agora, já que meu amo me tira a mordomia? Não tenho forças para cavar, e, de mendigar tenho vergonha. Eu sei, porém, o que me cumpre fazer, para que, despedido da mordomia, tenha quem me receba em suas casas. Em seguida, convocou os devedores do seu amo, dizendo ao primeiro deles: Quanto deves ao meu amo? Respondeu ele: cem cados de azeite. Disse-lhe, então: Senta-te depressa, e escreve cinquenta. Depois indagou de outro: E tu quanto deves? Respondeu ele: cem coros de trigo. Disse-lhe: Toma a tua conta, e escreve oitenta. E assim fez com os demais. E o amo, sabendo disso, louvou o administrador iníquo, por haver procedido sabiamente; pois os filhos deste mundo são mais sábios para com sua geração do que os filhos da luz. E eu vos digo: Grangeai amigos com as riquezas da iniquidade, para que, quando estas vos faltarem, vos recebam eles nos tabernáculos eternos. Quem é fiel no pouco, também o será no muito. Se, pois, não fostes fiéis nas riquezas iníquas, quem vos confiará as verdadeiras? E se não fostes fiéis no alheio, quem vos dará o que ficará sendo vosso? Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois ou há de aborrecer a um e servir o outro, ou há de unir-se a um e desprezar o outro. Não podeis pois, servir a Deus e a Mamom".


Sintetizemos a parábola, interpretando os seus personagens:
O amo ou proprietário: Deus.
O mordomo infiel: o homem.
Os devedores beneficiados: nosso próximo, os sofredores em geral.
A propriedade agrícola: O mundo que habitamos.

Moralidade: o homem é mordomo infiel porque se apodera dos bens que lhe são confiados para administrar, como se tais bens constituíssem propriedade sua. Acumula esses bens, visando exclusivamente a proveitos pessoais: restringe sua expansão, assenhoreia-se da terra cuja capacidade produtiva delimita e compromete. Enfim, todo o seu modo de agir com relação à propriedade que lhe foi confiada para administrar, é no sentido de monopolizá-la em benefício próprio, menosprezando assim os legítimos direitos do Proprietário.

Diante de tal proceder irregular, o Senhorio vê-se na contingência de demiti-lo. Essa exoneração, que não é lavrada a pedido, consuma-se com a morte. Todo o Espírito que desencarna é um mordomo despedido do emprego. A parábola figura um deles, cuja prudência é motivo de elogios. É aquele que, sabendo que ia ser despedido, e que nada poderia levar consigo, nem lhe assistia tampouco o que alegar em seu abono diante da demissão, procura, com os bens alheios ainda em seu poder, prevenir o seu futuro. E, como faz, granjeia amigos com a riqueza da iniquidade, isto é, lança mão dos bens acumulados, que representam a riqueza do Amo sob sua guarda, e, com ela, beneficia os vários devedores, cuja amizade, de tal maneira consegue conquistar!

E o Amo (DEUS) louva a ação do mordomo (homem) que assim procede, pois esse a quem ele aqui no mundo beneficiaria serão aqueles que futuramente o receberão nos Tabernáculos eternos (páramos celestiais, céus, espaço, etc.). O grande ensinamento desta importante parábola está no seguinte: Toda riqueza é iníqua. Não há nenhuma legítima no terreno das temporalidades do século. Riquezas legítimas ou verdadeiras são unicamente as de ordem intelectual e moral: o saber e a virtude. Não assiste ao homem o direito de monopolizar a terra, nem de açambarcar os bens que dela derivam.

Seu direito não vai além do usufruto. Como, porém, todos os homens são ainda egoístas e querem monopolizar os bens terrenos em proveito exclusivo, o Mestre aconselha, com muita justeza, que, ao menos, façam como o Mordomo Infiel: Granjeiem amigos com esses bens dos quais ilegalmente se apossaram, reduzindo, assim, o débito dos que, nesta existência, resgatam culpas. A parábola em apreço contém, em sua essência, transcendente lição de sociologia, encerrando um libelo contra a avareza, e belíssima apologia da liberalidade e do altruísmo, virtudes cardiais do Cristianismo.

Obedecem ao mesmo critério acima exposto, estes outros dizeres: Quem é fiel no pouco também será fiel no muito. Se não fostes fiel nas riquezas injustas, quem vos confiará as legítimas? E se não destes boas contas do alheio, quem vos dará aquilo que se tornará vosso? É claro que a riqueza classificada como sendo o "pouco", como sendo a iníqua e alheia é a que consiste nos bens materiais; enquanto que, a riqueza reputada como sendo o muito, a legítima e a que constitui propriedade inalienável é aquela representada pêlos predicados de caráter, pela virtude, numa palavra, pela evolução conquistada pelo Espírito no transcurso das existências que se sucedem na eternidade da vida.

A terra constitui propriedade de ninguém: é patrimônio comum. E, como a terra, qualquer outra espécie de bens, visto como toda a riqueza é produto da terra. Ao homem é dado desfrutá-la na proporção das suas legítimas necessidades. Tudo que passa daí é uma apropriação indébita. Não se acumula ar, luz e calor para atender aos reclamos do corpo. O homem serve-se naturalmente daqueles elementos, sem as egoísticas pretensões de entesourar.

O testemunho eloquente dos fatos demonstra que o solo quanto mais dividido e retalhado, mais prosperidade, mais riquezas e felicidade assegura aos povos e às nações. De outra sorte, comprova também que a causa fundamental das guerras — esse flagelo, essa expressão de barbárie, selvageria e bruteza — está na ambição e na megalomania de possuir e dominar o mundo, como se este pudesse constituir propriedade do homem.

PEDRO DE CAMARGO "VINICIUS"

3 - PAULO ALVES GODOY

Esta parábola de Jesus tem merecido as mais desencontradas interpretações no decurso dos tempos pelo fato de, aparentemente, encerrar uma apologia à desonestidade e uma consagração à fraude.

