36 - Auto-avaliação Periódica

"Por que sinais se pode reconhecer no homem o progresso real que deve elevar o seu Espírito na hierarquia espírita?
— O Espírito prova a sua elevação quando todos os atos da sua vida corpórea constituem a prática da lei de Deus, e quando compreende por antecipação a vida espiritual". (Allan Kardec. O Livro dos Espíritos. Pergunta 918.)


No nosso trabalho de transformação íntima podemos resumir o seu seguimento nas seguintes etapas:

AUTO-ANÁLISE: o conhecimento de nós mesmos — diagnóstico íntimo progressivo.

AUTO-OBSERVAÇÃO: o trabalho de aprofundamento detalhado do que queremos mudar - contagem, registro e programação.

AUTO-APRIMORAMENTO: trabalho efetivo de transformação íntima — substituição de defeitos por virtudes.

AUTO-AVALIAÇÃO: verificação dos resultados — aferição de esforços, reciclagem.

André Luiz, no livro Opinião Espírita (Capítulo 1. Examinemos a nós Mesmos. Ed. CEC.), diz-nos que " O dever do espírita-cristão é tornar-se progressivamente melhor". Desse modo, acrescenta: "Útil, assim, verificar, de quando em quando, com rigoroso exame pessoal, a nossa verdadeira situação íntima". E ainda enfatiza: "Espírita que não progride durante três anos sucessivos, permanece estacionário".

Ao seguirmos as recomendações sugeridas no capítulo sobre Como Programar as Transformações, ficou evidenciada a importância de estabelecer nossas metas para eliminação de vícios e defeitos com números definidos, isto é, metas numéricas, em termos específicos com objetivos claros e sem rodeios.

Assim, então, esperamos que tenhamos diminuído ou eliminado, por exemplo, o número de cigarros que fumávamos por dia, o número
de vezes que ingeríamos bebidas alcoólicas, o número de ocorrências, no transcurso de uma semana, das nossas manifestações de orgulho, agressividade, etc. Registramos as contagens numéricas dos correspondentes impulsos, e em cima desses números, trabalhamos para reduzi-los progressivamente, se possível até eliminá-los.

Como conferirmos, de vez em quando, os nossos progressos íntimos?
Acha, o amigo preocupado em melhorar, que se poderia saber apenas pela contagem do número de ocorrências?
O processo de mudança, admitimos que vai se realizando intimamente num todo, isto é, amadurecemos ou crescemos espiritualmente num conjunto de fatores psíquicos e, portanto, os resultados se verificam em todos os aspectos do nosso comportamento, tanto nas expressões do sentir quanto nas do entender.

Naturalmente, altera-se para melhor o nosso relacionamento no ambiente doméstico e no meio social, no emprego e com o público de forma geral. Os métodos de contagens e registros, no entanto, podem nos oferecer resultados específicos valiosos na libertação dos vícios e na substituição dos erros e defeitos por qualidades e virtudes. Servindo-nos desses recursos práticos, é-nos possível avaliar simultaneamente os resultados conseguidos, apenas por comparação dos números de ocorrências, de período a período, isto é, de mês a mês, ou de semana a semana.

No decorrer do tempo, a auto-avaliação assume, para o observador de si mesmo, um sentido prático, como preocupação natural de conseguir resultados sempre melhores nas transformações que deseja realizar dentro dele. Somos nós mesmos, quando bem exercitados, que melhor podemos aquilatar os nossos aprimoramentos. É necessário que assim o façamos, de modo consciente e individual, para fundamentar nossas possibilidades de realização, fazendo aumentar a autoconfiança nas próprias forças.

A experiência pessoal nos diz que fazermos auto-avaliações sem anotações dos controles diários e semanais é mais difícil para o interessado, e também menos exata. Quando nos sentamos por alguns instantes para escrever sobre os resultados observados na reforma íntima, começamos sempre por um exame retroativo dos acontecimentos que registramos, digamos, no último mês, ou na semana que passou. A memória, por melhor que seja, apresenta suas falhas, e deixamos quase sempre de refletir sobre muitas ocasiões em que reagimos sutilmente, sem perceber nitidamente as emoções, os reflexos, ou os nossos impulsos cometidos sem controle.

