Deus (não) existe?

Reza a lenda que o sábio Buda deu duas respostas a esta pergunta. Ao ateu, ele respondeu que Deus existe, e ao crente respondeu que Deus não existe. Talvez aí esteja guardado um grande ensinamento: a verdade só existe longe dos preconceitos.

Quando a religião ("religação" com Deus) se encontra com a filosofia (questionamento sobre a realidade), a questão sobre a existência divina é inevitável. A história do pensamento nos brindou com diversos pontos de vista. Selecionamos a seguir os mais representativos ...

1 - TEÍSTA

Para os teistas, Deus existe de modo personalizado (semelhante ao Homem), único, criador, externo ao mundo, e pode ser revelado pela fé. É a Ele (Pai participante) que recorrem judeus, cristãos, muçulmanos e hinduistas, com devoção ou piedade, em momentos de perigo, de perdas, de doenças, de dor e sofrimento. Podemos dizer que todos nós, do continente americano, somos culturalmente mais ou menos teístas. Mesmo uma pessoa blasfema é de certo modo teista, pois não haveria como blasfemar contra algo inexistente. Uma pessoa blasfema pode até não ser religiosa (não querer se unir a Deus), mas, como o devoto, acredita em Deus. Os teístas são também chamados de crentes, personalistas ou teologistas.

Para os teistas, é essencial que Deus seja oculto, pois se fosse visivel e dissesse: "Eu sou Deus", poucos acreditariam. A história de Jesus Cristo nos comprovou essa verdade: o ser humano quase nunca está preparado para uma revelação divina.

Principais representantes: São Gregório Nazianzeno (330-389 d.C.) e Santo Anselmo (1033-1109).

2 - DEÍSTA

Nossa mente está culturalmente enraizada na noção teista da divindade. Por isso, pode parecer um pouco difícil compreender o ponto de vista deista. Para essa filosofia, Deus criou o mundo, mas não participa do mundo.

Toda religião, ritual, teologia ou revelação é um equivoco porque nega a perfeição de Deus. Se Deus deseja a mudança (mental ou espiritual) do ser humano, então Deus falhou na criação, e se falhou então não pode ser considerado Deus. E se Deus deseja algo do Homem ou deseja, por exemplo, que o Homem seja bom, então Deus não é completo, e se é incompleto então não é perfeito, e se não é perfeito então não é Deus.

Muitos deístas não acreditam em Deus como entidade natural (criador do Homem), mas sim cultural (criação do Homem). Para os deístas, o Deus cultural também é importante, pois refreia nossos instintos, tornando possível o convívio social. Representante:Herbert de Cherbury (1583-1648), filósofo inglês; e Mathew Tindal (1656-1733), teólogo inglês.

"Toda religião, ritual, teologia ou revelação é um equívoco porque nega a perfeição de Deus",

3 - Panteísta

Segundo o panteísmo, Deus existe de modo impessoal (sem traços humanos ou sexuais). Deus é a natureza, o universo, a vida, a substância, o real total. Só ele existe. Espírito e matéria são aspectos de uma mesma realidade: Deus, uma esfera cujo centro está em toda parte e a circunferência, em nenhuma. Deus nâo é o centro; mas o todo. Os panteístas são também chamados de estoicistas.

Representantes: Zenão de Cicio (335-263 a.C.), filósofo grego; e Baruch de Spinoza (1632-1677), filósofo holandês.

4 - Ateísta

Para os ateus, Deus não existe na natureza. O que se supõe como criador é, na realidade, criatura (fantasia cultural) do ser humano. O argumento mais forte do ateísmo é: se Deus é amor, por que há tanto sofrimento no mundo? Essa questão é facilmente respondida por budistas, gnósticos, hinduístas, espíritas e todos as filosofias que aceitam a doutrina do carma: Deus é amor, mas também é sabedoria. Deus é misericórdia, mas também é justíça. Deus é bom, mas não é bobo: sabe deixar seu filho errar para aprender.

Para os ateístas, a religião é filha da esperança e do medo. Deus não passa de invenção política, histórica, um narcótico que mantém o povo alienado numa situação conformista, enquanto são explorados pelo sistema socioeconômico injusto. Ao falar sobre Deus, o Homem está, na realidade, falando de si mesmo, alienando (tornando alheia) e idolatrando sua própria natureza.

A única realidade existente é a do átomo, o resto é movimento, energia, ilusão espirítualista do real. Som, luz (cor), sentimento, rádio, TV, inteligência artificial, inteligência natural, nada mais são do que matéria em movimento. A mente é um chip (matéria) em movimento. "Os ateístas são também chamados de ímpios ou materialistas. O materialista acredita que a matéria antecede ao espírito".

