34 - Como desenvolver a Vontade

"O homem poderia sempre vencer as suas más ten­dências pêlos seus próprios esforços? - Sim, e às vezes com pouco esforço; o que lhe falta é a vontade. Ah! como são poucos os que se esforçam!"
(Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Pergunta 909.)

Vamos nos deter em analisar um pouco essa importante ferramenta, que está de alguma forma presente em tudo o que realizamos: "a vontade". De que modo podemos sempre vencer nossas más inclinações? Haveria algum meio prático de dinamizar e fortalecer a nossa vontade?

Como conseguir o controle sobre as nossas tendências comuns e so­brepujar diante do erro iminente?
Já que não estamos certamente incluídos entre aqueles "poucos"
que se esforçam para vencer os vícios e defeitos, por faltar exatamente a
"vontade", como então desenvolvê-la? Existe uma força de "vontade"?

Cremos tranquilamente que todos admitem ser a "vontade" a chave das nossas conquistas em todas as áreas de trabalho. Cada um de nós játeve provas evidentes de que, quando nos dispomos firmemente a conse­guir algum propósito, assim o obtemos. Isso nos tem sido ensinado nos tempos escolares, no primeiro emprego, no carro que sonhávamos, na casa que tanto desejávamos, na televisão que esperávamos, no trabalho, etc,

O que pretendemos, no entanto, é aplicar essa mesma "chave" das nossas conquistas em direção dos valores íntimos. Para isso perguntemos em primeiro lugar se estamos realmente dispostos e suficientemente in­teressados nesses valores. Tem dúvida? É natural, a vida é tão boa, as diversões nos agradam muito, o comodismo é indiferente ao esforço de se melhorar intimamente.

O interesse em reformar-se pode nos ter surgido de um impulso mo­mentâneo, e então formulamos um propósito de aperfeiçoamento, mas na maioria das vezes ainda é como um devaneio, um sonho pouco sólido, nem sabemos o que nos aguarda.
No primeiro confronto com os testes de verificação, que naturalmen­te aparecem em nossa vida diária, vem aquela indisposição sorrateira e dei­xamos para depois, a "vontade" sucumbe. O que nos falta nesse caso? Força? Persistência? Interesse?

A nossa meta, no entanto, é de longo alcance; para atingirmos o nos­so progresso moral será necessário automatizar o nosso comportamento dentro dos padrões evangélicos, isto é, reagirmos sempre, em quaisquer condições e situações, sem ódios, sem violências, como o Mestre Nazareno nos exemplificou. É uma empreitada paciente e contínua, requer esforço e tempo.

A vontade: Uma soma de fatores dinâmicos

A vontade é, assim, a expressão do nosso livre-arbítrio. Por ela damos os nossos testemunhos e demonstramos os nossos ideais no bem. Pode­mos, para facilitar a nossa análise, considerar que a vontade é constituída dos seguintes fatores dinâmicos: impulso, autodomínio, deliberação, de­terminação e ação. Todos eles interligados e decorrentes entre si.

Impulso

A vontade, como já vimos, surge, primeiro como um impulso, uma aspiração, um desejo, que pode ser de variada intensidade. Essa intensidade indica a profundidade, a carga emocional, o conteúdo, o grau de interesse que se relaciona com a permanência dentro de nós, ou seja, diz respeito ao afinco, à firmeza, à duração e à persistência. Do impulso que surge no campo sentimental, a nível emocional, deveríamos começar a fazer a elaboração mental, articulando pensamen­tos, plasmando ideias, ponderando possibilidades, prevendo obstáculos, balanceando impedimentos, avaliando nossa própria capacidade de rea­lização. É bem verdade que, de forma geral, as aspirações não são muito conscientizadas e nem tão mentalmente trabalhadas; elas ocorrem quase sempre na superfície, e por isso são fugazes. Essa elaboração, trazendo os bons impulsos aos níveis de consciência, deve ser intensificada, pois con­tribui grandemente para fundamentarmos com base aquelas importantes aspirações.
Nessa fase - a mais delicada e importante - a grande maioria dos ini­ciantes não passa das promessas, debanda e perde a oportunidade, que po­de não se repetir. Não estão eles suficientemente convencidos da importân­cia daqueles seus impulsos, vividos pela inspiração misericordiosa dos Ami­gos Espirituais que nos ajudam a caminhar. Desperdiçamos, então, precio­sa chance de progresso espiritual. E por que isso acontece? Acontece porque ainda estamos muito presos aos interesses humanos e às üusões do mundo físico; não amadurecemos o suficiente, não fomos bastante experi­mentados na própria carne pêlos resultados desastrosos dos erros cometi­dos, e não valorizamos as oportunidades de redenção que aqueles impulsos renovadores nos ofereceram. Comprazemo-nos nos envolvimentos dos pra­zeres, das sensações e deixamos de seguir no trem do progresso que marcha sempre e não espera.

