28 - Paciência, Mansuetude

"Sede pacientes. A paciência é também caridade e deveis praticar a lei de caridade ensinada pelo Cristo, enviado de Deus. A caridade que consiste na esmola dada aos pobres é a mais fácil de todas. Outra há, porém, muito mais penosa e, como decorrência, muito mais meritória: a de perdoar aos que Deus situou em nosso caminho, para serem instrumentos do nosso sofrimento e para nos experimentarem a paciência."

(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo IX. Bem-aventurados os Brandos e Pacíficos. Item 7. A Paciência.)

Num mundo de pressa e correrias o que nos induziria a sermos pacientes?

Os compromissos com horários, os múltiplos encargos a saldar, as providências a tomar simultaneamente, os recebimentos a coletar, as compras a fazer, o trânsito a vencer, o relógio sempre a nos atormentar, nos deixam em clima de neurose e tensão.

A angústia de vivermos sempre atrasados em nossos afazeres cria atualmente uma onda envolvente, que nos transforma em autômatos, sem sentimento nem ponderação. É um dos graves tormentos do homem moderno, pressionado pelas metas empresariais e particulares a cumprir, os objetivos lucrativos estabelecidos.

Como nos comportar com paciência e mansuetude dentro dessa total turbulência?

A irritação, a exasperação, o tormento, o desequilíbrio emocional nunca foram tão acentuados como nos dias atuais. Discutimos, perdemos a calma, criamos inimizades, nos incompatibilizamos pela menor razão: no trabalho, em casa, nas associações, nos agrupamentos cristãos só vemos hoje brigas e desavenças.

Estamos vivendo uma fase muito critica. Nunca estivemos precisando tanto de paciência e calma como agora. Até parece que todos os nossos valores íntimos estão sendo rigorosamente testados. É hora de definições cíclicas e toda a nossa resistência está sendo colocada em prova. Observemos tudo isso com muita seriedade e extremo cuidado, pois estamos sujeitos a entrar de roldão e sermos arrastados por essa onda planetária.

A paciência serena, pacífica, sem reações violentas, calma, branda, tolerante, a aceitação tranquila, a vigilância ponderada são todas as reações do nosso comportamento que poderão mudar essa atmosfera turbulenta do nosso orbe, na medida em que nos conscientizarmos da necessidade das mudanças e por elas trabalharmos deliberadamente.

Cada um de nós poderá identificar, nos momentos diários, as ocasiões em que deverá aplicar a paciência e a mansuetude. No entanto, indicamos a seguir algumas delas:

a) Bendizendo tranquilamente a dor que nos foi enviada, transformando as aflições em calmarias, na certeza profunda de que Deus, através delas, realiza em nós as melhores transformações;

b) Aceitando com amor aqueles colocados como instrumentos do nosso sofrimento, convictos de que a eles males maiores provocamos no passado;

c) Fazendo das dificuldades da vida os obstáculos á contornar suavemente, como exemplificam os rios, que, circundando rochedos, atingem os vales que fertilizam;

d) Fortalecendo a fé na bondade e na misericórdia do Pai Celeste, entendendo que a duração de quaisquer conflitos será sempre menor do que as consequências criadas pela maldade dos homens;

e) Reagindo de todos os modos possíveis às induções constantes de desentendimentos, discussões e irritações, silenciando a todo custo os impulsos inconformados de revides, defesas ou justificativas, que possam nos desequilibrar emocionalmente;

f) Evitando no trânsito ou nas ruas as reclamações dos nossos direitos transgredidos pelos outros: uma atitude serena de renúncia desperta muito mais quem, distraído, não percebeu a infração cometida;

g) Suportando sem esgotamentos nervosos os climas tensos dentro de casa, recorrendo à prece e à leitura tranquilizante, para conseguir o necessário reabastecimento das energias renovadoras.

"A vida é difícil, bem o sei, constituindo-se de mil coisas mínimas que são como alfinetadas e acabam por nos ferir. Mas é necessário olhar para os deveres que nos são impostos, e para as consolações e compensações que obtemos, pois então veremos que as bênçãos são mais numerosas que as dores. O fardo parece menos pesado quando se olha para o alto do que quando se curva a fronte para a terra."

Ney P. Peres