A IDADE MÉDIA

1 - AGOSTINHO

É nos concílios que os dogmas cristãos são estabelecidos.

Em 451, no Concílio de Calcedônia fixa-se o conceito de que o Cristo tem duas naturezas distintas, conjuntas em uma única pessoa: Natureza Divina e Humana.

Mas o maior pensador desta época é Agostinho, cuja obra se estende entre o Concílio de Constantinopla, em 381, e o de Éfeso, em 431. Estabelece que a verdadeira ciência é o conhecimento de Deus e que, conhecendo-o, o resto é conseqüência. Daí o desprezo pelas questões científicas.

Afirma que o homem atinge o saber por iluminação divina, e o conceito de Deus é fixado trino, segundo o dogma da Trindade.

O mal não é criado por Deus, mas é conseqüência da perda daquilo que é bom.

A discussão entre o que sejam o bem e o mal se estende a outros seguidores, o que dá origem a novas heresias. Agostinho afirma que os homens estão em pecado por solidarizar-se com Adão e Eva, sem saber libertar-se pelas próprias forças. Dentre eles alguns foram eleitos por Deus, aos quais libertou por sua graça. Os outros apenas não estão condenados à perdição.

No século VI dá-se outra especulação mística segundo a qual a criação é entendida como emanação de Deus e o mundo povoa...se de entidades intermediárias: os santíssimos tronos, os querubins, as potestades, as dominações, os poderes, e finalmente as substâncias angélicas.

Isto oferece um modelo para a organização da Igreja que, em 607, contra os esforços do plano espiritual, cria o Papado, com o Imperador Focas.

Ao mesmo tempo Roma é destituída de seus poderes e, por orientação do Alto, ocorre sua queda, com a invasão dos bárbaros, dando origem à desorganização geral.

Começa novo ciclo de civilização, a Idade Média; e a decadência intelectual da Patrística e um longo estacionamento nos processos evolutivos.

Apesar disto Jesus não desampara. Sempre envia seus missionários a exemplificarem, sublimada e corajosamente, as lições do amor e da virtude, "ensinando o caminho claro da evolução aos povos invasores, trazendo-os ao pensamento cristão e destinando-os aos tempos luminosos do porvir" ([A caminho da luz], Cap. XVI).

2. - O FIM DA PATRÍSTICA

No século V as grandes missões fazem desaparecer os centros tradicionais da cultura e a vida espiritual refugia-se nos mosteiros, onde se acreditava que, pelo jejum e pela oração, em soledade, se pudesse atingir mais rapidamente a redenção perante o Cordeiro.

A filosofia grega entronizara a razão. Não se podia mais construir o conhecimento, qualquer que ele fosse, científico, filosófico ou religioso, a não ser nas formas metódicas da razão. Cabe à Patrística fixar a Revelação cristã nas formas lógicas do pensamento grego.

Entretanto, a idéia de que a verdadeira ciência reside no conhecimento de Deus, favorece a incultura, desviando a atenção dos homens das coisas terrenas, dirigindo-a para as coisas do céu. Todas as conquistas científicas e artísticas foram submersas. A unidade política fragmenta-se e fraciona-se a vida social em pequenos centros dividido e independentes, constituindo-se o feudalismo, que atinge a própria Igreja, a qual, não conseguindo elevar sua função, tornou-se um instrumento do governo e não um guia para orientá-lo.

No século VI, entretanto, "aparecem grandes vultos da sabedoria e da bondade, contrastando a vaidade orgulhosa dos bispos católicos," exerceram a função de novos sacerdotes da idéias sagradas do Cristianismo, conservando-lhe o fogo divino para as futuras gerações do planeta" ([A caminho da luz], Cap. XVII), destacando-se entre,eles os missionários beneditinos, cujo maior mérito foi a cristianização de bárbaros, principalmente os germanos.

