16 - AS VIRTUDES

"Qual a mais meritória de todas as virtudes? — Todas as virtudes têm o seu mérito, porque todas são indícios de progresso no caminho do bem. Há virtudes sempre que há resistência voluntária ao arrastamento das más tendências; mas a sublimidade da virtude consiste no sacrifício do interesse pessoal para o bem do próximo, sem segunda intenção. A mais meritória é aquela que se baseia na caridade mais desinteressada. " (Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Livro Terceiro. Capítulo XII. Perfeição Moral. Pergunta 893.)

Até parece que, em nossos dias, não se usa mais a palavra "virtude". Pouco se comenta, de um modo geral, sobre as virtudes dos homens, antes admiradas e respeitadas, hoje de exemplos tão raros. A impressão que guardamos dos comentários feitos a respeito das virtudes vem possivelmente das educadoras religiosas, na nossa infância, quando pareciam ser qualidades apenas das criaturas santas e angelicais, distantes das nossas próprias possibilidades. Querer ser virtuoso, quando criança, era a imagem do garoto obediente, bem comportado, que não falava nome feio, que não brincava espontaneamente; era a figurinha aureolada, introspectiva, coisa ridícula para as crianças de hoje.

Quem atualmente valoriza as qualidades virtuosas e as procura incentivar? Bem poucos, podemos dizer; é coisa de antigamente, das cidades pequenas, das famílias tradicionais, já não compatível com os padrões sociais das cidades que muito cresceram, onde poucos se conhecem e todos levam as suas vidas despreocupados com a retidão de caráter, a seriedade profissional, a honestidade, a fidelidade conjugal, a boa educação de princípios. Virtude, no entanto, não é algo tão distante assim do nosso modo de ser. Os dicionários assim a definem: "Disposição firme e constante para a prática do bem".

"Há virtude toda vez que há resistência voluntária ao arrastamento das más tendências",
nos afirmam os instrutores espirituais. Então, não é assim tão afastada das nossas possibilidades, mesmo que estejamos desacostumados a falar desses valores, ou mais ainda, de cultivá-los em nós mesmos e no nosso meio.

Temos, nas virtudes, aqueles padrões de comportamento que um dia chegaremos a vivenciar espontaneamente, sem que para isso nos custe algum esforço. Reagiremos de modo natural, por hábito, com bons sentimentos, sem dificuldades. É preciso compreender que a atitude virtuosa deve estar despida do interesse pessoal, ou das intenções ocultas; praticar o bem pelo próprio bem. Dizem-nos os amigos da Espiritualidade: "O sublime da virtude consiste no sacrifício do interesse pessoal para o bem do próximo, sem intenção oculta". (O Livro dos Espíritos. Pergunta 893.) E a maior qualidade que a virtude pode ter é a de ser praticada com a mais desinteressada caridade, o que lhe confere grandioso mérito.

Características Básicas das Virtudes

Propondo-nos à realização progressiva do nosso auto-aprimoramento, vamos juntos estudar as características básicas das virtudes, isto é, procuremos conhecer seus principais aspectos, o que muito facilitará a sua prática no nosso relacionamento com as pessoas de todas as áreas sociais a que pertençamos.

O Espírito da Verdade, no Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec (Capítulo VI. Item 8. O Cristo Consolador), fala-nos do "devotamento" e da "abnegação", afirmando que a sabedoria humana reside nessas duas palavras.

Diz-nos: "Adotai por divisa estas duas virtudes: devotamento e abnegação, e sereis fortes, porque elas resumem todos os deveres impostos pela caridade e humildade".

"Devotamento" é dedicação, afeição com religiosidade, com sentimento de amor profundo, a uma causa ou a criaturas.

"Abnegação" é desinteresse, desprendimento, renúncia, sacrifício voluntário do que há de egoístico nos desejos e tendências naturais do homem em proveito de uma pessoa, causa ou idéia. (Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Novo Dicionário da Língua Portuguesa.) No Livro dos Espíritos, de Allan Kardec (Capítulo XII. Perfeição Moral. Das Paixões), a pergunta 912 indaga: "Qual o meio mais eficaz de se combater a predominância da natureza corpórea?" O que entendemos ser a predominância da própria natureza animal do homem, a manifestacão dos seus desejos, dos interesses pessoais, das paixões desenfreadas, do egoísmo humano.

A essa pergunta, os instrutores da equipe espiritual da Codificação responderam apenas: "Praticar a abnegação".

Resumindo

Desse apanhado, podemos enumerar de modo simples, como meio para a nossa aferição individual, as características fundamentais das virtudes, como consistindo no seguinte:

a) Disposição firme e constante para a prática do bem;

b) Prática da resistência voluntária ao arrastamento das más tendências;

c) Sacrifício voluntário do interesse pessoal, renunciando pelo bem do próximo — abnegação;

d) Prática da caridade desinteressada, empregada com discernimento para o proveito real dos que dela necessitam;

e) Dedicação com sentimento de amor profundo e desprendimento — devotamento;

"O Fazer o bem por impulso espontâneo, natural, por hábito, sem esforço ou dificuldade".

Ney P. Peres