A retomada do desenvolvimento

1 - MOVIMENTOS REFORMADORES

No início do século XIII redesponta intenso movimento intelectual, do qual se originam as primeiras universidades.

A vida social se renova, em conseqüência de novas invenções, a ampliação do conhecimento geográfico, o surgimento da burguesia que cria novas riquezas, novas relações sociais e políticas. O contato com os clássicos da antiguidade, a criação de novos engenhos para o desenvolvimento das atividades, faz o homem voltar-se às conquistas que ele já pode efetuar neste mundo, antes relegadas ao desprezo, na Idade Média.

"Nos albores do século XV ... grandes assembléias espirituais se reúnem nas proximidades do planeta, orientando os movimentos renovadores que, em virtude das determinações do Cristo, deveriam encaminhar o mundo para uma nova era ... Mensageiros devotados reencarnam no orbe... Na Península Ibérica. .. fundam-se escolas de navegadores... Numerosos precursores da Reforma surgem por toda a parte, combatendo os abusos de natureza religiosa. Antigos mestres de Atenas reencarnam na Itália, espalhando nos campos da pintura e da escultura as mais belas jóias do gênio e do sentimento. A Inglaterra e a França preparam-se para a grande missão democrática ... " ([A caminho da luz], Cap. XX).

Diz Emmanuel que Jesus é quem dirige o ressurgimento das atividades humanas, delineando o papel que cada povo deverá exercer. Na América deposita suas maiores esperanças e aí encaminharia os espíritos de boa vontade, selecionados, capazes de trabalhar para a paz e a fraternidade, localizando no Norte o cérebro da nova Civilização; no Sul - no Brasil -, o coração. "A esses espíritos mais ou menos adiantados, aliaram-se numerosas entidades da Europa, cansadas de lutas inglórias de hegemonia e ambição. .. organizando-se, desse modo, entre os povos americanos, códigos e sentimentos mais aperfeiçoados" ([A caminho da luz], Cap. XX).

O homem entende fazer, já deste mundo, o seu reino, residindo nisto o germe da filosofia moderna. A Escolástica, pouco a pouco, vai sendo ridicularizada, para o que contribuem a renovação da ciência, da arte, do pensamento político.

Simultaneamente, um sentimento renovador de volta à pureza evangélica, invade as hostes da Igreja, induzido pelas atividades reformadoras do Alto. Numerosos missionários, enviados pelo Cristo: Lutero, Calvino, Erasmo, Melanchton e outros vêm com o objetivo de efetuar o renascimento da religião e a emancipação da sociedade, da autoridade da Igreja. Visam purificar a fé, propagar uma religião simples, de piedade prática, liberta de dogmatismos e de rituais. Impugnam os sacramentos e repudiam a venda de indulgências para a absolvição de todos os pecados e crimes, como estipulado no Livro das Taxas da Sagrada Chancelaria e da Sagrada Penitência Apostólica, criada em 1518 pelo Papa Leão X.

Contra isto se levantam as pregações de Lutero, frade dominicano, e seus companheiros, mas com o extremismo da intolerância; o que lhe impede de estabelecer o caminho ideal para as verdades religiosas. Institui o princípio do livre exame das escrituras, a salvação pela fé.

Este princípio, entretanto, impossível de ser seguido, pois que é a própria Religião, exige estrutura racional, pela forma de conhecimento que ela envolve, conduziu à divisão em várias correntes. Conseqüentemente gera-se um movimento tendente a enquadrar a nova heresia em determinados esquemas, o que lhe determina nova Igreja, nova Teologia.

Forma-se uma Escolástica protestante, que se situa no mesmo plano do oposto dogmatismo.

2 - A CONTRA-REFORMA

A reação da Igreja contra a Reforma toma o nome de Contra-Reforma. Embora os historiadores vejam seu início nos movimentos reformadores internos que tendem a coibir abusos e vícios, ela se firma e se implanta quando a nação alemã parecia tornar-se luterana.

E embora nela se tente uma purificação da Igreja, também se fortalece a Inquisição. Ela atinge o seu auge reformista no Concílio de Trento, realizado, com intermitências, entre 1545 e 1563, concílio este em que se reafirmam os dogmas atacados pela Reforma protestante, mantêm-se os sacramentos e o celibato dos padres e, entre outras afirmações, estabelece-se a supremacia papal sobre todos os sacerdotes e prelados, chegando-se a sugerir até sua superioridade em relação ao concílio. Proíbe-se a venda das indulgências, prescreve-se a fundação de seminários de Teologia em cada diocese, e instituiu-se o índex, ou lista de obras que não deviam ser lidas ([História da civilização], Cap. 17).

É porém com os jesuítas que a Contra-Reforma se impõe. Constituem eles uma ordem fundada em 1534 por um fidalgo espanhol, Inácio de Loiola, organizada de forma prevalentemente militar, disposta a divulgar e a defender a fé por todos os meios, e tornando-se, com isto, o mais eficiente instrumento da Inquisição, na guerra, sem tréguas, contra a heresia.

