O BANQUEIRO QUE LUCROU COM O PURGATÓRIO

"TALVEZ LUTERO NÃO SOUBESSE QUE METADE DO DINHEIRO DAS INDULGÊNCIAS
ACABAVA NOS COFRES DO PAPA E A OUTRA PARTE ENCHIA OS BOLSOS DE UM
PODEROSO BANQUEIRO ALEMÃO. EXISTIA ALGO DE PODRE NOS REINOS DA EUROPA"...

Papas, reis e nobres gastavam fortunas com seus luxos, festas e propriedades. No início do século 16, a igreja romana estava encharcada pelo materialismo. O papa era um princípe como os outros e a religião parecia ser o que menos importava. A explorada população européia pagava a conta. Era preciso financiar as grandes obras, mordomias e compra de títulos.

Os nobres compravam títulos de bispo, cardeal e de até de papa. Por detrás dessas negociatas estavam os primeiros grandes banqueiros internacionais emprestando dinheiro. Eles agiam habilmente nos bastidores da história. O capitalismo atual teve precursores. Banqueiros internacionais, monopólios comerciais e industriais existem desde o século 15. Uma família alemã exercia essas atividades ao mesmo tempo, com sucesso: os Fuggers.

Eles controlavam a exploração da prata, cobre, mercúrio e algodão. Sua cidade natal, Augsburgo, era famosa pelos tecidos e objetos de prata vendidos para a realeza de toda a Europa. Os Fuggers aproveitavam todas as oportunidades para ampliar sua fortuna. A casa bancária mais importante da época lucrou também com a venda de indulgências, o estopim da REFORMA PROTESTANTE.

De acordo com o escritor católico Alessandro M. Silva o entendimento da Igreja é que: "Todo pecado leva uma culpa e uma pena. A culpa é perdoada na confissão. A pena deve ser expiada nessa vida ou na outra. A Igreja tem o PODER de perdoar esta pena através das indulgências." E estas podiam ser compradas pelo povo, para os vivos e para os mortos, por um bom preço. Era muito dinheiro em jogo.

DOMINICANOS: Também conhecidos como Ordem dos Predicadores, seguem o catolicismo, foi fundada em 1214 pelo espanhol São Domingos (1170-1221). Tinha a finalidade de contrapor-se às heresias da época através da pregação e do ensino. Inclusive, recebeu a missão de supervisionar a Inquisição. Os dominicanos mais conhecidos são o papa Pio V, Frei Angélico e Tomás de Aquino.

ORDEM AGOSTINIANA: Ordem religiosa da Igreja Católica romana, cujas regras derivam de Santo Agostinho de Hipona (354-430). Ele sustentava que homens e mulheres foram salvos pela graça divina e defendia o papel do livre-arbítrio em união com a graça.

SACRO IMPÉRIO ROMANO-GERMÂNICO (1800-1806): Entidade política da Europa Ocidental. Inicialmente Império Ocidental; no século 11, Império romano; no século 12, Sacro Império; e no 13, Sacro Império Romano-Germânico. Embora suas fronteiras tenham se ampliado de forma notável ao longo de sua história, os estados germânicos foram sempre seu núcleo principal.

Na época de Lutero, o papa era o Leão X (1475-1521).

DIETA DE WORMS - (1521) As dietas são reuniões que os príncipes do Sacro Império Romano-Germânico realizavam para decidir questões sobre o Império. Na de Worms, Lutero foi excomungado da Igreja e seus livros foram queimados, considerados heréticos. Lutero lá compareceu para defender suas idéias. A Dieta também o condenou ao desterro".

ESTENDAM A MÃO PARA JACOB FUGGER, O RICO

O grande chefe da família Jacob Fugger II, o Rico (1459-1525), contemporâneo de Lutero. Ele construiu na Eslováquia o maior centro metalúrgico de seu tempo. Mas não de forma honesta. Fugger provocou a falência das empresas de extração de cobre e as comprou por preço irrisório. Com seus monopólios, colocou em situação de dependência os governantes desses territórios, financiando seus empreendimentos.

Quando sua fortuna já era considerável, Fugger descobriu uma atividade muito mais lucrativa: emprestar dinheiro aos nobres ambiciosos e gastadores. Grandes somas pagavam a eleição de imperadores, proclamação de reis, cardeais e papas. E todos ficavam devendo ouro e favores para ele. O princípe Alberto de Brandemburgo era arcebispo de Magdeburgo (Alemanha) e, ao mesmo tempo, bispo de Haslbertadt, Era proibido acumular dioceses na Igreja, mas tudo tinha o seu preço...