Autodomínio

Conseguindo, porém, contornar as dificuldades íntimas, combatendo os momentos de desânimo, exercemos domínio progressivo sobre as nos­sas paixões e apegos, vencemos os obstáculos criados pelas nossas pró­prias fraquezas, limitações psicológicas, receios e incertezas. Desenvolve­mos, assim, o nosso domínio próprio nessa fase de combate dentro de nós mesmos, no silêncio operoso em que vamos firmando os bons propósitos, concretizando-os consistentemente.

Deliberação

Esse domínio vai refletir-se nas nossas deliberações. Para deliberar­mos em causa própria, devemos ter conhecimento amplo das circunstâncias favoráveis e desfavoráveis, o que implica em dinamizar em nós o hábito de analisar, de observar, de avaliar os acontecimentos da vida diária. As indecisões representam a nossa falta de exame e de ponderação das si­tuações vividas. Discernimos aferindo os resultados. Daí escolhemos os rumos, deliberamos o que fazer. Esse procedimento analítico, podemos cultivá-lo até mesmo sem grande esforço, é um hábito que nos agrada muito, coloca a nossa imaginação e a nossa criatividade em ação. Nos faz um bem enorme, amplia a nossa capacidade mental.

Determinação

Do conhecimento obtido, decidimos. E agora? Passamos para a exe­cução, ou seja, determinamos o que fazer, as ações a serem executadas, a disposição de empreender, de cumprir as deliberações. A determinação é um primeiro ato da ação. Nessa fase programamos no tempo as ações a serem tomadas, relacionamos os passos a seguir e nos empenhamos em cumpri-los, um por um, com rigor e firmeza, com energia e coragem.

Ação

Finalmente a ação vem concluir toda a sequência encadeada, é a prova das nossas intenções, é a manifestação viva, palpável, a concretiza­ção daqueles impulsos que foram articulados na esfera dos nossos pensa­mentos. Ë a própria ideia condensada, materializada numa realização.

Em resumo: A vontade é semelhante a um projétil

Os impulsos e pensamentos são emissões de energias que direciona-mos para um certo alvo, as ações são as expressões concretas, dessas formu­lações, visíveis pêlos seus efeitos.

A "vontade", como vimos, não estaciona no impulso, prossegue no autodomínio, se firma na deliberação, começa a tomar forma na deter­minação e se concretiza na ação. É um complexo dinâmico de fatores ati-vos que gera energia transformadora a partir dos impulsos, emitindo ondas indutoras, que se fortalecem pela intensidade na concentração dos pensa­mentos, constituindo nos campos mentais as conquistas, vencendo e bom­bardeando os princípios mentais cristalizados que se contrapõem àqueles impulsos renovadores.

A "vontade" é semelhante a um projétil dirigido que, ao ser aciona-do pelo impulso íntimo, se desloca, vencendo as barreiras das camadas atmosféricas, dentro de cada um, numa trajetória deliberada e calculada, para atingir com determinação aquele alvo desejado que, uma vez alcan­çado, se destrói pela ação detonadora da carga explosiva. O alvo represen-i;i, assim, o conjunto dos nossos vícios e defeitos.

Um método para desenvolver a vontade

Comentamos que cada um de nós já teve provas demonstrativas de sua capacidade de realização e, portanto, de obter ou conquistar um ideal.

Quase sempre, o que nos movimenta numa atividade é o interesse próprio em desenvolvê-la. Em decorrência, concentramos a energia sufici­ente para vencer os empecilhos, ocorrendo a sequência dinâmica que vai do impulso ao autodomínio, desse à deliberação e da determinação segue-se à ação.

O que desencadeou ou acionou a "vontade" foi o interesse que es­tava por trás. Assim, as nossas indagações num projeto estão nos "porquês" do seu objetivo. A que nos propomos? Por que desejamos? Estamos segu­ros do que queremos?
O trabalho de desenvolvimento da "vontade" aplicada à nossa refor­ma íntima, à vitória sobre as nossas más tendências, começa por avaliar o nosso interesse nesse propósito.

