PARÁBOLA DOS LAVRADORES MAUS
OU DOS RENDEIROS INFIÉIS

 

 

"Havia um proprietário que plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, cavou ali um lagar, edificou uma torre e arrendou-a a uns lavradores e partiu para outro país. Ao aproximar-se o tempo dos frutos, enviou seus servos aos lavradores, para receber os frutos que lhe tocavam. Estes, agarrando os servos, feriram um a um, mataram outro e a outro apedrejaram. Enviou ainda outros servos em número maior; e trataram-nos do mesmo modo. Por último enviou-lhes seu filho, dizendo: Terão respeito ao meu filho. Mas, os lavradores, vendo-o, disseram entre si: este é o herdeiro; vinde, matemo-lo e apoderemos-nos da sua herança: e, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e mataram-no. Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores? Responderam-lhe: Fará perecer horrivelmente a estes malvados, e arrendará a vinha a outros, que lhe darão os frutos no tempo próprio."

(Mateus, cap. 21, v. 33-42 - Marcos, XII, 1-9 - Lucas, XX, 9-16)

1 - CAIRBAR SCHUTEL

"A parábola acima é a prova da inigualável presciência do Filho de Deus, assim como é a magistral sentença que se havia de cumprir no nosso século contra os "rendeiros infiéis", que têm devastado a nossa seara. Um proprietário plantou uma vinha, cercou-a com um tapume feito de ramos e troncos de árvores; assentou um lagar (local com todos os petrechos para a fabricação de vinho) e edificou uma "torre" (grande edifício com proteção contra ataques inimigos).

De maneira que a fazenda estava completa, tudo preparado: terras de sobra, parreiras em grande quantidade, lagar, tanques, tonéis - tudo o que era preciso para a fabricação do vinho. Casa de moradia com toda comodidade e conforto. Mas, tendo de ausentar-se o proprietário, arrendou a herdade a uns lavradores; no tempo da colheita dos frutos mandaria receber o produto do arrendamento, ou seja, os frutos que lhe tocavam. O contrato foi passado e muito bem redigido: selado, registrado e com as competentes testemunhas.

Por ocasião da primeira colheita, o senhor da vinha fora confiado, agarraram os emissários, feriram um, apedrejaram outro e mataram o seguinte. Na outra colheita, o proprietário da herdade tornou a mandar outros emissários, que tiveram a mesma sorte dos primeiros. Vendo o dono da herdade o que acontecera com seus emissários, julgou mais acertado delegar poderes ao próprio filho, porque, com certeza, os respeitariam, e o enviou a ajustar contas com os arrendatários. Mas os lavradores, em vendo chegar à propriedade, combinaram entre si e deliberaram matá-lo, porque, diziam: "este é o herdeiro, vinde, matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança". E assim fizeram: tiraram-no fora da vinha e o mataram.

"Quando chegar o senhor da vinha, o que fará àqueles lavradores?" - perguntou Jesus ao propor a parábola. E a resposta veio em seguida: "Fará perecer os malvados, os arrendatários dolosos, e entregará a vinha a outros que lhe darão os frutos em tempo próprio." Parábola é a exposição, ou a pintura de uma coisa em confronto com outra de relação remota, ou de sentido oculto ou invisível.

Jesus tinha por costume, para explicar aquilo que escapa à compreensão vulgar, usar das parábolas, a fim de se tornar mais compreendido. Nesta parábola dos Lavradores Maus, rendeiros infiéis, quis Jesus explicar a soberania da ação divina que às vezes tarda, mas não falha; e quis ainda mostrar a seus discípulos quem são os lavradores que prejudicam a sua seara. A seara é a Humanidde; o proprietário é Deus; a vinha que ele plantou é a religião; o lagar são os meios de purificação espiritual que ele concede; a casa que edificou é o mundo, os lavradores que arrendaram a lavoura são os sacerdotes de todos os tempos, desde os antigos que sacrificavam o sangue dos animais, até os nossos contemporâneos.

Os primeiros servos que foram feridos, apedrejados e sacrificados, são os profetas da Antiguidade, que passaram por duras provações: Elias, Eliseu, Daniel, que foi posto na cova dos leões; o próprio Moisés, que sofreu com os sacerdotes do Faraó e com os israelitas fanatizados que chegaram a fundir um bezerro de ouro para adorar, contra a lei do Senhor; depois veio João Batista, que foi degolado; e depois outros servos, que passaram pelos mesmos sofrimentos dos primeiros - apóstolos e profetas como Estevão, que foi lapidado; Paulo, Pedro João, Tiago, que sofreram martírios, e todos os demais que não têm acompanhado as concepções sacerdotais.

