ECONOMIA

1) Tendo em vista a utilização de menos mão de obra pela indústria, não será necessária a inversão do fluxo migratório campo-cidade já no próximo século?

O problema não reside na questão da mão de obra útil ou desnecessária para mudar a paisagem do fluxo migratório do homem do campo para a cidade, mas de uma política justa e digna de sua fixação à terra. Enquanto os governos dos países tecnologicamente desenvolvidos ou não, não trabalharem leis dignas e providenciarem recursos para facultar a permanência do homem no solo a cultivar, a ilusão da cidade sempre o chamará, apresentando-lhe falsas perspectivas de uma vida melhor, em razão das facilidades, que parecem existir nos meios urbanos, enquanto que, na área onde vive, com a desolação, a fome, a sede, as pragas, o esquecimento das autoridades, a sua é a morte certa e sem piedade ...

A questão, portanto, é mais grave, porque dependerá da lucidez e da responsabilidade dos govemos, que se devem voltar para uma análise séria e profunda dos problemas agrários, que estão exigindo soluções urgentes antes que sucedam calamidades imprevisíveis.

2) Qual a responsabilidade daqueles que, em nome do lucro, expõem seus semelhantes para seu sustento material?

Toda forma de exploração humana é atentatória aos códigos da Divina Justiça. O homem deve trabalhar com o próprio esforço, a fim de conseguir o sustento material, e a Natureza jamais lhe negará aquilo de que necessita. O supérfluo é condenável quando muitos têm carência ou vivem do pouco que conseguem.

Utilizar-se do seu semelhante, expondo-o a humilhações sob qualquer pretexto, particularmente em razão das suas fraquezas, e disso tirando proveito, malsinando suas horas, cultivando-lhe ou estimulando-lhe as paixões inferiores, constitui crime que não passará incólume ao despertar da própria consciência como diante da Cósmica.

3) Todos os homens estão sujeitos à Lei do trabalho, ainda que dele não dependão para seu sustento material?

Certamente, todos os seres estamos sujeitos à Lei do trabalho, que rege a harmonia do Cosmo. Jesus acentuou com muita propriedade: - Meu Pai até hoje trabalha e eu também trabalho, ensinando-nos que o trabalho é Lei da Vida a que todos estamos submetidos.

O trabalho não deve ter por meta prioritária somente lucros materiais, respostas em salários e prêmios, mas sim, também, a satisfação de seguir a dinâmica da Vida, auxiliando e fomentando o progresso das pessoas e dos povos bem como, beleza e a harmonia do planeta.

A ociosidade é matriz de muitos males que atormentam os seres humanos, particularmente gerando perturbações emocionais e desajustes comportamentais.

Quando o indivíduo não tiver necessidade de trabalhar para o próprio sustento, poderá dedicar-se às obras de benemerência, de engrandecimento social, de solidariedade humana, contribuindo para amenizar as provações e dores dos desafortunados, mediante cuja contribuição se sentirá dignificado e membro atuante do conjunto social no qual se encontra.

4) O desenvolvimento econômico-tecnológico no mundo moderno não resolveu de forma significativa o problema da miséria. Há perspectivas de mudança nesse processo ?

Tem-se pensado, do ponto de vista sociológico, nas criaturas formando um todo, ou constituindo grupos que se devem ajudar, de forma que o conjunto experimente harmonia. Como tese é legítima a aspiração. No entanto, o grande problema é o indivíduo em si mesmo. Enquanto nele vicejem as manifestações de natureza primitiva, egoísticas, encontrará forma de constituir um grupo social privilegiado que se imporá aos demais, fruindo além das possibilidades de gozar com esquecimento das demais criaturas.

A mudança se dará, conforme já vem ocorrendo, quando cada um se dê conta que é impossível ser feliz a sós, possuindo e possuído pela posse, com esquecimento do grupo social no qual é obrigado a movimentar-se. Esse comportamento infeliz que vem sendo mantido já apavora os arbitrários dominadores, porque aumenta o cerco do cinturão da miséria em toda parte e a sua falsa segurança começa a desaparecer.

Ao mesmo tempo, a violência urbana, que é um dos filhos perversos dessa miséria, passa a rondar sistematicamente os poderosos, que se verão obrigados a encontrar soluções de emergência para resguardar-se, e concluirão que a única saída legítima é a da solidariedade, que proporciona trabalho digno, assistência nobre e oportunidades a todos para o seu crescimento e a sua existência feliz.

5) A forma de desenvolvimento econômico e tecnológico predominante no mundo atual tem resultado no crescente desemprego e na desvalorização do trabalho humano. Quais as consequências desses fatos para o desenvolvimento espiritual da sociedade? Como é visto o papel do Estado nesse processo?

A Ciência, aliando-se à Tecnologia, vem logrando feitos extraordinários com perspectivas audaciosas de efeitos imprevisíveis. O universo se amplia e as micropartículas facultam concepções que alcançam quase a fantasia. No entanto, a aplicação exacerbada do conhecimento em favor da comodidade de alguns, vem criando a robotização do ser humano que, de um lado, perde a sua identidade e, por outro, torna-se descartável nas operações industriais, comerciais e outras, sendo vítima do desemprego, e sofrendo situações lamentáveis de miséria moral, econômica, social...

Chega o momento no qual as autoridades terão que mudar o comportamento em torno da finalidade do progresso, particularmente direcionado para o bem do cidadão que não pode ficar marginalizado no grupo social.

A experiência vem demonstrando que a interferência do Estado como regulador do processo de desenvolvimento econômico tem redundado em desastre, porque o mesmo é sempre um péssimo patrão que sofre a interferência dos partidos políticos em predominância em cada período governamental.

A questão, portanto, resume-se na educação moral e espiritual do indivíduo, a fim de que nunca se olvide que a sua é a função de edificação de si mesmo e, por conseqüência, da sociedade. Todo e qualquer empreendimento deve ser realizado tendo em vista o homem, nunca priorizando a conquista que desumanize a criatura.

Espírito Vianna de Carvalho