PARÁBOLA DO RICO E LÁZARO

"Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de linho finíssimo, e que todos os dias se regalava esplendidamente. Havia também certo mendigo, chamado Lázaro, coberto de chagas, que estava deitado ao seu portão, desejoso de fartar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico, mas ninguém lhas dava; e os cães vinham lamber-lhe as úlceras. "Morreu o mendigo, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico, e foi sepultado. No Hades, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe Abraão e a Lázaro no seu seio. E clamou: Pai Abraão, tem compaixão de mim! E mande a Lázaro que molhe a ponta do seu dedo, e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama!

Mas Abraão respondeu: Filho, lembra-te de que recebeste os teus bens na tua vida e Lázaro do mesmo modo os males; agora, ele está consolado, e tu em tormentos. Demais, entre nós e vós está firmado um grande abismo, de modo que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os de lá passar para nós. Ele replicou: Pai, eu te rogo, então, que os mandes à casa de meu pai (pois tenho cinco irmãos) para os avisar a fim de não suceder virem eles também para este lugar de tormento! Mas Abrão disse: Eles têm Moisés e os profetas ouçam-nos. Respondeu ele: Não, Pai Abraão, mas se alguém for ter com eles dentre os mortos, hão de se arrepender. Replicou-lhe Abraão: se não ouvem a Moisés e aos profetas tampouco se deixarão persuardir, ainda que ressuscite alguém entre os mortos".

(Lucas, cap. XVI, v. 19-31)

1 - CAIRBAR SCHUTEL

Este ensino é a proclamação da lei da caridade, cuja execução é imprescindível para todos os que se abrigam sob o seu pálio santo, como também para os que fogem aos seus generosos convites. O rico e o pobre Lázaro personificam a Humanidade, sempre rebelde aos ditames da luz e da verdade. O rico gozou no mundo e sofreu no espaço; Lázaro sofreu no mundo e gozou no espaço. Este rico que se vestia de púrpura e que todos os dias se regalava esplendidamente, é o símbolo daqueles que querem tratar da vida do corpo e esquecem-se da vida da alma. São os que buscam a felicidade no comer, no beber e no vestir; são os que se entregam a todos os gozos da matéria, são os egoístas que vivem unicamente para si, os orgulhosos que, entronados nos altares das paixões vis, da vaidade, da soberba, não vêem senão o que lhes pode saciar a sede de prazeres, não cultivam senão a luxúria, que mata os sentimentos afetivos e anula os dotes de coração.

O rico é a personificação daqueles que são escravos do reino do mundo, que não vêem mais do que o mundo, esse "paraíso perdido" entre os charcos da degradação moral, que avilta as almas e as atira aos infernos hiantes dos vícios. Jesus falava geralmente por parábolas; e esta lição que o Mestre ofereceu há 2.000 anos aos povos da Palestina, e que consta do Evangelho de Lucas como um conselho salutar e memorável, nada é mais do que uma parábola; é um ensino alegórico, representativo do que se passa no espaço, para afirmar que a nossa vida ultra-tumba, é uma consequência justa e equitativa da nossa existência na Terra.

O rico passou toda a sua vida a se fartar esplendidamente, a desprezar os pobres, a desprezar Deus, a não curar da sua lei, a dar as costas à religião, a gozar e a folgar, mas, quando morreu, não pode continuar a viver como vivia, vestindo-se de púrpura, comendo manjares, bebendo licores, porque no mundo dos Espíritos não há púrpuras, não há manjares, não há licores. Ele já se havia fartado com os prazeres da Terra, não podia fartar-se depois com os prazeres do Céu, porque não os havia buscado, nem havia adquirido o tesouro com que se conquisa as glórias celestes. Nu, sem dinheiro, sem crédito para arranjar melhor "morada", lhe foi destinado o Hades, e, segundo diz o texto, ele lá se achava, contrariado, por lhe faltarem as comodidades que tivera na Terra, os gozos de que fizera o seu reino no mundo.

