Provas e reencarnação

I - Vampirismo e obsessão

a) Assim como há formas úteis de associação, como nas simbioses, há também formas prejudiciais, tais como as micorrizas das orquidáceas, em que o cogumelo invade a raiz da planta, provocando-lhe, às vezes, até a morte.

Em geral, nessas associações, uma das partes, após insinuar-se, cria vantagens para si, em prejuízo da outra, podendo estabelecer situação exploradora de longo curso, por adaptação progressiva entre o hospedeiro e o parasita, que atua até a produção de sérios embaraços nas funções dos órgãos do hospedeiro.

b] Nos indivíduos, as associações prejudiciais se encontram nas ligações de obsessão e vampirismo, existentes desde os primórdios da fase humana. Rebelando-se, em grande maioria, contra as sagradas convocações, e livres de escolher o próprio caminho, os desencarnados, em grande número, continuam a oprimir os encarnados, disputando afeições e riquezas com os que ficam na carne, ou tentando empreitadas de vingança e delinquência, quando desencarnados em circunstâncias delituosas.

As vítimas de homicídio, brutalidade e perseguição, fora do vaso físico, entram na faixa dos ofensores e, em vez de perdoar, lançam-se a vinditas atrozes, implantando, para eles e para si, extensa cadeia de trevas. Outros, obstinados a fazer justiça por si mesmos, envolvem os que visam e, auto-hipnotizados por imagens em que se fixam, sofrem transformações morfológicas no campo espiritual, cujos órgãos, por falta de uso, se atrofiam e assumem forma ovóide, permanecendo vinculados às próprias vítimas que, mecanicamente, a eles permanecem ligadas, por afinidade de pensamentos, de ódio, de egoísmo ou de viciação.

O obsessor absorve as forças psíquicas do obsidiado, numa situação que, por vezes, se prolonga além da morte física, até que, pela reencarnação, ambos encontrem o caminho da reconciliação.

II - Castigo, dor e sofrimento

a) Dor, sofrimento, provas, permanecem relacionados aos imperativos da lei da ação e reação, em que a noção de castigo adquire expressão nova. A noção habitual de castigo, em outras crenças, está imbuída de conotações relacionadas à noção de pecado, como ofensa a Deus, de castigo ministrado por Ele, de uma condenação que pode ser eterna, em virtude da ofensa que é infinita porque proporcional ao grau do ofendido.

b) A noção de justiça, entretanto — diz André Luiz — permanece relacionada à repressão da sociedade contra as causas que lhe introduzam desordem e harmonia e, portanto, exercida pelos espíritos, no plano extrafísico, tal como ela é exercida aqui no plano físico. E ela é efetuada no meio em que o espírito se situa. Nas regiões de sofrimento — o Umbral — ela é exercida por espíritos da mesma faixa vibratória que a do culpado e pode assumir feições bastante duras e rudes.

Nos meios mais evoluídos, ela é exercida com maior propriedade, por magistrados de maior envergadura de Espíritos integrados no conhecimento do Direito, com dilatadas noções de culpa e resgate, erro e corrigenda, psicologia humana e ciências sociais, a fim de que as sentenças ou informações proferidas se atenham à precisa harmonia, perante a Divina Providência, consubstanciada no amor que ilumina e na sabedoria que sustenta.

c) Quanto à dor e ao sofrimento, em geral, dizem respeito aos desajustes provocados por comportamentos que nos desconcertam em relação à ordem e à harmonia com o meio e o semelhante, e que é necessário restabelecer. Para isto, em geral, o espírito muitas vezes escolhe a própria oportunidade de restauração. O que não significa que devamos, em idênticas condições, passar pelas mesmas coisas que provocamos.

Basta que nos devotemos ao bem para que, atraindo forças benéficas, possamos transformar as circunstâncias e criar condições aptas a nos favorecer, com a intercessão de espíritos amigos que, em nos vendo modificados, podem interceder com as mais variadas formas de auxílio.

III - Remorso e arrependimento

Se no pensamento reside a força criadora pela qual as almas desenvolvem suas faculdades e o seu aprimoramento, mutuamente relacionadas por afinidade, nele também residem os meios pelos quais as mentes transviadas são automaticamente detidas em sua marcha e reconduzidas ao pensar equilibrado e à atividade remissora.

Diz André Luiz em: É da Lei Divina que o homem receba, em si mesmo, o fruto da plantação que realizou, visto que, nos órgãos de sua manifestação, recolhe as maiores concessões do Criador, para que efetive o seu aperfeiçoamento na Criação. Pois bem, a mente controla o corpo através das ligações dos centros de força com o corpo, pelo que se estabelece a ação resultante de nossa escolha. Tais ligações trazem de volta sua essência à mente, a fim de que se ajuíze o acerto ou o desacerto de nossas decisões.

Sempre que o acontecido provoque desarmonia ou desordem, produz-se um estado de turvação, de conturbação da mente, pelo qual, automaticamente, ela se fixa nos quadros relacionados às culpas contraídas, sem poder desviar deles a contemplação e sem poder fixar-se em outros...