Os ateístas são também chamados de ímpios ou materialistas. O materialista acredita que a matéria antecede ao espírito. Como dizia Karl Marx, é a circunstância socioeconômica que condíciona a vida espiritual; e não o contrário, como crêem os espiritualistas ou idealistas. Ciência, Poder e Dignidade, eis a santíssima trindade dos ateus.

Representantes: Epicuro (341-270 a.C.), filósofo grego; Denis Diderot (1713-1784), filósofo francês; e Ludwig Feuerbach (1804-1872), filósofo alemão.

5 - Idealista

Deus existe como um ideal a ser buscado: um ideal de beleza, amor, poder, felicidade, liberdade, sabedoria. Deus é a causa primeira, o motor pelo (e para o) qual tudo move. É o sentido da vida. Mesmo quem nega a existência de Deus, tem na mente uma idéia de Deus, pois em caso contrário não poderia negar essa idéia: pensar em Deus e negar sua exístência seria loucura. Deus é espírito, do qual toda matéria se deriva. A única realidade existente é a do espírito, o resto é ilusão, sombra materialista do real. A essência, a consciência precede e determina a existência ou circunstância. O que chamamos "sofrimento", nada mais é que a mão esquerda de Deus: é o preço
do livre arbítrio dado por ele, Deus acode, mas também sacode, os idealistas são também chamados de espiritualistas,

Existem duas formas de idealismo.: GNÓSTICO e AGNÓSTICO. Para a gnóstica - também chamada de esoterista, ocultista au teosofista -, Deus existe dentro de nós e pode ser experimentado por meio da vontade e do autoconhecimento sexual, astral, mental, intuitivo e espiritual.

Conhece-te a ti mesmo e conhecerás o cosmo e os deuses!

Para a agnóstico, também chamado de cético ou transcendentalista, afirmar au negar a existência de Deus não passa de raciocínio. A mente humana é incompatível com a noção transcendental de realidade divina. Da mesma forma que as formigas não compreendem a cultura humana, nós também não compreendemos a natureza divina, Ainda que Deus exista, é incognoscível; ou seja, é impossível comprovar tanto sua existência quanto sua inexistência, Negar au afirmar não passa de opinião, Deus-pensado não é Deus. Opinião não é verdade, mas uma ideologia condicionada pela percepção de um fenômeno que se apresenta aos sentidos. Crer em Deus é ter uma opinião e não uma verdade, Deus-pensado ou Deus-dogma existe, e é acessivel à razão, Deus-real talvez exista, mas é inacessível, e mesmo que experimentada por faculdades extra-sensoriais, seria impossível comunicar tal experiência para outras pessoas. Por isso, para a agnóstico, a única certeza é a incerteza, Deus é ignoto, inefável e indizível. É impossível dizer o que é o amor, a liberdade, a beleza, a felicidade, porque nós conhecemos as coisas não como são, mas apenas como elas se apresentam a nós.

Os agnósticas da vertente existencialista au fenomenologista questionam: para que perdemos tempo com criações do inconsciente, se mal conhecemos a nossa realidade maís próxima, dados de nossa consciência imediata, nossa condição humana, aflita, mortal? A coisa mais certa de todas as coisas não vale um caminho sob o sol. A exístência precede a essência. O único mistério é haver quem pense no mistério. Pensar no oculto, é estar mal disposto para se assombrar com as coisas simples e naturais.

Principais representantes agnósticos: Pirra de Élida (360-272 a.C,), filósofa grega; David Hume (1711-1776), filósofa escocês; Immanuel Kant (1724-1804), filósofo alemão.,

Representantes gnósticos: Platão (428-348 a.C.), Platina (205-270 d.C.), filósofos gregos; e Helena Blavatsky (1831-1891), teósofa russa.

6 - Nominalista

Esse é a ponto de vista mais complicado. Para os nominalistas, só o individual existe, A coisa existe na natureza, mas a classificação da coisa só existe na mente. O universal, a analogia é sempre mental, por isso, os animais não existem, mas a Tató, meu cachorro existe. A classificação do objeto é apenas um nome e não uma realidade, "José" existe, o homem não. Deus existe, mas o espiritual não, muito menos a religião. Somente o substantivo (substância) existe, A espécie (adjetivo) nãoé real, mas sim organizadora do real. Portanto, Deus é Deus e Joana é Joana, A deidade de Deus, tal coma a "joanidade" de Joana ou a "pedrice" de Pedro são minhas e só minhas.

Representantes: Guilherme de Occam (1285-1349) e Thomas Hobbes (1588-1679), filósofos ingleses.

7 - Perspectivista

Conforme o perspectivismo, todas têm razão dentro de seus pontas de vista condicionadas idealogicamente pela sua vida, sua época e sua cultura.

Representantes: Gustav Teichmüller (1832-1888), filósofo alemão.; Friedrich Nietzsche (1844-1900), filósofo alemão; Charles Peirce (1839-1914), filósofo americano.

Revista: A razão da espiritualidade