"A Igreja inaugurou período dos mais tristes... O Triibunal da Inquisição fez milhares de vítimas. .. À Companhia de Jesus não importavam os meios para atingir os fins imorais a que se propunha, contribuindo para o atraso moral em que se encontra o homem científico atual" ([A caminho da luz], Cap. XX).

Como conseqüência, a cristandade ocidental dividiu-se em seitas hostis. O norte da Alemanha e os países escandinavos tornaram-se luteranos; a Inglaterra, com Henrique VIII, adotou forma intermediária; na Escócia, França e Suíça, implantou-se o Calvinismo. Mas, apesar de tudo, houve benefício: instaurava-se a liberdade religiosa, renovando o impulso para o estudo, do que se originou a ciência bíblica. Além disso, dá margem ao surgimento de movimento racionalista que submete à crítica da razão os dogmas, que passa a entendê-los como intepretações doutrinárias sujeitas à instabilidade.

Nasce assim uma teologia natural que tende a negar o caráter divino da revelação bíblica, submetendo-a à luz da críítica, da razão humana.

O princípio do livre exame, entretanto, gera discordâncias que degeneram em guerras religiosas, agravadas pelas criações do Tribunal de Penitência. Tal situação prolongar-se-ia até o século XVII, no qual, em 1648, pelo tratado de Westphália, o protestantismo, consolidaria suas vitórias.

Mais uma vez, o plano espiritual busca auferir vantagens dos acontecimentos e, destes entrechoques, propicia o nascimento da doutrina da tolerância e da liberdade religiosa, uma das maiores conquistas da Idade Moderna.

3 - A NOVA CIÊNCIA E A NOVA FILOSOFIA

Análogo movimento de renovação instaura-se na Ciência e na Filosofia. A Ciência estabelece, como critério de verdade, a constatação pela observação e experiência. Bacon, Kepler e Galilei lançam as bases da nova metodologia, do que se origina extraordinário desenvolvimento, jamais antes sequer imaginado.

A Filosofia liberta-se das formas gregas de pensamento, embora ainda permaneça muito imbuída da metodologia dogmática. Nela instituem-se duas correntes fundamentais: o Empirismo, que coloca o fundamento de todo conhecimento nos sentidos; e o Racionalismo, que o coloca inteiramente na razão.

Ambas, porém, totalmente distanciadas de pressupostos místicos e religiosos.

O Racionalismo começa com Descartes e se desenvolve principalmente com Leibnitz. O primeiro parte da idéia fundamental de que a verdade só pode ser construída a partir de intuições, e não de dogmas. Com isto inaugura época em que todo o conhecimento é submetido à crítica, o que deverá cullminar na repressão de abusos, na simplificação de leis, na anulação de tudo que não se justifica perante a razão. Induz; a grandes reformas e à revolução.

Já o Empirismo contesta o ilimitado alcance da razão e dos sentidos, restringindo o conhecimento à aquisição de experiências. Postula que todos os homens são iguais, livres, com direitos delimitados pelos direitos dos outros. Disto se infere a necessidade de um governo que garanta os direitos naturais de cada um, impedindo o exercício daqueles incompatíveis com o princípio de coexistência pacífica. Lança as bases do Liberalismo. Prega a tolerância religiosa ([O divulgador espírita], Cap. I).

A partir de Vico, a História também começa a ser encarada por procedimento crítico científico, que a transforma em ciência, com uma metodologia que busca entrever leis, na suucessão dos fatos históricos, a conduzirem a sociedade humana segundo um processo de evolução.

Emmanuel, em "A Caminho da Luz", não só revela esta evolução, a processar-se como decorrência da própria evolução do homem, mas aponta, inclusive, de acordo com Kardec, a intervenção do Plano Maior, pela qual não somente este desenvolvimento é conduzido por ele, mas é planejado de forma que é renovada, modificada, sempre que as coletividades, por afastamento voluntário, a isso o obriguem. E acrescenta o informe de que se ao homem é dado usufruir do seu livre-arbítrio, com responsabilidade dos próprios atos, tal princípio é estendido às próprias coletividades. De modo que toda causa de sofrimento, originada pelo abuso, institui círculo vicioso de reencarnações e resgates dolorosos, seja no plano individual, como no plano coletivo.

4 - A QUEDA DO ABSOLUTISMO

"A esse tempo a França já se encontrava preparada para o cumprimento da sua grande missão:.. e, sob a influência do plano invisível, criavam-se os serviços benéficos da diplomacia. .. Ao seu lado, a Grã-Bretanha caminhava, a passos largos, para as mais nobres conquistas humanas. Após um breve reinado da dinastia dos Stuarts, desencadeia-se revolução que termina com a restauração do Parlamento e a redação, por ele, da "declaração de direitos definindo a emancipação do povo e limitando os poderes reais. .. A Inglaterra havia cumprido um dos seus mais nobres deveres, consolidando as formas do parlamentarismo, porque assim todas as classes eram chamadas à cooperação e fiscalização dos governos" ([A caminho da luz], Cap. XXI).

