HEREDITARIEDADE FÍSICA

É ponto pacífico, em Biologia, que a estrutura orgânica do indivíduo, desde a sua estatura à cor dos olhos, resulta da combinação de fatores hereditários.

Para os biólogos, o mecanismo que condiciona o aproveitamento dos elementos genéticos chama-se acaso. O próprio sexo é apresentado como exemplo. Durante o processo que antecede a fecundação do óvulo, há uma competição entre espermatozóides com cromossomos X e Y. Se o óvulo for fecundado pelo espermatozóide com cromossomos X, ocorrerá a concepção de uma menina. Caso contrário, será menino.

E vão mais longe: a formação de uma criança perfeita ou defeituosa, forte ou fraca, sadia ou doente, de cérebro super-desenvolvido ou atrofiado está subordinada ao mesmo acaso.

Ainda que se aceite esta teoria puramente materialista, suprimindo-se a participação de Deus, o que elimina qualquer preocupação de ordem moral, será difícil explicar o misterioso mecanismo que preside o equilíbrio das espécies, mantendo proporção entre os sexos e, particularmente, a evolução dos seres orgânicos, iniciada há bilhões de anos na Terra, para, num desenvolvimento progressivo, inteligente, disciplinado, espetacular, chegar ao Homem.

O pensamento religioso tradicional aceita os argumentos dos biólogos, considerando que a hereditariedade não pode ser traída e que, se os pais possuem fatores genéticos degenerados, pode ocorrer - por obra do acaso - que o filho experimente limitações.

Mas, se não podemos exigir que o biólogo cogite da justiça, o mesmo não ocorre em relação ao religioso. E a esse pode-se perguntar:

"Onde está a Justiça de Deus, que distribui ao acaso a saúde e a enfermidade, a inteligência e a estupidez, a desenvoltura física e a atrofia, como quem fizesse da hereditariedade um jogo de dados?"

E, se não se trata de um jogo, que poder extremamente limitado o seu, incapaz de evitar que tais discrepâncias ocorram numa mesma família, onde os mesmos fatores hereditários geram inteligentes e idiotas, atletas e aleijados?

É mais lógico admitir que o Espírito não é criado no momento da concepção. Trata-se de alguém que vem de longe, de múltiplas existências do passado, trazendo méritos e deméritos que condicionarão o tipo de corpo e de experiência que deverá ter na Terra.

Se estiver extremamente comprometido com o Mal, fruto de incursões no vício e no desatino, degenerará os elementos genéticos ou estará submetido a uma combinação deficiente deles, renascendo no Mundo portador de graves limitações físicas, à maneira de criminoso submetido à prisão por determinado tempo, por ensejo de renovação e reajuste.

Já o Espírito evoluído que vem à Terra para experiências nobres, autêntico missionário da Espiritualidade, controlará o próprio nascimento e ainda terá condições para planejar o tipo de corpo que melhor se ajuste às suas necessidades. E mesmo que os pais sejam portadores de graves deficiências físicas, tendentes a se fixarem na descendência, ele terá recursos para superar fatores de condicionamento controlando a gênese orgânica com o aproveitamento de genes não degenerados e renascendo em pleno equilíbrio.

Com estes princípios desenvolvidos pela Doutrina Espírita, quando trata da Lei da Reencarnação, não há lugar para o acaso na composição da vida física, de vez que o Espírito terá sempre, por instrumento de manifestação na Terra, um corpo compatível com suas necessidades evolutivas.

Harmoniza-se, assim, a Justiça de Deus com a hereditariedade física, a fim de que Deus não fique sujeito à Biologia, já que a Biologia é apenas um instrumento de Deus.

Richard Simonetti