O filho do proprietário, que foi morto pelos rendeiros que se apossaram da sua herança, é Jesus Cristo, Senhor Nosso, que sofreu o martírio ignominioso da cruz. E de acordo com as previsões da parábola, os tais sacerdotes se apossaram da herança com a qual se locupletam fartamente, deixando a seara abandonada e a vinha sem frutos para o proprietário. Nas condições em que se acha a seara, poderá o senhor deixar a sua vinha entregue a essa gente, a esses rendeiros inescrupulosos e maus? Estamos certos de que se cumprirá brevemente a última previsão da parábola: "O senhor tomará a vinha desses malvados e a arrenderá a outros, que lhe darão os frutos no tempo próprio".

A confusão religiosa é a mais espessa escuridão que infelicita as almas. A crença é como o fruto da videira que alimenta, encoraja e vivifica. Assim como este alimenta o corpo, aquele alimenta a alma. A religião de Jesus Cristo não é o oculto, as exterioridades, os sacramentos, a fé cega; também não é o fogo que aniquila e consome, o mal que vence o bem, o diabo que vence a Deus. A religião de Jesus Cristo é o bálsamo que suaviza, é a caridade que consola, é o perdão que redime, é a luz que ilumina, não é o aniquilamento, mas a vida, não é o corpo, mas, sim, o Espírito.

A religião de Jesus Cristo deve, pois, ser ministrada em Espírito e Verdade e não em dogmas e com exterioridades aparatosas, para que possa ser compreendida, observada e praticada pelo Espírito. O corpo é nada; o Espírito é tudo. O corpo existe porque o Espírito aciona, o vivifica e o movimenta. No dia em que o Espírito dele se separa, nenhuma vida mais resta a esse invólucro, a esse instrumento. Que é o violino sem o músico? Que é o relógio sem que se lhe dê corda? Que é a máquina sem maquinista? O corpo sem o Espírito é morto e se desagrega, como uma casa que cai e se converte em escombros. O corpo "pulvis est et in pulveris reverteris". E assim é, qual o efeito dos sacramentos e práticas sibilinas que não atingem o Espírito?

O princípio da religião é a imortalidade e os rendeiros da vinha têm por dever salientar e demonstrar este princípio, para que o templo da religião, assentado sobre esta base inamovível, abrigue com a verdade os corações que desejam a paz e a felicidade. Os pastores e os sacerdotes, "arrendatários da vinha", "maus obreiros" que conspurcam os sentimentos cristãos, transformando a religião de Jesus em missas, imagens, procissões, aparatos, músicas, girândolas e sacramentos, serão chamados às contas e o látego da verdade desde já os vem expulsando da herdade, que será entregue a outros, para que os frutos da vinha sejam dados aos famintos de justiça, aos deserdados de consolação, aos que procuram a luz que encaminha e conduz à perfeição.

Desde tempos que vão longe, a religião tem sido causa de abjeta exploração. O sacerdócio, por várias vezes, tem feito periclitar o sentimento religioso. A desgraça da religião tem sido, em todas as épocas, o padre. O padre hebreu, o padre egípcio, o padre budista, o padre brâmane; sempre o padre, a corporação eclesiástica, com toda a sua hierarquia, a sua escolástica, os seus princípios rígidos, os seus cultos aparatosos, os seu sacramentos arcaicos. O sacerdócio, tornando-se arrendatário da vinha, como tem acontecido, só conhece um "deus" a quem obedece cegamente; "deus" constituído eclesiasticamente, e tirado ou escolhido de um dos seus próprios membros.

