XIII - OS MANIPULADORES

XIII - OS MANIPULADORES

Porquanto, assim como nos dias anteriores ao dilúvio, festejavam, comiam, bebiam, dançavam, casavam-se e se davam em casamento ate' o dia em que Noe' entrou na 'area. E não perceberam senão quando veio o dilúvio e os levou a todos. MATEUS - CAP. XXIV-VERS. 38/39.

Acautelai-vos por vós mesmos, para que nunca vos suceda que os vossos corações fiquem sobrecarregados com as consequências das orgias, da embriaguez e das preocupações deste mundo, para que aquele dia não venha repentinamente sobre vós como um laço. LUCAS - CAP. 21 - VERS. 34.

Nos dias que se seguiram, Augusto e eu ficamos na expectativa de uma incursão pela crosta terrestre, em visita a algumas cidades, bem como locais determinados, que segundo orientates recebidas, eram palco de ação onde as forças das trevas encontravam-se atuando de forma mais ostensiva, com objetivo de acompanhar de perto o desenrolar das ações e o modus operandi das legiões comandadas por 'Erebo e Polifemo.

No dia aprazado, sob orientação do Instrutor, nos dirigimos em rápido deslocamento volitivo em direção a crosta terrestre, e quando chegamos, o relógio marcava exatamente 23:00 horas. As luzes da cidade maravilhosa encantavam nossas vistas, bem como os contornos bem delineados de suas montanhas, e a topografia sinuosa demonstrava a harmonia da natureza perfeita abençoada pelo Criador.

As ruas centrais da cidade estavam aglomeradas de gente, e o barulho da cantoria, o rufar dos tambores e de tamborins propagava-se pelo espaço alcançando grande distância em sua vibração sonora. Era o periodo carnavalesco, ocasião em que muitas pessoas se entregam a folia na pretensa diversão de alegria e de liberdade. Grupos passavam apressados, embalados em conversas desconexas e risos alterados pela ingestão de etilicos, na companhia de desencarnados que se compraziam com o acontecimento.

As ruas próximas ao local dos desfiles das escolas de samba regurgitavam com a folia que corria solta. Era fácil identificar a presença de espiritos 'avidos em busca de prazer e bebida. O que identifiquei de imediato e que chamou a atenção foi a presenca de espiritos diferenciados em sua postura, desenvoltos em sua atuação, que pareciam ter grande facilidade em coordenar e potencializar a ação de outros espiritos desencarnados, que aparentemente não tinham a mesma lucidez, parecendo, a minha observação, em estado de embriaguez, buscando a sintonia do prazer que era objeto de seus desejos inconscientes, aproveitando--se para isso de encarnados que ofereciam campo mental adequado para sua atuação. Detive-me um pouco mais na observação, podendo constatar que os primeiros que havia observado, eram espiritos portadores de considerável condição intelectual, argutos em suas atitudes, astutos na atuação e portavam a inconfundivel aura de maldade que os caracterizava.

Diante de minha observação, o Instrutor esclareceu: - Observe, Virgilio, que muitos desses irmãos desencarnados, pelo estado de perturbação em que se encontram, não tem consciência do mal que praticam, mas buscam instintivamente, pela sintonia dos desejos do emissor, o prazer de que necessitam, uma vez que foram desalojados pela morte do corpo fisico, mas ainda se encontram mentalmente prisioneiros das necessidades da matéria e, dessa forma, continuam instintivamente em busca de sexo, de bebidas e de drogas. Poderiamos dizer que a força que os atrai e' a da sintonia mental, mas a energia que os imanta e quase que uma energia fisica, dado o estado materializado desses espiritos, bem como a sintonia mental de seus companheiros encarnados. E nesse estado de comportamento que entra a figura do manipulador, que voce identificou.