Muitos supõem que o fato de Jesus recomendar que se deva "grangear amigos, com o dinheiro da injustiça", representa um incentivo à conquista de fortunas ilícitas, pois, afIrmam: "uma vez que se faça amigos com aquilo que é contraído desonestamente, não haverá maiores problemas".

Ninguém ignora, entretanto, que no Evangelho não existe nada dúbio, e que não é esse o espírito do ensinamento contido na parábola.

O mordomo infiel foi descoberto na prática de atos de desonestidade e, como decorrência, viu-se na iminência de perder o seu cargo. Agindo com verdadeiro espírito de previsão, ele achou que o caminho mais acertado, uma vez que já havia cometido o erro, seria aquele de grangear amigos, para que estes, quando ele estivesse privado da mordomia e na condição de penúria, o ajudassem como amigos.

Chamando todos os devedores do seu senhor, reduziu as dívidas de cada um, e o senhor, ao tomar conhecimento da sua atitude desleal e infiel, admirou-se de sua prudência. Jesus por sua vez esclareceu que "os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz".

Qual será a linha divisória entre os bens adquiridos legítima ou ilegitimamente?

O apóstolo Tiago, em sua Epístola Universal, assevera:

"O vosso ouro e a vossa prata se enferrujaram, e a sua ferrugem dará testemunho contra vós, e comerá fogo a vossa carne. Entesourastes para os últimos dias. Eis que o jornal dos trabalhadores que ceifaram as vossas terras, e por vós foi diminuído, clama." (Tiago, 5:3-4)

O usurpador dos bens do próximo tanto é aquele que rouba ostensivamente, como aquele que, no dizer judicioso de Tiago: "diminue o salário dos seus trabalhadores", locupletando-se com um patrimônio que poderia ter mitigado fome, proporcionando saúde, bem-estar, educação e até estancado lágrimas.

Tiago preconiza que, se o ouro ou a prata dos nossos tesouros materiais se enferrujarem, a ferrugem clamará contra nós. Ferrugem essa causada pela estagnação da riqueza, pela avareza, pela falta de uma aplicação sadia, que venha a beneficiar a coletividade; ferrugem simbolizada nas pessoas que mercantilizam com seus dons e com sua inteligência; ferrugem representada pelo saber, pelo conhecimento, que muitas pessoas guardam, egoisticamente, apenas para si.

Um indivíduo que, sem conhecer os seus reflexos no mundo espiritual, tenha adquirido uma fortuna ilegítima e resolve por um paradeiro em seu erro, obviamente poderá reduzir o clamor de que fala Tiago, e minorar as conseqüências do desajuste que sofrerá nos planos espirituais, tomando como exemplo o feito do publicano Zaqueu, (Lucas, 19:1-10), que, ao receber em seu lar a visita de Jesus, decidiu-se espontaneamente a repartir com os pobres metade da sua fortuna e a restituir quatro vezes mais às pessoas a quem havia espoliado.

Zaqueu fez como o mordomo da parábola: grangeou amigos com o dinheiro que havia acumulado através da prática da injustiça, e, quando se dispôs a reparar a falta, Jesus o elogiou, dizendo: "Zaqueu, hoje entrou a salvação em tua casa!"

A Parábola do Rico e de Lázaro, (Lucas, 16: 19-31), nos revela as conseqüências funestas com que se depara um Espírito que "não soube ser prudente, grangeando amigos com as riquezas contraídas com a prática da injustiça": o rico da parábola não encontrou amigos nos "tabernáculos eternos", nem para "molhar o dedo na água e refrescar a sua língua":

Ele não amparou Lázaro, não procurou ajudá-lo a encontrar meios de minorar as suas dores, e, como decorrência, após ultrapassar o limiar do túmulo, não obteve permissão para que Lázaro, que habitava "os tabernáculos eternos", viesse aplacar as atribulações que o acometiam.

O homem que Deus situa na Terra, cumulado de todas as prerrogativas, desfrutando das facilidades da saúde, da paz, da educação, dos benefícios do instituto familiar, mas que malbarata todos esses valores, simboliza o Mordomo Infiel, esbanjando os talentos que Deus, nosso Pai, lhe confiou.

Entretanto, como o filho deste século é mais prudente do que os filhos da luz, esse mordomo infiel poderá auxiliar o seu próximo, minorando seus sofrimentos, ajudando-o, desta forma, a ter mais força para levar avante a sua tarefa.

O mais apreciável bem que poderíamos fazer ao nosso semelhante, é, ajudá-lo no processo de auto-iluminação. A criatura esclarecida consegue evitar desvios e furtar-se à prática de atos danosos, que levam a contrair novas dívidas perante a Justiça Divina. Porisso, proclamou o Mestre:

"Conheça a verdade e ela vos fará livres".

Se alguém contribuir para elucidar um Espírito encarnado, iluminando a sua senda e proporcionando-lhe maiores condições de poder discernir o bem do mal, dando-lhe condições de diminuir suas dívidas para com a Justiça Divina, estará atuando como o Mordomo Infiel, que, apesar de ter esbanjado os talentos que Deus lhe confiou, soube ser diligente no gerir de sua vida material e, pelo menos, amparou o seu próximo, ajudando-o a carregar o seu pesado fardo: obviamente, esse seu próximo, agradecido, o ajudará como amigo quando, pela morte do corpo, for despojado da mordomia e se ver face aos "clamores" no mundo espiritual.

O mais formal desmentido às interpretações dúbias da parábola do Mordomo Infiel está contido nas últimas palavras da narrativa: "Pois se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras? E se no alheio não fostes fiéis quem vos dará o que é vosso?" Na realidade, Jesus deixa implícito nesse ensinamento sobre, se não soubermos aplicar a fidelidade no trato das riquezas injustas, quem nos confiará as riquezas verdadeiras, pois, é óbvio que a nossa infidelidade nas coisas pequenas, também é válida nas coisas grandes: se não soubermos ser fiéis naquilo que não é nosso, quem esperará a nossa fidelidade naquilo que é nosso?

