32 - Como programar as transformações

"Quão pequena é a porta da vida! Quão apertado o seu caminho! E como são poucos os que a encontram!" (Mateus 7:13-14)
"Larga é a porta que leva aos desregramentos, porque as más paixões são numerosas e o caminho do mal é o mais concorrido. É estreita a da redenção, porque o homem que deseja transpô-la deve envidar grandes esforços a fim de vencer suas más inclinações, e poucos se resignam a isso. Completa-se a máxima: São muitos os chamados e poucos os escolhidos."
(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XVIII. Muitos os Chamados e Poucos os Escolhidos. A Porta Estreita.)


Fizemos, no capítulo III (Um método prático de Auto-análise), uma sugestão para aplicação de um processo em que fosse obtido o conhecimento dos nossos impulsos, reações, sentimentos, ações. Chegamos, então, a identificar as causas provocadoras daquelas efeitos que se manifestam no nosso íntimo e compreendemos, pela análise, os motivos e as consequências dos impulsos interiores. E desse momento em diante? O que vai acontecer?

Efetivamente, esse é o ponto inicial para realizarmos nossas transformações, isto é, pelo "conhecimento de si mesmo", mas todo trabalho de mudança propriamente dos hábitos, da maneira de agir, da conduta que estamos acostumados prossegue com o esforço da vontade, e em seguida, no transcorrer do tempo, sem limitações ou previsões de prazo.

Embora possamos conhecer nossos vícios e defeitos, as mudanças só se fazem com um trabalho perseverante e muita paciência. Aí está a nossa grande dificuldade: fazer das intenções, realizações efelivas. O procedimento esperado seria aquele da disposição firme e constante no rumo certo aos propósitos que tenhamos decidido tomar de auto-reformar-se, e então se dará início a uma luta corajosa de automodificaçoes que nem todos pretendem realizar ou estão decididamente preparados para realizar.

A maioria tende a abandonar, logo nos primeiros impedimentos, o objetivo formulado de início sempre com as melhores das promessas. Existem, naturalmente, aquelas predominâncias da nossa natuieza corpórea, ou seja: o comodismo, o desânimo, a preguiça, o "corpo mole".

Quando surgem as dificuldades, elas aparecem, principalmente porque es­peramos resultados apressados e então achamos que o método não funcio­na, não serve, não produz efeito. Perdemos o interesse, afastanio-nos dos propósitos admitindo que a falha está no processo, no método aplicado, e não em nós. Ë quase sempre assim. Dizemos para nós mesmos: ah! comi­go não deu certo! Não vi resultados!

Outras vezes, nossos esforços vão um pouco além das intenções mas não estão suficientemente fortalecidos, seguem altos e baixos e os efeitos igualmente flutuam: em alguns momentos estamos animados e firmes, conseguimos mudar certas atitudes nos testes que defrontamos; em outras ocasiões caímos num desânimo total, balançamos e somos derrubados, falta-nos resistência e firmeza. E assim lá vamos nós, mais uma vez nos reerguendo na vontade, nos propósitos, retomando as rumos, firmando as disposições para reiniciar tudo novamente.

Esses desfalecimentos realmente podem chegar a abalar nossa auto­confiança e nos deixar deprimidos. Entendamos, porém, que autopunição não ajuda e nem oferece estímulo a alguém. O jeito é levantar o ânimo, erguer a vontade e continuar a batalha, tantas vezes quantas forem as quedas ou fracassos. Na própria luta, no cair e levantar, vamos aumentando nossa tenacidade e nos fortalecendo. Diminui com o tempo o número das quedas e assim os resultados práticos, embora demorados, vão se obtendo.
Vejamos, no entanto, de que maneira o nosso esforço, ou o nosso desejo de auto-aprimoramento, pode ser canalizado com o fito de conseguir maior aproveitamento e melhores resultados.

Estabelecendo metas

Comecemos por definir o que deve e precisa ser modificado em nós: estabeleçamos nossas metas. Analisemos o que queremos modificar.

Começar enfrentando os vícios comuns

Vamos, então, fazer um levantamento e relacionar o que desejamos reformar intimamente. Um caminho sugerido é começar pelos hábitos ou vícios que ainda nos condicionam a satisfações ou necessidades prejudiciais ao nosso corpo e ao nosso espírito. Para facilitar, apresentamos, no final do capítulo, um quadro-resumo dos vícios estudados nos primeiros capítulos da II Parte: O que se pode transformar intimamente.

