DESPREZO À FÉ

Aos múltiplos séculos de obscurantismo e prepotência da "fé cega", somam-se as graves transformações que ora se verificam no comportamento humano, embora as exuberantes conquistas da inteligência que parece haver solucionado os magnos problemas da vida. Como deecorrência, talvez, das aquisições tecnológicas dos últimos tempos, no fantástico esforço de vencer os obstáculos ao conforto e resolver as dificuldades comuns no processo de evolução a que a ignorância concedia títulos de sobrenatural, o ceticismo irrompeu e ora se manifesta em ditadura de conseqüências insuspeita das, merecendo terapêutica ética preventiva capaz de estancar a onda avassaladora de cinismo e despautérios que se alastra, soberana.

Incapazes de estimular as conquistas da razão, pelo receio de perderem a supremacia do controle que mantinham e aferrados a princípios espúrios, religiosos imprevidentes acreditaram ser mais eficiente engendrar o temor do que cultivar o amor nos corações.

Inconscientes e dúbios quanto às verdades que ensinavam, por serem destituídos de fé legítima os dogmas que impunham, infundindo receios, supunham que a vida prosseguiria sob sua tutela, qual nau à matroca em proceloso oceano desconhecido ...

Dessa forma não podiam conceber que Deus, em momento próprio, enviaria à Terra os Seus emissários, a fim de libertá-la do jugo arbitrário da ignorância dominante" comprazendo-se, então, em prolongar indefinidamente a vigência absurda do caos da inteligência ...

Quando, porém, se aperceberam do grave erro, fulguuravam já as estrelas da razão e da lógica, laboravam os dínamos da investigação científica, destruindo os "mistérios", enquanto o bisturi da cirurgia avançada, dissecando corpos, retirando peças anatômicas para exames e órgãos para transplantes, procuravam nos organismos ora cadaverizados, ora pulsantes, a alma, que as tradições valetudinárias vestiam de lendas, ocultavam em fantasias, através do que possuíam o supremo controle das massas inermes nas teias bem urdidas da argumentação gongórica e confusa ...

O homem transferiu-se, então, do totalitarismo da fé para o servilismo da descrença. Das argutas ciladas do enigmático "aceitar sem perquirir", surgiu o indagar sem fim, para raramente aceitar. A "razão" depôs a fé ancestral e irrigou as mentes com exigências superlativas, como realizando um desforço suposto necessário, tentando padronizar todas as coisas e leis, e submetendo-as às apaixonadas dimensões dos seus cálculos, conceitos e caprichos, novos na forma e antigos na imposição.

Acreditou-se, em conseqüência, que ao homem tudo é concedido, devendo revelar-se-lhe todas as expressões e nuances da vida, ante os aparelhos que criou, míopes, no entanto, para as visões grandiosas da realidade universal, na multiplicidade das suas manifestações.

Fazendo-se descrente, tornou-se joguete da própria presunção, destronando Deus da Criação para travestir-se num deus cuja fatuidade logo cede ante conjunturas que defronta na marcha e para as quais se encontra desarmado ...

O desprezo à fé, antes de significar preciosa conquista da inteligência que se supõe superdotada, revela pobreza de percepção como riqueza da vã cultura, que não enxuga as lágrimas do coração, nem acalma as inquietações que somente a fé consegue dulcificar, apaziguar.

Ao Espiritismo cabe essa gigantesca tarefa: reconduzir o homem moderno a Deus, insculpir-lhe a fé superior e racional, mediante a utilização dos recursos de que dispõe a fim de estruturá-la pelos fatos de que se reveste e pela lógica que deles diflui, favorecendo-o com mais profunda compreensão dos móveis e objetivos da vida, simultaneamente exalçando a tônica dos deveres da caridade, do trabalho, da humildade, efeitos imediatos da sua transforrmação pela fé.

Não lhe imporá um novo modo de crer, antes lhe ensejará a correta vivência da crença, estrutura da, não num sistema, antes argamassada no testemunho dos fatos demonstrados à saciedade, conotados e comprovados em toda parte e lugar do planeta.

Nesse afã, embora sejam propostas explicações científicas complexas para os fenômenos espirituais que defrontará, essas conclusões serão inexatas, impelindo-o à necessidade de submeter-se às Leis da Criação, de que os Espíritos Superiores se fazem executores, elucidando que as funções da vida prosseguem além do corpo abandonado na tumba, latentes, pulsantes, reais.

A fé espiritual corrige a distrofia ou a hipertrofia da razão, situando-a convenientemente no lugar que lhe cabe.

Crente, após a experiência da fé, o homem faz-se livre dos torpes limites dos preconceitos e das injunções dissolventes da hipocrisia, da petulância. Transforma-se em irmão do próximo, membro edificante da comunidade, por colocar as suas aspirações, não na transitória função da carne, mas na transcendente imposição da imortalidade.

Reconhece a própria fragilidade e pequenez, aspirando a força grandiosa do progresso e da sabedoria que o engrandece.

Não se jacta, não se ensoberbece.

A fé dá-lhe a exuberância do amor e o poder de retificar as injunções penosas, libertando-o dos tormentos de qualquer procedência, a fim de fazê-lo feliz.

Confirmando as legítimas conseqüências da fé, as modernas experiências da investigação paranormal já estão encontrando a prova do poder do pensamento - exteriorização da fé - e documentando o pródromo da vida do Espírito, reencarnado ou não, encorajando incursões mais profundas de que se colherão resultados expressivos, salutares.

O desprezo à fé logo mais cederá lugar às luminescências da esperança e à aceitação das diretrizes dúlcidas quão consoladoras do Evangelho de Jesus, em "espírito e verdade", reformulando, felicitando a Terra e seus habiitantes, quando então, o homem crerá em Deus e em Jesus, para afirmar-se como legatário, que muito poderá fazer como o próprio Cristo o anunciou e fez.

Nem guerra, nem dor; nem anátema, nem ódio nesses dias que advirão, após os que se estão vivendo.

A fé guiará o homem e o homem, em se encontrando consigo mesmo, "herdará a Terra".

Joanna de Ângelis