O apóstolo Paulo recomendou que aprendêssemos a nos livrar das coisas corruptíveis para que pudéssemos entrar no gozo das coisas incorruptíveis: Se não soubermos gerir bem as coisas da Terra, como nos poderão ser confiadas as coisas do Céu?

Paulo Alves Godoy

4 - RODOLFO CALLIGARIS

Esta parábola, interpretada ao pé da letra, pode dar a entender que o Mestre esteja apontando o roubo e a fraude como exemplos de conduta dignos de serem imitados.

Considerada, porém, em seu verdadeiro sentido, segundo o espírito que vivifica, encerrra uma profunda lição de sabedoria e de bondade que poucos hão sabido entender.

Inicialmente, identifiquemos as duas principais personagens da historieta evangélica, e o local em que a ação se desenrola.

O rico proprietário é Deus, o Poder Absoluto que sustenta todo o Universo; o mordomo é a Humanidade, ou seja, cada um de nós; e a fazenda é o planeta Terra, campo em que se desenvolve atualmente nossa evolução.

Os bens que nos foram dados a administrar é tudo o de que nos jactamos estultamente nesta vida: propriedades, fortuna, posição social, família e até mesmo nosso corpo físico.

Todas essas coisas nos são colocadas à disposição pelo Supremo Senhor, durante algum tempo, a fim de serem movimentadas para benefício geral, mas, em realidade, não nos pertencem. A prova disso está em que sempre chega o dia em que seremos despojados delas, quer o desejemos, quer não.

Nossa infidelidade consiste em utilizarmo-nos desses recursos egoisticamente, como se fôssem patrimônio nosso, dilapidando-o ao sabor de nossos caprichos, esquecidos de que não poderemos fugir à devida prestação de contas quando, pela morte, formos despedidos da morrdomia.

Pois bem, já que abusamos da Providência, malbaratando os bens de que somos simples administradores, tenhamos ao menos o atilamento do mordomo de que fala a parábola.

Que fêz ele? Para ter quem o favorecesse, quando demitido do cargo que desempenhava, tratou de fazer amigos, reduzindo as contas dos devedores de seu amo.

E' o que Jesus nos aconselha fazer, quando diz: "granjeai amigos com as riquezas iníquas".

Em outras palavras, isto significa que os sofredores de todos os matizes são criaturas que se acham endividadas perante Deus, são pecadores que têm contas a saldar com a Justiça Divina, e auxiliá-los em suas necessidades, minorar-lhes as dores e aflições, equivale a diminuir-lhes as dívidas, de vez que, via de regra, todo sofrimento constitui resgate de débitos contraídos no passado.

Se assim agirmos, ganharemos a amizade e a gratidão desses infelizes, que se solidarizarão conosco quando deixarmos este mundo, bem assim a complacência do Pai celestial, porque muito Lhe apraz ver-nos tratar o próximo com misericórdia.

Não falta, aqui na Terra, quem admire "os filhos do século" pelo fato de se empenharem a fundo, com inteligência, denodo e sacrifícios até, no sentido de assegurarem aquilo a que chamam "o seu futuro".

Quão maiores louvores, entretanto, haveriam de merecer de Deus "os filhos da luz", os já esclarecidos acerca da vida espiritual, se procedessem com igual esforço e dedicação, empregando a bondade na conquista dos planos superiores, situados além deste orbe de trevas?

Sejamos, pois, colaboradores fiéis da Diivindade, gerindo os bens materiais de que dispusermos em conformidade com os ensinamentos sublimes que nos foram ditados por Jesus no Sermão da Montanha; assim fazendo, estaremos acumulando, no céu, um tesouro verdadeiramente imperecível. Sim, porque as virtudes cristãs, que formos adquirindo no convívio com nossos semelhantes, são as únicas riquezas efetivamente nossas, e só elas nos poderão dar a felicidade perfeita, nos tabernáculos eternos!

Rodolfo Calligaris

5 - A PARÁBOLA DO MORDOMO INFIEL - THEREZINHA OLIVEIRA

Havia um homem rico que tinha um mordomo.
E este foi denunciado perante ele por lhe haver dissipado bens.
Chamou-o e lhe disse:
Que é isto que ouço falar de ti? Presta contas de tua mordomia, pois já não poderás ser mais meu mordomo.
O mordomo refletiu, então, consigo:
Que farei, visto que o meu senhor me tira a mordomia? Lavrar a terra não posso. De mendigar tenho vergonha. Já sei o que hei de fazer para que haja quem me receba em sua casa, quando for desapossado da mordomia.
E, chamando separadamente a cada um dos devedores do seu senhor, perguntou ao primeiro:
- Quanto deves ao meu senhor? -100 barris de azeite.
- Toma a tua obrigação, senta-te já e escreve: 50.
Depois, disse a outro:
- E tu, quanto deves? -100 sacas de trigo.
- Toma as tuas letras e escreve: 80.

E elogiou aquele senhor o mordomo infiel por haver procedido prudentemente; porque os filhos deste mundo são mais prudentes na sua geração do que os filhos da luz.

E eu vos digo: granjeai amigos com as riquezas da iniquidade, para que no dia em que elas vos faltarem, eles vos recebam nos tabernáculos eternos.

Observação: As medidas usadas foram cados (para o azeite) e coros (para o trigo) diz Carlos Torres Pastorino, em Sabedoria do Evangelho, volume 6, página 26. Aqui as adaptamos para as medidas mais usadas entre nós.