Aliás, o príncipe já fora nomeado antes da idade permitida. Os hábitos do príncipe eram dispendiosos. Com os cargos na Igreja ele arrecadava muito dinheiro, mas como gastava demais, faliu. Para ganhar mais, Alberto deu 30 mil florins ao papa para receber uma terceira diocese, Magúncia. Quem emprestou o dinheiro? Jacob Fugger. Como sempre acontece nesse tipo de transação, o devedor não tinha como pagar o empréstimo.

Para resolver a questão, o papa deu uma mão ao bispo. Alberto recebeu a concessão de explorar a arrecadação das indulgências na Alemanha por oito anos, desde 1515. Metade do dinheiro pagaria as dívidas com o banqueiro Fugger, e a outra parte iria para os cofres do papa. É claro que isso ficou em segredo. Para o povo disseram que todo o dinheiro arrecadado seria utilizado para a construção da basílica São Pedro.

Foram os abusos com a venda da salvação que despertaram a indignação de Martinho Lutero. Sua reação desencadeou a REFORMA PROTESTANTE. Esclareceu Emmanuel, em A Caminho da Luz". Tais rebaixamentos da dignidade eclesiástica ambientaram as pregações de Lutero e seus companheiros de apostolado. De nada valeram as perseguições (...), o humilde filho de Eisleben tornara-se órgão da repulsa geral aos abusos da igreja, no capítulo da imposição dogmática e da extorsão pecuniária.

A SALVAÇÃO ETERNA POR UMA MOEDA

O pregador de indulgências nomeado pelo bispo Alberto foi o dominicano João Tetzel. Ele ficou incumbido de percorrer as cidades alemãs vendendo um lugar no céu para o povo. Suas técnicas lembravam as atuais campanhas publicitárias. Ele criou o "slogan": "Quando uma moeda tilinta na caixa, uma alma sai do purgatório". Tetzel chegava nas cidades com seu cortejo dominicano. Em frente à Igreja, estendia bandeiras mostrando assustadoras cenas do inferno. Uma cruz vermelha, ladeada por tochas fumegantes, compunha o impressionante cenário.

Em seu discurso, Tetzel passava a mão pelas chamas enquanto dizia aos fiéis: "Vocês já sofreram com a queimadura de um dedo? Não é possível pregar os olhos durante a noite.. Já imaginaram queimar o corpo inteiro nas chamas dilacerantes depois da morte? Será um tormento eterno! Livrem-se de todos os seus pecados, até mesmo os que ainda irão praticar. É só comprar esta indulgência concedida pelo papa". Os publicitários de hoje não fariam melhor. As filas se formavam. As igrejas se enchiam - e os cofres também. Depois do culto, ao lado de Tetzel, um representante dos Fuggers fazia as contas e pegava sua parte.

Percorrendo a Alemanha, Tetzel aproximou-se de Wittenberg, cidade de Lutero. Indignado, o agostiniano resolveu discutir essa questão, e fixou na porta da igreja, na tarde de 31 de outubro de 1517, a famosa lista de 95 teses em latim. "Deve-se ensinar aos cristãos que, se o papa precisar conceder mais indulgências, mais necessita de uma oração fervorosa de que de dinheiro". Além disso, Lutero achava um motivo insignificante arrecadar dinheiro para construir a catedral de São Pedro, imagine se ele soubesse que metade dele ia parar nos cofres de um banqueiro para saldar as dívidas de um bispo gastador!

Depois desse fato histórico, a notícia sobre as teses se espalhou, e o papa ficou preocupado com as consequências. Havia muitos interesses em jogo. Lutero foi chamado à cidade natal de Jacob Fugger, Ausburgo, para ser interrogado pelo representante papal, Cardeal Caetano. O encontro ocorreu na própria mansão do banqueiro! Lutero não retratou. Seria preciso mostrar nas escrituras onde ele estava errado.

O cardeal, depois de três encontros, afirmou que só encontraria Lutero novamente quando ele estivesse pronto a desdizer-se. Mas os amigos de Lutero, sabendo que o cardeal tramava prendê-lo, retiraram-no rapidamente de Augsburgo durante a noite. Muitos já desejavam queimar Lutero na fogueira. Só que o reformador era protegido pelo príncipe Frederico da Saxônia, fundador da Universidade de Wittenberg. O papa temia enfrentar esse príncipe porque ele era um dos eleitores para escolha do imperador do Sacro Império Romano Germânico, e Maximiliano (1459-1519) - imperador na época estava muito doente. Logo haveria nova eleição.

