ANTOLOGIA DO MAIS ALÉM

(A Poesia mediúnica como forma de comunicação paranormal) J. Herculano Pires

A poesia mediúnica foi até hoje considerada como marginal.

A poesia e toda a literatura mediúnica. Os críticos têm receio de se pronunciar sobre ela e quando o fazem é de maneira irônica. Servem-se da ironia para se salvarem dos preconceitos vigentes, preservarem o prestígio profissional e manterem a sua posição no aquário. Assim podem servir a Deus e ao Diabo ao mesmo tempo. O aquário é o meio cultural em que se desenvolveram, com sua rotina, sua água parada e morna, nem fria nem quente, aquecida por meios artificiais. Ê uma delícia nadar nessa água sem maiores preocupações, no espaço limitado pelo grosso vidro da vasilha. Por que pensar nas coisas que poderiam existir além do vidro?

Mas a obra literária, como todas as coisas feitas por Deus ou pelo homem, vale por si mesma e não pelos canais da sua realização. Um poema é o que é. Pouco importa se foi feito por Homero ou por Zé Mindim numa sitioca da Sorocabana. Tem de ser aceito pelo que ele é, não pela sua origem. Uma comédia de Shakespeare é uma comédia, seja dele, de Bacon ou de quem for. Mas se for um pasticho? Ora, acaso o pasticho também não é arte? Pode alguém pastichar com valor sem conhecer a obra do pastichado e sem ter habilidade e aptidão literárias? Mas nada disso pesa na balança. O crítico tem a sua regra. E se a consciência lhe pesa, usa a ironia. Assim não deixa de abordar o assunto e pode dar uma colher de chá aos amigos espíritas. Ah, os espíritas já se acostumaram tanto a ser ironizados!

Com raras exceções, por sinal muito corajosas, nossos críticos e literatos torcem o nariz ilustre diante da poesia mediúnica. Monumentos poéticos como o Parnaso de Além Túmulo, a Antologia dos Imortais, Poetas Redivivos, Sonetos de Vida e Luz, O Espírito de Cornélio Pires são atirados ao lixo, fora do aquário, nos arraballdes da cidade das letras, para uso e gozo da ralé. O argumento justificativo é sempre o mesmo: trata-se de pasticho ou de fabulações inconscientes da escrita-automática.

Mas hoje as coisas mudaram. Os aquários estão sendo quebrados. A ciência materialona de há meio século descobriu novas dimensões da realidade, rompeu para sempre a rotina cultural. A tese espírita dos universos interpenetrados comprovou-se em laboratório. A teoria do corpo espiritual, que é o corpo da ressurreição e portando da sobrevivência, foi confirmada pelos materialistas soviéticos na descoberta do corpo bioplástico. Os problemas da morte e da reencarnação, bem como os da comunicação mental, não só entre os vivos, mas também entre vivos e mortos, foram incorporados pela investigação científica. A possibilidade da transmissão de obras literárias por via paranormal, que vale dizer pela mediunidade, é admitida mundialmente pelos cientistas atualizados. Chegou o momento em que o problema da literatura mediúnica não deve mais assustar os críticos mas atrair a sua atenção.

É exatamente nesse momento que o escritor, jornalista, radialista e homem de televisão, Jorge Rizzini, cuja linhagem intelectual é bastante conhecida, abre a sua percepção extra-sensorial para a captação das mensagens poéticas vindas do outro lado da vida. do mundo da antimatéria. Os poetas que sobrevivem no seu corpo bioplástico voltam através da mediunidade de Rizzini para repetirem a façanha mediúnica de Chico Xavier. E os seus poemas, agora, exigem a consideração crítica desinibida, livre dos temores antigos, que a crítica atual está no dever de lhes dar. Estabeleceram-se as condições culturais necessárias para que a obra literária paranormal seja encarada em seu valor intrínseco, seja tratada como o objeto de Durkheim, na sua realidade concreta e própria.

Ignorar a realidade destes poemas e o seu valor ontológico e antológico, o seu valor de mensagem poética caracterizada pelo estilo, a idéia e a personalidade dos seres que as enviam ao mundo, e furtar-se à comparação antológica dos mesmos para a verificação da sua legitimidade ou não, seria uma fuga inadmissível à responsabilidade crítica. Esta obra se impõe, por isso mesmo, como pedra de toque da capacidade e da sinceridade profissional dos críticos de hoje em nosso país e em todo o mundo de língua portuguesa.

A própria história do livro, contada pelo médium numa confissão profundamente sincera, põe os estudiosos à vontade. Jorge Rizzini não está nas condições culturais primárias do jovem Chico Xavier de quarenta anos atrás. Mas também não pode gabar-se de uma cultura excepcional ou de uma possível genialidade. No campo da poesia é simplesmente um ausente. Jamais publicou uma obra poética.

Jamais divulgou um só ensaio nesse setor. E subitamente aparece com toda uma antologia, das mais vigorosas e impressionantes, que vai de Anchieta a Guilherme de Almeida, Mário de Andrade e Manuel Bandeira, num verdadeiro corte transversal da nossa poesia, acrescido de contribuições da poesia de Portugal.

A poesia mediúnica exige, com esta obra, o seu lugar no contexto da poética nacional e de ultramar. Os que continuarem a considerá-la marginal, sem o exame acurado desta obra, estarão automaticamente marginalizados em nossa época. E essa marginalização não será apenas literária, mas cultural no mais alto sentido do termo, pois o problema que agora se coloca não é apenas literário, mas abrange todo o contexto cultural em que vivemos. Não há mais lugar para a piada irresponsável, para o dar de ombros ignorante, para a ironia superficial. O desafio desta obra só pode ser respondido por trabalhos sérios, por investigações e avaliações conscienciosas.

Temos o direito de reivindicar, em nome da verdade cultural dos interesses fundamentais do homem, dos direitos humanos e do próprio humanismo um tratamento digno para esta obra excepcional, em que tanto merecem respeito o médium como os espíritos comunicantes. O fanatismo sectário não reconhecerá nada dissso. Mas é evidente que dos sectários e dos fanáticos nada podemos esperar. Dos homens de bom senso, conscientes de suas responsabilidades, temos o direito de exigir esse respeito. Não se trata de crença, nem mesmo de religião, mas de um problema cultural que hoje se reflete em todas as latitudes da cultura mundial. Emitir opiniões superficiais e irônicas sobre um assunto desta natureza será simples leviandade.

J. Herculano Pires