- O manipulador e' um espirito inteligente e astuto e não se expõe diretamente, permanece sorrateiro, por trás dos bastidores da ação propriamente dita. E com esses espiritos que os coordenadores de 'Erebo e Polifemo contam, pois são eles que colocam os planos em ação implementando as estratégias de seus superiores hierárquicos, porque sua função e potencializar a necessidade do encarnado em sintonia com o desencarnado em uma ação muito bem arquitetada, de forma que um se torna dependente do outro, alimentando-se de energias que o encarnado oferece e os prazeres e delirios mentais que o desencarnado propicia. E a companhia que as criaturas distraidas do orai e vigiai, que transitam na perigosa invigilância, elegem para si mesmas, e somente mais tarde, quando os efeitos dessa perniciosa simbiose começam a se manifestar no corpo denso e mental, e' que então procuram os Centros Espiritas para se livrarem do pretenso encosto que elas mesmas escolheram e alimentaram, muitas vezes, por longo tempo.

Enquanto o Instrutor trazia os esclarecimentos, observei a ação intensa dos manipuladores, que agiam a solta sem serem identificados por seus colaboradores. Fiquei impressionado com a desenvoltura e a eficácia das ações muito bem articuladas.

- Na verdade, Virgilio - complementou o instrutor -, os manipuladores são cuidadosos e extremamente eficazes em sua atuação, uma vez que são conscientes e não são percebidos pelos manipulados, que a semelhança de marionetes, obedecem sem oferecer resistência, pois na inconsciência de sua condição espiritual encontram a sintonia que desejam, e isso lhes basta. Nossos irmãos encarnados por outro lado, são envolvidos nessas armadilhas, através de seus pensamentos e desejos desequilibrados, oferecendo campo de atuação na sintonia mental e não se dão conta porque se encontram, de algum modo, como que entorpecidos espiritualmente. A ação da ingestão etilica e demais drogas completam o serviço. Dessa forma, confundem-se pensamentos e desejos entre encarnados e desencarnados na perniciosa sintonia dos desejos desregrados.

Lembrei-me da sabedoria do ditado popular que diz: Diga-me com quem andas e te direi quem és. Sob a 'otica de nossa observação, podemos ir um pouco mais longe invertendo o adágio popular para: Diga-me o que pensas e te direi com quem andas.

O instrutor sorriu diante de minha observação e complementou:

- Tem razão em sua observação, Virgilio, pois através da sintonia de nossos pensamentos, escolhemos as companhias espirituais que se afinam conosco, uma vez que sempre oferecemos sintonia mental com espiritos encarnados e desencarnados que comungam com o teor vibratório de nossos pensamentos e sentimentos.

Demonstrando vivo interesse no que estavamos observando e nos apontamentos do Instrutor, Augusto questionou:

- Instrutor Ulisses, gostaria que pudesses esclarecer algumas dúvidas: O senhor mencionou a figura do manipulador e dos manipulados, a simbiose mental que se cria, a dependência espiritual e fisica em que ficam imantados encarnados e desencarnados, de forma tal que acabam trazendo prejuizos espirituais e fisicos aos encarnados. Minha pergunta e': Por que os bons espiritos não atuam diretamente sob os manipuladores? Quais os prejuizos espirituais e fisicos que acarretam aos encarnados envolvidos nesses processos? Qual a solução para aqueles que caem nessa rede obsessiva?

O Instrutor sorriu complacente diante da enxurrada de perguntas do ex-sacerdote.

- Em primeiro lugar, Augusto, a figura dos manipuladores esta implicita a condição do ambiente tipico de nosso planeta, cuja humanidade vivencia as experiências necessárias correspondente ao periodo da transição planetária. Ha' de ser assim, para que se possa completar o processo como um todo, pois na colheita do Senhor não pode absolutamente haver joio se confundindo com o trigo. O que 'Erebo, Polifemo e seus comandados desconhecem, apesar de todo conhecimento, perspicácia e astúcia, e que toda a ação que eles perpetram no que eles entendem seja a grande batalha contra Deus e as Hostes de Jesus, em verdade são eles tambem personagens que fazem parte do processo na grande transformação planetária e contribuem decisivamente para que ela seja efetiva, pois no contexto evolutivo, os mansos herdarão a Terra e os reprovados no exame final serão banidos (lançados) para o lago de fogo, do choro e do ranger de dentes. Ora, os que forem escolhidos para herdar um planeta no periodo de regeneração terão muito trabalho de reconstrução, mas trabalharão felizes, iluminados pela luz do Senhor que clareia e aquece seus corações e jamais se apagara', porque embora ainda sejam criaturas portadoras de muitas imperfeições, por outro lado ja' efetuaram importantes conquistas espirituais, como a bondade e a mansuetude.