O pior sobrou para o mais fraco. Jogaram sobre Tetzel a culpa de todos os problemas. Quando Lutero ouviu que Tetzel estava sozinho e sem amigos, escreveu dizendo: "Não leve a coisa tão sério. Você não começou este problema. A criança tem outro pai". Tetzel morreu abandonado em julho de 1519. Em seguida, morreu também o imperador Maximiliano. O poderoso Jacob Fugger não perdeu tempo. Alguns anos antes ele havia financiado a proclamação de Carlos I (1500-1558), neto de Maximiliano, como rei da Espanha. com mais 543 mil florins emprestados pelo banqueiro, Carlos aprovou os votos, e foi eleito imperador romano como Carlos V.

Para se ter uma idéia do que são 543 mil florins, basta saber que Lutero, como professor universitário, ganhava entre 100 e 200 florins por ano.

COMO FABRICAR UM IMPERADOR

Mas como negócios são negócios, Fugger agiu como um agiota para cobrar o imperador. O tom de sua carta de cobrança mostra o quanto era influente: "Adiantamos aos emissários de Vossa Majestade uma grande quantia, parte da qual nós mesmos tivemos que levantar, através de amigos. É bem sabido que Vossa Majestade Imperial não teria obtido a coroa do Império Romano sem a minha ajuda, e posso prová-lo com os documentos que me foram entregues pelas próprias mãos dos enviados de Vossa Majestade. (...)

Sua Graça que tenha esta dívida em mente, e que providencie o pagamento, da soma especificada, na data indicada..." (Jacob Fugger, Carta a Carlos V, século 16). Veja que ironia, o imperador, em cujo reino o sol jamais punha, acostumado a ser obedecido e reverenciado, temia Jacob Fugger. O jovem e inveterado gastador Carlos V, entregava para Fugger minas de prata e cobre, concessões de terras, direitos de exploração de escravos e até parte das recém-descobertas terras americanas.

A própria invasão e conquista da América estava sendo financiada pelo banqueiro. Os novos empréstimos e monopólios comerciais multiplicavam sua fortuna. A contabilidade dos Fuggers, em 1546, registra como devedores o imperador alemão, reis da Inglaterra e de Portugal, da raina da Holanda e até do papa. Seu capital, naquele ano elevou-se a 5 milhões de florins. Segundo o historiador Leo Huberman, em História da riqueza do Homem: "A História que datasse esse período, não como o reinado do rei Fulano de Tal, mas como a Idade dos Fugger, estaria muito mais próximo da verdade."

Mas a questão da Reforma Protestante não estava resolvida. Em 1520, Lutero escreveu, em seu sermão contra a usura, uma menção direta aos Fuggers: "É preciso saber que, em nossos dias, a ganância e a usura não apenas se instalaram imensamente em todo o mundo, mas que alguns também se atreveram a descobrir alguns subterfúgios sob os quais podem praticar livremente sua maldade sob o manto da justiça. É preciso colocar rédeas em companhias como a dos Fuggers".

Revoltado com a exploração dos pobres, Lutero ainda escreveu:"Tudo fede a ganância, tudo está afogado e mergulhado num grande mar de lama. Já não tenho mais esperanças de que se possas melhorar tudo isso. Na verdade, tudo está tão sobrecarregado com maldade e fraudes, que deixa de ser sustentável em longo prazo, tendo que ruir por si mesmo". O capitalismo mal surgia e já mostrava sua face cruel com a exploração da miséria. A idade dos Fuggers foi também a idade dos mendigos.

A CODIFICAÇÃO E PODER ECONÔMICO - LUTERO (1483-1546)

Lutero lutou pela liberdade e contra o materialismo. Allan Kardec tocou no assunto em sua Revista Espírita de agosto de 1866: "Lutero não foi o primeiro, nem o único promotor da REFORMA. Antes dele houve apóstolos como John Wycliffe (1330-1384), Jan Hus (1372-1415), Jerônimo de Praga (1365-1416). Estes dois últimos, foram queimados por ordem do Concílio de Constança; os hussitas (seguidores de Hus), perseguidos tenazmente após uma guerra encarniçada, foram vencidos e massacrados. Os homens foram destruídos, mas não a idéia, que foi retomada mais tarde sob outra forma".

