CAPÍTULO 12 - INTERIORIZAÇÃO

Capítulo 12 - Interiorização

"Fazei o que eu fazia, quando vivi na Terra: ao fim do dia, interrogava a minha consciência, passava revista ao que fizera e perguntava a mim mesmo se não faltara a algum dever, se ninguém tivera motivo para de mim se queixar. Foi assim que cheguei a me conhecer e a ver o que em mim precisava de reforma." 0 Livro dos Espíritos - questão 919

Imaginemos que um excelente engenheiro fora convidado por uma empresa para fazer uma reforma na parte interna de suas dependências.

Seria viável chamá-lo à porta de semelhante edificação e solicitar-lhe imediatamente um planejamento da tarefa, sem que ele conheça os mínimos detalhes que a compõem?

Essa comparação pode ser trazida para a vida íntima. Que reformas poderemos efetivar em nós, sem o devido conhecimento do que precisa ser transformado?

Conhecer-se é a primeira iniciativa a fim de estabelecermos um acordo de paz interior.

E a via de acesso para chegarmos ao estágio íntimo do bom relacionamento com a sombra, a tal ponto de nos munirmos de condições para uma autêntica mudança.

Conhecer-se é libertar-se da ignorância, adquirir domínio e poder perante si mesmo.

Essa viagem ao mundo íntimo exige preparo e exercício, sem os quais poderá ser infrutífera e repleta de motivos para o desânimo.

Santo Agostinho oferece-nos um roteiro de viagem seguro e eficaz: um balanço diário com a assistência de Deus e o "anjo da guarda". A formula é simples, mas essencial.

Multiplicar as perguntas sobre o objetivo de nossos procedimentos é meditar; e quanto "material" oferece-nos a vida interpessoal para esse mister?!

O estudo de si mesmo vai exigir duas posturas que asseguram melhores resultados. Enumeremo-las:

1) Atenção Plena - é a arte Budista de observar-se incansavelmente, olhar-se sempre.

E' um hábito que deve ser desenvolvido na rotina, a fim de que o balanço noturno tenha elementos ricos para a auto-análise.

Para pessoas encharcadas de materialismo e preconceitos, o outro só tem valor na justa medida de seus interesses pessoais; as relações, nesse caso, são superficiais, perigosas, instáveis... As deficiências são atribuídas exclusivamente ao próximo, sem a suficiente disposição para uma incursão reflexiva nas próprias atitudes. São corações que vivem sob o império do narcisismo, escravos de crenças e modelos mentais de comportamento, educados para encontrar fora de si as causas para tudo que lhes acontece, anulando, quase que por completo, a possibilidade do auto-encontro, sempre aptos a analisar a conduta alheia.

A Atenção Plena do Budismo só é possível em criaturas que se dispõem a melhorar, que anseiam por permanente sentimento de renovação de si próprias.

A disposição de melhora, portanto, é-lhe a base de dinamização. Essa disposição alberga a ausência de punições, a dissolvência da culpa, a ternura consigo e os julgamentos flexíveis e versáteis.

Sem isso esse auto-encontro pode tornar-se um caminho para a decepção e a insatisfação pessoal.

2) Interiorização - dispor-se a melhorar não basta para o autoconhecimento. O próximo passo é a interiorização, o ato de enfrentar seu mundo interior, admitir para si a natureza de seus sentimentos, estudar as reações perante a vida; um trabalho muitas vezes doloroso e que poucos desejam realizar, vivendo em constante fuga de si mesmo.

Nessa tarefa de crescimento, inclui-se a arte de ouvir a consciência e aprender a escutar os ditames Divinos.

A consciência é nosso elo de ligação com a Verdade; aprendermos a lidar com sua "voz" é aprender a ouvir Deus em nós.

Essa interiorização é a "degustação mental" daquilo que a Atenção Plena nos permitiu perceber.

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Na medida em que vamos descobrindo o desconhecido mundo de nós mesmos, vamos ganhando autonomia, paz, felicidade, porque passamos a encetar a caminhada consciente da evolução, senhores do eu, capacitando-nos para a liberdade responsável em todas as direções do existir.

Ter melhores noções de si enseja-nos urna convivência mais harmoniosa, pródiga de habilidades para a concordia, a lealdade, o desapego, o perdão, a cordialidade, o afeto, tornando-nos pólos vigorosos de simpatia e bem-estar que serão fortes atrativos, pela força do exemplo, para que os outros se esforcem por imitarnos o procedimento.

Se aquele engenheiro que citamos tiver o ensejo de esquadrinhar com precisão a edificação na qual irá trabalhar, seu planejamento de ação será mais produtivo, garantido e seguro para todos.

Da mesma forma, esse balanço interior, quando bem concretizado, será fonte de excelentes resultados no auto-apefeiçoamento.

Atenção Plena é vigília.

Interiorização é investigação permanente de si próprio.

Ermance Dufaux