- Todavia, os banidos herdarão um planeta primitivo ainda envolto nas camadas densas de uma pesada atmosfera composta por nuvens sulfurosas e emanações vulcânicas de geiseres e enxofre, de onde vem a citação apocaliptica de que os banidos seriam lançados no grande lago de fogo e enxofre e, então, haveria choro e ranger de dentes. Certamente, 'Erebo, Polifemo e seus comandados, mesmo que inconscientes, terão uma grande surpresa, pois irão perambular pelas noites sombrias do novo planeta e, possivelmente em momentos de meditação terão saudosos, mesmo que instintivamente, a lembrança de um paraiso perdido de onde foram expulsos por terem feito mau uso do fruto do bem.

Não podia deixar de registrar e observar que a folia prosseguia animada enquanto os manipuladores continuavam agindo a solta, preparando armadilhas entre encarnados e desencarnados.

- Alguem poderia questionar, se a atuação das forças das trevas ja' era prevista e necessária para a grande seleção do joio e do trigo, dos cabritos e ovelhas, qual então e' o papel das Hostes do Cristo?

A pergunta formulada pelo próprio Instrutor era oportuna e me chamou a atenção, pois parecia que estavamos diante de um aparente paradoxo. Sim, era verdade, Deus e' a inteligencia suprema do Universo e a causa primária de todas as coisas.

Tudo acontece porque o Senhor assim permite, pois criou leis perfeitas que regem o Universo e tudo que nele existe. Se tudo o que estava acontecendo era necessário e ja' tinha sido revisto com muita antecedência e faz parte do grande plano evolutivo, então qual seria o papel dos bons espiritos neste conturbado periodo de transição planetária?

Diante de minhas elucubrações mentais, o Instrutor sorriu, prosseguindo em seus esclarecimentos:

- Nunca e' demais repetir... - prosseguiu o instrutor -...que as colocações feitas a respeito do embate entre as forças do bem e as forças do mal, as vezes, passa para os mais apressados a impressão de que as forças do mal estão ganhando o jogo de goleada - disse o instrutor fazendo uma analogia sugestiva e oportuna ao entendimento do ser humano encarnado. - E que as Hostes do Cristo lutam desesperadamente para que no final do último minuto do segundo tempo possam reverter o resultado negativo e expulsar o demônio, a besta e o dragão e todos seus seguidores, lançando-os para o fundo do lago de enxofre ardente onde havera' choro e ranger de dentes. Não e' bem assim. As Hostes do Cristo operam com muito amor e intensidade, pois o momento exige, mas acima de tudo, com serenidade junto ao ser humano, levando orientações, mensagens de esclarecimento e alertas de todas as formas possiveis e imagináveis para despertamento do ser humano para a gravidade do momento. Além do mais, o ser humano conta a seu favor com o Evangelho do Cristo que esclarece, ilumina e liberta! Quem tem olhos de ver que veja, quem tem ouvidos de ouvir que ouça! Havera' sempre o chamamento e o convite amoroso do Cristo, e por outro lado havera' tambem os apelos irresistiveis, insinuantes, sedutores, sorrateiros para a prática das licenciosidades de toda espécie. Cabe as pessoas ouvirem a voz que lhes e propicia de acordo com seus sentimentos e anseios, porque em última instância, e no intimo da própria consciência que cada criatura toma sua decisão, fazendo sua escolha entre o bem e o mal, posicionando-se entre a esquerda e a direita, entre o joio e o trigo.