A difícil interpretação
Esta parábola foi registrada apenas por Lucas e sua interpretação, no aspecto moral, parece muito difícil, em princípio, porque: um homem dissipa os bens do seu senhor, é denunciado e vai ser demitido; para conseguir a benevolência e ajuda dos que devem ao senhor, frauda na prestação das contas. E é elogiado?! E Jesus nos diz para imitá-lo?! Parece uma exaltação da esperteza desonesta! Jamais o Mestre ensinaria algo moralmente mau. Para alcançar o verdadeiro sentido da parábola, aprofundemo-nos em seu simbolismo.

Que é um mordomo

A expressão vem do latim maior domus (o maior na casa) e designa o chefe dos criados de um soberano ou de uma casa de grande estado. Sua função é administrar a casa, os bens do Senhor, e supervisionar o trabalho dos demais servos, empregados, com eficiência e fidelidade. Foi o que não fez o mordomo da parábola. Como consequência está perdendo o emprego e tem de fazer logo uma prestação de contas de tudo ao seu senhor.


Ante a situação

Que hei de fazer? pergunta-se ele.
Está preocupado, mas não desanimado nem inerte. Examina a situação, procurando uma solução, verificando as alternativas.

Lavrar a terra? Não posso! Por que não? Há muito tempo estava realizando apenas o trabalho de organização e administração dentro de casa, evidentemente estaria destreinado, sem condições físicas para voltar ao serviço braçal no campo, sob o sol inclemente, cavando a terra.
Mendigar? Tenho vergonha! Até agora dispunha, mandava, distribuía em nome do Senhor. Seria muito humilhante para ele passar a pedir o socorro de outros, ou ficar na dependência de alguém.

Já sei o que hei de fazer. Encontrou uma solução que o beneficiaria. E se pensou, logo colocou em prática, antes que se vencesse o prazo dado pelo senhor, enquanto ainda tinha poder para decidir alguma coisa.

Por isso o senhor o elogiou. Não pela desonestidade, mas porque fora hábil no decidir e rápido no agir, conseguindo resolver de imediato o seu problema pessoal e, ainda, abrir perspectivas melhores para o seu futuro.

A atualidade da parábola

Por que Jesus contou essa parábola aos que o ouviam? Talvez achasse que a situação espiritual deles estivesse tão difícil e premente quanto a do mordomo infiel, especialmente os que administravam a nação israelita: os sacerdotes, os anciãos e também os fariseus.

Mas o ensinamento de Jesus não se limitou à orientação do povo daquela época. Os problemas humanos continuam os mesmos, já que têm origem no espírito imortal, e a instrução moral do Evangelho, que perdura junto à humanidade, lhe serve, ainda e sempre, de diretriz salvadora. Será que a nossa situação espiritual também está em perigo iminente? Em quê? Por quê? Como? A continuação do estudo da parábola nos esclarecerá.

O homem rico

É Deus, o Senhor de tudo o que existe. Muitas e importantes são as suas propriedades, os mundos habitados, as moradas espalhadas pelo vasto Universo que Ele criou. Uma delas é a Terra, mundo de provas e expiações, habitada por muitos servos seus, os espíritos encarnados.

O seu mordomo na Terra


É a espécie humana, que se sobrepõe a tudo e a lodos, porque nela o princípio inteligente (criado por Deus e que anima todos os seres vivos) já se tornou um espírito (atingiu a escala humana).

Mais desenvolvido, cônscio de si mesmo, está capacitado a agir consciente e voluntariamente sobre seres e coisas.

Mordomos divinos de Deus na Terra! Eis o que somos nós, os seres humanos. Cada qual (segundo seu grau evolutivo) dispõe de coisas e seres e é por eles responsável, diante de Deus. Alguns respondem pelo governo de povos e nações, outros comandam grupos sociais, dirigem religiões. Muitos respondem por uma família mas, no mínimo, cada um cuida ao menos de si mesmo, de seu corpo e de sua mente, da vida que possui.

É bom ser mordomo do Senhor na Terra. Ser humano, ser gente, é uma boa situação. Acarreta encargos e responsabilidades maiores, que os seres nas escalas inferiores não têm, mas o salário espiritual também é maior, pois se usufrui muito mais de tudo o que Deus criou. Exatamente como Jesus nos ensinou: a cada um segundo suas obras (Mateus 16:27) e digno é o obreiro de seu salário (Lucas 10:7).

A confiança de Deus em nós


O Senhor nos fez seus mordomos na Terra!... Entregou-nos a guarda e direção da vida neste planeta. Que grande prova de confiança! Ele sabe que estamos capacitados para isso, pois nos criou sensíveis, inteligentes e capazes de ação sobre coisas e seres.

Inspiradamente, Tagore escreveu "As crianças são a prova de que Deus não perdeu a confiança nos homens", caso contrário, o Pai não continuaria a nos entregar, em corpos tenros e inteiramente dependentes de crianças, a vida de filhos seus e irmãos nossos.

E na parábola dos talentos, Jesus coloca que um homem tendo de viajar, ausentándo-se do país, confiou os seus bens aos seus servos e depois partiu. Essa "ausência", após haver entregado os bens, expressa o livre-arbítrio que Deus nos concede para agir na vida.

Com que liberdade agimos sobre os recursos que Deus coloca ao nosso alcance! É tanta, que até chegamos a nos sentir como donos... Mas não somos! Os bens não são nossos e, sim, do Senhor. Apenas os estamos administrando, empossados neles de modo temporário e precário. O Senhor vai voltar e teremos de prestar contas!

Nossa função é a de mordomo: cuidar de seres e bens do Senhor, segundo a vontade e desígnios Dele, procurando preservar e fazer render todo o possível para o bem geral nesta casa do Senhor, a Terra.

Temos feito isso? Estamos sendo mordomos fiéis? Ou usufruindo egoisticamente, em proveito próprio? Ou deixando sejam usados sem controle nem responsabilidade na área de nossa influência? Essa negligência e irresponsabilidade nossa como mordomos acarreta dissipação dos bens do Senhor, desordem em sua casa.

