RELIGIÃO

RELIGIÃO À LUZ DO ESPIRITISMO

1) Como se analisa o atual conflito de religiões no país e no mundo? E a busca da religiosidade e o crescimento do misticismo neste final de século?

A predominância do egoísmo no caráter do homem responde por qualquer tipo de conflito, especialmente no de religiões, em que a paixão dominante no ser pretende impor a sua forma de crença, mesmo que não seja real no seu íntimo. Por outro lado, a insegurança pessoal, psicologicamente conduz o indivíduo à ditadura da fé, de forma a sentir-se cercado de adeptos que pensam como ele, assim considerando-se apoiado. Esse, como outro conflito de qualquer natureza no grupo social, é resultado do primarismo que prevalece no ser humano em trânsito de estágio de evolução.

A criatura humana, feita à imagem e semelhança de Deus, isto é, com os recursos que são inerentes à Divindade, de cujo amor procede, não consegue romper esses liames que lhe estruturam a vida e, por isso mesmo, passadas as crises existenciais de comportamento, sempre retorna ao convívio com o Pensamento Cósmico, nEle haurindo forças e coragem para prosseguir na luta de elevação. Eis porque, ultrapassado o período de rebeldia, de materialismo, os indivíduos, frustrados pelas conquistas da inteligência, que lhes não atenderam totalmente as ânsias do sentimento, estão retomando à religiosidade, à busca mística - no seu sentido mais nobre e transcendental - tentando o Encontro e o autodescobrimento.

2) Temos vivido, no mundo atual, uma tentativa de estabelecimenro da paz e da tolerância. Como explicar a existência de vários grupos fundamentalistas islâmicos, radicais da extrema direita israelense, milícias curdas, etc. que, contrários ao desejo da maioria, ainda espalham o terror?

Enquanto viger o primarismo em a natureza humana, a sociedade enfrentará o fanatismo, o preconceito, a violência, o crime, que são filhos asselvajados do egoísmo em desgoverno nesses indivíduos portadores de pensamento primitivo, que ainda se encontram nos primórdios da evolução, e se reencarnam na Terra, a fim de se desevolverem e se tornarem instrumentos de reparação junto àqueles que com eles sintonizam e se encontram em débito perante a Consciência Cósmica.

A educação, com o seu objetivo superior de terapia preventiva, o convívío social edificante, os exemplos de dignidade e solidariedade humana que vicejam na Humanidade são os antídotos para esse mal, eliminando lentamente as tendências primárias, limando-lhes as arestas morais e auxiliando-os no desenvolvimento espiritual que se lhes torna indispensável.

Eles encontram oportunidade para desenvolver essas aptidões perturbadoras e aplicá-las, por conseguirem campo psíquico equivalente nas organizações sociais civilizadas, que ainda oprimem e matam, discriminam os fracos e sofredores, açulando-lhes os impulsos bárbaros que os levam a considerar-se mártires das causas que abraçam e a elas se entregam com o sacrifício da própria vida.

3) Num país subdesenvolvido como se analisa o apelo da Religião? A comunidade religiosa tem significativo espaço de solidariedade entre os fiéis ? Caso contrário, qual tem sido seu papel? (Está assumindo o papel de solidariedade na família, na sociedade etc?)

A Religião tem exercido, no curso da História, um papel relevante de referência à construção da sociedade, dos países, da Humanidade. Infelizmente, até este momento, em razão das paixões egoísticas em predomínio, os religiosos têm-se utilizado da fé para escravizar, para haurir resultados confortáveis para eles mesmos, tiranizando e afligindo aqueles que lhes negam a subserviência ou aceitação dos seus impositivos, vivendo regaladamente das Doutrinas que divulgam e dizem viver. É claro que há exceções extraordinárias e comovedoras, que demonstram o valor dos Espíritos Nobres que se reencarnam em todos os campos das atividades humanas, a fim de promoverem o progresso, o crescimento dos povos e das Nações.

Em algumas religiões - e é de lamentar-se! - a solidariedade somente é exercida para com aqueles que privam dos mesmos postulados de fé.