- Em verdade, as hostes de 'Erebo e Polifemo contribuem para que as pessoas exteriorizem o mal que jaz latente dentro de cada um trazendo para fora suas deformidades morais camufladas, seus anseios de libertinagem mal resolvidos, sua brutalidade escondida, a sexualidade desvirtuada, as mentiras disfarçadas e a corrupção enrustida. Fazendo uma analogia para facilitar o entendimento, poderiamos comparar os seres humanos as máquinas fotográficas antigas, porque apenas revelam o que tem dentro de si quando expostos a situação mais acerba, como os antigos filmes das máquinas de fotografia, isto e', depois de acionados e expostos a escuridão e a depuração do agente revelador e que o filme exterioriza exatamente o que contem oculto em sua essencia. Por esta razão, o Evangelista João afirmou: quem e' sujo, suje-se ainda e quem e' santo, santifique-se ainda! No final do processo da grande transição não havera mais dúvidas: havera' na simbologia do apocalipse, distintamente separados entre si, o joio e o trigo, os cabritos e as ovelhas, os da direita e os da esquerda para que possa, então, ser completado o processo de transição planetária, onde os mansos haverão de herdar a Terra e os demais serão lançados para o lago de enxofre ardente.

Após os esclarecimentos do Instrutor, permanecemos em silencio meditativo, enquanto fazia minhas anotações.

Sob orientação de Ulisses, nós nos dirigimos a vários locais e clubes que promoviam a festividade do carnaval, onde pudemos observar a ação constante de manipuladores, envolvendo espiritos afins com a folia e a diversão dos seres encarnados. O regalo era total entre desencarnados e encarnados, que se compraziam, ignorando as companhias espirituais que se associavam na perigosa sintonia da diversao carnavalesca.

A demanda de tempo não foi mais que a necessária para os apontamentos pertinentes ao assunto, de forma que em pouco tempo nos deslocamos para outras localidades onde a folia corria solta.

Na cidade seguinte, onde aportamos, os trios elétricos eram a sensação máxima entre os foliões, cuja maioria era de jovens que se entregavam ao prazer da diversão descompromissada. O quadro que podiamos observar não era diferente do observado anteriormente, com um agravante: além das bebidas, das drogas, da presença de manipuladores e manipulados, pude observar uma onda negativa, escura e pesada, de forte apelo libidinoso que envolvia a grande maioria que se encontrava naquela sintonia, traduzindo desejos de angustia desenfreada ao atendimento a libido, na condição da mais primitiva sensualidade. Era fácil observar que muitos envolvidos pelos efeitos do 'alcool, drogas, bem como pelas influências espirituais negativas, não apresentavam condição de raciocinio lógico nem lucidez para os perigos a que estavam expostos.

Aquelas cenas não eram novidades para minha observação, pois ja' estivera anteriormente naquele mesmo palco, onde pudera observar a manifestação de energias extremamente perigosas, fruto das emanações dos pensamentos e desejos de sensualidade exacerbada da multidão que se comprimia em delirio pela pretensa diversão descompromissada.

De retorno ao nosso domicilio espiritual, em determinado ponto de nossa trajetória, o Instrutor orientou-nos para que observassemos a crosta terrestre. Augusto e eu estavamos deslumbrados diante da beleza do nosso orbe, que contrastava a escuridão da noite com a luminosidade das estrelas que serviam de pano de fundo de nossa visão. Aquela distância era possivel verificar a curvatura da Terra e identificar, por meio de suas luzes, as principals cidades costeiras. Mas o que mais me chamou a atenção foi observar que exatamente sob as regiões onde a folia se manifestava mais intensa, algo se destacava entre o brilho das luzes. Entre a escuridão da noite, o brilho das estrelas e as luzes das grandes cidades, podia-se vislumbrar a presença de uma energia mais densa e agressiva que se caracterizava pela tonalidade vermelho-escuro, que se revelava a nossa percepção mais aguçada.

