EVANGELHO

EVANGELHO DE JESUS CRISTO SEGUNDO A POESIA

POESIA - BOA NOVA - CRISTO - SINAL DE CONTRADIÇÃO -

Quando S. José e Nossa Senhora, no cumprimento da Lei de Moisés, foram ao Templo de Jerusalém consagrar ao Senhor o Menino Jesus, encontraram lá um homem, de nome Simeão, "justo e piedoso", "cheio do Espírito Santo" e que esperava a consolação de Israel. Tinha-lhe sido revelado que não morreria sem ver o Salvador prometido á Humanidade. Ao reparar no Menino, "tomou-O nos braços, bendisse a Deus e exclamou: agora, Senhor, podes deixar o teu servo partir em paz, segundo a tua palavra, porque os meus olhos viram a salvação que preparaste em favor de todos os povos - Luz para iluminar as Nações e Glória de Israel, teu Povo".

S. José e a Virgem Maria "estavam admirados com o que se ralava acerca do menino. Simeão abençoou-os e disse a Maria, sua Mãe: este Menino está aqui para queda e ressurgimento de muitos em Israel e para ser sinal de contradição; uma espada trespassará a tua alma, a fim de se revelarem os pensamentos de muitos corações". (Lucas, II, 22-35)

Simeão profetizou que aquele Menino, há oito dias nascido, estava no Mundo, por vontade de Deus, como Salvador de todas as Nações. E que no Mundo estava também para ser, por vontade dos Homens, "sinal de contradição ": por Ele uns homens ressurgiriam para a verdadeira vida, enquanto outros se destruiriam a si próprios em desastrosa queda. Há quase dois mil anos da comunicação desta profecia. constatamos que o seu cumprimento não oferece dúvidas a ninguém. Na verdade. nestes milênios, dificilmente se descobrirá na Terra um lugar ou um tempo em que Cristo não estivesse, mais ou menos em evidência, como "sinal de contradição".

Qual o motivo desta realidade'? Dostoievski, no primeiro ensaio de Demônios, faz dizer ao protagonista, a propósito da Fé: "Reduz-se, definitivamente, a esta pergunta transcendental - pode um homem culto, um europeu dos nossos dias crer ainda na divindade de Jesus Cristo, Filho de Deus? Porque a isto se reduz, em definitivo, a Fé toda (CL Karl Adam - Jesus Christus. cap. 1°). Com efeito, muitos são os dogmas da Fé e variado é o seu credo, cumo todos sabem: mas na base da Fé, virtude teologal, está, sem dúvida, Jesus Cristo, Deus e Homem, Verbo Encarnado. A Ele e à sua Missão Redentora é que, por último, a Fé acaba por conduzir as pessoas. Cristo é o centro da Fé.

Ora a Fé, crença em verdades reveladas, é um acto intelectual obscuro, onde o assunto ultrapassa de longe o poder cognitivo da razão, e é também um acto livre, onde o assentimento às verdades depende do império da vontade de cada um. Totalmente diverso é o assentimento a verdades científicas, o qual depende da evidência do assunto, ficando, desta maneira, qualquer atitude livre da vontade totalmente posta de parte. Note-se, porém, que no acto de Fé o império da vontade é livre, mas não é cego. Na ciência, como se disse, o motivo do assentimento é a evidência: na Fé o motivo do assentimento é o testemunho de quem fala. Mas o império livre da vontade, ao aceitar esse testemunho, não o aceita levianamente, já que só o acolhe dirigido por um juízo certo de credibilidade, cujo processo de criação a Teologia Fundamental explica na sua parte Apologética. Tal juízo de credibilidade tem por força de pesar na responsabilidade moral do homem line. E assim terão as pessoas na vida futura mérito ou demérito, consoante tiverem sido crentes ou descrentes.

Há quase dois mil anos que Jesus Cristo está no meio da História. ao lado dos homens. Desses homens, uns acreditaram e acreditam nEle como Filho de Deus; outros negaram e negam que o seja. Como chegaram e chegam as pessoas da mesma natureza a atitudes tão opostas? Visto o acto de Fé ser um acto livre, chegaram aonde chegaram e chegam aonde chegam, fundamentalmente porque quiseram e querem. E, como na vida terrena Deus respeita integralmente a liberdade humana, nada fará, nem sequer pregar um sustozinho mínimo, para impedir o exercício que dela cada qual queira fazer.

De duas maneiras, falando na generalidade, têm mostrado os homens através da História que Cristo está na Terra como "sinal de contradição": por acções e por palanas.