Simultaneamente, após a morte de Teodósio, o mundo divide-se em Ocidente e Oriente, sob a regência de seus filhos Honório e Arcádio. Com o desaparecimento do mundo ocidental, por obra de Hérules, em 476, Constantinopla torna-se a sucessora de Roma imperial, formando-se o império bizantino que só terminaria em 1453, com o assalto de Maomé II.

3 - O ISLAMISMO

Antes da fundação do Papado, no século VI, outro grande movimento religioso cristão inicia-se no mundo árabe com Maomé.

Como em todos os povos, a religião árabe provém de formas antigas, antes totêmicas, depois animistas, pelas quais admitiam-se espíritos alojados em árvores, pedras e astros. Em Caaba, templo de Meca, adoravam uma pedra branca e outra preta. Antiga divindade tribal, Hubal, venerado em Meca, passou a ser chamado Allah.

Maomé nasceu no ano de 570, em Meca, pobre, tornanndo-se rico pelo casamento, com a missão de reunir as tribos árabes sob a luz dos ensinos cristãos. A ele é ditado o Alcorão, tido como última manifestação de uma série de escrituras sagradas, o Pentateuco, os Salmos de Davi, o Evangelho de Jesus e finalmente o Alcorão, que recebe mediunicamente e dita a seus secretários, por ser analfabeto.

Maomé não consegue superar suas próprias fraquezas. Seus ensinos encerram flagrantes contradições, revelando um espírito belicoso, de violência e de imposição ([O divulgador espírita], Cap. 11).

O Islamismo admite um deus único que determina o destino do homem, exigindo submissão à sua vontade, ou Islam, do qual deriva o termo Muslim, ou Muçulmano, para definir a nova fé.

Qualifica de infiéis aqueles que não se submetem às suas doutrinas e apregoa a violência. A Arábia foi submetida à sua doutrina pela espada, que se espalha além dela sob a égide devastadora de guerras santas. Com elas conquistam toda a África Setentrional no fim do século VII, e se instalam na Espanha no início do século VIII, não indo além dos Pirineus, "porque o Plano Espiritual assinalara um limite às suas operações, encaminhando Carlos Martel para a vitória de 732 ([A caminho da luz], Cap. XVII).

4 - O NASCIMENTO DA ESCOLÁSTICA

"No século VIII, Jesus permite a reencarnação de um dos mais nobres imperadores romanos, ansioso de auxiliar o espírito europeu na sua amargurada decadência. .. sob o nome de Carlos Magno" ([A caminho da luz], Cap. XVII). Com ele há um despertamento da vida européia que se reaviva com a instauração de escolas, onde se ensinam as sete artes liberais: o trívio - Gramática, Retórica e Dialética; o quadrívio - a Aritmética, a Geografia, a Astronomia e a Música.

Mais tarde, acima delas, colocal-se-á a Teologia, que passa a ser denominada de Escolástica. Por ela retoma-se a discussão ,dos temas religiosos transmitidos pela Patrística, com a premissa de que a verdade está contida nos textos sagrados e nos dogmas da Igreja - e com o intuito de conciliar Fé e Razão, Terminam por subordinar a Razão à Fé.

Todas as discussões mantém-se no estudo da natureza de Deus e da criação do mundo, predominando as idéias gregas, especialmente do Neoplatonísmo.

O soerguer do mundo teria pouca duração.

5 - O FEUDALISMO

O mundo ocidental, após a morte de Carlos Magno, alguns anos após sua coroação como imperador, em 800, recai nas sombras, constituindo um período que se estende do século VIII ao século XII, a Idade Média, sob o guante do Feudalismo. Por ele desaparece toda unidade política, que provoca uma crescente importância da propriedade individual e um recrudescimento, jamais visto, da servidão moral.

Com tal regime, implantam-se grandes lutas fratricidas que "somente as poucas qualidades cristãs da Igreja Católica conseguiram atenuar, instituindo-se as chamadas "tréguas de Deus", obrigando os guerreiros ao repouso em determinados dias da semana, com o objetivo de comemorar as passagens da vida de Jesus, ," ([A caminho da luz], Cap. XVII).