O Interesse na Reforma íntima

O interesse no nosso próprio aperfeiçoamento desponta intimamente na esfera emocional. De alguma forma despertamos ou amadurecemos, surgem os anseios e buscamos valores outros para preencher o vazio que nos inquietava o espírito. Já havíamos peregrinado tentando as expe­riências que pudessem, ou que pensávamos poder alimentar a nossa alma. Tudo nos desenganara, a sede espiritual persistia e, afinal, depois de tanto buscar, vivendo angústias atrozes, encontramos o caminho da nossa reden­ção, um novo sol a luzir dentro de nós, uma esperança jubilosa a nos ani­mar a vida. Então nos dispomos, dentro das próprias possibilidades, a seguir os novos rumos. Ë o que desejamos, é o que passa a nos interessar com profundidade.
Vemos que é um interesse sadio, não apegado a desejos mesquinhos e ilusórios; é o próprio ideal de auto-aperfeiçoamento. Esse interesse é que vai acionar, na mesma direção, a nossa 'Vontade", é ele que preci­samos localizar e definir de uma vez por todas, dentro de nós mesmos. E como o fazemos? Sondando, indagando, verificando, revolvendo o terre­no íntimo.

A concentração de esforços

Definido aquele nosso interesse, precisamos concentrar nele os pró­prios esforços, a nossa energia aplicada na direção pretendida, que se converterá em trabalho produtivo. Conjugamos ao interesse a carga energé­tica. É a condição necessária para levarmos a bom termo o empreendimen­to formulado, para sermos bem sucedidos.

Em geral nos confrontamos, nos debates interiores, com as próprias dificuldades, pela nossa própria dispersão de pensamentos, em manter a concentração de esforços. Sabemos muito bem o que queremos conse­guir, já fizemos nossas opções nos objetivos auto-renovadores, mas nos per­demos em meandros, desperdiçando tempo e dissipando energia, e em con­sequência verificamos a falta de persistência e o pouco resultado prático, produtivo.

No desenvolvimento da capacidade de concentração está a raiz do desenvolvimento da própria "vontade".
Vejamos uma experiência física muito simples que temos praticado e que nos elucida o valor da concentração de esforços. Ao tentar fixar um prego numa madeira, pela força que nele aplicamos com um martelo, lo­gramos êxito porque concentramos num ponto único todo o esforço mus­cular desenvolvido. Invertendo a posição do prego e batendo agora contra a sua ponta, tentando fixá-lo na madeira pela cabeça, apenas marcamos a madeira e entortamos o prego. Isso nos faz concluir o simples fato de que a força aplicada sobre um único ponto age com mais eficiência do que se fosse distribuída em muitos pontos.

De modo análogo ocorre com a nossa capacidade de concentrar os pensamentos num objetivo firme e conduzi-los naquela direção. A nossa dificuldade reside exatamente nisso, os nossos pensamentos se dispersam, mudam de direção, pulam de um pólo a outro, se perdem na estratosfera. É fator de progresso espiritual a condição indispensável de educar os pensamentos, o que significa selecioná-los, enfeixá-los, concentrá-los, cen-Iralizá-los numa direção, num objetivo.

Geralmente somos ainda muito dispersivos, damos lugar às ideias de desânimo, de fraqueza, de dificuldades e de obstáculos intransponíveis, o que nos leva, então, aos fracassos e aos males sofridos. A nossa própria escravidão ou libertação está dentro de nós mesmos, na esfera dos nossos pensamentos, mal conduzidos ou bem direcionados.

A Prática da Auto-sugestão

Evidentemente, a capacidade de concentração de esforços, de educação dos pensamentos pode ser desenvolvida pelo exercício, pela prática, que também requer novamente um certo esforço. Um dos métodos para esse desenvolvimento da própria 'Vontade" é o da auto-sugestão. Todos nós somos sensíveis a sugestões alheias. As palavras convincentes, com certa carga emocional, pronunciadas por alguém, nos impressionam e nos levam a refle tir sobre as'mesmas. Todos somos muito sugestionáveis.