E, ao lado de cada um, como segue, a gradação ou intensidade do condicionamento ao qual estamos sujeitos, ou seja, se irresistível, predominante, moderado, fraco ou simplesmente não praticado.
Para percebermos melhor a nossa condição, vamos atribuir notas que colocaremos na coluna correspondente, dentro dos seguintes valores:

- Irresistível: Nota O
- Predominante: Nota 3
- Moderado: Nota 5
- Fraco: Nota 7
- Não Praticado: Nota 10

O valor das notas atribuídas é indicativo do nível de esforço que precisaremos desenvolver para libertarmo-nos dos vícios relacionados, isto é, notas O a 3: grande esforço; nota 5: esforço médio; nota 7: pequeno esforço.
Desse modo chegamos a uma lista dos vícios que queremos eliminar e já avaliamos o trabalho que deveremos desenvolver para cada um deles.

Fixando resultados progressivos

Os resultados progressivos têm sido causa de muito desânimo, motivos pelos quais abandonamos nossos propósitos, pelo fato de, ao estabelecer nossas metas, acharmos que as mudanças precisam ser drásticas e grandes. Mas, como quase sempre não conseguimos cumpri-las da noite para o dia, desiludimo-nos conosco, perdendo até a vontade e a coragem de continuar.

As nossas possibilidades de sucesso, nas mudanças pretendidas, crescem quando especificamos com clareza os resultados numéricos, definidos dentro de condições razoáveis ao nosso alcance, em escala decrescente e proporcional. Desse modo, podemos medir nossos progressos, o que aumenta a motivação e o entusiasmo próprio, fazendo crescer, com a força interior, a autoconfiança nas nossas conquistas e sentir as alegrias ao vencer cada etapa programada.
Podemos conduzir, então, o nosso trabalho em prazos ou períodos de tempo, tais como dia, semana, mês, bimestre, trimestre, semestre e ano.

Partimos de valores numéricos observados na nossa vida cotidiana, como por exemplo:

1. Fumo - quantos cigarros fumamos por dia?

2. Álcool — quantas vezes ingerimos por semana?

3. Jogo - quantas vezes praticamos por semana?

4. Gula — quantas vezes exageramos por semana?

5. Abusos Sexuais — quantas vezes cometemos por semana ou por mês?

6. Tóxicos - quantas vezes ingerimos por semana ou por
mês?

Fixamos, a partir daí, para os próximos períodos, resultados decrescentes, divididos em passos suficientemente pequenos, de modo a aumentar nossas possibilidades de progresso.

Podemos programar, assim, a eliminação daqueles vícios em espaços de tempo, como por exemplo:

1. Fumo — De oito a dezesseis semanas (dois a quatro meses)

2. Álcool — De oito a dezesseis semanas (dois a quatro meses)

3. Jogo — De oito a dezesseis semanas (dois a quatro meses)

4. Gula — De oito a vinte semanas (dois a cinco meses)

5. Abusos Sexuais - De oito a vinte semanas (dois a cinco meses)

6. Tóxicos - De oito a vinte semanas (dois a cinco meses)

Dependendo, portanto, da intensidade do nosso condicionamento, fazemos a nossa programação em maior ou menor tempo, de forma a chegarmos, no final do tempo estabelecido, com nota 10, isto é, zero número de vezes o referido vício, praticado, ou cometido. Exemplo: Um jovem que fumava de 30 a 40 cigarros por dia resolveu diminuir para 20 por dia nas quatro primeiras semanas.

Conseguiu com facilidade e passou a 15 por dia no mês seguinte. A partir de então, no terceiro mês, foi a 10 cigarros por dia nas duas primeiras semanas; a 5 por dia nas semanas seguintes. No quarto mês diminuiu para 4 por dia na primeira semana; 3 por dia na segunda semana; 2 por dia na terceira e, finalmente, na última semana, abandonou realmente o cigarro.

Fazendo uma programação geral

Uma questão poderá ser indagada: como distribuir o tempo entre os vícios? Atacar todos ao mesmo tempo?
Dependendo do número deles poderemos dividi-los em etapas compreendidas num período de doze, quatorze ou dezesseis meses.

