O homem primitivo

I - O INGRESSO DO ESPÍRITO NO CICLO DAS REENCARNAÇÕES

a) Nosso interesse primordial diz respeito à evolução espiritual do homem: o pensar, as crenças, o conhecimento, o destino, a moral, aos quais nos ateremos, acima de tudo. Assim sendo, lembraremos que o espírito, ao ingressar na fase humana, já desenvolveu um corpo espiritual — o perispírito — pelo qual o espírito domina as células vivas, de natureza física e espiritual, como que empalmando-as a seu próprio serviço, de modo a senhorear possibilidades mais amplas de expansão e progresso, com um patrimônio de incalculáveis conquistas.

Ao atingir o limiar da fase humana, o espírito já assimilou elevadas características do ser vivo, tais como o automatismo fisiológico; a transmissão das características físicas na reprodução pelo sexo e em obediência às leis da hereditariedade, desenvolvimento maior daquele princípio instituído de que só ser vivo dá origem a ser vivo; sistema nervoso; cérebro; tudo subordinado ao comando da mente com a consolidação de várias e avançadas funções mentais, tais como: a percepção, a seleção, a atenção, a escolha, os reflexos e os instintos.

b) O ingresso do ser no ciclo das reencarnações humanas caracteriza-se pela aquisição da palavra, do pensamento contínuo, com o aparecimento da razão e do livre-arbítrio, edificados sob a assistência dos Instrutores do Espírito, em regiões especiais. O exercício incessante e fácil da palavra propicia o desenvolvimento da energia mental que acarreta a expansão do pensamento e o estabelecimento de todo um oceano de energia sútii em que as consciências encarnadas se refletem, sem dificuldade, umas às outras.

Com isto, o homem primitivo se inicia na meditação passando a mentalizar e a exteriorizar as próprias idéias, além de que, no sono, facilita o desprendimento do corpo espiritual, que afrouxa os laços com o corpo físico e permite melhor contato com os Benfeitores Espirituais que o instruem.

A - A lei do trabalho

a) Destituído de maiores recursos, ainda na infância da fase humana, o homem primitivo é colocado em condições ambientais e ecológicas, pelas quais obtém o de que necessita, para a sua subsistência, pelo simples colher. É a fase da caça e da pesca, porém adequada às suas forças para a luta pela sobrevivência. Situa-se num habitat, como assim estão situados os animais que nele vivem; fora dele, sucumbem e se extinguem. É o que hoje se passou a entender, com o progredir da Ecologia, e pela qual se levanta a grita para a proteção do meio ambiente e dos povos de baixo nível de civilização.

Foi pela incompreensão das leis por ela descoberta que a humanidade perpetrou crimes inqualificáveis contra a flora, a fauna e os indígenas das regiões virgens, levando-os quase à extinção.

b) Na busca, para obter do meio que o circunda o de que necessita, é que se manifesta, no selvático, aquele princípio divino que está observando, gravando, rememorando, automatizando impulsos e respostas, desenvolvendo o seu raciocinar.
Por exemplo, ao colher frutos das árvores, percebe que umas os dão mais, outras menos. Que as primeiras revelam estar sempre mais bem situadas no que concerne ao solo, a fatores climatéricos, insetos e doenças destruidoras, fatores estes sobre os quais ele pode influir, limpando, regando, adubando.

c) Começa por oferecer-se-lhe ao entendimento que, influindo no meio, de modo a provocar circunstâncias favoráveis, atua nas causas do desenvolvimento, e sua obtenção é favorecida em quantidades cada vez maiores, tanto maiores quanto o forem as benfeitorias que ele possa produzir. Inicia a descobrir que NELE PRÓPRIO está a possibilidade de transformar-se na PRINCIPAL CAUSA para que a natureza lhe atenda às solicitações — O PEDIR, ou melhor, que a FORMA MAIS FECUNDA E ATENDÍVEL DO PEDIR É APRENDER A TRABALHAR EM BENEFÍCIO DA VIDA.

B - O despontar da idéia moral

a) O homem selvático, erguido da animalidade e governado exclusivamente pelos instintos, com a violência de uma fera matando para sobreviver, impelido a aceitar os princípios da renovação e progresso, como que a buscar a solidariedade possível dos semelhantes na selva que o desafia, apega-se à prole, mentaliza a constituição da família, padece na defesa do lar, principia a desenvolver o amor.

b) O pensamento contínuo que o inicia na meditação, a razão e a vontade incipientes, se lhe constituem quais ferramentas para a modificação dos instintos. O instinto, essencialmente, consiste das tendências edificadas com o acervo de experiências e conquistas efetuadas até esse estágio e da resposta automática, construída sobre os reflexos, que ele dá aos estímulos que as excitam. A vontade, entretanto, é faculdade que lhe permite refrear a resposta, permitindo-lhe, entre a excitação da tendência e a ação, um intervalo de reflexão, no qual sua razão opera, avalia em relação a valores que se fixam e renovam, transformando a resposta, do que resulta, em consequência, uma ação subordinada ao seu pensar. E isto o torna RESPONSÁVEL por ela.