A missão de Carlos Magno foi mais uma tentativa de reorganizar o império do Ocidente. Diante da inutilidade do tentame, "as autoridades espirituais, sob a égide do Cristo, renovaram os processos educativos do mundo europeu. ,. chamando todos os homens para a vida do campo, a fim de aprenderem melhor, no trato da terra e no contato da Natureza" ([A caminho da luz], Cap. XVII), que só o feudalismo podia realizar.

6 - NOVO PROCESSO DE RESTAURAÇAO

Enquanto subordinada a Constantinopla, a Igreja sempre procurou libertar-se, conseguindo-o com o Papa Estêvão, em 756, ao mesmo tempo em que os soberanos da época dispunham da Igreja a seu bel-prazer, conferindo dignidades eclesiásticas a quem mais lhes aprouvessem, um período que se estende além do século X.

As advertências do Plano Espiritual, entretanto, jamais cessaram até que, no século Xl, inicia-se novo processo de restauração. O interesse cultural renova-se e as escolas começam a dar seus primeiros frutos.

Contemporaneamente, a partir do século XI, realizam-se vários movimentos no seio do Cristianismo, com a tendência de reconduzi-lo a formas mais consentâneas com a primitiva doutrina. Com o Papa Gregório VII, tenta-se coibir pelo Concílio de Roma 1074 os abusos do mercado dos sacramentos e as honras eclesiásticas, que redundam no caminho para a reaalização da Concordata de Worms, em 1.122, com Henrique V, no qual a Igreja reassume a sua independência e a regeneração de sua disciplina.

A leitura dos Evangelhos inicia movimentos de pregações tidos como heresias pelo Vaticano, destacando-se Pedro de Vaux, homem de negócios que tudo lega, em Lião, aos pobres, e seus seguidores, os Valdeuses, que foram excomungados, perseguidos pela Inquisição, resistindo, porém, até à Reforma.

O pretexto de combate às heresias suscita a criação do Tribunal de Inquisição em 1231, com Gregório IX, que se constitui em um dos maiores flagelos que a Humanidade conheceu, exigindo prontas providências do Espaço para a renovação educativa.

Aparece São Francisco de Assis, um dos maiores apóstolos de Jesus, a instaurar nova corrente reformista, fundamentada exclusivamente no amor e na humildade e representada pela ordem dos franciscanos, que chega a congregar mais de duzentos mil missionários. Repeliam eles qualquer auxílio financeiro, alheando-se dos mosteiros, exemplificando que "em vez de repousarem à sombra dos claustros, na tranqüilidade e na meditação, esses espíritos abnegados reconheciam que a melhor oração, para Deus, é a do trabalho construtivo, no aperfeiçoaamento do mundo e dos corações" ([A caminho da luz], Cap. XXIII).

7 - AS CRUZADAS

Desde Constantino, os lugares santos eram motivo de grande visitação permitida pelos árabes. Os turcos dominando Jerusalém, no século XI, passam a impedi-la aos cristãos que lá acorriam, expulsando-os com a maior crueldade.

Isto gera expedições européias, as cruzadas, em que sucessos e insucessos se alternam. As últimas foram dirigidas por Luiz IX, o rei da França, que, caindo em poder dos inimigos, morre de peste, em 1270, defronte a Tunis.

As cruzadas foram aproveitadas pelos "mensageiros de Jesus" a fim de estabelecer benefícios de ordem econômica e social. "Na Europa a sua influência foi regeneradora, enfraquecendo a tirania dos senhores feudais e renovando a solução dos problemas da propriedade... Além disso... intensificaram, sobremaneira, as relações do Ocidente com o Oriente ... " (A caminho da luz, Cap. XCIII).

8 - AS PRIMEIRAS UNIVERSIDADES

No século XIII, "sob o desvelado concurso do Alto", laura-se a monarquia que inicia a organização da unidade lítica em sentido mais amplo .