Em alguns países, exigem que se lhes filiem como membros ativos, pagando impostos para desfrutarem dos privilégios e regalias, bem como de SOCORROS, quando as necessidades os surpreenderem. A solidariedade, no entanto, deveria ser direcionada a todas as criaturas, mesmo àquelas que se não identificam com as suas diretrizes religiosas. Afinal, foi essa a mensagem de Jesus, inclusive, quando afirmou que havia outras ovelhas que não eram daquele rebanho, equivalendo dizer, que havia outras criaturas além dos israelitas, assim eliminando qualquer tipo de privilégio.

A Religião tem como meta aproximar a criatura ao seu Criador, religá-la a Deus. Para tanto, além do ministério específico, deverá ser um admirável auxiliar em todos os momentos, de forma que, por seu intermédio, a sociedade se torne melhor e mais feliz, e não apenas mais devota.

4) À medida que o homem obtenha maior conhecimento, ele será mais espiritualista?

O conhecimento leva a Deus inevitavelmente. No entanto, o orgulho vão e a presunção inútil conduzem aquele que os agasalha ao caos espiritual.

O homem, que se detenha na contemplação do Universo, inevitavelmente se curvará para homenagear Deus, qual ocorreu com Albert Einstein, Wemer Von Braun, David Bohn, Sir James Jeans, ou antes deles Newton, Nicolau Copérnico, Galileu que, mesmo perseguidos pela ignorância religiosa, não abdicaram da sua crença e respeito ao Criador.

Quanto mais lúcido, mais próximo se encontra o ser humano de Deus e é compreensível que, à medida que se lhe dilate o conhecimento, mais espiritualista se apresente, se estiver disposto a abdicar dos recursos egoísticos, aos quais se submete, subserviente.

5) Sabemos muito pouco a respeito da vida de Jesus. Chegaremos a ter acesso ao conhecimento de tudo que diz respeito a Ele e à Sua Obra?

Como Ele é o Caminho da Verdade e da Vida, é compreensível que Sua vida e Sua Obra se tornem cada vez mais conhecidas e vividas. Chegará o momento em que todos tomaremos conhecimento pleno das Suas realizações e da Sua grandeza moral e espiritual. Enquanto isso não sucede, poderemos, entretanto, deixar-nos penetrar pela prática do Primeiro Mandamento, que se resume no Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a SI mesmo.

Partindo-se desse princípio, chega-se à outra etapa, que é não fazer ao próximo aquilo que não se deseja que outrem lhe faça, como decorrência natural do amor.

Tudo o mais virá por acréscimo de misericórdia.

6) A prece proporciona coragem ao homem. Como conservar essa coragem, ao ponto de transportar montanhas, conforme nos ensinou Jesus?

As montanhas a que o Mestre se referiu, são os obstáculos morais que impedem o ser humano de crescer espiritualmente, de superar os vícios a que se escraviza. As outras, aquelas que fazem parte da Natureza, a cada momento estão sendo vencidas pela moderna tecnologia. No entanto, as internas, aquelas que impedem o avanço do indivíduo na busca da sua plenitude, necessitam ser vencidas através da fé racional, constante, poderosa, aquela que transforma pigmeus em gigantes, os humildes de coração em batalhadores da luz.

A oração é o vínculo que ata o ser que se levanta do chão das paixões ao fulcro das realizações, ligando o Eu propínquo ao Tu longínquo.

Orando, o ser consegue a força para superar-se e alcançar o patamar da felicidade, vencendo todos os desafios que defronta, porque ligado a Deus de onde tudo procede.

7) O desenvolvimento tecnológico provocará alterações nos princípios religiosos atuais?

O ser humano, mesmo sem dar-se conta, aproxima-se cada vez mais de Deus. Ao identificar o macrocosmo e todos os seus desafios, ao penetrar no microcosmo e todas as suas interrogações, conclui que o acaso não pode ter produzido tão intrincada rede de equilíbrio e perfeição que se manifesta mesmo no aparente caos. O materialismo desfalece ante a ausência da matéria nos termos em que sempre foi concebida, enquanto o Espiritualismo ressurge em outras dimensões mais compatíveis com o conhecimento e a razão. É inevitável, portanto, que o avanço tecnológico conduza a mente humana à Divindade e, portanto, os princípios religiosos ingênuos das velhas tradições cedam lugar aos postulados eloqüentes da imortalidade e da reencarnação, da pluralidade dos mundos habitados e da Majestade de Deus, que são os alicerces da Doutrina Espírita, cuja mensagem é de sabor eterno.