Todas as religiões têm sido e continuam a ter o seu papa, o seu maioral, o seu patriarca, o seu chefe, a quem todos prestam obediência, em detrimento do Supremo Senhor e Criador. Daí a luta cruenta que o sacerdotalismo tem desenvolvido contra os profetas em todas as épocas. Esta parábola é a comparação de todas as lutas que os gênios, os grandes missionários, os profetas que falam em nome da divindade e da religião, têm sustentado contra a clerezia. Desde que o grande proprietário plantou na Terra a sua vinha; desde que fez brilhar no mundo o Sol vivificador da religião, cercando a vinha com uma sebe, aí estabelecendo um lagar e edificando uma torre; desde que os princípios religiosos foram estabelecidos e ficaram gravados nos códigos dos divinos preceitos, os lavradores maus dela se apoderaram como rendeiros relapsos, deixando parecer as videiras a massacrando os enviados que em nome do senhor lhes vinham pedir ou reclamar, como o fazemos hoje, os frutos da vinha!

Os servos do proprietário da lavoura eram presos, feridos e mortos. A pretexto de heresia e apostasia, queimaram corpos com quem queima lenha seca e verde; infligiram-lhes os mais duros suplícios, tisnando de sangue as páginas da História do nosso mundo. Nem o filho de Deus, cuja parábola premonitória de morte acabamos de ler, nem ele foi poupado pela classe sacerdotal, que tinha por pontífices Anás e Caifás, em conluio com os governos da época. A classe sacerdotal, que nada fez à Humanidade e ainda fascinou os homens com os seus cultos aparatosos e seus dogmas horripilantes, é precisamente o que constitui, em sua linha geral, os "lavradores maus" da parábola. Então eles muito bem representados nesses obreiros fraudulentos e mercenários que proliferam no mundo todo, vendendo a fé, a salvação, as graças.

Que fará o proprietário da vinha a tão maus obreiros? O resultado não pode ser outro; fá-los-á perecer, tirar-lhes-á o poder que lhes concedeu e a entregará a outros, que darão os frutos no tempo próprio". Felizmente chegou também a época da realização da premonição do Cristo exarada nos Evangelhos. Os Espíritos da Verdade baixam no mundo, uns tomam um invólucro carnal, e outros, através do véu que separa as duas vidas, vêm se apossar da vinha, para que ela dê os resultados designados pelo Senhor de todas as coisas.

O sacerdócio cai, mas a religião prossegue; os dogmas são abatidos, mas a verdadeira fé aparece, robustecendo consciências, consolando corações, e, principalmente, fazendo raiar na Terra a aurora da imortalidade, para realçar o Deus Espírito, o Deus justo, o Deus poderoso e sábio que reina em todo Universo.

CAIRBAR SCHUTEL

2 - PAULO ALVES GODOY

Esta parábola do Mestre encerra profunda advertência à Humanidade.

O Senhor que construiu a propriedade e a arrendou é Deus, os servos que foram, posteriormente, enviados para reclamar os frutos aos lavradores, foram os profetas.

O filho do dono da vinha foi Jesus, que também foi imolado pelos lavradores.

Quando vier, pois, o dono, isto é, quando chegar o tempo propício para a prestação de contas, quando a Justiça Divina cair pesadamente sobre os que não acatam a vontade de Deus, os lavradores maus terão que prestar conta das faltas cometidas, cuja herdade ser-Ihes-á retirada das mãos, e entregue a novos lavradores que dela cuidarão, com apreço e estima.

A Humanidade continua a viver na vinha, da qual ela é mera depositária. Os nossos ascendentes aniqüilaram todos quantos foram enviados para adverti-los sobre o cuidado a ser tomado com a herdade, não escapando nem o Ungido de Deus, que é Jesus Cristo. Compete, pois, aos atuais habitantes da Terra respeitar a vontade de Deus, zelando pela evolução do mundo, envidando esforços para que tudo quanto o Senhor lhes deu para usufruto não seja empregado de modo egoístico, mas sim, em benefício geral.

Os bens confiados ao gênero humano o são de modo transitório. Todos aqueles que deles fazem má aplicação, terão que voltar à Terra em cumprimento às leis de reencarnação, a fim de colher os frutos amargos gerados pelo egoísmo, sofrendo as conseqüências lógicas das suas próprias intemperanças.

Costuma-se dizer que a semeadura é livre, mas a colheita é obrigatória, por isso, torna-se imperioso que os homens se capacitem da importância de obedecer os ditames da Justiça Divina, para que não venham a sofrer as conseqüênncias nefastas de suas próprias recalcitrâncias em permanecerem nas veredas do mal.

O reino de Deus não vem por sinais exteriores; precisamos construí-lo pacientemente em nossos corações. O reino de Deus não é subjetivo ou pertence a um mundo estranho. Ele foi implantado na Terra, e está crescendo entre os homens e as nações de boa vontade.