Isso porque a concentração de esforços em cada um dos resultados fixados é fator de progresso nos nossos propósitos de libertação deles. Do mesmo modo, como a divisão em resultados menores e constantes facilita o trabalho de eliminação de cada vício, a distribuição de tempo em um por vez, em sequência razoável e exequível, é igualmente importante.

Dividindo-se, então, num Cronograma Mensal, possivelmente chegaremos à programação indicada.
A escolha da ordem sequencial ou das prioridades dos vícios a eliminar ficará a nosso critério individual. Temos, assim, em nossa programação, cerca de dezesseis meses para eliminar pelo menos quatro dos seis vícios indicados no quadro.
Podemos também marcar numa tabela os valores numéricos dos resultados progressivos que esperamos alcançar, na coluna P (previsões) e, depois, em letras vermelhas, os resultados reais conseguidos na coluna R. As comparações dos dois números nos farão sentir os progressos obtidos, o que é sempre estimulante. Estejamos também preparados para os presumíveis fracassos, que, ao ocorrerem, devem nos conduzir a maiores esforços e mais determinação.

É recomendável que os interessados mais descontraídos, não preocupados com o segredo dos seus vícios, tracem uma tabela semelhante em tamanho grande e afixem em local bem visível, no quarto, por exemplo, para reafirmar mentalmente os seus propósitos, repetindo, várias vezes, se desejar, algumas auto-sugestões, como estas, que também podem ser escritas no mesmo quadro:

Abandonarei o cigarro decididamente...
Evitarei a bebida corajosamente...
Deixarei o jogo firmemente...
Controlarei os excessos alimentares tranquilamente...
Empregarei responsavelmente minhas energias sexuais...
Largarei destemidamente os tóxicos...
A prática do orar no propósito de vigiar


Nesse ato de reafirmação diária, que precisamos praticar, por alguns minutos que seja, ao renovarmos o desejo de conseguir vencer no transcorrer daquele dia os nossos condicionamentos, procuremos a sintonia com os Amigos Espirituais, abrindo o nosso coração a Jesus, na intenção de recorrer ao apoio maior da Espiritualidade, no esforço que estamos fazendo de libertação das nossas fraquezas.

Oremos, com a melhor das nossas intenções, com toda emoção, e recebamos o influxo das energias suaves que nos serão dirigidas em sustentação aos nossos propósitos.

Prosseguir removendo defeitos

Nosso empenho prossegue, agora, no terreno dos defeitos, como meta seguinte, na abordagem que continuamos fazendo do que deve ser transformado interiormente.

A experiência que já acumulamos na libertação dos vícios comuns nos fortalecem enormemente na atívidade de conduzir praticamente a força de vontade. Sentimos que somos capazes de vencer condicionamentos que antes acreditávamos ser insuperáveis. A autoconfiança cresceu, as nossas possibilidades de êxito aumentaram; andamos sobre terreno já conhecido e até certo ponto dominado, mas não paramos aí; precisamos continuar o trabalho já iniciado.

De modo análogo, vamos relacionar os defeitos mais evidentes em todos nós, que podem ser enquadrados e também apresentados.
Atribuímos também as mesmas notas já mencionadas, que indicarão o maior ou menor esforço a ser dedicado na dissipação dos citados defeitos.

Examinar um defeito por vez

Ao preencher o Quadro (resumo dos Defeitos), para sermos coerentes, necessitamos de tempo para um exame isolado, independente, de cada um deles relacionados, e assim apurar o grau de intensidade com que eles acontecem, em circunstâncias comuns, nas três citadas áreas de ação, ou seja, na família, no trabalho e na sociedade.

Achamos que é importante fazer esse preenchimento com a maior fidelidade possível, isso porque o Quadro servirá de referência para a posterior distribuição particularizada daqueles defeitos, dentro de uma ordem de prioridades, num Plano Geral de Ação.

Cremos ser suficiente atentarmos num prazo de cinco a sete dias, de maneira específica, a cada um da lista dos quinze, para então fazermos uma primeira análise de como nos encontramos relativamente aos mesmos. Como já descrevemos nos capítulos anteriores, as principais características deles, uma relida em cada página é recomendada ao iniciarmos o trabalho de prospecção, que continuará pêlos dias mencionados. Façamos indagações a nós mesmos, tais como:

1 - Aonde manifestou-se (tal defeito)?

2 - Em quais circunstâncias?

3 - Com que intensidade? Profunda ou Superficial?