Continuamos nessa introspecção, perguntando como nos encontramos intimamente diante de alguns aspectos que conscientemente conhecemos como falhos em nosso comportamento ou em nosso modo de agir. Então carecemos de algumas observações anotadas para tomarmos como referência e, assim, fazermos comparações de como estávamos antes e como reagimos agora, após um certo intervalo de tempo. Surge em seguida a indagação: qual o período ideal de tempo para nos auto-avaliar?

André Luiz afirma: "de quando em quando", deixando, naturalmente, a nosso critério as ocasiões consideradas oportunas, que entendemos serem mais comuns quando os problemas nos pressionam. Só nesse momento saímos do comodismo e nos preocupamos em fazer as necessárias descobertas do que nos inquieta.

O que pretendemos, no entanto, é dirigir o nosso esforço de transformação íntima de modo disciplinar, eficaz, tão mais proveitoso quanto possível Então surgem como evidentes os períodos: semanal, quinzenal, mensal. Achamos que além de trinta dias já se torna uma periodicidade muito extensa. Diríamos: no máximo de mês em mês, embora semanalmente fosse preferível.
Podemos, assim, fazer nossa apuração de resultados, na periodicidade escolhida, seguindo-se uma sequência no exame íntimo, como sugerido adiante:

1° Resultados Obtidos no Combate aos Vícios

Admitindo-se que tenhamos esquematizado a nossa Programação de Combate aos Vícios, estejamos realizando o Controle dos Resultados Programados. Nesse último podemos ter anotado, em cada semana, o número indicativo P (previsões programadas) e os resultados reais na coluna R. Fica, então, fácil verificar os progressos alcançados e, assim, teremos os comentários, descrevendo-os numa Caderneta Pessoal. É importante aí indagar a nós mesmos os motivos dos bons resultados, ou dos ínsucessos, para tirarmos algumas conclusões, deixando-as observadas por escrito. Dessas conclusões, novas metas e novos propósitos podemos estabelecer para resultados mais animadores, se for o caso. A Caderneta sugerida poderá, então, ser utilizada para os relatos sumários dos resultados conseguidos e para acompanhamento desses durante a nossa caminhada.

2° Resultados Obtidos no Combate aos Defeitos

No processo de exame de cada um dos quinze defeitos mais evidentes, podemos facilmente compor o Resumo dos Defeitos —, apresentado no Capítulo 40, e sobre aqueles resultados pesquisados pelo questionário das 15 perguntas, podemos também fazer na Caderneta alguns comentários bem resumidos, a respeito de como nos situamos em cada um dos citados defeitos.

Sobre cada um deles mais particularmente evidenciado, tendo programado o nosso combate, como sugerido graficamente, e daí traçado o Diagrama, recolhemos deste último os resultados já obtidos. É facilitado, dessa maneira, o comentário que sobre eles possamos fazer, observando resumidamente as conquistas nas três áreas de ação a saber: na família, no trabalho e na sociedade. Citemos, então, na Caderneta Pessoal utilizada para esse fim, as reflexões de forma discreta e sem pormenores descabidos, incluindo-se também as proveitosas conclusões sobre as diminuições das ocorrências daqueles já mencionados defeitos.

Conhecendo-se também as características das Virtudes, que se opõem frontalmente aos respectivos Defeitos, num confronto realizado intimamente dos nossos valores vivenciados, podemos, naquelas ocasiões de retrospectiva, perceber os efeitos da boa semeadura no nosso terreno individual, pesando tranquilamente a necessidade da aplicação de maiores esforços renovadores. Esse, talvez, seja um dos melhores meios para a aferição dos resultados obtidos nas tentativas de remoção do que nos impede evoluir, isto é, tomar as Virtudes como padrões de referência.