Após narrar aos seus discípulos o conteúdo maravilhoso da Parábola dos Lavradores Homicidas, Jesus aditou que o reino de Deus será subtraído ao povo que se tornar infiel, e dado a um outro que apresentar melhores condições de assimilação.

A razão primária do preparo do povo de Israel para a gloriosa missão que lhe estava reservada, residia no fato de ser a única comunidade monoteísta da época - o único povo que esposava a crença num Deus uno e indivisível, tornando-se, como decorrência, a nação que apresentava melhores condições para receber em seu seio o Messias Prometido.

Por essa razão fundamental, o povo judeu foi alvo de intensa preparação por parte de entidades espirituais, sendo, desta forma, propiciado para o advento sucessivo de numeerosos profetas e missionários, precursores da vinda de Jesus Cristo.

Não houve, entretanto, a ressonância devida: muitos profetas foram apedrejados e mortos; o Messias foi crucificado. Cumpriu-se, assim, o espírito da Parábola dos Lavradores Homicidas ou dos Lavradores Maus e o célebre vaticínio de Jesus, contido em Mateus 23:37: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintinhos debaixo das asas, e tu não quiseste! Eis que a vossa casa vai ficarvos deserta: Porque Eu vos digo que desde agora Me não vereis mais até que digais: Bendito o que vem em nome do Senhor".

As hostes romanas de Tito invadiram a famosa cidade, no ano 70, destruindo-a e forçando o povo israelita a se dispersar pelo mundo, perdendo a sua própria pátria. A sua terra foi dada a um povo diferente.

Muitas nações tiveram em suas mãos a viabilidade de disseminar as primícias do reino dos céus, porém, assoberbadas pela glória terrena, pelo orgulho e pela vaidade, pouco ou nada fizeram a fim de corresponder à expectativa dos Céus.

A Espanha dos reis católicos, em cujos domínios jamais se deixava de ver o sol, experimentou glória e opulência. Poderia ter consolidado no mundo um reino de paz e solidariedade, entretanto, ofuscou-se com o fausto e com o orgulho. Muitos emissários do Alto foram devorados pelas suas fogueiras inquisitoriais e perseguidos pela sanha intolerante daqueles que tinham em suas mãos o cetro do poder. O reino de Deus não encontrou terreno adequado. A velha nação entrou numa fase de decadência e de expiação.

A França napoleônica, cujos domínios se estenderam a boa parcela do mundo, não soube levar a paz e a concórdia às nações conquistadas. A vaidade e a presunção passaram a nortear os rumos dos seus govemantes. A possibilidade de se amoldar às normas evangélicas simbolizadas no reino de Deus, não encontrou guarida.

O Reino de Deus se fundamenta nas primícias dos postulados do Evangelho. A sua lei básica é o Amor; a sua bandeira é a justiça; o seu escudo é a Verdade; o seu símbolo é a Paz. Seu objetivo consiste em irmanar o gênero humano de modo a haver "um só rebanho sob a égide de um só pastor". Não é um reino que se impõe, mas que expõe; não quer vencer, mas convencer; que quer ação em vez de adoração; que pretende transformar os homens em lídimos herdeiros de um Pai soberanamente justo e bom. Suas guerras são feitas apenas contra o egoísmo, o orgulho, a vaidade, a inveja, o ódio, o ciúme, e outras formas de viciações.

Paulo Alves Godoy

3 - RODOLFO CALLIGARIS

A interpretação desta parábola é extremamente fácil, tão precisos são os caracteres de suas personagens e os fatos a que se reportam.

O proprietário é Deus; a vinha é a Religião do Amor que deverá ser implantada na Humanidade terrena; e os lavradores a quem a vinha foi arrendada são os sacerdotes de todas as épocas, desde os que sacrificavam animais para oferecer em holocausto nos altares do judaísmo até os de hoje, que oficiam em suntuosos templos e catedrais.

Os frutos são a piedade cristã, o progresso moral, e os servos incumbidos de recebê-los são os missionários enviados por Deus à Terra, de tempos em tempos, a exemplo dos profetas da antiguidade, João Huss, Savonarola, Lutero, etc., os quais, por reeclamá-los à casta sacerdotal, verberando-lhes a incúria no trato das coisas divinas, foram por ela perseguidos, injuriados e mortos.