A denúncia

A parábola não diz quem denunciou ao senhor o mordomo infiel que lhe havia dissipado bens mas, quanto a nós, espíritos, a lei de causa e efeito é que aponta tudo que fazemos ou deixamos de fazer, na Terra ou onde estivermos.

Pela repercussão de nossos atos na vida, sobre coisas e seres, Deus está "ouvindo" falar de nós! Se os atos são maus, o que está escutando de nós não é bom... Se maus ou omissos, pois não fazer o bem que se pode já é um mal.

Como o senhor na parábola chamou o mordomo denunciado, Deus também está nos chamando e pergunta: Que é isto que ouço falar de ti?
Deus nos chama e nos fala pela voz da consciência, nas instruções e apelos espirituais que nos vêm de encarnados ou não e, ainda, pelos efeitos que nossos atos estão causando em nós e naqueles que nos rodeiam.

Um mordomo prudente e fiel está sempre atento à prestação de contas que terá de fazer, mantendo tudo anotado e correto. O mordomo infiel, invigilante, não presta atenção no que está acontecendo, faz ouvidos moucos aos reiterados sinais e avisos que lhe chegam e só percebe que a situação ficou difícil, quando recebe...

O ultimátum

Presta contas da tua mordomia, pois já não poderás ser mais meu mordomo.

O senhor pode nos tirar a mordomia, destituir-nos de encarregados seus neste mundo, fazendo-nos perder situações, haveres ou pessoas.

E há um ultimátum que todos, um dia, recebemos. É fatal, decisivo, não podemos evitar de receber e não temos como lhe resistir: é a morte, a desencarnação, que nos desapossa inteiramente de toda mordomia terrena.

Se Deus não a tirasse de nós, continuaríamos usando abusiva e irresponsavelmente os bens da vida, sem querer prestar contas, de nada, a ninguém, nunca! Por isso mesmo, em nosso atual estado evolutivo, a morte física, a desencarnação, é uma imposição necessária e providencial, periódico e obrigatório "balanço", para que revisemos, reajustemos, renovemos nosso modo de ser e agir.

Com Jesus, isso não precisa acontecer: Por isto o Pai me ama, porque dou a minha vida para tornai a tomá-la. Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho o poder para a dar e poder para tornar a tomá-la. Este mandamento recebi de meu Pai. (João 10:17/18) Deus nunca precisa tirar de Jesus a mordomia na Terra ou no plano espiritual porque Jesus emprega sua vida em que, como e quando a lei de Deus o quer.

Para o mordomo fiel, a obrigatória prestação de contas é um processo natural e tranquilo, sem sustos ou aflições. Deus o acha fiel. Empregou bem seus encar¬gos e poderes, portanto, eles não lhe são retirados, é mantido neles na vida espiritual ou pela reencarnação; e ainda lhe são confiados novos bens e oportunidades, como confirma a parábola dos talentos: Sobre o pouco foste fiel, sobre o muito te colocarei.

Mas como fica o mordomo infiel, quando a morte o desaloja dos bens e encargos terrenos? Nada construiu de bom espiritualmente, fica sem perspectivas boas de futuro, tanto para a vida no plano espiritual como em relação à sua próxima reencarnação.
E se ficarmos nessa triste situação, como o infiel mordomo, o mau administrador da parábola? Para ele, achávamos: errou, que se cumpra a justiça divina! Para nós, pedimos: misericórdia!

Que hei de fazer?

Como enfrentarmos a situação? Tentar negar, refutar as acusações? Tolice. São verdadeiras. Por descuido ou má-fé, dissipamos mesmo.

O mordomo infiel não perdeu tempo procurando inutilmente se desculpar. Em vez disso, examinou as possibilidades reais de saída.

Quando desalojados deste mundo pela desencarnação, quais as nossas possíveis alternativas? Será que iremos:

Lavrar a terra?

Enfrentar situações mais primitivas e rudes, como, por exemplo:

Ao desencarnar, ficarmos presos no umbral inferior, região fluídica habitada por espíritos sofredores ou maus;

Ou, ao reencarnar: nascer com enfermidades, limitações físicas; ao abandono de família; na miséria; no Idiotismo; em local inóspito, como as geleiras, os desertos, a selva... Se bem que, a reencarnação é sempre uma bênção e, onde quer que estejamos, como e com quem estivermos, sempre é possível viver, progredir, construir um futuro melhor. Mas, ante tudo de que hoje desfrutamos, acostumados a atividades melhores, recursos maiores, não nos será fácil viver nessas outras condições, nos sentiremos despreparados, é uma alternativa que não nos agrada.

Mendigar?

Agora, dispomos de muitos recursos materiais e espirituais e com eles, dentro da vida e em nome de Deus: decidimos, realizamos, coordenamos, distribuímos. E se viermos a ficar em carência espiritual, na dependência de outros para existir e sobreviver? Que vergonha!

Se bem que, se isso vier a nos acontecer (e para alguns já pode ter acontecido nesta reencarnação) o melhor é: enfrentar com humildade, resignação e coragem, procurando nos recuperarmos, para, no futuro, voltarmos a fazer jus à situação e funções de mordomo espiritual.

Mas, apesar de já avisados a respeito pelo Senhor, ainda não morremos (a desencarnação ainda não se deu), ainda somos mordomos (mesmo que infiéis), ainda desfrutamos de certas condições neste mundo, temos a chance de acharmos outra saída (uma solução melhor) e exclamar, como o mordomo da parábola...

Já sei o que hei de fazer!

Qual a solução encontrada por ele? Chamou a si os devedores de seu senhor. Eram pessoas que também dependiam do senhor para viver e dele haviam recebido azeite e trigo, combustível e alimento (simbolizando o indispensável para a sustentação e sobrevivência do ser) e ainda não haviam pago, continuando em débito.

Chamou-os separadamente, discretamente, um a um, para uma conversa amiga, informando-se dos débitos de cada um.

Para quê? A fim de permitir que os diminuíssem. Podia fazê-lo? Sim, pois ainda estava na função de mordomo.

