23 - PERDÃO

"Espíritas, não esqueçais nunca que, tanto por palavras como por atos, o perdão das injúrias não deve ser uma expressão vazia. Pois que vos dizeis espiritas, sede-o. Esquecei o mal que vos tenham feito e não penseis senão numa coisa: no bem que podeis fazer."

(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo X. Bem-aventurados os Misericordiosos. Item 14. Perdão das Ofensas - Simeão.)

Quantos males nesse mundo não poderiam ser evitados com o perdão?

Por quais razões é ainda a criatura humana tão inflexível, e se deixa envenenar pelos ódios?

Centralizamos em nós mesmos a importância de tudo e não percebemos o sentido coletivo da nossa existência. É sempre o eu, o meu, para mim, comigo, em mim, ou seja, o egoísmo, o egocentrismo.

O que nos atinge no monumento glorioso e sensível do nosso eu é motivo de reação imediata, de defesa, revide, vingança. Quanto mais posses e poder tivermos, mais fortemente responderemos e maiores proporções assumem nossas reações às ofensas. Geram-se inimizades, conflitos, guerras.

Perdoar é ainda um grande desafio para todos nós, nas menores coisas que nos envolvem: alguém que nos resvala por descuido na rua já recebe nossa reclamação; aquele que nos toma a frente na fila do ônibus é logo puxado para trás; alguns centavos a menos num troco recebido causa uma discussão; um cumprimento menos atencioso de um vizinho já nos torna inimigos ferrenhos.

Por que tamanhas suscetibilidades?

Como podemos sair desse estado íntimo?

O doce e suave perdão nos responderá pelo bem que nos proporcionará.

Experimentemos e examinemos o seu valor. Vejamos como exercitá-lo:

a) Controlando nossos impulsos de menosprezo e indiferença a quem nos tenha esquecido uma cortesia social;

b) Desarmando-nos intimamente, segurando nossos braços e mãos no contato impetuoso com as multidões, no aperto das calçadas, coletivos ou estádios;

c) Tolerando o rosto contraído de um vizinho que mal nos olha no elevador, na área comum, na feira ou nos arredores do nosso bairro;

d) Não nos deixando magoar com o colega de trabalho mal-humorado ou com o chefe irritado que nos ofenda;

e) Evitando contendas calorosas em assuntos familiares, esquecendo a necessidade de explicações ou pedidos de desculpa de parentes, por falhas aparentemente injustificáveis;

f) Aceitando sem exigências irritantes a maneira de ser desse ou daquele nosso integrante do lar, que mesmo contrários ao que de melhor deles esperamos realizam seu aprendizado na escola da vida;

g) Cultivando o esquecimento de nós mesmos, nos sacrifícios voluntários ao que possuímos de importante em nosso eu, o que nos torna invulneráveis às agressões, aos maus-tratos e às injúrias;

h) Afastando planos de represálias ou idéias de endurecimento para com aqueles afetos mais queridos que nos abandonaram ao esquecimento ;

i) Aumentando o coração de clemência, sempre que formos caluniados, injustiçados, ofendidos, agredidos, aplacando, assim, os tormentos da revolta.

"Perdoai, empregai a indulgência, sede caridosos, generosos, e até mesmo pródigos no vosso amor, porque o Senhor vos dará; curvai-vos, que o Senhor vos levantará; humilhai-vos, que o Senhor vos assentará em lugar de destaque." (Id., ibid.)

Ney P. Peres