O filho do proprietário é Jesus, cujo martírio ignominioso na cruz foi, também, obra exclusiva do sacerdotalismo.

A herança é o reino dos céus, de que o sacerdócio hierárquico pretende ter a posse, constituindo-se seu único dispensador.

Arrogando-se os poderes inerentes ao herdeiro, os sacerdotes, ao invés de cultivarem a vinha, abandonaram-na, esqueceram-na; favoreceram o desenvolvimento de plantas daninhas, deixando, assim, o proprietário sem os frutos devidos.

De fato, após séculos e séculos de influênncia absoluta sobre as consciências; que resulltado têm a apresentar ao Senhor da vinha? A indiferença religiosa, o ateísmo e toda a sorte de males decorrentes dessa estagnação espiritual.

O domínio desses lavradores maus, porém, está a findar-se.

Por toda parte, suas organizações pseudo-religiosas, dogmáticas e obscurantistas, eivadas de formalismos, cerimônias cultuais, ritos e pompas exteriores, estão em franca decadência.

Sim, os dias desses rendeiros relapsos estão contados.

Durante muito tempo, a pretexto de combater heresias e apostasias, eles torturaram, massacraram e queimaram os enviados do Senhor, que lhes vinham cobrar os frutos da viinha. Já agora, a última parte da parábola começa a realizar-se: estão perdendo todo o prestígio que gozavam junto aos governantes e a ascendência que tinham sobre as massas populares, assistindo, apavorados, à deserção de suas igrejas; estão sendo destruídos rigorosamente, aqui, ali e acolá, sofrendo na própria carne aquilo que fizeram a outrem padecer.

Entrementes, eis que surge o Espiritismo (a falange de novos lavradores), a substituí-los na sublime tarefa de que não souberam dar boa conta.

Profligando todos os sectarismos estreitos e antifraternos, e oferecendo à Humanidade um novo lábaro, em que se lê: (Fora da caridade não há Salvação", o Espiritismo está ganhando, ràpidamente, a simpatia e a adesão de todas as criaturas de boa vontade, e há realiizado, em apenas alguns decênios, um extraordinário revivescimento espiritual, a par de uma obra social verdadeiramente impressionante, numa demonstração inequívoca de que os novos rendeiros saberão, de fato, cumprir os seus deveres para com o Senhor.

Rodolfo Calligaris

4 - PARÁBOLA DOS LAVRADORES MAUS - THEREZINHA OLIVEIRA

Um homem plantou uma vinha. Cercou-a de uma sebe, construiu nela um lagar, edificou-lhe uma torre e arrendou-a a alguns lavradores. Depois se ausentou do país.
Ao tempo da colheita, enviou os seus servos aos lavradores para receber da vinha os frutos que lhe tocavam. E os lavradores, agarrando os servos, espancaram a um, mataram a outro e a outro apedrejaram. Enviou, ainda, outros servos em maior número; e trataram-nos da mesma sorte.
Restava-lhe ainda o filho amado; a este lhes enviou, dizendo: A meu filho respeitarão. Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; ora, vamos, matemo-lo e apoderemo-nos da sua herança. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e o mataram.

A vinha

Num primeiro momento, entendamos a vinha como a nação israelita, para comentar o significado mais imediato desta parábola, conforme o relato de Lucas, capítulo 20, versículos 9 a 18.

Cercou-a de uma sebe (ou valado). Sebe é um entretecido de ramos ou varas e valado é uma vala pouco profunda (com tapume ou sebe). Ambos servem para proteger uma propriedade rústica da invasão por animais ou intrusos.

Que invasão espiritual se desejava evitar que acontecesse ao povo israelita? A dos costumes bárbaros dos gentios (outros povos), como, por exemplo, o politeísmo (adoração a muitos deuses) e a idolatría (fazer imagens, ídolos).

Que sebe ou valado se construiu para evitar isso? Os israelitas eram protegidos de infiltrações na sua fé, pelo que estava escrito na lei de Moisés ou o que lhes tinha sido revelado nas instruções espirituais vindas do alto. A lei e os profetas cercavam, delimitavam para eles, o certo e o errado, o conhecimento espiritual.

Também construiu nela um lagar: espécie de tanque em que se espremem e se reduzem a líquido certos frutos; ou lugar onde esse tanque está, com demais aparelhos correspondentes, inclusive tonéis para guardar o líquido obtido.