Durante a sua vida terrena, muitos deixaram tudo e seguiram-nO até ao extremo de morrerem por Ele; outros perseguiram-nO, prenderam-nO e tiveram o desplante e ousadia de O levarem ao suplício da cruz. Depois de subir ao Céu, milhões têm ajoelhado e ajoelham a seus pés, erigindo- Lhe ao mesmo tempo, em todos os lugares da Terra, monumentos de altíssimo valor e beleza artística rara; mas outros milhões, ao sopro dos ventos do paganismo, do racionalismo, do materialismo, O têm ultrajado e martirizado no seu Corpo Místico, ou seja nos Cristãos.

Também pela palavra, sobretudo escrita em prosa, nos damos conta de que Cristo está entre nós como "sinal de contradição". Lembramos, a fugir, as centenas e centenas de livros da Patrologia latina e grega, escritos nos primeiros cinco séculos da nossa era, todos a espalhar a Pessoa de Cristo, a sua doutrina e a sua obra: depois, na Idade Média e no Renascimento, incontáveis obras, umas de carácter didáctico, outras de tipo ou exegético ou oratória ou místico foram compostas e circularam por Universidades, Conventos e escolas a mostrar Jesus como Filho de Deus e Redentor; e o mesmo se diga dos tempos modernos e principalmente dos actuais, onde não têm faltado paladinos brilhantes da vida de Jesus e da sua Mensagem salvífica. Quem não se recorda das excelentes biografias de Cristo que, em meados deste século, corriam solícitas pelas mãos do grande público, quer de carácter científico como as de Romano Guardini, de Fillion, de Grandmaison, de F. Prat, de Karl Adam, quer de carácter predominantemente literário como as do Prêmio Nobel de Literatura de 1952 François de Mauriac, de Giovanni Papini, de Plínio Salgado?

Mas, por outro lado, também nos tempos antigos e, com mais frequência até, nos modernos e actuais, não têm faltado escritos em prosa a tentar desfigurar a verdadeira imagem de Cristo, Filho de Deus. Não vamos referir-nos aqui, de modo particular, a qualquer dessas obras literárias produzidas por ateus e por hereges também. Queremos apenas salientar que algumas delas, sem um mínimo de seriedade, ao público pouco mais oferecem que presunção ridícula. É, por exemplo, o caso de certas narrativas romanescas que ainda em nossos dias abordam a Pessoa de Jesus e outras figuras dos Evangelhos com tanta fantasia e leviandade que só por virem rotulados no papel de personagens com os nomes próprios consagrados pela História é que conseguem identificar-se. E, às vezes, a falta de verosimilhança é tal que nem o gênero literário invocado para a justificar (ficção, conto, novela, romance histórico sobretudo) pode desculpá-la. A estas obras deixá-las lá ...

No entanto, nem todos os livros que pretendem ver Jesus destemido são assim tão balofos. Nos fins do século XVIII, no século XIX e princípios do actual, surgiram estudos de outro teor, revestidos pelo menos com um verniz de carácter cientifico, a pretender apear Jesus do pedestal aonde a Fé O colocou. Revolvendo questões de fontes históricas, de literariedade de textos, de análise psicológica de personagens na primitiva literatura cristã, causaram algumas preocupações a teólogos e exegetas católicos, que, seguindo essas mesmas pistas, não tiveram dificuldade em mostrar a apaixonada falsidade puramente subjectiva de tais ataques à Divindade de Jesus. Estamos a referir-nos sobretudo a racionalistas e ainda a alguns protestantes liberais que, nesse período de tempo, vieram e escreveram no centro desta velha Europa: França, Alemanha. Áustria, etc.

Embora menos do que para a prosa, também para a poesia Cristo tem estado como "sinal de contradição". Deixando de lado os estrangeiros, só queremos ir ao encontro de alguns poetas portugueses, vê-los de passagem e recordar o modo como viram Jesus na Terra. É claro que por um ou outro, principalmente nos tempos mais modernos. Jesus tem sido visto como "sinal de contradição". Típico é o caso de Gomes Leal, que em 1884 acabou de escrever o poema Anticristo, onde a Ciência e o progresso aparecem, arrogantes como se foram donos do Mundo, a condenar Deus à morte; em 1907 reeditou a mesma obra, visceralmente refundida, retractando-se e reconhecendo na Terra acima de tudo o primado da Consciência e de uma "Ordem Divina".

Não desperdicemos, porém, tempo com os que ao Verbo Encarnado têm aludido de forma menos ortodoxa e limitemo-nos a nomear, e só nomear, aqueles cujos versos cantam com entusiasmo e amor o Filho de Deus feito Homem. Entre nós, a poesia religiosa ocupa-se, com manifesta simpatia, de Nossa Senhora e dos Santos. Mas debruça-se também com respeitoso e afectuoso acolhimento sobre a Pessoa de Jesus e sobre os vários aspectos da sua Missão Redentora. É aos poetas que mais directamente, menos directamente, focaram passos da vida do Salvador que vamos agora aludir.