Escutará exclusivamente vozes acusadoras que lhe apontem os compromissos inconfessáveis;... recordará apenas os acontecimentos que se lhe refiram aos padecimentos morais, com absoluto olvido dos outros... num monoideísmo que as isola nas recordações ou emoções,. .. no qual, o pensamento, em circuito fechado, e por ficar reforçado pelos pensamentos de outros afins, materializa pesadelos fantásticos em conexão com as lembranças que albergam.

IV - Resgate

a) Resumindo, as criaturas culpadas, pelo remorso e pelo arrependimento, se fixarn nos quadros das más ações cometidas e, os ofendidos, sequiosos de vingança ou criminalidade, atendo-se aos mesmos quadros, estabelecem ligações de provação e sofrimento. Os estados de conturbação provocados pelo proceder contrário ao bem comum, em função das forças que se estabelecem pela revolta, pelo remorso, pelo arrependimento, pelas acusações dos que se sentiram prejudicados, atuam sobre os núcleos energéticos da alma para detê-la nos quadros terríficos que lhe digam respeito às culpas contraídas, sem capacidade para observar paisagens de outra espécie; escutará exclusivamente vozes acusadoras que lhe testemunharam os compromissos inconfessáveis, sem possibilidade de ouvir quaisquer outros valores sônicos, tanto quanto poderá recordar acontecimentos que se lhe refiram aos padecimentos morais, com absoluto olvido de fatos outros, até mesmo daqueles que se relacionem com a sua personalidade.

E, dessa forma, até que se esgotem os motivos que alimentam tais estados, vive o espírito torturado pelas imagens, frutos de suas culpas. E por ser o pensamento o veículo de forças que atuam na matéria, tal qual se apresenta no mundo extrafísico, tais imagens, se forçadas por outras do mesmo teor, plasmam paisagens regenerativas, regiões em que a consciência culpada expia as consequências de seus atos, de seus delitos, lugares, retendo a associação de centenas de milhares de transviados, se transformam em verdadeiros continentes de angústia, filtros de aflição e de dor, em que a loucura e a crueldade, juguladas pelo sofrimento que geram de si mesmas, se rendem lentamente ao raciocínio equilibrado, para a readmissão indispensável ao trabalho remissor.

V - Zonas purgatoriais

São as regiões e quadros que, oferecendo-se aos videntes, dão margem às idéias de inferno, de zonas purgatoriais, citadas em muitos credos religiosos e que não são meras concepções fantasiosas, mas sim realidades que o espírito culpado enfrenta e das quais não pode libertar-se em pouco tempo.

Com eles, os Agentes do Amor Divino intervêm caridosamente no sentido de subtraí-los às penas e à aflição, tal qual o médico cura as doenças sem julgar, buscando apenas socorrer a necessidade. Mas assim como o médico pouco ou nada poderá fazer se o doente não se dispuser à reação, assim os Missionários do Bem nada sofrerão enquanto não se desfizerem, nos socorridos, as influências das aflições, das criações mentais em que se envolveram.

Isto não significa que no Plano Extrafísico não haja justiça, tribunais, como já citamos, nem defesas. Lá, como cá, trata-se de uma sociedade organizada e, portanto, com todos os instrumentos e instituições aptas a garantir o equilíbrio, a paz e o desenvolvimento da sociedade.

André Luiz narra das Defesas contra o mal, em que descreve fortificações e armas contra as organizações do mal que, continuando suas operações no além-túmulo, uma vez que a morte não modifica ninguém, ameaçam a paz e a harmonia. André Luiz narra também do Umbral e das providências enérgicas que se fizeram necessárias, quando em Nosso Lar se tratou de resolver problemas de alimentação.

VI - A oportunidade renovada

A reencarnação sempre se oferece como nova oportunidade para o retorno ao aprendizado prático das lições em que a alma faliu.
No espírito encarnado, o pensamento espraia pela alma as radiações mentais que produz, nas quais se refletem as imagens que o espírito cultua, irradiando-as e exteriorizando-as. Por isto, os homens melhores atraem a companhia dos espíritos melhorados, ocasionando núcleos de progresso que geram trabalhos edificantes e educativos; enquanto os rebeldes alicerçam a companhia de entidades da mesma classe.

No sono tornam-se mais suscetíveis à influenciação dos desencarnados, beneficiando-se, os primeiros, em orientação e auxílio, tornando-se vítimas, os segundos, de uma atuação que lhes suga energias e Ihes assopra sugestões infelizes. É, como dissemos, o início da mediunidade.

A ignorância faz com que alguns não ultrapassem os limites das relações com espíritos atrasados, estabelecendo a magia negra, enquanto outros, em contato com os espíritos mais avançados, veiculam a Religião em forma de Mitologia, em que orientadores familiares são levados à conta de deuses. O conflito entre o Bem e o Mal se estabelece com a participação dos dois Planos de uma forma que está longe ainda de terminar.

Rino Curti