Lázaro representa os excluídos da sociedade terrena, aqueles que, quando muito, podem chegar ao portão dos grandes templos, aqueles que não podem atravessar os umbrais dos palácios dourados, aqueles que essa sociedade corrompida do mundo despreza, amaldiçoa, cobre de labéus, crava de setas venenosas que lhes chagam o corpo todo.Os Lázaros não são esses pobres orgulhosos do mundo, que não têm muitas vezes o que comer e o que vestir, mas estão cobertos com a púrpura do orgulho; não é essa gente que não tem dinheiro mas tem vaidade; não tem palácios, mas tem egoísmo; não tem jantares opíparos, mas tem prazeres nefastos; não, os pobres, de que Lázaro serviu de símbolo na parábola, são os que sofrem com resignação, são os que desprezam os bens da Terra, porque buscam as coisas de Deus, são aqueles que se vêem usurpados daquilo que por direito lhes pertence no mundo, mas, pacientes e resignados, não se revoltam, porque crêem no futuro e esperam as dádivas que lhes estão reservadas por Deus.

Eles sabem, porque estudam, esperam e oram, que existe um Criador, um Pai Supremo, que lhes dará o prêmio de suas vigílias, um salário pelos seus afazeres morais, uma luz para sua orientação espiritual; e que esse prêmio, esse salário, essa luz, embora às vezes, pareça tardar, não faltará, porque a justiça de Deus é infalível, é indefectível! E assim que morreu Lázaro, o mendigo, e foi conduzido pelos anjos ao seio de Abraão; morreu também o rico e foi posto no Hades. Duas personalidades distintas uma que gozou, outra que sofreu; uma a quem nada faltava, outra aquem tudo faltava, vão trocar agora as suas condições; vão mudar de cenário: o mendigo vai para a abundância, e o rico é que passa a mendigar! É o reverso da medalha, que se apresenta a todos no dia do julgamento.

Vós tendes visto muitas medalhas? Figuremo-las numa libra esterlina: de um lado traz a figura do rei, mas, do outro traz o seu valor real. Assim acontece também conosco. Cada um de nós é uma medalha; e como a medalha, a libra de ouro vale segundo o câmbio corrente, assim também nós valemos de acordo com o câmbio espiritual, que taxa o valor das nossas almas. Aqueles que olham só a efígie, não conhecem o valor do dinheiro, porque a efígie, o verso da medalha, traz só o retrato do rei, e a medalha não vale o rei. Assim também os que olham o homem só pelas aparências, pelo exterior, não conhecem o homem, porque o exterior do homem é a efígie da vaidade, do egoísmo e do orgulho. O que vale na medalha é o reverso; o que vale no homem é o interior, ou seja, o Espírito. O rico trazia no verso o característico do rei, mas, depois que morreu, apurou-se o valor da medalha gravado no reverso, e esse valor não permitiu ao rico senão a "entrada" no Hades.

CAIRBAR SCHUTEL

2 - EM BUSCA DO MESTRE - PEDRO DE CAMARGO ( VINÍCIUS )

"Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e de linho finíssimo, e que todos dias se banqueteava esplendidamente. E um mendigo chamado Lázaro, coberto de chagas, fora deitado no seu portão, desejoso de fartar-se com as migalhas que caíam da mesa do rico; e até os cães vinham lamber-lhe as úlceras. Morreu o mendigo, e foi levado pelos anjos para o seio de Abraão; morreu também o rico, e foi sepultado. No Hades, estando em tormentos, levantou os olhos e viu ao longe Abraão e Lázaro no seu seio, e clamou: Pai Abraão, tem compaixão de mim! E manda a Lázaro que molhe a ponta do seu dedo, e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama.Mas Abraão retrucou: filho, lembra-te que recebeste os teus bens na tua vida, e Lázaro do mesmo modo os males; agora, porém, ele está consolado, e tu, em tormentos. Demais, entre nós e vós, medeia um grande abismo, e de modo que os que querem passar daqui para vós não podem, nem os de lá passar para nós. O rico replicou: Pai, eu te rogo, então, que o mandes à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos, para os avisar, a fim de não suceder virem eles parar neste lugar de tormento. Mas Abraão disse: Eles têm Moisés e os Profetas: ouçam-nos. Respondeu ele: Não, Pai Abraão, mas se alguém dentre os mortos for ter com eles, hão de arrepender-se. Replicou-lhe Abraão: Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tão pouco se deixarão persuadir, ainda que algum dos mortos ressuscite".