O Instrutor não esperou questionamentos para nos trazer o esclarecimento necessário:

- Como ja' dissemos anteriormente, as ondas mentais negativas se espalham e se expandem por todos os lugares ao redor do planeta, tais quais uma teia sorrateira e sedutora. Quando movidos pela falta de vigilância, através de sentimentos de odio, magoas, ressentimentos e sensu¬alidade exacerbada, atraimos essas ondas, em virtude da sintonia vibratoria de nossos pensamentos, e por ela so¬mos atraidos. Nao e demais repetir a analogia ja mencio-nada anteriormente, porque as pessoas naquela sintonia são capturadas pelo visgo pegajoso daquela onda, tal qual o inseto que em seu vôo distraido cai prisioneiro da teia dos aracnideos. Podemos observar nessas situações a ocorrência de um fator agravante: a ação dos manipuladores a serviço do mal que potencializam as sensações seja de 'odio, de mágoas, de ressentimentos ou de sensualidade descontrolada, que e o presente caso. A onda magnética, oriunda da coletividade em confluência com a onda negativa que gravita no espaço, a semelhança do imã que atrai a limalha de ferro, aglutina-se pela atração irresistivel que exerce, adquire potência e se retroalimenta através da simbiose que se estabelece entre encarnados e desencarnados que comungam os mesmos sentimentos descontrolados. O resultado e' o que podemos observar.

As observações do Instrutor eram severas e preocupantes. Augusto questionou:

- Diante dessa cena que estamos observando, e de seus esclarecimentos, poderiamos afirmar que as festividades do carnaval são perigosas? Em que dimensão poderia entender que se trata de uma festividade de licenciosidade e pecado?

O Instrutor sorriu com bondade diante da pergunta do ex-sacerdote.

- O pecado esta' na cabeça e no pensamento das criaturas, Augusto. Devemos sempre recordar o Apóstolo Paulo quando nos asseverou com sabedoria que: Tudo me e' permitido, mas nem tudo me e' conveniente. O ser humano deve ter a consciência de que tudo que fazemos de bom ou de ruim reverte sempre a nosso favor ou contra nos mesmos, porque a semeadura e livre, mas a colheita e' obrigatória. Assim sendo, todo o bem que praticarmos, todo o bem que espalharmos retornara' sempre em nosso beneficio, por meio de nossa melhoria intima e espiritual, a sedimentar nossa escalada na trajetória da ascensão espiritual. Da mesma forma, todo mal que semearmos em nossa invigilância sera o espinheiro ou os pedregulhos que teremos de colher obrigatoriamente la' na frente, em nossa caminhada. O ser humano conquistou evolutivamente a condição do livre-arbitrio e por essa razão tem a oportunidade de escolher os caminhos evolutivos que deseja, seja pelo amor ou pela dor! Todavia, devemos ponderar que com o livre-arbitrio veio também a responsabilidade, motivo pelo qual, quando atingimos a condição da consciência espiritual, temos necessariamente a condição de saber que tudo podemos, mas ter o discernimento para identificar aquilo que nos convém e o que não nos convém! Não somos nós a condenarmos quem quer que seja, porque no uso do livre-arbitrio, o ser humano tem a liberdade da livre escolha. Infelizmente, muitos ainda fazem a opção pela dor e irão sofrer as consequências da escolha efetuada. Nem poderia ser de outra forma - concluiu.

Enquanto fazia minhas anotações, meditava na seriedade dos ensinamentos. O Instrutor prosseguiu:

- Alguém poderia ainda alegar não haver nenhum mal porquanto o ser humano e livre para a própria escolha, e que o carnaval e' uma festa folclórica que as pessoas aguardam ansiosamente para se descontrairem depois de um ano de muito estresse e lutas. Vamos mais adiante ainda, pois temos visto confrades que entendem que não ha' nenhum mal na diversão carnavalesca e somos compelidos a concordar, uma vez que o mal não esta' na diversão em si, pois o mesmo se encontra na mente daqueles que estão voltados ao mal, o que nos força a reconhecer que o mal sempre existe onde queiramos destacar sua presença. Entretanto, não estamos nos referindo simplesmente a diversão pura e simples do carnaval ou a qualquer outro tipo de entretenimento saudável. O que queremos e' simplesmente relatar o quadro perigoso que presenciamos e o que vimos, não e' simplesmente uma diversão inocente e saudável, mas o perigo do laço e do visgo mortal da teia magnética negativa e licenciosa que se estende e encontra sintonia nas mentes que buscam, na justificativa da diversão do carnaval, a oportunidade para liberar e exteriorizar seus descalabros representados por desejos inconfessáveis e ocultos, facilitados pela bebida, pelas drogas e pela ação dos manipuladores que encontram extrema facilidade diante do farto material de combustão exsudada pelas mentes que comungam da perigosa sintonia, porque no carnaval tudo se justifica.