8) É notável o avanço dos postulados espíritas nos meios científicos. Todavia, porque entre os religiosos crescem o fanatismo e a intolerância?

Enquanto predomine em a natureza humana a paixão insensata, permanecerão todos os seus problemas perturbando a marcha do progresso da criatura em si mesma e da Humanidade em geral. Sob essa dominação nefasta o indivíduo crê que somente aquilo que lhe diz respeito é o melhor para ele e para todos, impondo aos demais a sua forma de ver e de crer. Auto-fascinado, qual novo Narciso, perde o senso de discernimento e de equilíbrio, passando a exigir o direito de usufruir prerrogativas e privilégios enquanto escraviza e persegue.

O Espiritismo é uma Doutrina de liberdade, porque a sua é a fé raciocinada, aquela que se deriva da observação dos fatos e da sua incorporação ao modus vivendi de cada adepto, não impondo, não gerando fanatismo e, acima de tudo, respeitando os níveis de consciência nos quais estagiam as demais pessoas.

Destacam-se. entre as características do atraso moral da criatura humana, a intolerância para com as demais e o fanatismo de qualquer natureza.

9) A agressividade dos movimentos religiosos contrasta com a discrição do Movimento Espírita, que presenta seu caráter não proselitista, em favor de uma efetiva mudança de atitudes do homem. Como enfrentar o agravamento dessa situaçâo, sobretudo diante de campanhas frontalmente contrárias aos ideais espíritas-cristâos?

A maneira mais eficaz para se defender a excelência de uma idéia, é vivê-la integralmente, demonstrando a sua qualidade pelo que propicia de bom e de nobre naquele que a esposa.

Quando se tem insegurança em torno de um ideal seja ele qual for, de natureza religiosa, filosófica, científica, artística, etc, o comportamento do indivíduo faz-se agressivo, intolerante, carregado de sentimentos perversos, exteriorizando o nível de primitivismo em que transita.

A agressividade positiva em torno de uma proposta que dignifica a sociedade faculta o sacrifício do seu idealista, a sua entrega total, todo o empenho em favor da sua divulgação. No entanto, quando se volta contra aqueles que não professam o mesmo credo, caracteriza paixão dissolvente e perturbadora. Muitas vezes desvela também conflitos que jazem no íntimo do ser, que assim, mediante mecanismo de transferência psicológica, se exalta, exibindo a timidez, o medo em virulência perseguidora.

É natural que indivíduos que se não realizaram socialmente, por experimentarem complexos de inferioridade, ao se depararem com Doutrinas religiosas ou filosóficas, artísticas ou culturais de qualquer ordem, se completem emocionalmente, acreditando-se, dessa forma, que são superiores aos demais e, portanto, melhores dos que os outros ...

O comportamento do Movimento Espírita está exarado na própria Doutrina, que ensina a compreender a fragilidade do próximo e a sua ignorância, desculpando ao tempo em que realiza o melhor ao seu alcance. Não deverá mudar essa atitude, ademais, porque o verdadeiro espírita compreende que as criaturas evoluem a pouco e pouco, transitando por diferentes níveis ou estados de consciência, o que permite a diversidade de opiniões, de propostas e de comportamentos humanos.

10) Como poderia explicar-se, à luz dos conhecimenntos espíritas, o episódio narrado em João 9:3, em que o Mestre, diante de um cego de nascença, considerou, em resposta aos discípulos: - Nem ele pecou, nem seus pais, mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus.

Nem todo sofrimento é portador de resgate, de necessidade reparadora. Também há muitos casos em que a dor se apresenta como mensagem de vida, como convite à reflexão, de modo que seja suportada com ânimo, resignação, coragem e mesmo amada. Não será esse o caso de Jesus que, sem mácula, ofereceu-nos o espetáculo inesquecível da Sua doação, com o objetivo de ensinar-nos a sofrer, a nós outros que ainda somos imperfeitos e devedores?

Na questão em tela, acreditamos que aquele Espírito se fizera voluntário, para poder contribuir com o ministério do Mestre, nascendo sem dívida, a fim de que o Terapeuta Superior o liberasse da cegueira, sem violar o carma no qual estivesse incurso. Como não era devedor, tomou-se instrumento das obras de Deus, que operavam pelas mãos do Médico Incomparável.

Espírito Vianna de Carvalho