Conforme se infere do assunto a que se reporta a parábola cujo título nos serve de epígrafe, parece que melhor lhe assentaria a seguinte denominação: O POBRE E O RICO. Por que teria o Mestre dado um nome ao pobre, deixando de o fazer ao rico? Qual será a razão desse fato? Segundo supomos, o caso teria passado desta maneira. Jesus achou de bom alvitre formular uma parábola sobre as duas categorias de provações, a riqueza e a pobreza. Voltou então seu olhar penetrante para a sociedade dos pobres, e encontrou ali um homem paciente e resignado, humilde e cheio de fé, suportanto galhardamente a dura prova que lhe fora destinada.

Esse homem chamava-se Lázaro. Disse, pois, o Senhor: Eis aqui uma das personagens para a parábola. Perscrutando, em seguida, o arraial dos ricos verificou que eram todos, ou quase todos, igualmente egoístas e duros de coração. Diante disso, conclui o Mestre, denominarei com o nome genérico esta outra figura do apólogo que vou urdir — o rico — visto como é tão difícil encontrar exceções nesta classe é difícil passar o camelo pelo fundo da agulha! Ficou, por esse motivo, assim denominada a parábola: LÁZARO E O RICO.

O Rico vestia-se de púrpura e linho finíssimo. Vivia banqueteando-se esplendidamente, enquanto que Lázaro, enfermo e paupérrimo, mendigava o pão de cada dia. Recostado aos portais do rico, esperava em vão, que se lembrassem de lhe mitigar a fome. O rico, na embriaguez dos prazeres, não o via. Trazia a mente enevoada pelos vapores das libações alcoólicas e o coração impassível, mergulhando no paul do sensualismo. Tão mesquinho era o seu estado de alma, que os próprios irracionais lhe levavam a palma em matéria, de sentimento. É assim que os cães, condoídos de Lázaro, vinham acariciá-lo, lambendo-lhe as feridas.

Eis que certo dia a morte bate às portas de ambos: morre Lázaro e morre também o Rico. A morte, rigorosamente imparcial como é, não distingue os ricos dos pobres, nem tampouco aqueles que gozam daqueles que sofrem. No entanto, a morte nada destrói: transforma apenas. Lázaro e o rico passaram para o plano espiritual. Ali, Lázaro é feliz, fluindo no seio de Abraão a doce paz de uma consciência tranquila e a alegria do combatente que venceu a campanha e entra na posse dos louros da vitória. O Rico, porém, tendo falido na prova por que passara, sente-se confuso e humilhado com a derrota.

Relado de remorsos, lembra-se do seu passado pecaminoso; e Lázaro, aquele que virtualmente fora a sua vítima, aparece-lhe sereno e venturoso. Cena curiosa então se verifica: já não é Lázaro que mendiga do Rico — é o Rico, agora, que mendiga de Lázaro, dizendo: Pai Abraão, manda Lázaro aplacar as minhas aflições; que ele me consome. E a voz da Justiça retruca pela boca de Abraão: Meu amigo, as condições de Lázaro e a tua são opostas. Cada um colhe aquilo que semeia. Tu és um vencido, Lázaro, um vencedor. Como pretende, agora, anular, num dado momento, os efeitos de uma causa que esta contigo, que foi criada por ti, no decorrer de uma existência toda?

Entre o estado dos que triunfam e dos que sucumbiram medeia um abismo, que não pode ser transporto como imaginas. A Natureza não dá saltos; este axioma é verdadeiro tanto no palco físico, quanto no espiritual. Tens que esgotar o cálice, tens que pagar até o último ceitil. As responsabilidades contraídas na vida terrena, acompanham o Espírito onde quer que ele se encontre. Nada pode suspender o curso da Lei das Consequências. Oh! pai Abraão, retruca o rico, cujos sentimentos começam a despertar, graças ao poder da dor: manda alguém avisar meus cinco irmãos acerca destas coisas, a fim de evitar que venham a cair nestes tormentos. E a voz da Justiça, obtempera pela boca do Patriarca: Teus irmãos estão, como estiveste, em provas.

Lá mesmo no mundo há quem os advirta sobre isso. Se eles não ouvem a esses não ouvirão tampouco a um mensageiro celeste. Quando os homens se entregam à loucura dos prazeres sensuais, ficam animalizados e inacessíveis às vibrações e inspirações que os anjos lhes transmitem. Como queres, pois, que um Espírito possa despertar teus irmãos, quando não conseguiram despertar-te? A Justiça se cumprirá com eles, como está se cumprindo contigo; a dor ensinar-lhes-á a compreender a soberana e indefectível justiça de Deus. A dor os fará saber e sentir que daqueles a quem muito foi dado — seja em bens espirituais, seja em bens temporais — muito será exigido; ensinará também que os homens são responsáveis, não só pelo mal que praticam, como pelo bem que podendo, deixam de praticar. E o Rico conformou-se naturalmente, compreendendo que DURA LEX, SED LEX.