Que ganhou, agindo assim? Granjeou amigos que, quando ele fosse desalojado da mordomia, o ajudariam a sobreviver.

Que esperto! Mas não agiu por bondade e sim, por interesse pessoal... Não obstante, os que foram beneficiados, sentindo-se aliviados em suas dívidas, ficaram gratos ao mordomo e sentindo-se seus amigos.

Espíritos encarnados na Terra, estamos na situação de mordomos dos muitos recursos que Deus nos confiou.

Deveríamos estar cuidando bem de tudo para que houvesse boas condições e progresso para todos. Em vez disso, temos sido negligentes e infiéis.

Avisos? Já recebemos muitos do Senhor, através dos recursos usuais: a voz da consciência, os efeitos de nossos atos, as instruções e apelos para o bem. O mais forte, contudo, é a certeza de que um dia desencarnaremos e teremos de prestar contas de tudo. E a desencarnação pode acontecer logo, hoje! Pensando nisso, como reagimos? Temos medo ante o que dizemos ser o desconhecido mas em verdade não o é; tristeza porque teremos de deixar a vida corpórea com tudo que nela nos agrada; desânimo diante do inevitável da desencarnação, mas sem nada fazermos de útil, válido e positivo para mudar a situação.

Lembremos da solução encontrada pelo mordomo infiel e entendamos bem o conselho de Jesus...

Granjeai amigos com as riquezas da iniquidade

Quais são elas? Quase tudo na vida, as situações, bens e poderes neste mundo são riquezas da iniquidade, porque injustas, pois, embora as tenhamos e desfrutemos, espiritualmente não fizemos por merecer. Ou são concessões divinas como empréstimos, adiantamentos de condições espirituais, ou situações ensejadas por circunstâncias da vida terrena que, bem sabemos, nem sempre são justas e lícitas perante Deus. Portanto, quase tudo que temos ou de que dispomos não é justo. Mas com tais riquezas, bens e situações, mesmo imerecidos, como e quanto podemos ajudar aos nossos semelhantes!

Mordomos infiéis, convém nos interessemos pelos nossos semelhantes. Como nós, também devem a Deus, pois todos recebemos do Pai muitos recursos e bênçãos, valores maiores e mais fundamentais para a vida da alma do que o azeite e o trigo são para a vida do corpo. E nenhum de nós pagou ainda ao Criador tantas bênçãos, pois, não produzimos de acordo com o que recebemos, não retribuímos devidamente o investimento divino em nós.

Interessemo-nos, principalmente, em favor daqueles por quem somos mais diretamente responsáveis diante de Deus: família, grupo religioso, social. Discreta e fraternalmente, procuremos saber de seus débitos para com Deus, de sua situação espiritual, e, com os recursos de, que ainda dispomos, o que sabemos e podemos neste mundo, diminuamos esses problemas, suavizemos suas dores!

Assim, mesmo sendo mordomos infiéis, não tendo sabido administrar direito os bens da vida, tendo feito ou permitido a dissipação nos bens do Senhor que estavam sob nossa guarda, beneficiaremos pessoas e granjearemos sua amizade com essas riquezas e possibilidades imerecidas. E, quando essas riquezas, recursos ou possibilidades de que dispomos, nos faltarem de todo (e vão faltar, mesmo, pois desencarnando, seremos desalojados da nossa mordomia), não ficaremos desamparados: aqueles a quem ajudamos, e por isso, se tornaram nossos amigos, nos receberão nos tabernáculos eternos, nos acolherão em seu coração, no campo do sentimento, em seu espírito imortal.

É a solução da ajuda mútua, do amor fraterno, o investimento na caridade, a "poupança" espiritual. Deus quer que nos amemos uns aos outros. Ajudar é amar. Ajudemo-nos mutuamente.
Temos agido assim? Apesar dos avisos divinos, perdemos tempo e oportunidades sem nada fazermos de concreto, de efetivo, para melhorar nossa situação espiritual ante a vida. E poderíamos fazê-lo, simplesmente sendo fraternos, caridosos!

Mais prudentes que os filhos da luz

Por isso Jesus nos diz que os filhos deste mundo (os materialistas) são mais prudentes em sua geração, em relação à vida terrena, seus negócios e interesses materiais, são mais atilados, agem com mais previsão e maior empenho do que os filhos da luz (os espiritualistas) o fazem, em relação aos seus interesses da vida imortal.

Apesar de saber que estamos em situação tão aditiva e premente como a do mordomo infiel da parábola (faltosos e chamados, em breve, a prestar contas), não procuramos solucionar nosso problema espiritual com tanto empenho, inteligência e presteza, como os materialistas o fazem em relação às coisas do mundo terreno.

E ainda afirma Jesus, ao final:

Quem é fiel no mínimo, também é fiel no muito; quem é injusto no mínimo, também é injusto no muito.

Mínimo é o que é material e muito, o que é espiritual. Quem não controla e dirige o pouco, não pode, não sabe, administrar nem dirigir o muito. Primeiro recebemos: bens materiais, encargos menores, pequenas oportunidades para ensaiarmos nossa atividade espiritual, demonstrarmos nossa capacidade de ação boa, acertada.

Pois, se nas riquezas injustas não fostes fiéis, quem vos confiará as verdadeiras?

Se nem os bens, as oportunidades materiais, da vida terrena (que são as riquezas injustas e mínimas), soubermos utilizar com fidelidade (em prol da vida espiritual) como nos confiarão as riquezas verdadeiras, os bens do espírito para gerirmos e cuidarmos?

E se no alheio não fostes fiéis, quem vos dará o que é vosso?

Quando o bem é alheio, toma-se mais cuidado em utilizá-lo, do que com os bens que nos pertencem, porque dele devemos prestar contas. No que é nosso, agimos mais à vontade, com menos preocupação. Ora, se no alheio não temos cuidado, se, nos bens e oportunidades que Deus nos emprestou não agimos com responsabilidade, como nos entregarão o que será nosso em definitivo, os bens e as possibilidades espirituais, que serão para usarmos com toda a liberdade e sempre? A filho esbanjador com o que lhe damos agora, confiaremos logo toda a sua herança?