Espremidas, as uvas da videira resultam em vinho. Que deveria ser extraído espiritualmente dos israelitas? O mesmo que de qualquer ente humano: sua essência, seu potencial de pensamento, sentimento, ação.

Para esse potencial humano aflorar, as pessoas têm de ser submetidas a atividades especiais e apropriadas, que lhes estimulem e disciplinem as faculdades espirituais: estudo, oração, trabalho, vida em sociedade...

Na sua organização social e política, teocrática (toda voltada para a ideia de Deus e o cumprimento de suas leis), os israelitas tinham um verdadeiro lagar espiritual. Vivendo dentro dela, poderiam evoluir muito, adquirir grande progresso, sabedoria e amor.

Edificou-lhe uma torre: construção elevada, que permitia maior visão e vigilância dos arredores da vinha, favorecendo sua defesa.

Os intérpretes são unânimes em dizer que a tórrida parábola simboliza o templo de Jerusalém. Nele se buscava a comunicação com Deus, não em atitude politeísta ou idólatra (como a de outros povos de então) mas numa visão espiritual monoteísta, mais elevada, portanto.

Que mais se poderia fazer à minha vinha que não lhe tenha feito? São palavras atribuídas por Isaías ao Criador (5:4) e, de fato, Deus tudo previra e providenciara para que os israelitas pudessem viver espiritualmente seguros e produzindo bons frutos. ¦

O arrendamento

Essa vinha, tão bem preparada, Deus arrendou-a a alguns lavradores. Arrendamento é um contrato pelo qual alguém cede a outrem, por certo tempo e determinado preço, a fruição de um imóvel. A quem foi que Deus arrendou "Israel"?

A quem ele confiou a vinha humana que lhe era tão cara? Sem dúvida a "lavradores" capacitados para tanto. Homens que conheciam os desígnios divinos, sabiam o porquê e para quê da vida, e poderiam orientar bem o povo no cumprimento das leis de Deus. Esses homens eram os anciãos do povo, que, idosos e influentes, governavam administrativamente a nação, e a casta sacerdotal, que orientava a prática religiosa.

Depois, se ausentou do país. Essa "ausência" divina simboliza que Deus propicia às criaturas certas tarefas, com algum tempo previsto para que os resultados sejam alcançados; durante esse tempo, os espíritos têm livre-arbítrio para agir; findo esse prazo, virá o acerto de contas, a fase de avaliação dos resultados.

Ao tempo da colheita, enviou os seus servos aos lavradores para receber da vinha os frutos que lhe tocavam. Que "frutos", que resultados espirituais se esperava do trabalho dos sacerdotes e dos anciãos, junto ao povo israelita? O do progresso intelecto-moral' do povo, que gera paz e amor entre todos. A quem trabalha no desenvolvimento das criaturas, é concedida, desse bom resultado, uma parte pessoal, a do seu próprio progresso, o desfrutar da paz e amor que semeia. É o seu "salário" pelo trabalho na vinha espiritual. A essa parte, os sacerdotes e anciões tinham direito. Mas há uma outra parte de resultados: o bem e o progresso geral, a serem usufruídos por todos. Essa é a parte que "toca a Deus", o que ele quer receber e do que pede contas.

No tempo devido, Deus enviou os seus servos aos lavradores, enviou aos israelitas os seus profetas (porta-vozes), que procuravam encontrar naquele povo um melhor entendimento espiritual para a mensagem que traziam, uma conduta fraterna para com todos, o amor a Deus e ao próximo. Será que encontraram?

A atitude má dos lavradores

"E os lavradores, agarrando os servos, espancaram um, mataram a outro e a outro apedrejaram." Encarregados do governo e da instrução religiosa, sacerdotes e anciãos menosprezaram os mensageiros, os hostilizaram, querendo atemorizá-los, e até os mataram.

"Enviou ainda outros servos em maior número; e trataram-nos da mesma sorte." Agiram assim com numerosos profetas, em várias épocas. Que atitude injusta, desonesta e cruel! Por isso são chamados de "lavradores maus!" Não porque fossem incompetentes, não soubessem cuidar da vinha. Se quisessem, bem poderiam orientar criaturas para Deus, mas usurpavam o poder em nome do Criador e apenas o empregavam para dominar as criaturas e usufruir benefícios pessoais. Lavradores malvados!