PEDRO DE CAMARGO "VINICIUS"

3 - PAULO ALVES GODOY

Da mesma forma como sucede com todas as parábolas de Jesus, a do Rico e Lázaro também tem o seu endereço certo: destina-se aos ricos egoístas e avarentos, que não sabem aplicar de modo comedido a riqueza que Deus colocou, transitoriamente, em suas mãos.

É indubitável que existem ricos bons e generosos, que fazem com que a fortuna colocada em suas mãos gere bem-estar e felicidade em toda uma comunidade, pois, fundam escolas, amparam instituições assistenciais, fomentam os organismos que preservam a saúde e tranqüilizam aqueles que estão em sua dependência. Por outro lado, existem os ricos que podem ser catalogados como maus, pois são perdulários, egoístas, avarentos, não se preocupam com o status social daqueles que estão em sua dependência, aliás, expoliam, acumulam, apenas voltam-se com eles próprios e com sua descendência.

Muitos ricos desconsideram os pobres e dizem:
- Façam como eu. Enriqueça de qualquer forma, mesmo que seja muitas vezes em detrimento dos menos favorecidos pela fortuna, dos pobres, e daqueles que, muitas vezes, não têm o mínimo necessário para poderem subsistir. Esses homens desconhecem que existe uma lei de causas e efeitos, que a Justiça Divina exige reajustes, que o rico egoísta e avarento de hoje, poderá ser, através do processo reencarnatório, o pobre e mesmo o mendigo de amanhã.

Outros ricos, embora não menosprezando os pobres, também nada fazem para minorar suas situações aflitivas. Não se preocupam com os problemas que assediam aqueles que os rodeiam, e colocam sempre, em primeiro plano, a sua situação pessoal. Consideram como seu próximo apenas pessoas que pertencem ao seu Circulo familiar.

Quando Jesus Cristo afirmou que "é mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino dos Céus", obviamente se referiu a essa classe de ricos egoístas e avarentos, e não aos ricos que fazem com que suas fortunas sejam uma fonte perene de bens e que favoreçam os menos aquinhoados de bens materiais.

Na descrição da parábola observamos aspectos interesssantes: O rico realizava diariamente lautos banquetes com seus amigos e, jamais se preocupou com a situação aflitiva de Lázaro que, diariamente, se postava nos portões de sua casa, aguardando, pacientemente, que os criados atirassem os restos do repasto, para ele poder saciar a sua fome. Ao desencarnarem, Lázaro ascendeu às regiões elevadas do plano espiritual, que os judeus consideravam ser o seio de Abrãao, pois, consoante os ensinos explícitos no Sermão da Montanha, "bem-aventurados serão aqueles que passam fome, porque serão fartos". O rico, que não havia aplicado os seus sentimentos de amor ao próximo, foi expiar, em penoso processo de remorso, o mau uso que fez do depósito, do qual Deus havia lhe confiado de forma temporária.

Quando o rico experimentava o mais vivo sofrimento, vislumbrou o Espírito bondoso de Lázaro desfrutando de invejável situação, no gozo das recompensas espirituais a que fazia jus. Não podendo sopitar o seu espanto, exclamou, dirigindo-se ao Espírito iluminado de Abraão:

- "Permita que Lázaro vá molhar as pontas do seu dedo na água e venha refrescar a minha boca, pois, não suporto mais esta agrura".

A resposta que recebeu do Alto, foi taxativa: - "Lázaro não pode ir até aí, pois entre ti e ele existe grande abismo, pois, enquanto na Terra experimentaste glória e satisfação dos sentidos, ele apenas se defrontou com a fome e com as dores".

Não satisfeito com a resposta e com uma nesga de fraternidade dentro do coração, o rico voltou a pedir: "Permita que Lázaro vá à casa do meu pai, avisar os meus irmãos para mudarem de proceder, para também, mais tarde, não virem parar neste lugar de sofrimentos".

Diante desse novo pedido, respondeu Abraão: - "Eles têm os ensinamentos de Moisés e dos profetas, que recomendam o amor ao próximo, eles que apliquem esses ensinos".