4 - Com que frequência tem ocorrido? Quantas vezes?

5 - Quais os motivos ou causas? O que fez acontecer?

6 - Posso contê-lo?

7 - Quando ocorreu, foi demorado ou passageiro?

8 - Surge repentina e inesperadamente?

9 - Tomo conhecimento dele antes de ocorrer?

10 - Deixou-me triste ou deprimido?

11 - Deixou-me indiferente?

12 - Tentei dominá-lo?

13 - Prejudiquei alguém?

14 - Deixei alguém triste, infeliz, magoado?

15 - Senti arrependimento?

Podemos aquilatar o modo como os defeitos atuam em nós pelas respostas dadas àquelas, dentro dos seguintes resultados:

I - Irresistível (nota 0):

- Pergunta 3 - profundo
- Pergunta 6 - não
- Pergunta 8 - sim
- Pergunta 9 - não

II - Predominante (nota 3):

- Pergunta 3 - profundo
- Pergunta 4 - bastante frequente
- Pergunta 7 - demorado

III - Moderado (nota 5):

- Pergunta 3 - superficial
- Pergunta 4 - pouco frequente
- Pergunta 7 - passageiro
- Pergunta 9 - sim

IV- Fraco (nota 7):

- Pergunta 3 - muito superficial
- Pergunta 4 - pouquíssimo frequente (eventual)
- Pergunta 6 - sim
- Pergunta 7 - fugaz
- Pergunta 8 - não (de modo discreto)
- Pergunta 9 - sim (é perceptível)
- Pergunta 12 - (é controlável)

Assim procedento, de 75 a 105 dias intensivos, teremos realizado o levantamento dos nossos defeitos e preenchido o Quadro (resumo dos Defeitos). Teremos também conseguido uma qualificação daqueles defeitos mais acentuados que procuraremos de preferência logo enfrentar, isto é, se quisermos seguir esse critério. Começar pelos menos evidentes, pelos moderados e fracos pode ser um bom caminho, pois poderemos sentir efeitos mais encorajadores dentro das nossas condições, e assim, alicerçarmos com maior firmeza os nossos progressos.

PLANO GERAL DE AÇÃO PARA COMBATER AOS DEFEITOS:

Dessa forma programamos, num Plano Geral de Ação, a ordem sequencial dos defeitos a serem mais especificamente trabalhados em determinados espaços de tempo, digamos, por mês, bimestre ou trimestre, como sugerido no Cronograma indicado no Quadro n° 5.

Entendemos que o nosso trabalho de reforma íntima não se conclui apenas em um, dois ou três meses de auto-observação sobre cada tipo de defeito, mas ao dedicarmos, nesses prazos, maior atenção a cada um particularmente, assim exerceremos maiores esforços concentrados, que nos proporcionarão melhor identificação e domínio das suas manifestações. Teremos, então, obtido maior "conhecimento de causa" que, em seguida, agirá em nós como mecanismos automatizados de combate.

Esse trabalho intensivo e concentrado pode não ser fácil para muitos dos Aprendizes do Evangelho, mas é a "porta estreita" por onde teremos um dia que passar, quando decidirmos agir. E quem começa se orientando sozinho deve ter em mente que a ação, ao contrário das palavras e intenções, é a base do aprendizado. E ninguém obtém efeitos práticos sem criar, idealizar e planejar a sua própria auto-reforma, porque assim fazendo aumentamos as nossas possibilidades de crescer espiritualmente e de desenvolver nossas potencialidades.

O que aqui apresentamos é apenas um dos meios, entre outros que possam ser criados pelos interessados, ao planejar sua reforma moral.

Como contar as ocorrências dos defeitos

Vamos tentar quantificar o número de ocorrências em que aparecem os nossos defeitos por dia e por semana. Volta aqui a importância de sermos observadores de nós mesmos.
Podemos admitir que entre os três diferentes métodos seguintes, um pelo menos poderá ser utilizado na auto-observação: 1° observar os acontecimentos, contando o número de ocorrências; 2° observar a duração de um acontecimento, anotando o tempo da
ocorrência; observar o número de acontecimentos que ocorrem num determinado espaço de tempo.

