31 - Um método prático de auto-análise

"Aquele que, todas as noites, lembrasse todas as suas ações do dia e se perguntasse o que fez de bem ou de mal, pedindo a Deus e ao seu anjo guardião que o esclarecessem, adquiriria uma grande força para se aperfeiçoar, porque, acreditai-me, Deus o assistirá."
(Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Santo Agostinho. Pergunta 919-A.)

Esboçaremos um método prático, à guisa de sugestão, para realizarmos individualmente o trabalho de auto-análise. Podemos, sem dúvida, aplicar esse método em quaisquer situações que haja necessidade do exame das nossas reações: no "convívio com o próximo", na "dor", como tarefas nas "Escolas de Aprendizes do Evangelho", ou mesmo como norma que isoladamente desejarmos seguir no propósito de auto-reforma, como o fez Santo Agostinho.

O método aqui apresentado se desenvolve em 5 (cinco) fases: Preparação, Sintonia Espiritual, Reflexão, Detalhamento e Renovação. Na preparação, procuramos chegar a uma condição de tranquilidade que permita uma penetração mais profunda no nosso campo subjetivo, para exploração da nossa consciência.

Com a Sintonia Espiritual recorremos ao apoio e à colaboração dos nossos companheiros espirituais (anjos guardiães), estreitando os nossos laços vibratórios para melhor sintonia com eles e integração no plano que possivelmente juntos elaboramos para a nossa presente existência.

Admitimos, à luz do Espiritismo, ser essa uma das condições indispensáveis para esse trabalho.
Na Reflexão movimentamos as nossas potencialidades espirituais a serviço da autoconsciência e compreensão, dos condicionamentos e dos impedimentos aos progressos espirituais que programamos realizar nessa existência.

No Detalhamento dinamizamos a auto-análise, isolando fato por fato, ocorrência por ocorrência, e penetrando em cada uma por vez, até as raízes mais profundas que consigamos atingir. A utilização de um caderno de anotações é importante para registrarmos o material que iremos elaborar na auto-análise.

E, finalmente, na Renovação trabalhamos, aos níveis do nosso consciente, com os recursos disponíveis, as transformações progressivas que objetivamos dentro da orientação evangélica ensinada pelo nosso Mestre Jesus.

O presente método dispensa a figura do orientador humano, do confessor, do supervisor ou do psicoterapeuta, afastando os perigos das dependências e conveniências que se têm criado de há muito e que, por comodismo, preferimos quase sempre aceitar sem reflexão, seguindo o que os "outros" nos dizem em lugar de assumirmos nós mesmos os nossos destinos, erros e acertos.

Isso também ocorre com aqueles que, em assuntos corriqueiros e naqueles de sua própria competência, sistematicamente procuram ouvir os "espíritos", preferindo fazer o que eles dizem, tardando o desenvolvimento das suas próprias faculdades de pensar, ponderar, discernir, decidir e agir, 'conduzindo-se por si mesmos.

Achamos que esse processo valoriza cada criatura, dinamizando a sua consciência, desenvolvendo a sua força de vontade e proporcionando a testemunhação individual, livre e autêntica. Vejamos, então, de que modo podemos exercitar o sugerido método.

A prática da auto-análise requer um local na própria residência ou fora dela, para permanecer por alguns momentos sozinhos e isolados da movimentação externa. Um quarto, uma sala, um terraço, um recanto no jardim. Ali, sentados confortavelmente, despreocupados de tudo, vamos começar a conduzir o nosso pensamento numa certa direção, na qual buscaremos a exploração do nosso terreno emocional e mental.

Pela falta de treinamento e até mesmo disciplina nesse tipo de experiência íntima, no início naturalmente sentiremos dificuldades, pois vivemos muito dispersivos nas nossas atividades diárias e não estamos acostumados a conduzir a ocupação da nossa mente numa meta desejada.