Não conformado ainda, o rico voltou a insistir: - "Mas se for um morto a aconselhá-los, ouvirão melhor". Merecendo de Abraão nova réplica: - "Se não ouvem os vivos, ainda que um morto ressuscitado lhes apareça e aconselhe, não ouvirão".

O homem é mero depositário, o administrador dos bens que Deus, por excesso de misericórdia, colocou em suas mãos, entretanto, severas contas lhe serão pedidas do emprego que tenha praticado, em virtude da aplicação do seu livre-arbítrio. O mau uso da riqueza consiste em aplicá-la exclusivamente para a sua satisfação pessoal. Por outro lado é benéfico o uso dessa mesma riqueza, quando dela resultar o bem para outros ou para uma coletividade. O apego aos bens terrenos constitui um dos maiores entraves ao aprimoramento moral e espiritual do homem, por isso, severa vigilância deve ser desenvolvida por aqueles que são aquinhoados com esses bens transitórios.

"Aproximando-se de Jesus Cristo, um moço rico de determinada cidade, lhe disse: - Bom Mestre, que farei para herdar a Vida Eterna? O Mestre não gostou do qualificativo e lhe disse: - Por que me chamas bom? Não há bom senão Deus. Se queres, porém, entrar na vida, guarda os mandamentos.

O moço alegrou-se com a resposta e retrucou que desde a sua mais tenra juventude sempre havia guardado os mandamentos da lei. Ele julgou que isso era o bastante, entretanto, logo veio a segunda recomendação: - Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no Céu e vem, e segue-me.

Face a essa segunda prescrição, o moço entristeceu-se, e afastou-se cabisbaixo, porque era dono de muitas propriedades. Quando ele estava a uma certa distância, o Senhor asseverou aos seus apóstolos: - "É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, de que entrar um rico no reino dos Céus".

Cumpre aqui também se extrair a letra que mata, deixando-se apenas o resplendor do Espírito que vivifica.

O simples fato de ser rico não constitui um obstáculo irremovível para os Espíritos que descem à Terra, assim como também as palavras de Jesus não representam a proclamação automática da salvação dos pobres de bens materiais.

Existem limitações para tudo o que existe sobre a face da Terra, e todos nós sabemos que a lei da reencarnação impõe, muitas vezes, condições as mais dispares para o Espírito reencarnado, o qual, uma vez pode nascer pobre e outra vez potentado, uma vez pária e outra vez um rei, uma vez rainha e outra vez escrava.

O moço em apreço cumpria fielmente todos os mandamentos da lei estabelecida por Moisés, pois, isso nada lhe custava. Porém, quando o Messias lhe prescreveu o desapego aos bens terrenos, como condição 'sine qua non' para a consecução da sua perfeição, ele não se conformou e retirou-se muito triste, dando demonstração viva que dava maior valia às coisas do mundo do que as do Céu. A sua fortuna constituia sério obstáculo à sua ascensão espiritual: "Seria mais fácil passar uma grossa corda feita de pelo de camelo, pelo fundo de uma agulha".

Todavia, existem na Terra ricos que são verdadeiros luminares, autênticos apóstolos do bem. Por outro lado, também existem pobres que são verdadeiros verdugos e pessoas dotadas de incrível capacidade para praticar o mal.

Devemos compreender que o Evangelho não foi revelado ao mundo para a transformação de todos os homens em miseráveis mendigos. Contrabalançando qual a esmola mais importante: a que socorre as necessidades de um dia, ou a que provê providências para uma vida inteira? E, qual o rico que faz maior soma de bens: aquele que dá uma esmola a um mendigo, ou que dá uma fortuna para a edificação de um templo, ou o que edifica instituições de caridade, que provê empregos, distribui facilidades para a saúde, educação e amparo de muitas famílias, de uma grande coletividade?

No mundo vivem os que entesouram os bens materiais, e os que acumulam bens imperecíveis nos Céus. Os primeiros se limitam a dar algumas moedas como esmola, ao passo que os últimos ligam suas existências a numerosas famílias, fazendo dos seus empregados, cooperadores e subordinados, o prolongamento de sua própria fanúlia. Ditosos os que repartirem parte dos seus bens com os necessitados, mas, bem-aventurados serão os que consagrarem-se ao bem das coletividades, distribuindo o progresso, e ajudando os desamparados da Terra a encontrarem meios de se ajustarem para vencer as duras tribulações da vida terrena. Felizes os que souberem servir a Deus com as riquezas que lhes foram confiadas como meros legados transitórios. Jesus Cristo proclamou que "aquele que der ainda que seja um copo de água a um desses pequeninos da Terra, é a Ele que estará dando, e de forma alguma perderá o seu galardão".