No Evangelho Segundo o Espiritismo, o Espírito do bispo Adolfo tratou do poder econômico: "Por que haveis de ter em maior estima o que brilha e encanta os olhos, do que o que toca o coração? Apresente-se em qualquer parte um rico debochado, perdido de corpo e de alma, e todas as portas se lhe abrem, que vive do seu trabalho, mal se dignam todos de saudá-lo com ar de proteção". Não está aí a origem do poder do banqueiro Jacob Fugger, do papa Leão X, do imperador Carlos V, e tantos outros?

E quando as idéias novas germinam, a sociedade se agita. Cabe ao povo desfazer as bases desses abusos. "Dar-se-ia o inverso, se a opinião geral fustigasse o vício dourado; mas, o orgulho se mostra indulgente para com tudo o que se lisonjeia. (...) Pobre raça humana cujo egoísmo corrompeu todas as sendas, toma novamente coragem, apesar de tudo. Em sua misericórdia infinita. Deus te envia poderoso remédio para os teus males, um inesperado socorro à tua miséria. Abre os olhos à luz: aqui estão as almas dos que já não vivem na Terra e que te vêm chamar ao cumprimento dos deveres reais.

Eles te dirão, com a autoridade da experiência, quanto as vaidades e as grandezas da vossa passageira existência são mesquinhas a par da eternidade. Dir-te-ão que, lá, o maior é aquele que haja sido o mais humilde entre os pequenos deste mundo, que aquele que mais amou os seus irmãos será também o mais amado no céu; que os poderosos da Terra, se abusaram da sua autoridade, ver-se-ão reduzidos a obedecer aos seus servos que, finalmente, a humildade e a caridade, irmãs que andam sempre de mãos dadas, são os meios mais eficazes dese obter graça diante do Eterno", continuou Adolfo.

Nada mais atual, nestes tempos de adoração ao dinheiro. Certamente, uma nova reforma está por vir. E ela ocorrerá no coração de cada criatura, retirando o egoísmo e o orgulho de seus hábitos, e despertando o potencial sublime de fazer o bem, adormecido em sua essência.

MAIS VALE O POUCO QUE O JUSTO TEM

Era de se esperar que o imperador perseguisse Lutero, servindo ao interesse dos poderosos. Suas questões teológicas estavam causando grandes perdas financeiras para o papa e atrapalhando os negócios dos Fuggers. Em 1521, Carlos V convocou Lutero na dieta de Worms. Novamente o reformador recusou retratar-se e foi prontamente condenado a banimento. Lutero escapou. Seu protetor, o eleitor Frederico escondeu o frade no Castelo de Wartburg, onde ficou dez meses. Foi nessa ocasião que Lutero traduziu a Bíblia para o alemão.

Os Fuggers, inimigos ferrenhos dos protestantes, ainda iriam financiar as perseguições sangrentas de Carlos V, e de outros soberanos, aos protestantes. As gerações sucederam mantendo a ambição desmedida e abuso de poder. As guerras religiosas, financiadas pelos banqueiros, espalharam miséria e sofrimento ao povo. A Guerra dos Trinta Anos na Alemanha (1618-1648) fez desaparecer dois terços da população total. E cinco sexto das aldeias foram destruídas.

Em seu tempo, Lutero decidiu fazer o que podia. "Creio até que este meu escrito será quase em vão, uma vez que a desgraça se instalou profundamente e tomou conta em toda parte. No entanto, tenho sido solicitado e exortado tratar destas questões financeiras por a descoberto algumas delas - embora muitos preferissem que não o fizesse - para que pelo menos alguns, por menor que seja o número, sejam resgatados da voragem e goela da ganância.

Provavelmente alguns que pertencem a Cristo, preferem ser pobres com Deus a serem ricos com o diabo, como diz o Salmo 37:16. Por amor a esses, portanto, preciso falar "explicou em Obras Selecionadas. Esta história não teve um final para ser contado. Hoje acumulação de riquezas e a exploração dos povos são regra no mundo inteiro. Jacob Fugger substituído pelas gigantescas corporações financeiras, agências internacionais e multinacionais. Muitas igrejas são verdadeiras empresas do capitalismo descontrolado impera, fincando no mundo suas garras da usura.

Paulo Henrique de Figueiredo - Revista Universo Espírita