Na diversidade de assuntos que tratamos durante o dia e na contínua movimentação das paisagens que a nossa vista acompanha, estamos constantemente envolvidos por fatores externos a nós mesmos; são os estímulos de toda sorte que nos atingem e gravam-se no nosso psiquismo.

Quando, então, no local escolhido, isolarmo-nos do que se passa externamente e estivermos comodamente sentados, em silêncio, de olhos fechados, vamos conviver com o que se passa no nosso interior. O que observamos? De início, percebemos a inquietação e a dispersão tão comuns a todos e, a partir disso, começaremos a conduzir nossas emoções e pensamentos em lugar de sermos por eles conduzidos, como acontece comumente. Para facilitar, dividamos essa prática ern fases. Teremos então:

1ª Fase -Preparação

Comecemos por agir no sentido de relaxar interiormente, descontrair os músculos do corpo, dos pés à cabeça, e principalmente da fronte, dos olhos, da boca, dos maxilares, libertando as tensões musculares e emocionais. Procuremos chegar progressivamente a um relaxamento completo.

Vamos assim prosseguindo no desejo de agora serenar a nossa mente, buscando sentir no coração uma calma profunda, e imaginemos que um halo de luz suave, azul-claro, vai impregnando e envolvendo todo o nosso ser.
Nesses primeiros momentos, possivelmente conseguiremos apenas aquietar um pouco o nosso interior, mas persistamos ao ponto de conseguir tranquilidade e bem-estar. Um fundo musical, baixo e suave, ajuda substancialmente a chegar a esse estado de serenidade.

Nesses instantes, assim impregnados numa atmosfera de bem-estar profundo, respiremos compassadamente algumas vezes, enchendo os nossos pulmões e esvaziando-os, mentalizando nesse exercício a absorção de energias vitalizantes. Com o decorrer das experiências, alguns talvez comecem a sentir uma impressão de deslocamento, e até mesmo de distanciamento do ambiente; no entanto, não se deve deixar perder a consciência.

2ª Fase — Sintonia Espiritual

Continuemos e, em seguida, vamos buscar nossa sintonia com o amigo espiritual, o companheiro que mais de perto supervisiona e inspira os nossos passos na existência presente. Recorramos a ele, indo ao seu encontro, nesse trabalho que desejamos fazer com a sua ajuda. Estabeleçamos um diálogo mental com o nosso protetor espiritual, manifestando esse desejo de "conhecer-se melhor" e libertar-se das nossas imperfeições, desse modo capacitando-nos na melhoria interior, para melhor servir ao Nosso Mestre de Amor.

Possivelmente algum tempo decorrerá, não previsível, até conseguirmos essa vivência espiritual. No entanto, nunca desanimemos e continuemos persistentes no nosso esforço de auto-análise mesmo sem chegar completamente a essa condição. Depois de atingir esse estágio, que poderá ser identificado por um bem-estar profundo, e cujo tempo de duração para nele chegar varia de pessoa a pessoa, passemos ao trabalho de exploração da nossa consciência.

3ª Fase — Reflexão

Dentro daquela atmosfera já atingida, vamos então ativar a consciência trazendo à tona da nossa memória os acontecimentos diários, de preferência numa ordem cronológica, que nos fizeram viver as emoções fortes, as explosões de sentimentos, as manifestações de violência, as agressões, os impulsos que vêm do nosso inconsciente, e que ficaram impregnados na nossa aura, nos transmitindo as suas impressões de forma sutil, e, na maioria das vezes, deixando-nos num estado de intranquilidade ou de ansiedade.

Naturalmente devemos focalizar nessa ordem cronológica um quadro ou uma impressão emocional de cada vez e concentrarmo-nos naquela de maior intensidade escolhida para a análise que estamos realizando no momento, sem deixar que as impressões dos demais acontecimentos interfiram. Lembremos que temos em nós uma tendência natural de soterrar aqueles acontecimentos e lembranças que nos são desagradáveis, e inconscientemente afastamos os que nos aborrecem, mas permanecem represados, exercendo seus reflexos e influenciando constantemente o nosso comportamento.