A repetição de atos, modificados pela ação conjunta da vontade e da reflexão, em relação aos impulsos ou reflexos pertinentes aos instintos, atua como realimentação. Isto lhe permite avaliar os desvios de comportamento em relação aos valores que adota, pelo que se dispõe a adaptar-se-lhes, com consequente transformação do campo íntimo e do instinto, resultado, enfim, da atividade refletida, base da inteligência no conhecimento adquirido por recapitulação e transmissão incessantes.

c) O amor que se lhe desenvolve pela família, fá-lo instituir a propriedade e traçar, para si próprio, regras de conduta para que não imponha aos semelhantes prejuízos que não deseja receber. Nasce, desse modo, para ele, a NOÇÃO DE DIREITO, sobre o alicerce das obrigações respeitadas. PRINCIPIA, PARA ELE, A EVOLUÇÃO DO PONTO DE VISTA MORAL.

d) Na morte, a vida se lhe apresenta em continuação, colocando-lhe novos problemas que, de início, não entende. Desencarnado, continua em estágio educativo, no qual soma as experiências vividas e incorpora a colheita da sementeira praticada no corpo físico.
Para o selvagem, entretanto, a vida no plano espiritual é incompreensível. Desperta nela qual menino aterrado; permanece junto aos seres do plano carnal, em vários processos de simbiose e não tem outro pensamento, senão voltar.

C - Pródromos da mediunidade

Em virtude do pensamento contínuo a criatura, pela mente, absorve e emite matéria mental (a matéria em estado de condensação diferente daquele conhecido por nós, em processo vítalista semelhante à respiração, absorvendo energia e transubstanciando-a sob a própria responsabilidade para Influenciar na criação, a partir de si mesmo.

Isto é, há transformação. A matéria mental absorvida é modificada nas suas características para adquirir outras que lhes são imprimidas pela mente, no processo de pensar, segundo a natureza intrínseca de seus pensamentos, e por ela excitada, do que resulta emissão de radiações, revestindo a pessoa de um halo energético, atmosfera mental típica e característica, que se denomina AURA.

NOTA: Devemos nos lembrar que temos a Aura externa e a Aura interna.

São estas irradiações que, ao se propagarem no espaço, induzem em outras mentes que se lhe sintonizem pela afinidade de idéias, as características, as peculiaridades do pensamento que as originou e os estados d'alma a ele associados. É por esta couraça vibratória que começaram todos os serviços da mediunidade na terra, considerando-se a mediunidade como atributo do homem encarnado para corresponder-se com os homens liberados do corpo físico.

É então pelo intercâmbio de idéias (pela reflexão), que a mente primitiva passa a absorver, em baixa dosagem (limitada e nascitura que é), as idéias renovadoras que lhe são sugeridas no Plano Superior, especialmente durante o sono, em que entra em contato com os desencarnados que o orientam e lhe transfundem, pela mudança de valores no campo mental, sentimentos e idéias.

É desta maneira, pela reflexão possível que aparece entre os homens, mal saídos da selva, a inteligência artesanal, instalando no mundo a indústria elementar do utensílio. É pelo fluido mental com qualidades magnéticas da indução que o progresso se faz notavelmente acelerado.

É neste período que se desenvolve a assim chamada civilização do sílex, do qual o selvícola (homo sapiens neanderthalensis, já considerado de nossa espécie) se tornou fabricante de ferramentas. Diz, ainda, André Luiz — Pela troca de pensamentos de cultura e beleza, em dinâmica expansão, os grandes princípios da Religião e da Ciência, da Virtude e da Educação, da Indústria e da Arte, descem das Esferas Sublimes e Impressionam a mente do homem, traçando-lhe profunda renovação ao corpo espiritual, a refletir-se no veículo físico que, gradativamentese acomoda a novo hábitos.

É, então, pela reflexão de idéias que se inicia o intercâmbio entre os dois planos. E a intuição, esta capacidade de captar idéias, sem a intervenção do raciocínio, esta capacidade de sintonização com outras mentes é a sua primeira forma, a forma da mediunidade inicial.

Rino Curti