Esbarra-se, porém, com a pobreza intelectual imposta pejos meios escassos de instrução. Pergaminhos e livros tinham preços inacessíveis, Ciência e Filosofia encontravam-se totalmente escravizadas à Teologia, senhora absoluta, com poder de vida e de morte sobre as criaturas ..

Novo surto de intelectualidade, entretanto, surge com a fundação de universidades, dentre as quais se destacam as de Paris e Bolonha, modelo para as de Oxford, Coimbra e Salamanca.,

Traduz-se Aristóteles e, contra a resistência inicial da Igreja, ele passa a ser estudado, dando origem a novo movimento filosófico. Em Paris prevalecem os dominicanos; em Oxford, os franciscanos.

Os franciscanos aceitam o procedimento racionalístico de Aristótcles, mas colocam a intuição acima da razão, para o conhecimento das coisas divinas e atribuem mais importância às atividades práticas, criando nova forma de Misticismo.

Os dominicanos aceitam o Aristotelismo, cabendo a Tomaz de Aquino estabelecer acordo entre a Filosofia e a Religião.

Há verdades de fé - diz ele - existentes nos textos sagrados, e verdades de razão, obtidas com a aplicação da lógica de Aristóteles. Sempre que haja contradições, deve prevalecer a Fé. Baseado na concepção de alma aristotélica, entende que ela é uma substância angélica, que sobrevive ao corpo, presidindo nele as funções intelectuais e as sensíveis. A seguir desenvolve sistema filosófico que se enquadra no sistema ela Igreja, a Escolástica, que continua a ser cultivada nas suas Escolas Teológicas, apropriada à estrutura lógica dos próprios dogmas.

A Igreja Católica conserva-se filosoficamente aristotélica e é este o ponto que a fará divorciar-se da Ciência e da Filosofia renovadas, distanciando-se do conhecimento atual, causa da séria crise de nossos dias.

9 - O FIM DA IDADE MÉDIA

Com o surgimento das universidades, do comérclo e o crescimento das cidades, renova-se a vida intelectual, da qual Bacon, franciscano inglês, é ponto culminante, como iniciador da revolução do pensamento científico e filosófico.

Ao mesmo tempo, inúmeros mensageiros de Jesus, sob a vinculação, iniciam largo trabalho de associação dos espíritos, de acordo com as tendências e afinidades, a fim de formarem as nações do futuro, com sua personalidade. .. cada uma ... cometida de determinada missão ...

A Inglaterra. .. em 1265 exige a Câmara dos Comuns, onde a burguesia e as classes menos favorecidas têm a palavra com a Câmara dos Lordes. A Itália prepara-se para a sua missão de latinidade. A Alemanha se organiza. A Península Ibérica é imensa oficina de trabalho e a França ensaia os passos definitivos para a sabedoria e para a beleza.

. .. É assim que vamos encontrar antigos fenícios na Espanha e em Portugal. .. Na antiga Lutécia (futura Paris) ... vamos achar a alma ateniense nas suas elevadas indagações filosóficas e científicas, abrindo caminhos claros ao direito dos homens e dos povos. .. Na Prússia, o espírito belicoso de Esparta ... Na Grã-Bretanha, a edilidade romana, com a sua educação e a sua prudência" ([A caminho da luz], Cap. XIX).

A formação dos Estados nacionais torna-se o resultado mais importante da vida política européia, dos últimos séculos da Idade Média, embora não sem lutas e guerras amargas.

Na França o Estado consolida-se com a guerra dos Cem Anos, em que se consagra a figura de .loana D'Arc; na Inglaterra o feudalismo se extingue com a Guerra das Rosas; na Alemanha e na Itália, pela ação de Barbarosa.

Com as lutas de Gengis Khan, na unificação da Mongólia; de Tamerlão, na formação do segundo império mongol; e com a queda de Constantinopla, em 1453, que permaneceria definitivamente em poder dos turcos, termina a Idade Medieval e desponta nova era para a Humanidade.

Rino Curti