O homem e o cosmo

Quando o astronauta russo Yuri Gagarin retornou da primeira viagem espacial tripulada, na bólide Sputinik, o mesmo, vinculado à rígida dialética materialista da política do seu Estado, exclamou: - "Estive além das nuvens e não vi Deus nem os anjos", numa ingênua tentativa de ridicularizar a fé religiosa e os crentes em geral.

Posteriormente, quando a nave Apoio IX chegou à lua e o homem pisou, por vez primeira, o solo do satélite natural da Terra, ante a grandeza do silêncio espacial e a visão comovedora do planeta donde procedia e que se apresentava aureolada pela claridade solar, num espetáculo de indiscritível beleza, o comandante Armstrong comoveu-se diante da gloriosa "obra de Deus".

A seguir, multiplicaram-se as experiências fora da órbita terrestre, sucedendo-se os vôos tripulados ou não, até quando o ônibus espacial Colúmbia retornou à sua base, num antigo lago da Califórnia, especialmente preparado para recebê-lo, inaugurando uma nova etapa para a conquista das estrelas...

Atingindo o máximo da tecnologia humana, engenheiros, matemáticos e astrofísicos lograram que a Pioneer n.° 2 saísse do sistema solar (13/06/1983) com possibilidades de sobreviver a este, considerando-se que os seus equipamentos podem resistir a aproximadamente cinco bilhões de anos e até mesmo alcançar um outro Sistema, na gigantesca Via-láctea que nos serve de base e origem.

Nesse caso, os técnicos, aliados aos astrônomos, conceberam uma mensagem que gravaram numa peça metálica, tentando situar a procedência do extraordinário engenho e posicionar o pequenino planeta donde se originou.

Fascinado com as contínuas descobertas das exatas regras das leis universais e do equilíbrio vigente entre as mesmas, os nobres cientistas da NASA não dominaram o desejo de declarar que todas as realizações logradas nesse campo somente foram possíveis porque "existe Deus".

"Não fosse o Universo o resultado de uma inteligência superior e perfeita - continuaram entusiasmados - jamais se poderia sair da órbita da Terra, conseguindo um retorno feliz, já que as condições, se fossem caóticas na gravitação universal, por imprevisíveis, não permitiriam a entrada da astronave na atmosfera terrestre"...

Graças à perfeição do movimento orbital do planeta em torno do Sol, pode-se computar com exatidão e segurança o lugar e as circunstâncias corretas para o resgate da máquina e do homem.

A criatura humana já superou o hotentote que se interrogava amedrontado sobre as causas dos fenômenos da Natureza, oferecendo sacrifícios e vidas às forças tiranizantes que o vergastavam.

Aprendendo a controlá-las ou prevê-las para minimizar-lhes os danos que ainda provocam, identifica-se com o Cosmo, penetra-lhes os segredos e movimenta-se dentro das suas muitas, soberanas, ainda inabordáveis leis.

Comove-se com a excelsa magnitude estelar e o pranto ou o sorriso ingênuo de uma criança, todavia, ainda promove guerras cruéis, ameaça de extinção a vida, intoxica-se de ódio, entorpece-se sob a ação de vícios degradantes, exaure na competição das conquistas enganosas.

Sem dúvida, logrou um gigantesco passo, venceu imenso pego, conquistou incontestável vitória. Porque ainda não se venceu interiormente, iluminando o âmago do ser com a claridade estelar do amor, angustia-se e debilita todas as suas capacidades que, não raro, se convertem em algemas e cadeias que a retêm nos impulsos instintivos da vida primitiva donde se origina.

A Ciência, por vários campos, tem-na reconduzido a Deus; a filosofia, depois de estremunhar-se no atrito das várias correntes em que se expressa, empurra-a de volta a Deus... No entanto, a intolerância do dogmatismo religioso, a vaidosa dominação do "reino dos céus" com que se apresentam inumeráveis crentes e a sua incoerência entre a fé que apregoam e a conduta que mantêm, respondem pelo cepticismo e a decepção que têm afastado de Deus aqueles que O querem encontrar em tais lamentáveis confissões...

É óbvia a ocorrência das valiosas exceções nesses arraiais, muitas vezes litigiosos. Ao Espiritismo, por apoiar-se na investigação científica e oferecer uma filosofia otimista, racional, levando o homem à religião da sua plena integração emocional com Deus, cabe a missão delicada e atual de atender esse homem que anela por paz fomentando a guerra, que conquista o Universo perdendo-se a si mesmo, no entanto, sequioso de felicidade e bem-estar lavrados na confiança do futuro em face da sua imortalidade.

Ivon Costa