"Tudo caminha! Tudo evolui! Confiramos o nosso rendimento individual com o Cristo!" É o que também nos conclama André Luiz, no mesmo capítulo acima referido. Espelharmo-nos periodicamente, tomando como nosso modelo de comportamento o Nazareno, na constante preocupação de cada vez chegarmos mais perto Dele, resume bem as nossas aspirações, que podem ser corajosamente provadas nas auto-avaliações periódicas.

A Importância da Caderneta Pessoal

As auto-avaliações periódicas são adotadas nos meios escolares, a partir dos primeiros graus, para que os alunos desenvolvam sua capacidade de análise e autocrítica quanto ao próprio aproveitamento, dificuldades e falhas a corrigir. Nesses relatos os alunos reconhecem os seus descuidos nos deveres, o tempo desperdiçado em conversas e se propõem a melho­rar dali em diante. Uma supervisora analisa essas auto-avaliações, discute num Conselho de Classe com os outros professores e faz as suas apre­ciações por escrito, devolvendo, em seguida, aquelas folhas para os alunos, que farão parte da sua pasta escolar.

Quando experimentamos esse tipo de prática, em que transferimos para o papel o que pode ser chamado de conteúdos psicológicos, articu­lamos um mecanismo de exploração do nosso inconsciente, que muito nos auxilia no conhecimento de nós mesmos.
Essa Caderneta a que nos referimos pode exercer a função de uma memória de resultados constatados nas nossas auto-avaliações temporárias, oferecendo-nos, ainda, o seguimento de todo o nosso trabalho de reforma íntima.

Poderá ela encerrar, de forma descritiva e conclusiva, o que tenha­mos elaborado dinamicamente ao encetarmos a programação da nossa re­forma interior, pela eliminação dos vícios e diminuição dos defeitos. A ca­derneta nos permitirá, também, anotar os efeitos do desenvolvimento da nossa vontade e os benefícios obtidos pela auto-análise, e relacionar os ser­viços prestados ao próximo como rumo para realização do nosso cresci­mento espiritual.

Exemplo Prático de Utilização da Caderneta

Consideremos que um leitor, interessado em fazer a sua reforma ínti­ma, começando a pôr em prática, de algum modo, o roteiro indicado neste compêndio, tenha esboçado a sua programação e a esteja conduzindo de certa forma

Admitamos que tenha optado fazer a sua auto-avaliação periódica no final de cada mês.
Descrevamos a imaginária experiência pela qual passa esse suposto leitor, e como estaria ele registrando-a na sua Caderneta Pessoal.
Podemos separar, para o primeiro ano, de uma a três páginas para anotações relativas ao Combate aos Vícios, determinando-se o número de páginas pelo número de vícios a serem combatidos. Igualmente, em se­quência, podemos separar na Caderneta, para esse mesmo ano, de três a cinco páginas em que comentaremos o que conseguirmos no Combate aos Defeitos. Deixemos, logo depois, apenas uma página para colocar os Serviços Prestados ao Próximo.

Vejamos o que teria escrito esse bem intencionado leitor:
Combate aos Vícios - 1981
12/03/81 - Início do trabalho de eliminação do cigarro.
30/03/81 — Embora com dificuldade, estou conseguindo reduzir o número de cigarros consumidos.
30/04/81 - Estou evitando completamente o cigarro há cinco dias.
30/05/81 — Larguei completamente o cigarro e estou controlan­do a tendência à gula.
30/06/81 — O álcool não exerce qualquer atração sobre mim. Posso experimentá-lo sem, no entanto, sentir dese­jo de repeti-lo por várias vezes.
30/07/81 - Localizo, por vezes, minha imaginação ligada a qua­dros eróticos.
30/08/81 — Tenho conseguido afastar alguns desejos inquietantes de relacionamento sexuaj extraconjugal.
30/09/81 - ... (seguir nas auto-avaliações dos vícios)
30/10/81 — ... (seguir nas auto-avaliações dos vícios)