Precisamos ter a disposição de desenterrá-los e trazê-los à consciência, enfrentando-os e trabalhando para compreendê-los, nos libertando das suas pressões incontroláveis. Vamos remontar os acontecimentos sem nos deixar envolver pelos mesmos impulsos que naqueles momentos nos dominaram. Esforcemo-nos por ser, dentro do possível, um mero espectador em lugar do protagonista que os desempenhou.

4ª Fase — Detalhamento

Enfoquemos, então, aqueles acontecimentos mais vivos que se acham gravados em nós e vamos registrando por escrito, na ordem em que cada uma deles ocorreu, desde o seu início: primeiro, o que deu origem ao acontecimento; depois o que desencadeou nossa reação impulsiva e, por último, as consequências provocadas pela nossa atitude. Dentro dessa ordem natural, anotemos num caderno, de um lado os nossos impulsos, depois os motivos que originaram os mesmos, e ao lado desses as suas prováveis raízes ou causas desencadeadoras.

5ª Fase - Renovação

Dispondo-nos ao melhoramento de nós mesmos, com espírito de combate e já despertados espiritualmente para os testemunhos cristãos, esclarecidos pelo nosso protetor espiritual, nessas ocasiões manifestam-se no nosso espírito os arrependimentos pelas reações intempestivas ou pelos deslizes cometidos. Esses são os primeiros lampejos de renovação, denotando as transformações que se iniciam em nós.

Vigiemos, no entanto, para não nos deixar envolver por esses sentimentos depressivos. Consideremos que eles são indicativos do desabrochar da nossa sensibilidade para uma nova fase de evolução, e, com paciência e vigor, conduzamos as nossas energias no fortalecimento dos propósitos de não nos deixar levar, em outras oportunidades semelhantes, pelos mesmos sentimentos desavisados.

Ao identificar conscientemente o que originou no nosso íntimo a reação impulsiva, indaguemos agora por que a tivemos e com que propósito agimos daquele modo. Formulemos perguntas claras e objetivas, desenvolvendo a autocensura e tirando conclusões precisas sobre os tipos de defeitos e paixões que mais comumente ainda se encontram arraigados dentro de nós mesmos.
Algumas vezes a simples auto-observação já conduz o indivíduo à modificação do seu comportamento improcedente. A identificação da causa que motivou a reação ajuda consideravelmente a mudar os seus efeitos desastrosos, porque passamos a conhecê-los e a evitá-los voluntariamente.

Da identificação feita pela auto-observação das causas provocadoras das nossas reações inferiores à mudança propriamente da maneira de agir, há um trabalho considerável a ser realizado. No entanto, a Renovação aí começa e prossegue com o nosso esforço de vontade. Mostraremos nos capítulos seguintes algumas técnicas, recursos ou meios para realizarmos praticamente essas importantes mudanças. Essa última fase do método aqui sugerido ajuda-nos a dar os primeiros passos no trabalho de auto-renovação, que se prolongará, daí em diante, até superarmos as deficiências já localizadas.

Exemplos de situações com aplicação do método de auto-análise
Para ilustrar o método acima, tomemos alguns exemplos de casos que têm acontecido na vida comum:

SITUAÇÃO A: Caso conjugal

Histórico Sumário: Um casal de condição média e relativa instrução, adeptos do Espiritismo, colaboradores dedicados nos serviços de assistência social e de explanação evangélica nas Casas Espíritas de uma cidade do Interior, convivendo harmoniosamente há onze anos, com dois filhos, de dez e oito anos, tendo o marido já superado, com a ajuda da esposa, períodos de limitações financeiras, deixa-se envolver por forte atração que uma jovem aflita, por ele entrevistada na própria instituição espírita, lhe faz sentir. Após alguns meses de relacionamento com essa jovem em conflito, afasta-se do lar, abandonando esposa e filhos, passando a conviver com aquela que estaria agora preenchendo os seus ideais.