Ao mesmo tempo o plano espiritual volta suas vistas para a América, conduzindo para lá' "os espíritos sinceros e trabalhadores não necessitados de reencarnações no mundo europeu por existência de provações expiatórias. .. as entidades conclamadas à organização do progresso futuro... Muitas haviam adquirido o senso de fraternidade e de paz. .. compreendendo a verdadeira solidariedade na comunidade universal. . . Por esta razão. .. as organizações políticas do continente se tornaram baluartes de paz e de fraternidade para o orbe inteiro" ([A caminho da luz], Cap. XXI).

Contra a entronização da razão insurge-se Rousseau, que lhe antepõe o valor do sentimento. Diz ele que a ciência, de per si, é incapaz de tornar o homem mais feliz. É necessário imbuí-la de sentimento, fundir sabedoria e virtude.

Rousseau torna-se o maior inspirador das teses democráticas que se propagam com celeridade entre o povo cansado dos abusos do clero e da nobreza, incentivado pela independência americana. Torna-se o pai da Revolução Francesa, cujo sucesso é simbolizado na queda da Bastilha, a 14 de julho de 1789.

5 - NAPOLEÃO

A França, ao invés de limitar-se a "aproveitar as conquistas democráticas organizando novo processo administrativo na renovação dos organismos políticos do orbe, segundo as lições de seus filósofos e pensadores", deixa-se envolver por espíritos tenebrosos que hão de conduzi-la a viver dolorosos acontecimentos e a enredá-la em penosos compromissos e a atrair para si "dolorosas provações coletivas" ([A caminho da luz], Cap. XXII).

Ameaçada por outros povos, parte pelos crimes que via cometerem-se, parte pelas idéias de liberalismo que se desenvolviam, a França recebe Napoleão, cuja missão era a organiização social do século XIX.

Napoleão, entretanto, não compreendeu a missão e, embora sob sua égide, "no cumprimento da sua tarefa, organizava-se o Código Civil, estabelecendo as mais belas fórmulas do direito", simultaneamente "difundiam-se a pilhagem e o insulto à sagrada emancipação de outros", compelindo "o mundo espiritual a tomar enérgicas providências contra o seu despotismo e vaidade orgulhosa" ([A caminho da luz], Cap. XXII).

6 - O EVOLUCIONISMO

É neste momento que o conhecimento há de alcançar uma de suas maiores conquistas: a idéia de evolução. Vico, na Itália, funda o historicismo, segundo o qual há de se pôr em evidência, nos fatos históricos, a presença de leis evolutivas; Herda, na Alemanha, com a provocação de grande escândalo, afirma a evolução das religiões; na Biologia, com Lamark, inicia-se o desenvolvimento científico da evolução orgânica, preparando, para Darwin, as bases de desenvolvimento da teoria da evolução das espécies, hoje refundida e vitoriosa no neo-evolucionismo.

7 - ALLAN KARDEC

Simultaneamente, a Filosofia estabelece novo marco com Kant, distanciando-se definitivamente da forma grega, na edifiicação do Idealismo, enquanto a Ciência desfecha vôos até então insuspeitados.

Nova etapa evolutiva se demarca para a humanidade, novos valores educativos haveriam de propagar-se no mundo para a manutenção das conquistas que se apresentavam em todos os campos da atividade humana. "Aproximavam-se os tempos em que Jesus deveria enviar ao mundo o Consolador, de acordo com as suas auspiciosas promessas. Assembléias numerosas se reúnem e confraternizam nos espaços, nas esferas mais próximas da Terra. Um dos mais lúcidos discípulos do Cristo baixa ao planeta, compenetrado de sua missão consoladora. .. nascia Allan Kardec aos 3 de utubro de 1804, com a sagrada missão de abrir caminho ao Espiritismo, a grande voz do Consolador prometido ao mundo pela misericórdia de Jesus Cristo" ([A caminho da luz], Cap. XXIII).

É o século XIX que se caracteriza por inúmeras conquistas. Cai o absolutismo com a implantação de princípios liberais, tais como a igualdade dos cidadãos perante a lei, a liberdade de cultos e um regime de responsabilidade individual no mecanismo de todos os departamentos do Estado. A própria Igreja é obrigada a reconhecer a limitação de seus poderes.

A maioria dos povos encaminha-se para a implantação de regimes republicanos, principalmente nas Américas, em que seus Estados conquistam a independência.

Acompanhavam Kardec uma plêiade de companheiros, coolaboradores que haviam de exercer ação regeneradora em todos os departamentos da atividade intelectual: na arte tipográfica, na confecção de revistas e jornais; nas comunicações, com o telégrafo e as vias férreas; no desenvolvimento da eletricidade, do eletromagnetismo; nas artes, na pintura, na música; em todas as atividades, enfim.

Atento à missão de concórdia e fraternidade da América, o plano invisível localizou aí as primeiras manifestações tangíveis do mundo espiritual, no famoso lugarejo de Hydesville, provocando os mais largos movimentos de opinião.

Enquanto isso, as ciências da alma desvencilham-se da dogmática da Igreja. A França envereda pelas dolorosas provas conseqüentes de seus excessos na Revolução e nas campanhas napoleônicas, e a Igreja decreta definitivamente o início de sua maior crise, com a declaração da infalibilidade do papa, em 1870.

Rino Curti