"Restavam-lhê ainda o filho amado; a este lhes enviou, dizendo: A meu filho respeitarão." Enviar o próprio herdeiro era uma última tentativa de chamar os lavradores maus à responsabilidade. Era de esperar que orespeitassem...

"Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; ora, vamos, matemo-lo e apoderémo-nos da sua herança. E, agarrando-o, lançaram-no fora da vinha e o mataram."

O "herdeiro" era certamente o Cristo, o esperado Messias, enviado por Deus ao povo israelita como um filho dileto, seu mais legítimo representante. Entretanto, os sacerdotes e os anciãos estavam marginalizando Jesus, negando-lhe a autoridade espiritual, e até pensavam em matá-lo, para ficarem como donos de tudo. E nada lhes aconteceria? Dava para prever que haveria consequências e é delas que trata Jesus, no final da parábola.

As consequências

Quando, pois, vier o Senhor da Vinha, que fará àqueles lavradores?
Responderam-lhe eles:
Aniquilará os malvados como merecem, arrendará a vinha a outros vinhateiros que, nas épocas próprias, lhe entreguem os frutos.

Sem perceber, tinham acabado de decretar a sua própria sentença, o que Jesus confirmou:
Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos.

Eles se julgavam o "povo eleito" por Deus, achavam que tinham um pacto, uma aliança com o Altíssimo... A situação de que desfrutavam era honrosa, gratificante e a perspectiva de perdê-la lhes parecia humilhante, dolorosa, assustadora, o que os fez exclamar:

Não seja assim! Deus tal não permita!

A pedra rejeitada

Mas Jesus, fitando-os, indagou:

Que quer dizer, pois, o que está escrito: A pedra que os construtores rejeitaram, esta veio a ser a principal pedra angular; isto procede de Deus e é maravilhoso aos nossos olhos. Nunca lestes isto nas escrituras?

Jesus acabara de citar um salmo de Davi (118:22/ 23), em que se alude a episódio verdadeiro da história de Israel. Na construção do templo de Salomão, as pedras vinham de uma pedreira, já cortadas no tamanho determinado. Uma, porém, veio em feitio singular e muito grande; não parecia se encaixar na construção, e por isso foi rejeitada, colocada à margem. Mas, quando precisaram da pedra angular, que serviria de base para o edifício, somente a rejeitada serviu. Apesar de exposta à chuva, vento e sol, estava perfeita, lisa, sem trincas, forte bastante para suportar a pressão do peso que seria colocado sobre o ângulo e, justamente pelo seu feitio singular e extraordinário tamanho, se ajustou perfeitamente ao lugar.
E quem cair sobre esta pedra será despedaçado; mas aquele sobre quem ela cair será reduzido a pó.

Na visão profética de Isaías (28:16), essa pedra simboliza o Cristo, nova base espiritual do povo de Israel. Então, por que não o estavam aceitando? É que, para os israelitas, o Messias haveria de ser um guerreiro, um dominador do mundo material. Jesus não era assim. Fraterno e manso, pregava o respeito à ordem, o amor a todos, até aos inimigos. Por isso, se escandalizaram com ele e o rejeitaram. Entretanto, em Jesus estava a verdade, pedra angular de toda construção espiritual.

Combater contra a verdade é luta inglória. Inútil tentar ignorar a verdade ou a ela se opor, pois sempre acaba preponderando sobre o erro. Quem tentar combatê-la ou impedi-la verá suas teorias falsas e suas ilusões serem esmagadas e reduzidas a pó pela realidade. Por haverem rejeitado a Jesus e o terem sacrificado, os israelitas vieram a perder a liderança espiritual no mundo. Viram o Cristianismo ir se propagando cada vez mais e a liderança espiritual passando a ser exercida por outros povos que aceitaram o Cristo e sua mensagem. Foram vencidos pelo progresso, a verdade em marcha!

Aplicando a parábola à nossa atualidade

A vinha


Através da reencarnação, eis-nos plantados por Deus no solo deste mundo. Ao redor, grassam o egoísmo, o materialismo imediatista, gerando destruidora onda de violência. A degeneração dos costumes se expande cada vez mais, ameaça invadir sociedade inteira, chega até às portas de nossos lares. Precisamos urgentemente que se interponha, entre nós e a corrupção do mundo...

