30 - Dedicação, Devotamento

"Meus irmãos, amais aos órfãos! Se soubésseis quanto é triste estar só e abandonado, sobretudo quando em tenra idade! Deus permite que existam órfãos para nos levar a lhes servirmos de pais. Que divina caridade amparar uma pobre criancinha abandonada, evitar que sofra fome e frio, dirigir-lhe a alma, a fim de que não desgarre para o vício! Torna-se agradável a Deus quem estende a mão a uma criança abandonada, porque demonstra compreender e praticar a sua lei."

(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XIII. Que a Mão Esquerda Não Saiba o Que Faz a Direita. Os Órfãos. Um Espírito Protetor.)

Dedicar-se com desprendido amor a um trabalho em favor do próximo é devotamento. Assumindo uma tarefa, a valorizamos quando realizamos com dedicação, sem medir esforços ou sacrifícios, o que precisamos verificar em nossos compromissos de quaisquer espécies.

Seremos reconhecidos como verdadeiros cristãos, discípulos de Jesus, pelas boas obras que realizarmos, e, por mais insignificantes que elas possam ser aos olhos dos homens, revestem-se de maior valor espiritual pelo devotamento com que as produzirmos, isto é, com zelo, com sacrifício, com amor, com incansável dedicação.

Admitimos que seja condição indispensável, quando nos dispusermos a fazer algo na gleba do Senhor, indagarmos se estamos revestidos do carinho, que caracteriza o devotamento.

Compreendemos que os primeiros passos na caridade, de início dados com certa relutância e até má vontade, com o transcorrer do tempo as nossas disposições de sentimentos vão refinando-se e progressivamente vão elevando-se, até chegarem nas desejadas expressões de devotamento.

Vale mencionar que iremos necessitar de um pouco de paciência para assim atingir a condição ideal na prática da caridade. Mas, o devotamento, de um modo geral, deve envolver tudo o que fizermos, e não apenas os serviços que dedicamos ao próximo. Será o apanágio das atividades dos homens no terceiro milênio. E por sinal, não entendemos por que hoje deve ser diferente.

Qualquer atividade executada a contragosto é um verdadeiro martírio, e por isso mesmo é que ainda verificamos tanta gente produzindo pouco, atendendo com má vontade, respondendo aborrecidamente às ordens recebidas, desperdiçando o tempo em conversas particulares, justificando enganosamente as obrigações não cumpridas em tempo hábil, ocupando espaços do dia em serviços alheios ao seu trabalho, etc.

Podemos enumerar algumas situações comuns em que somos reclamados, pela nossa própria consciência, por faltar com o devotamento:

a) Nas indiferenças pelo que fazemos em nossas obrigações de trabalho;

b) No cansaço desgastante quando, disponíveis no serviço, nos omitimos em iniciativas de aumentar o próprio rendimento;

c) No desinteresse em aprender mais para produzir com mais eficiência;

d) No desleixo com objetos e utensílios dos quais nos servimos;

e) No descuido com deveres escolares que nos dizem respeito;

f) Na pressa ao atender criaturas às quais devemos nossa melhor atenção;

g) Nas omissões aos cuidados caseiros, desde as retificações de costumes junto aos filhos, aos aconselhamentos construtivos entre irmãos, cônjuges, pais;

h) No esquecimento da parcela de contribuição carinhosa aos irmãos menores;

i) Na falta de tempo para as atividades beneméritas que já assumimos.

"Dai delicadamente, juntai ao benefício que fizerdes o mais precioso de todos os benefícios: o de uma boa palavra, de um carinho; damm sorriso amistoso. Evitai esse aspecto de protetor, que equivale a revolver a lâmina no coração que sangra, e pensai que, ao fazer o bem, trabalhais para vós e para os outros." (Id., ibid.)

Ney P. Peres