Combate aos Defeitos — 1981

30/05/81 — Dediquei-me neste mês à observação do orgulho, da vaidade, da inveja e do ciúme. O orgulho é moderado, a vaidade é mais predominante. A inveja é também moderada e o ciúme é fraco. Tenho prestado mais atenção a eles e consigo identificá-los melhor.
30/06/81 — Observei mais diretamente neste mês a avareza, o ódio, os remorsos e a vingança. A avareza é mais pre­dominante, o ódio e os remorsos são moderados, e a vingança é fraca. Comecei a combater a avareza e a indagar os motivos que me fazem ser assim.
30/07/81 — Continuei, neste mês, cuidando da agressividade, do personalismo, da maledicência e da intolerância. Fiz a avaliação do ódio e obtive nota 68. Preciso ter mais controle sobre a agressividade. Fiz o teste da maledicência e apurei a nota 72. Preciso me cuidar

30/08/81 - Este mês coube observar a impaciência, a negligência e a ociosidade. A impaciência é predominante, a negligência são fracas. Ainda não consegui compreender por que sou, às vezes, tão impaciente. Vou batalhar em cima desse defeito.
30/10/81 — Estou contente por ter conseguido diminuir Estou mais paciente e descobri o que mais impaciente. A leitura de algumas página; ma, de Emmanuel e as preces me temi bem e ajudado muito.
30/11/81 - ... (seguir nas auto-avaliações)
30/12/81 - ... (seguir nas auto-avaliações dos defeito

Serviços Prestados ao Próximo — 1981

- Comecei neste mês a colaborar como ate|ndente num abrigo de velhos, uma noite por semana.
- Continuo colaborando no abrigo de velho
Sinto que sou útil a eles e me alegra ajudá-los. Fiz uma visita a familiar doente e pude contrpbuir em seu benefício.
- Observei este mês que o meu trabalho junto aos velhi­nhos me tem deixado mais compreensivo] e paciente. Isto tem me beneficiado muito.
30/11/81- ... (seguir registrando as observações)
30/12/81 - (seguir anotando

Até Onde Chegaremos?

Após concluído o ano em curso, podem-se reiniciar os comentários, de modo semelhante, dentro dos mesmos ítens indicados, agora no ano seguinte.

Conseguindo-se a continuidade desse trabalho, por três anos, teremos realizado uma grande mudança em nós mesmos, e teremos transformado muitos dos nossos gestos e atitudes.
As nossas reações estarão naturalmente educadas pêlos bons hábitos, nossos impulsos estarão controlados e possivelmente automatizados no bem. O agir corretamente e a ação consciente estará normal e espontanea­mente de acordo com os ensinamentos evangélicos, sem que nos custe maiores esforços assim proceder!

Atingindo com razoável sucesso esse primeiro triénio, iremos prosse­guir, cada vez melhor, burilando o nosso espírito, com resultados sempre proveitosos, embora lentos.
Estaremos aí no Caminho Infinito da evolução, em que as mais pro­fundas alegrias serão vivenciadas nas oportunidades de servir.
Vamos nos desprendendo de nós mesmos e nos doando cada vez mais, ampliando a nossa capacidade de amar e de integrar à Vontade Maior, Soberana, que tudo preside e governa, Inteligência Suprema, Causa Primária de Todas as Coisas.

Chegaremos um dia a nos identificar tanto com esse Todo Univer­sal Único, que sentiremos e viveremos as palavras do Divino Mestre quando enunciou: "EU E O MEU PAI SOMOS UM..." O Seu EVANGELHO DE AMOR é "O CAMINHO, A VERDADE E A VIDA..." "NINGUÉM VAI AO PAI SENÃO POR MIM", disse-nos Ele.

Queridos amigos leitores, candidatos a Aprendizes do Evangelho, Aprendizes já em preparação, Servidores de Jesus em treinamento, Dis­cípulos das últimas horas em tarefas: essa é a senda que o Cristianismo Redivivo, a Terceira Revelação, o Consolador Prometido, a Doutrina dos Espíritos codificada pelo mestre Allan Kardec nos oferece. Abra­cemo-la com todas as nossas forças, tomemos a nossa cruz e sigamos Jesus. É o que temos a fazer neste mundo nebuloso, como uma das pou­cas oportunidades de nos Salvar e nos Redimir. Que Jesus esteja conosco, animando os corações de boa vontade...

Ney Prieto Peres