No primeiro: contamos o número de vezes por dia, no transcurso de uma semana, que os incidentes despontam dentro de nós. Por exemplo, sentimentos de orgulho, de vaidade, inveja, ciúme, avareza, ódio, remorsos, vingança, agressividade, personalismo, intolerância, impaciência, negligência, ociosidade ou, ainda, o número de vezes que tenhamos sido maledicentes.
Evidentemente nos concentraremos isoladamente num deles, por vez.

No segundo: preocupamo-nos em avaliar o tempo de duração em que tenhamos permanecido por dia, numa semana, com os sentimentos de orgulho, inveja, ciúme, ódio, remorsos, vingança, agressividade, impaciência (irritação), ociosidade (preguiça) ou, ainda, o tempo despendido na maledicência.

No terceiro: delimitamos um período de tempo, num horário escolhido convenientemente, para cada dia de observação numa semana, anotando, assim, o número de acontecimentos por amostragem, ou seja, prestamos atenção, apenas naquele horário do dia, no número de vezes em que os nossos sentimentos ou reações dos citados defeitos surgem.

As observações poderão ser divididas em três áreas de ação: na família, no trabalho e na sociedade. O resultado na contagem será a soma do apurado nessas três áreas.
Cada interessado, no seu caso particular, descobrirá qual o método que mais funciona e, portanto, o que preferirá aplicar. A partir do momento em que tenhamos apontado com exatidão o que queremos mudar, sa­beremos escolher a maneira de contar as suas manifestações.

Uma regra básica é sugerida para escolha do método de aplicação: se o impulso, pensamento ou atitude de comportamento ocorrem trinta ou menos vezes por dia, de forma nítida e separadamente, use o primeiro, anotando o número de vezes. Se ocorrem mais de trinta vezes por dia, use o terceiro (amostragem num horário prefixado). Se o acontecimento não é fácil de contar ou permanece vários minutos por vez, empregue o segundo método, contando a soma dos tempos que leva no dia inteiro.

A exatidão da contagem

Parece fácil, mas se confiarmos na memória e deixarmos para fazer nossas anotações no final do dia, certamente a nossa contagem será inexata. Para tal, recorramos a cartões ou fichas em que tracinhos possam ser riscados de imediato, assim que o defeito aconteça. No final do dia apenas somaremos os tracinhos, anotando o total.
Podemos adotar o processo de ter um pequeno cartão, discreto, para cada defeito.

Como registrar as contagens - diagrama.

Chegaremos, ao final de cada semana, a valores numéricos das ocorrências e, então, precisaremos, após várias semanas, fazer uma comparação das observações anotadas. Podemos nos utilizar de um diagrama, em que a representação gráfica, numa simples olhada, dá-nos idéia do nosso comportamento e, com o tempo, a evolução dos progressos que estamos realizando nas mudanças.
Marcaremos um ponto na vertical que sai do número correspondente à semana de observação, na altura em que cruzar com o número de ocorrências.

Ligando-se os pontos marcados, teremos desenhado o nosso diagrama de registro das contagens. Naturalmente procuraremos desenhar um diagrama de controle para cada defeito independentemente ou, no mínimo, para os defeitos mais acentuados.
Certamente o número de ocorrências, pelo nosso trabalho, tendendo a diminuir com o desenrolar das semanas, ao unir os pontos marcados no gráfico, formará uma linha cuja inclinação vai baixando para o lado direito.

Coloquemos esses gráficos à nossa vista, para diariamente mentalizar o que precisamos cuidar, de modo a obter valores sempre decrescentes e então registrar marcas, ou pontos menores, pois é um meio de nos ajudar a fixar persistentemente o que pretendemos.
Podemos também formular algumas auto-sugestões, que cada um as elaborará especificamente a cada necessidade individual e em particular.

Exemplo: Diagrama — Defeito: Agressividade
Tomemos como defeito a combater, a agressividade.
Utilizando-se da ficha para controle das ocorrências, realizamos semanalmente a apuração do número de vezes em que a agressividade manifestou-se em nós. Nessa contagem não levemos em conta a intensidade com que o defeito tenha ocorrido; no entanto, o enumeramos quando surgir nas seguintes ocasiões: em casa, com os familiares; no trabalho, com os colegas; na sociedade, em contato com o público em geral (trânsito, nos transportes coletivos, com atendentes de lojas ou em escritórios), em contato com amigos nas agremiações, condomínios, associações ou grupos religiosos aos quais pertençamos.
Desse modo, admitamos ter chegado aos seguintes resultados:

lª semana: 18 ocorrências
2ª semana: 14 ocorrências
3ª semana: 13 ocorrências
4ª semana: 10 ocorrências
5ª semana: 8 ocorrências
6ª semana: 6 ocorrências
7ª semana: 4 ocorrências

Marcamos, na linha horizontal, os intervalos correspondentes às semanas e aos meses (de centímetro a centímetro). O eixo vertical também o dividimos em segmentos iguais — correspondentes ao número de ocorrências (a cada centímetro, duas ocorrências).