Desejamos ser dignos de bens maiores? Administremos com fidelidade (usemos com acerto) os que temos em mãos agora, assim testemunhando que estamos aptos a coisas maiores.

Não temos sido fiéis? Apressemo-nos em nos interessar pelos que também devem a Deus: os nossos semelhantes! Ajudemo-los a reconhecerem seus débitos, a entenderem no que estão errados, explicando-lhes as leis divinas.

E, com o melhor sentimento de caridade, ajudemo-los a suportarem ou superarem suas dificuldades e, também, a corrigirem o rumo de suas vidas.

Diminuamos as dores dos que sofrem, os problemas dos que erram, suavizando um pouco a situação deles perante a lei divina.

Certamente, entre eles e nós, se estabelecerão laços de amizade e confiança, o afeto puro com que também nos acolherão em nossas necessidades, aqui ou no Além.

Mas façamos isto rápido, enquanto temos autoridade, poder e bens, possibilidades concedidas por Deus, ensejadas por esta reencarnação, antes que o Senhor nos tire a mordomia.

É inegável que temos sido mordomos infiéis, maus administradores dos bens da vida, mas Jesus nos ensinou que no amor ao próximo está a esperança legítima e a inabalável certeza de conseguirmos equilibrar as nossas contas na contabilidade divina.

Fora da caridade, não há salvação.

7 -

INVESTIMENTOS

Investimentos - Parábola do Administrador infiel

Lucas, 16:1-13

O empresário foi informado de que um de seus administradores o roubava. Indignado, disse-lhe:
- O que é isso que ouço dizer de ti? Dá-me conta de tua administração, pois já não poderás ser meu administrador!

Geralmente os funcionários desonestos são perdulários.
Gastadores compulsivos, são candidatos certos à corrupção. Valem-se do dinheiro alheio, sem nenhum escrúpulo. Não raro, esbanjam tudo, sem o cuidado de algo reservar para o futuro.
Foi o que aconteceu com o tal administrador.
Em vias de perder o emprego, sentia-se perplexo e assustado.
- E agora? Que hei de fazer, já que o meu amo me tira a administração? Trabalhar na terra não sei. De mendigar tenho vergonha...

Com a engenhosidade dos corruptos, concluiu:

-Já sei o que farei, a fim de que, quando for despedido do meu emprego, haja quem me receba em sua casa.

Chamou vários devedores e perguntou ao primeiro:
- Quanto deves ao meu patrão?
- Cem medidas de azeite.
- Pois então, toma a tua conta, senta-te e escreve depressa cinquenta.
- E tu, quanto deves?
- Cem alqueires de trigo.
- Toma a tua conta e escreve oitenta.

Assim, foi se arrumando.
Vê-se que o "jeitinho brasileiro", que quase sempre exprime desonestidade, é apenas um nome novo para velho problema, que existe desde Adão e Eva. O mitológico casal foi expulso do paraíso por infringir um regulamento divino.
O "homo sapiens", o ser pensante, bem pode ser definido também como um "homo corruptus", o ser corrompido.

É próprio do estágio de evolução em que nos encontramos, num planeta atrasado, governado pelo egoísmo, em que os interesses pessoais prevalecem sobre o Bem e a Verdade.

***

Comentando a parábola, diz Jesus:
- Os filhos do mundo são mais hábeis em defender seus interesses do que os filhos da luz.

Filhos do mundo - os que vivem em função de efêmeros interesses materiais.
Filhos da luz - os que vivem em função de imperecíveis valores espirituais.
Os primeiros são agressivos.
Não vacilam em exercitar a mentira e a desonestidade para alcançar seus objetivos.
Alguns exemplos:

A vendedora tem dificuldade em encontrar vestido adequado para a freguesa, um tanto avantajada nas formas.
O único que se aproxima de suas medidas está exageradamente apertado, beirando ao ridículo.
A lojista demonstra artificial entusiasmo:
- Caiu como uma luva. Lindo, lindo!
E lá se vai a senhora com um traje que lhe imporá triste figura.

O técnico verifica que não há defeito no aparelho eletrônico. Apenas mau contato num componente. Engabela o freguês:
- E preciso trocar o cabeçote e o sintetizador.
E fatura algumas dezenas de reais, em suposto conserto.

O paciente terminal está prestes a expirar. O médico recomenda:
- Vamos interná-lo na UTI. Haverá possibilidade de recuperá-lo.
E a família iludida apenas prolonga a agonia do paciente, engordando a conta bancária do desonesto comerciante da medicina.

O proprietário do posto de gasolina orienta o gerente:
- Acrescente dez por cento de água em nossos tanques.
E amplia seu rendimento, em detrimento dos automóveis que ali abastecem.

Em princípio, os filhos do mundo fazem sucesso, têm facilidade para ganhar dinheiro com sua enganação. Mas há dois problemas.

Primeiro: perdem a confiança das pessoas e acabam mal.
Segundo: perdem o compasso da Vida. São intranquilos, tensos. Isso sem falar das cobranças que lhes serão feitas quanto retomarem ao plano espiritual, em face de seus comprometimentos com a mentira.
Os filhos da luz vão mais devagar, não vivem em função de seus negócios.
Atentos aos ditames da própria consciência, recusam-se a iniciativas que possam causar prejuízo a alguém ou contrariar os dispositivos da lei.
A vendedora à freguesa:
-Nosso estoque está desfalcado. Sugiro que procure a loja ao lado, que tem modelos lindos. O técnico ao proprietário do aparelho:
- Não havia problema algum. Apenas uma tomada com mau contato, que acertei. Não há nada a pagar.
O médico à família do moribundo:
- Levá-lo para a UTI apenas vai prolongar sua agonia
O proprietário do posto de gasolina ao gerente.
- Não fazemos trambiques.
Estes em princípio levam desvantagem na selva sombria dos interesses humanos. Com o passar do tempo, conquistam espaço. São confiáveis.
E há o prêmio maior - as benesses divinas.
Harmonizam-se com os ritmos da vida, alma em paz.
Estarão sempre bem amparados e habilitados a feliz retomo à Espiritualidade, quando chegar sua hora.