Um dos primeiros que desponta na nossa Literatura é André Dias (1348-1440), monge beneditino e bispo, que na obra Livro de Laudes e Cantigas Espirituais conta o Nascimento e nome de Jesus, a sua Paixão e Morte, a Ressurreição, a Santíssima Eucaristia. Gil Vicente (1465-1537) refere-se a Cristo, com ternura, nas peças dramáticasAuto dos Reis Magos. Auto de Afofina Afendes, Diálogo sobre a Ressurreição. Auto da Cananéia. Diogo Bernardes (1530-1596) alude a muitos passos da Vida de Cristo no livro Várias Rimas ao Bom Jesus; e seu irmão Frei Agostinho da Cruz (1540-1619) deixou-nos belos sonetos e elegias salientando com obsessão os sofrimentos de Jesus na Paixão e a apoteose da Ressurreição e Ascensão ao Céu. No século XVII, muitos foram os poetas barrocos que se inspiraram em temas religiosos, com referências a Jesus Menino, a Jesus Crucificado e a Jesus Remunerador sobretudo.

Em pleno Romantismo, encontramos poemas de olhos postos na Pessoa de Cristo em escritores como Herculano, Ganett Soares de Passos, João de Deus, Augusto Gil, Queirós Ribeiro e outros. Mas não queremos deixar sem uma alusão concreta a obra de Gomes Leal (1848-1921) História de Jesus para as Criancinhas Lerem, constituída por quadros biográficos da vida de Jesus, visto não propriamente como Redentor, mas antes olhado romanticamente como um homem bom, meio poeta e meio filósofo, amigo dos pobres e dos pequeninos. Poesia cheia de simplicidade e ternura, com ela desejava o poeta edificar o encantador mundo infantil.

Ao findar o século passado, o poeta, dramaturgo e jornalista D. João de Castro (1871-1955) publicou um poema dramático com elucidativo titulo Jesus (1894, 22 ed. 1925) e em 1926 Antônio Corrêa de Oliveira (1879-]960) dava ao público Verbo Ser e Verbo Amar, poesia épico-religiosa, cujos dois últimos capítulos se ocupam de Cristo e sua Missão. Aspectos vários de doutrina evangélica se vislumbram ainda em bastantes poemas de José Régio (1901-1969), como alguns títulos sugerem: Poemas de Deus e do Diabo, As Encruzilhadas de Deus, Mas Deus é Grande, A Chaga do Lado, Filho do Homem: e o mesmo se pode afirmar dos conhecidos poemas de Vitorino Nemésio (1901-1978) O Pão e a culpa e O Verbo e a Morte.

A fechar agora esta garbosa e brilhante parada de egrégios vates lusitanos surge Aurélio Fernando com o livro O Evangelho de Jesus Cristo - segundo a Poesia. Com maior amplitude de visão do que qualquer dos cultores das musas atrás citados, apresenta-nos em quase duas centenas de sonetos variados e polícromos quadros inspirados na leitura assídua dos Evangelhos. Unidos uns aos outros, esses pequenos-grandes "quadros" pintados "por letras". como diria Cesário Verde, transformam-se num políptico de dimensões colossais a meter-nos pelos olhos dentro a vida redentora de Jesus e a sua Mensagem salvadora: nascimento e infância, a casa de Nazaré, o baptismo no Jordão e o começo da vida pública, os milagres, a escolha de apóstolos e discípulos, exposição de doutrina, última Ceia e Paixão, Ressurreição e Subida ao Céu. Se alguém perguntar a Aurélio Fernando qual o motivo que o induz à feitura de obra tão extensa, em tão alto número de poemas, talvez ele conteste afirmando, em elevada potenciação, a respeito dos ensinamentos e acções de Jesus na Terra o que Camões refere acerca da gesta dos Portugueses:

Porque de feitos tais por mais que diga,
Mais me há-de ficar inda por dizer. (Lus. III,5)

Este Evangelho é visto pela Poesia, forma de linguagem, aliás, apropriadíssima para a expressão e comunicação de factos que envolvem o mesmo Deus, ainda que, vista só pela rama, tal não pareça. Com efeito, cruzamo-nos, na vida intelectuaL de vez em quando com o "inefável". "Inefável" é aquilo que não se pode exprimir com exactidão, porque a força significante das palavras, às vezes, é exígua para representar e comunicar a essência de certas realidades. Entre estas realidades "inefáveis" encontra-se, sem dúvida, Deus e os seus mistérios. É que todos reconhecemos a nossa impossibilidade de atribuir adequadamente a Deus qualquer atributo e de exprimirmos linguisticamente com justeza a sua Natureza Divinal. Deus, com efeito, não se identifica com a perfeição das qualidades pensáveis por nós, mas é "totalmente outro". Temos, pois, de considerar Deus "inefável". (...)

Antônio José Barreiros

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