Os valores acima indicados são, então, registrados graficamente, construindo-se os pontos ao ligar as linhas verticais de cada semana com as horizontais dos números de ocorrências.

Temos, assim, os pontos A, B, C, D, E, F, G. Unindo-se esses pontos, temos uma linha irregular descendente representando o diagrama do nosso comportamento no que se refere à agressividade.
Podemos continuar por mais algumas semanas, até manter valores bons ou ótimos, se possível, quando então a linha decrescente se representará por um trecho reto horizontal. A constância no controle do defeito realizará progressivamente a automatização das nossas próprias contenções que, com o tempo, serão espontâneas e naturais, o que caracteriza a eliminação do defeito.

A diminuição das ocorrências

Sem dúvida, estamos atentos que defeitos incrustados há tanto tempo, aos quais possivelmente nos acostumamos, não se modificam repentinamente, e podemos até levar mais de uma existência para deles nos livrar. O nosso trabalho nesse aspecto é permanente e de efeitos demorados. Assim sendo, já nos contentamos com a diminuição progressiva das ocorrências que vinham se registrando, e todo o nosso empenho será em função de reduzi-las cada vez mais. Dizer, no entanto, ou mesmo estabelecer dados -numéricos previsíveis, prefixados, como fizemos com os vícios, achamos delicado aqui recomendar, em se tratando dos defeitos, cujas extensões e intensídades podem variar muito de pessoa a pessoa, ou, ainda, alguns deles podem estar vinculados a processos reencarnatórios crônicos de difícil eliminação.

Deixamos, evidentemente, ao critério de cada um fazer a sua programação, que pode ser, mesmo assim, estabelecendo metas próprias, referidas a número de ocorrências dos seus defeitos, buscando a sua redução permanente, até atingir índices que, dentro da sua análise comparativa pessoal, sejam classificados em ótimos, bons, razoáveis, sofríveis ou péssimos.

Compreendemos, naturalmente, que o resultado "sofrível" de um pode ser considerado "bom" para outro que luta com maior predominância de um defeito em particular. Ou, quem identifica um defeito com a intensidade de "moderado", nota 5 por exemplo, um mesmo resultado considerado "razoável" de ocorrências pode representar um valor "ótimo" para outro que apresente uma intensidade "irresistível" (nota 0).

De qualquer modo, o processo é válido e a sua aplicação, muito proveitosa, pois a representação numérica e gráfica nos dá uma avaliação visual imediata do nosso trabalho de reforma íntima, nos ajudando grandemente a obter resultados práticos cada vez melhores. Ë um meio de convertermos nossas boas intenções em proposições concretas.

A auto-observação e o mecanismo de contagem dos momentos em que os nossos defeitos se manifestam são instrumentos valiosos de auxí­lio para realizarmos as mudanças de conduta que tanto desejamos. É aquele "conhece-te a ti mesmo" ensinado desde Sócrates, controlado graficamente, representado por dados objetivos.

O cultivo das virtudes

Pode parecer que devamos nos preocupar apenas com o nosso lado inferior, com os vícios e os defeitos, que na nossa relativa condição evolutiva são ainda predominantes em relação às virtudes. Não se trata de realçarmos os nossos aspectos negativos, como se poderia supor, até como um processo de culpar-se a si mesmo, que não ajuda ninguém a melhorar.

"Encerra a virtude, no seu mais elevado grau, o conjunto das qualidades essenciais que caracterizam o homem de bem. Ser bom, caritativo, laborioso, sóbrio e modesto são qualidades do homem virtuoso. Infelizmente, tais qualidades são, com frequência, acompanhadas de pequenas fraquezas morais, que as emperram e lhes tiram o brilho." (Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XVII. Sede Perfeitos. A Virtude.)