Uma sebe ou valado

Que nos defenda e proteja, delimitando corretamente o bem e o mal, separando com exatidão o certo do errado. É o que faz a moral cristã! É dela que precisamos. Vivendo dentro dos limites que ela aponta, estaremos defendidos de praticar a violência e de acompanhar a degeneração dos costumes. Precisamos, apenas, nos conscientizarmos de nossa natureza espiritual, de nossa origem e destinação superior. O Espiritismo nos ajuda nessa tomada de consciência. Com o conhecimento libertador que nos dá, faz tenhamos, enfim, a motivação e a coragem necessárias para vivermos uma vida verdadeiramente cristã.

Terra, admirável lagar espiritual

Neste planeta de provas e expiações, cuidadosamente preparado por Deus, nós, espíritos encarnados, encontramos lutas, experiências e labores apropriados para nossa evolução. Aqui, a necessidade estimula, ali, a dor disciplina, além, a luta desenvolve e fortalece nossas qualidades, e acabam por extrair de cada um de nós o melhor da nossa essência espiritual, levando-nos ao progresso intelecto-moral.

A altaneira torre

Não é mais o templo de Jerusalém (que nem existe mais) e também não é especialmente este ou aquele templo, mas, sim, a comunicação espiritual com o Mundo Maior, através da mediunidade. Liberada por Jesus, generalizada na Terra e praticada sob a orientação esclarecida e segura da Doutrina Espírita, a mediunidade enseja preciosas informações, oportunos alertas, sublimes consolações, e nos proporciona uma visão espiritual mais clara e elevada sobre a vida, tanto aqui como no Além.

Que falta à humanidade na Terra?

Nada lhe falta para que possa viver e progredir, produzindo cada vez mais frutos de sabedoria, paz e amor. Tudo Deus já preparou, previu e providenciou, para que a Terra seja uma produtiva vinha de luz. E a deixou entregue, confiou-a aos cuidados... De quem?

Os vinhateiros

Todo aquele que tem algum conhecimento da vida, dos seres e exerce alguma liderança entre os homens é um encarregado divino. Na humanidade terrena, a grande vinha do Senhor, todos podemos fazer alguma coisa pelo bem geral. Façamos a nossa parte! No lar, na oficina, na escola, no agrupamento religioso, na comunidade, na pátria, no mundo, trabalhemos devotadamente as vinhas humanas que o Senhor nos haja confiado.

Cuidemos de tudo e de todos segundo os desígnios de Deus, para que se alcancem os resultados espirituais desejados: o progresso, a evolução, a mudança para melhor, em nós e nos que estão em nosso campo de influência. No que fizermos, não rejeitemos o fundamento da verdade consubstanciada em Cristo, seu ensino e seu exemplo, para não nos despedaçarmos lutando em vão contra ela nem sermos esmagados pela marcha do progresso. Preparemo-nos para entregar ao Senhor, nas épocas próprias e a quem nos enviar, o abundante fruto da sua vinha espiritual: o bem de todos, a prosperidade, a paz, o amor. Que aqui ou no Além, Deus, o Senhor da Vida, nos encontre como arrendatários fiéis, dignos de podermos continuar cooperando em sua eterna vinha de luz e de amor!

A remuneração dos trabalhadores
Que ganharemos por trabalhar na vinha do Senhor?


Este ponto tem sido objeto de muito interesse e perquirições pelos crentes, que se põem a conjeturar sobre prêmios e recompensas que acaso possam vir a receber.
Até há quem acredite que Deus pode ficar lhe devendo alguma coisa, pelo papel ou função que desempenhar no mundo, seja no aquém ou no além! Ou que pode barganhar com o Criador, num hipotético "toma lá dá cá".

Esquecem-se de que, se podemos agir no Universo, é porque já recebemos de Deus tudo com que agimos. E já estamos usufruindo de tudo que a vida criada e doada por Deus nos proporciona.
Entretanto, é verdade que a lei de causa e efeito oferece ao espírito a justa retribuição pelos seus atos dentro da vida universal.

Jesus falou sobre o trabalho na vinha do Senhor e o salário que se pode com justiça esperar por exercê-lo, numa pormenorizada história que Mateus registrou no capítulo 20, versículos 1 a 16 do seu Evangelho, e passaremos a comentar, embora já tenha sido objeto de algumas considerações nossas no livro Iniciação ao Espiritismo.

THEREZINHA OLIVEIRA