A riqueza, tanto como a pobreza, constituem provas muitas vezes rudes para os Espíritos em aprendizado terreno, e, tanto uma como a outra, podem ser motivo de quedas e de dores, de elevação e de felicidade.

Muitos pobres, inconformados com a vida, apontam os Céus como responsável pelas suas desditas, tomam-se rebelados e perdem o fruto que poderiam auferir da vida terrena, tomando-se passíveis de novas reencarnações, o até com provas mais penosas, pois, a conformação com os imperativos impostos por Deus constitue uma autêntica virtude.

Paulo Alves Godoy

4 - RODOLFO CALLIGARIS

Esta parábola narra a sorte de dois Espíritos após uma existência terrena, em que um escolhera a prova da riqueza, e outro a da pobreza.

O primeiro, como em geral acontece a todos os ricos, esquecido das leis de amor e fraternidade que devem presidir às relações dos homens entre si, empregou seus haveres exclusivamente na ostentação, no luxo, no comprazimento pessoal, demonstrando-se insensível e indiferente à miséria e aos sofrimentos do próximo; o segundo, faminto e doente, relegado ao mais completo abandono, suportou humildemente, sem revolta, as dores e privações que lhe martirizaram a existência.

Afinal, fazem a passagem para o outro lado da vida, onde a situação de ambos se modifica por completo.

O rico, porque vivera egoisticamente e fora desumano, deixando que um pobre enfermo passasse fome à porta de seu palácio, enquanto se regalava com opíparos jantares regados a vinhos e licores, começou a ser torturado por um profundo sentimento de culpa, enquanto Lázaro, por haver sofrido com paciência e resignação as agruras da vida misérrima que levara, gozava, agora, indizível ventura em elevado plano da espiritualidade.

Nessa conjuntura, suplica o rico seja permitido a Lázaro ir amenizar-lhe a sede que o atormenta. Evidentemente, sede de consolação, sede de misericórdia, pois, como Espírito, não iria sentir necessidade de água material.

É-lhe esclarecido, então, o porquê de seu atual padecer e o da felicidade de Lázaro, siituação essa impossível de ser modificada de pronto, em virtude do "abismo" existente entre ambos. Como fàcilmente se percebe, também aqui não se trata de abismo físico, mas sim moral. Havendo triunfado em sua provação, Lázaro alcançara um estado de paz interior que o mau rico não poderia experimentar, e este, em razão de seu fracasso, sentia-se angustiado e abrasado de remorsos, coisas que o outro, logicamente, não poderia sentir, pois os estados de consciência são pessoais e impermutáveis.

Lembra-se o rico, então, de pedir fôsse o espírito de Lázaro enviada à presença de seus irmãos para avisá-los do que lhe sucedera, a fim de se corrigirem a tempo e evitarem iguais padecimentos, post-mortem.

A negativa de Abraão, ao dizer: "Eles têm lá Moisés e os profetas: que os escutem", foi muito lógica, pois ninguém precisa de orientação particular para nortear sua conduta, quando já tenha conhecimento dos códigos morais vigentes.

O mau rico insiste, porém, no pedido em favor de seus irmãos, argumentando que, ante a manifestação de um morto, eles haveriam de penitenciar-se do personalismo egoísta que também os caracterizava.

Retruca Abraão, fazendo-o sentir a inutilidade dessa providência, pois se eles não praticavam os preceitos de solidariedade humana ensinados por Moisés e pelos profetas, cuja autoridade era reconhecida por todo o povo judeu, muito menos haveriam de ouvir e atender ao que lhes fôsse dito pelo espírito de Lázaro.

Como se vê, esta parábóla confirma plenamente dois pontos básicos da Doutrina Espírita:

Primeiro, o de que as penas ou recompensas futuras são consequentes aos feitos de cada um, e não baseadas em questões de fé, como se diz por aí.

Segundo, o de que as comunicações de além-túmulo são possíveis, fazendo parte da crença universal desde aqueles tempos, conquanto pudesse haver, como ainda hoje os há, incrédulos sistemáticos, que as neguem.

Rodolfo Calligaris