O que vamos então aplicar voluntariamente é a sugestão própria em favor de nós mesmos, ou seja, a auto-sugestão.
Toda ideia emitida por pensamento ou palavras produz uma im­pressão mental. Quando essa ideia é suficientemente repetida, provoca a realização da ação que lhe corresponde. Esses princípios aplicados é o que vamos exercitar:

1° Coloquemo-nos num ambiente isolado e silencioso. Sentados, rela­xemos o corpo, sem nada pensar. Respiremos profundamente, por três ou quatro vezes, permanecendo nessa situação por alguns minu­tos;

2° Vamos agora formular uma ideia com clareza e precisão, desejando que fique indelevelmente gravada na nossa mente. Na formulação dessa ideia, vamos impregná-la com o nosso potencial emocional, sentindo-a profundamente, desejando que os seus efeitos sejam rea­lizados;

3° Pensemos, então, repetindo compassadamente:

'TENHO UMA VONTADE FIRME E REALIZADORA"...
'TENHO UMA VONTADE FIRME E REALIZADORA"...

4°À medida que a formos repetindo, ajudemos a fazer crescer dentro de nós a energia que aquela afirmação vai gerando. Ë como se car­regássemos o nosso interior dessa energia impulsionadora;

5° No transcorrer do dia, lembremos de repeti-la muitas vezes, ainda que realizando atividades motoras que não ocupem esforço mental, fora do tempo da nossa prática. Mesmo ao deitar, tenhamo-la pre­sente e deixemo-la agir no nosso subconsciente durante o sono. Façamos essa prática diariamente e pelo tempo necessário, até sentir que a ideia esteja suficientemente fortalecida dentro de nós. Isso se observa pela disposição incontida de trabalhar, de produzir, de realizar;

6° Numa etapa seguinte, depois da prática acima, vamos transformar em ação aqueles impulsos. O que tivermos que fazer, mesmo em as­suntos corriqueiros e simples, identifiquemos cada um isoladamente e a seu tempo; tomemos a decisão firme de realizá-los com todo o empenho, até a sua execução, sem receios ou impedimentos.

Sintamos, então, a força dinâmica que cresce em nós quando finali­zamos concretamente o propósito formulado. Esse método vai ro­bustecendo a nossa "vontade", tornando-a cada vez mais indómita e inquebrantável;

7° Formulemos, agora que conhecemos o método e os seus resultados, as ideias que sejam importantes fixar e fortalecer em nós, repetindo-as do mesmo modo, pelo tempo necessário, até senti-las suficiente­mente resistentes, uma por vez, centralizadas e concentradas, e de­pois exercitadas nas ações voluntárias. Podemos, então, formular, por exemplo, ideias como: "DEIXAREI

CALMAMENTE O VICIO DE FUMAR"...
"DOMINAREI TRANQUILAMENTE A MINHA AGRESSIVI­DADE"...
"SEREI PACIENTE E COMPREENSIVO COM MEUS FILHOS"...
"PROCURAREI SERENAMENTE CONHECER MEUS ERROS E DEFEITOS"...
"NÃO COMENTAREI O MAL EM TEMPO ALGUM"...
"NÃO GUARDAREI RANCOR DE NINGUÉM"...
FAÇA SUA AVALIAÇÃO INDIVIDUAL
"PERDOAREI SEMPRE A QUEM ME TIVER OFENDIDO"...

1. Como classifica sua "vontade"?
a) Fraca d) em período de firmeza
b) titubeante e) firme
c) inconstante

2. Sente-se em condições de vencer sozinho, com esforço próprio, suas más inclinações?
a) sim (sempre)
b) algumas vezes
c) não (nunca)

3. Lembra-se de alguma experiência, na época escolar, no trabalho que realiza no emprego ou no que conseguiu para seu bem-estar caseiro, onde realizou conquistas pelo esforço próprio? Procure analisá-las.

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4. Tem obtido normalmente na vida comum o que lhe intressa?

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5. Já se interessou em realizar sua reforma íntima? Em caso afirmativo, enumere os seus motivos.

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6. Sente a necessidade de fortalecer sua vontade? Em caso afirmativo, cite as suas razões.

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7. Na sequência em que a vontade se manifesta, onde tem encontrado maiores dificuldades?

a) nos impulsos renovadores
b) no autodomìnio para vencer os impedimentos
c) na deliberação de realizar os propósitos
d) na determinação de conseguí-los a todo custo
e) na ação renovadora executada.

8. Como classifica seus pensamentos?

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9. Considera-se uma pessoa sugestionável? Em caso afirmativo, acha que tem provocado benefício ou lhe feito mal?

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10. Depois de experimentar o método da auto-sugestão, que resultados obteve?

a) nulos
b) sofríveis
c) razoáveis
d) significativos
e) surpreendentes.

Ney Prieto Peres