Decorridos cerca de dez meses, como se poderia esperar, desperta do sonho ilusório que lhe envolvera os sentidos, após ter imaginado que houvera encontrado a felicidade inconsistentemente apoiada em alguns devaneios infantis elaborados subconscientemente, possíveis traços de tendências de vidas pregressas.

A consciência se inquieta, ferve-lhe a cabeça, aperta-lhe o coração, um torvelinho de pensamentos e emoções passa a dominar-lhe, vive em profunda aflição, desgoverna-se, sem resposta, indaga-se constantemente o que fazer.

Auto-análise: Num dia de trégua, a razão finalmente emerge daquele tormento de emoções, inclina-se à reflexão tocado pelo amigo espiritual, que, depois de lento e paciente envolvimento à distância, encontra condições de aproximar-se.
Senta-se, relaxa e consegue refletir. A imaginação caminha e localiza algumas pequenas contrariedades com a esposa, que lhe fizeram sorrateiramente desejar uma felicidade mais completa, criando ilusões com algum outro coração feminino.

Identifica a imaturidade, a falta de uma ponderação mais firme buscando os aspectos valorosos no caráter da própria esposa que agora percebia: sua dedicação aos filhos, seu espírito de conformação. Afinal, deixara levar-se por um impulso sem fundamento que começou a minar sua resistência e a tomar corpo na forma de uma insatisfação incontida. Colhia agora os resultados desastrosos da sua invigilância.

Procurou objetivamente relacionar:
1° O que deu origem ao seu estado aflitivo?
2° Quais as razões que o levaram a tal situação?
3° Quais as consequências provocadas?

Conseguiu, então, responder por ele mesmo:

- O seu estado de aflição foi motivado pelo impulso de um envolvimento passional a que se deixou levar, e que lhe foi progressivamente absorvendo por falta de vigilância.

- As razões que o levaram a tal situação foram: a ilusão que deixou fixar-se na sua imaginação; a falta de ponderação; a imaturidade; a necessária reação aos impulsos nos momentos de suas manifestações.

- As consequências verificadas: sofrimento próprio, da esposa e dos filhos; desequilíbrio emocional dos mesmos; problemas psicológicos como trauma, insegurança, ansiedade, desajustes de comportamento, principalmente na esposa e nos filhos.

Em resumo:

- Impulsos últimos: desejo mal conduzido, intolerância, fuga

- Motivos: imaturidade. irreflexão. irresponsabilidade

- Consequências: desequilíbrios, sofrimento, desajustes.

Obviamente, tomando consciência da situação, o protagonista, querendo sair da situação desesperadora em que se encontra, procurará os meios de reconstruir o seu lar, o que certamente só conseguirá com paciência e espírito de luta, pois colherá as reações naturais daqueles a quem atingiu com a sua invigilância.

FAÇA SUA AVALIAÇÃO INDIVIDUAL:

1 - Já sentiu a necessidade de refletir por algum tempo sobre dado acontecimento o que lhe tenha intranquilizado?

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2 - Em alguns momentos de aflição ou ansiedade já procurou desvendar as suas origens?

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3 - Sente-se de alguma forma aliviado quando intimamente consegue entender os motivos de alguma manifestação sua que tenha magoado alguém? O que faz para corrigir-se?

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4 - Já recorreu à prece na tentativa de ser esclarecido sobre alguma falha cometida?

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5 - Tem como prática o costume de pensar sobre o que lhe ocorre durante o dia?

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6 - Consegue facilmente analisar uma situação que viveu?

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7 -Nas vezes em que tem refletido sobre algo que lhe tenha alterado a tranquilidade, já procurou fazê-lo sem reviver as mesmas emoções ou contrariedades?

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8 - Procura se acalmar e relaxar quando algo ou alguém lhe fere o íntimo?

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9 - Já buscou confabular em pensamento com o seu protetor espiritual?

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10 - Preocupa-se em ter um comportamento sempre melhor, reagindo às emoções e aos pensamentos que lhe aborrecem ou que sejam prejudiciais a alguém?

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Ney Prieto Peres