***

Recomenda Jesus:

Por isso vos digo: das riquezas de origem iníqua fazei amigos, para que, quando estas vos faltarem, os amigos vos recebam nos tabernáculos eternos.

Riquezas de origem iníqua são as conquistadas de forma desonesta. E' o que chamaríamos de dinheiro sujo.
Jesus diz que devemos usá-lo para fazer amigos e receber benefícios em relação à vida eterna.
Levando ao pé da letra, imaginemos o traficante de drogas, que enriquece à custa do vício e da desgraça alheia.
Cogita com seus botões:
- Vou dar uma parte do que arrecadar aos pobres para merecer as bênçãos divinas. Negativo.
Além de candidatar-se a penosos resgates pelo -mal que está fazendo a muita gente, há o agravante de querer comprar a justiça divina. Suas doações não reduzirão, em um único centavo, o montante de seus débitos.
Menos mal seria se, reconhecendo os crimes que cometeu, assumisse compromisso diferente:

- A partir de hoje encerrarei minha carreira criminosa e todo o dinheiro que arrecadei vou doar a instituições de benemerência social.

***

O espírito da parábola é mais profundo.
Jesus reporta-se ao indivíduo que se multiplica em interesses comerciais; que acumula ouro e poder, pensando unicamente no próprio bem-estar.
Ainda que cumpra as leis, sua riqueza é iníqua.
Para compreender seu pensamento, consideremos algo fundamental:
Ninguém é proprietário de nada.
Todos os patrimónios do Universo pertencem a Deus.
Tanto é verdade que, por mais rico seja o indivíduo, não levará um só centavo para o Além, quando convocado pela morte, ainda que seja sepultado num caixão forrado de ouro e repleto de pedras preciosas.
O esperto dirá:
- Guardarei para o futuro. Reencarnarei como filho de meu filho e terei meus patrimónios de volta.
Pobre tolo!
E' mais provável que reencarne como filho de seu mais humilde serviçal ou algo semelhante, para que supere o apego aos bens materiais.
Em nosso próprio beneficio, imperioso não esquecer que somos apenas administradores de bens que detemos precariamente.
Se o homem rico só pensa em si mesmo, estará usando em proveito próprio uma riqueza que pertence a Deus.
E' o caso do administrador, na parábola. Imaginemos um milionário ao reconhecer essa realidade:
- Os patrimônios que movimento pertencem a Deus. Vou fazer o melhor com eles, favorecendo os meus semelhantes.
Então, uma riqueza que sob o ponto de vista espiritual era desonesta, porque só atendia às suas conveniências, será depurada, à medida que for usada para ajudar muita gente.
E ele conquistará amigos para a vida eterna.
Cada beneficiário de suas iniciativas será alguém disposto a ajudá-lo, em seu retorno à pátria comum. Terá muitas testemunhas de que agiu com prudência e sabedoria

***
Quem é fiel no pouco também é fiel no muito, e quem é injusto no pouco também é injusto no muito. Se, pois, não
fostes fiéis nas riquezas vãs, quem vos confiará as verdadeiras? Se não fostes fiéis no alheio, quem vos confiará o que é vosso?

Os bens materiais não nos pertencem - é tudo de Deus.
E os detemos em caráter precário - não irão conosco para o Além.
Se não somos fiéis em relação a eles, administrándo-os com desprendimento, em proveito da coletividade, como conquistar a riqueza inalienável, envolvendo a caridade, a bondade, o amor?

***

Jesus termina a parábola dizendo:

Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou há de aborrecer-se de um e amar o outro ou se devotará a um desprezará o outro.
Não podeis servir a Deus e às riquezas.

Não podemos pretender, ante essas afirmativas, que o homem rico distribua todos os seus haveres, livrando-se da riqueza para servir a Deus.
Estamos longe do desprendimento total. Além do mais, escoaríamos nossos bens pelo sorvedouro das necessidades alheias e seríamos apenas mais um carente.
Podemos servir a Deus, mesmo sendo ricos, desde que não sejamos servos do dinheiro, evitando que ele comande nossas iniciativas.
Seria fazer do dinheiro um meio, nunca a finalidade da vida, o que nos escravizaria a ele, impedindo-nos de usá-lo em favor do bem comum.
Se sentimos dificuldade em abrir a bolsa, abramos primeiro o coração.
Compadecendo-nos de nossos semelhantes, exercitando legítima solidariedade, aquela que sofre com o sofrimento alheio, não teremos dificuldade em mobilizar nossos recursos em seu benefício, como leais administradores de Deus.

***

Há um aspecto que merece nosso cuidado.
Maus administradores dos recursos divinos que Deus coloca em nossas mãos, vacilamos diante das necessidades alheias.
Ganhemos pouco ou muito, nossas necessidades, envolvendo conforto e bem-estar, segurança e tranquilidade para nós e os familiares, parecem-nos inesgotáveis, mobilizando todos os nossos recursos.
Por isso o ideal seria investir no que chamaríamos de
uma poupança para a vida eterna. Estabelecer um percentual de nossos rendimentos, formando um "fundo de beneficência".
Assim, quando solicitados a participar de campanhas variadas em favor da coletividade, não haverá problema. Recorreremos ao "dinheiro de Deus", que provisionamos.
A experiência demonstra que os que fazem assim colhem rendimentos de alegria, paz e saúde como jamais lhes proporcionaria o mais rentável negócio.

Richard Simonetti