O que nos motiva é proporcionar, a quem esteja interessado em mudar seu comportamento e fazer algum esforço sério em melhorar, o encontro de alguns meios que o auxiliem a encetar por essa trilha, até mesmo sozinho. Desse modo, aqueles que estão muito satisfeitos com a vida que levam, sem problemas pessoais, famüiares, sem angústias, sofrimentos ou ansiedades, sem distúrbios emocionais que os incomodem, ou seja, acomodados nos seus hábitos, dando vazão ao que sentem e querem, continuar seguindo os seus impulsos, indiferentes ao sofrimento alheio, circunscritos ao seu mundo e ao dos seus imediatamente próximos, esses certamente não têm com que se preocupar e nem sentem necessidade de mudar, nem mesmo suas pequenas fraquezas morais com frequência manifestadas.

Quem, então, chegou ao ponto de querer fazer transformações para sair dos estados íntimos de conflito e insatisfações, desejando, portanto, tomar atitudes renovadoras, precisa começar tomando conhecimento e agindo sobre as causas seculares dos nossos males, as torpezas e fraquezas que têm desviado sucessivamente a Humanidade, e contra as quais apontamos nossas armas de combate.

Mostramos, então, "o que mudar" e "como mudar". Agora, vamos enfeixar, num esquema inteligível, "para onde mudar". Em outras palavras, fazer um confronto dos padrões ou caracteres essenciais que constituem virtudes, e que devem tomar o lugar dos já citados defeitos a elas opostos. É como o lavrador: começa por preparar o terreno, desmatando, destocando, limpando, removendo as ervas daninhas, os espinhos, os pedregulhos, para depois revolver, adubar, semear e irrigar sempre. A partir disso é que o cultivo germinará, crescerá, florescerá, frutificará e reproduzirá.

Aquele nosso trabalho inicial de enfrentar os vícios comuns e depois prosseguir removendo os defeitos humanos mais evidentes equivale à limpeza e à preparação do nosso terreno íntimo para o cultivo das virtudes, que corresponde à adubação, semeadura e irrigação constantes. Devem-se acrescentar os cuidados permanentes na lavoura de não deixar crescer o mato em volta e de espantar os pássaros que picam as tenras folhas, assim comparados às frequentes pequenas fraquezas morais que muitas vezes podem empanar e tirar o brilho das virtudes, isto é, a ostentação, a exaltação das obras, a exteriorização da satisfação íntima no bem praticado, para provocar elogios, sentimentos de orgulho, de vaidade, de amor-próprio, que deslustram sempre as mais belas qualidades e anulam o mérito real de quem as tenha praticado, pois, "mais vale menos virtude com modéstia, que muita com orgulho".

É o que nos afirma François Nicolas Madeleine (Paris, 1863). (Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Capítulo XVII. Sede Perfeitos. A Virtude.)
Desse modo, vamos aplicar ao serviço já iniciado o nosso adubo e a nossa irrigação à semeadura que estamos fazendo em nosso espírito carente de renovação.

As virtudes já estudadas nos são apresentadas como os modelos a seguir, na substituição que procuraremos efetuar dos nossos modos de agir. Isto é, em lugar:

de orgulho — humildade,
de vaidade — modéstia, sobriedade,
de inveja — resignação,
de ciúme — sensatez, piedade,
de avareza — generosidade, beneficência,
de ódio - afabilidade, doçura,
de remorsos - compreensão,tolerância,
de vingança - perdão,
de agressividade - brandura, pacificação,
de personalismo -companheirismo, renúncia,
de maledicência - indulgência,
de intolerância - misericórdia,
de impaciência - paciência, mansuetude,
de negligência - vigilância, abnegação,
de ociosidade - dedicação, devotamento.

COMO SUBSTITUIR DEFEITOS POR VIRTUDES?

Em decorrência do trabalho já desenvolvido na prática da auto-análise e da auto-observação, com os esforços empregados na eliminação dos vícios e na diminuição dos defeitos, certamente chegamos a intensificar interiormente aqueles diálogos com a própria consciência, desse modo substancialmente dinamizada.

Resta-nos conduzir agora as nossas reflexões, dosando e abastecendo a consciência com os conhecimentos característicos das virtudes, como modelos de comportamento a atingir. Assim canalizamos a vontade, o interesse, o empenho, com nossa energia, para conseguirmos mudar, ou substituir, a reação ou o impulso deletério, pela correspondente virtude que se procura antepor.

Ney Prieto Peres