- A verdade e' que essa teia, a que nos referimos, faz jus a alusão das palavras do Apóstolo Lucas,51Lucas, cap. XXI - vers. 34. a semelhança do laço de visgo que estende seus tentáculos aprisionando em suas teias os incautos foliões, que na ânsia de se divertir e aproveitar ao máximo aqueles dias, enredam-se em um perigoso cipoal obsessivo, cuja libertação torna-se extremamente dificil, pois a semelhança do imã que atrai o ferro, a teia aprisiona a presa pelo visgo da sintonia do obsediado, que muitas vezes não se da conta e ainda se compraz porque vem ao encontro de seus anseios e desejos intimos. Terminado o carnaval, as pessoas retornam a rotina do dia a dia, mas mentalmente continuam prisioneiras das companhias espirituais a quem se imantaram nos dias de folias cujas consequências são imprevisiveis, pois muitos continuam a alimentar os pensamentos de prazer pelo ano todo, ate' retornarem ao carnaval do ano seguinte.

Fiquei meditando na realidade e na seriedade dos fatos presenciados, nos perigos invisiveis que as pessoas, na ansiedade da diversão carnavalesca, não se dão conta. Nossos alertas seriam levados a sério ou simplesmente levados em conta como pilheria ou exagero? Confesso que ja' ouvi, ate' mesmo de confrades, alegações que nos colocamos na condição de severidade injustificada ou ainda na condição de puritanos e moralistas.

O Instrutor não esperou que eu formulasse qualquer questionamento, pois acompanhava meu raciocinio e prontamente redarguiu:

- Não devemos dar tanta importância, Irmão Virgilio, a opinião desse ou daquele. Nossa responsabilidade e' com os planos superiores, que consiste em levar as mensagens de alerta para aqueles que tem ouvidos de ouvir, ouvirem e aos que tem olhos de ver, que vejam. Em verdade, as palavras do Apóstolo Mateus52 nos remetem a Era de Noe' que, preocupado, alertava para a seriedade do momento enquanto o povo ria, zombava, festejava, bebia e dançava. Diz mais o Apostolo, que o povo so percebeu quando veio o grande diluvio e os levou a todos. Poderiamos perguntar: Sera que existe alguma semelhança com os dias de hoje? Certamente muitos dirão que e' muita fantasia, exageros e excesso de moralismo de nossa parte.

Apenas temos de lamentar, porque muitos irão apenas dar conta do que ocorre, quando a grande onda renovadora varrer a todos da atmosfera terrestre, a exemplo do grande dilúvio. Ai, então, ja' sera' tarde demais, pois nos alerta o Evangelho do Mestre: havera' choro e ranger de dentes! Depois de breve pausa, o instrutor prosseguiu:

- Para concluir este assunto, nao podemos deixar de mencionar que alem dos problemas mencionados, temos ainda outras estatisticas melancólicas: mortes provocadas pela bebida, direção perigosa de motoristas alcoolizados, e alguns meses após a festividade do carnaval, clinicas clandestinas de abortos abarrotadas com a presença de jovens na ansiedade de se livrar de uma gravidez indesejavel, fruto de quatro dias de invigilancia e folia, alem de um significativa número de pessoas infectadas por doenças sexualmente transmissiveis; e o HIV, que ao contrário do pensamento de muitos, continua sendo um perigo real e assustador que dizima vidas, em muitos casos, devido a um momento fugaz de prazer e diversão.

O Instrutor concluiu os esclarecimentos. Retornamos, então, ao nosso domicilio em respeitoso silencio, meditando na seriedade da orientação recebida.

IRMÃO VIRGILIO