CAPÍTULO 23 - FUGA DO MUNDO

Capítulo 23 - Fuga do Mundo

"Não julgueis, todavia, que, exortando-vos incessantemente à prece e à evocação mental, pretendamos vivais uma vida mística, que vos conserve fora das leis da sociedade onde estais condenados a viver. Não; viva com os homens da vossa época, como devem viver os homens. Sacrificai às necessidades, mesmo às frivolidades do dia, mas sacrificai com um sentimento de pureza que as possa santificar."
O Evangelho Segundo Espiritismo -cap. 11 - Item 10

Fuga do mundo! Fenômeno comportamental que vem avassalando alguns companheiros beneficiados com o conhecimento espírita. Sua característica mais marcante é a de querer conviver somente entre companheiros de idealismo, com extrema limitação para entender perfis éticos e sociais que destoem da "performance doutrinária-evangélica".

Afora os conflitos naturais, sofridos em razão da necessária adaptação do homem depois que toma contato com as diretrizes espirituais, podemos classificar essa fuga do mundo, quando se torna persistente e sistemática, como verdadeira inconformação com as vicissitudes corporais.

Cataloguemos tal episódio da vida mental de "síndrome de além túmulo" pelo motivo de ser a vida espiritual o "objeto de desejo" de semelhantes casos.

A "síndrome de além túmulo" pode ser classificada como um comportamento neurótico de transferir para um "mundo ideal" as esperanças e expectativas do dia a dia no "mundo real". E' uma fuga, uma transferência como mecanismo de defesa de questões íntimas não resolvidas e dolorosas, resultantes principalmente de frustrações e insatisfações para o homem encarnado. Faz-se algo hoje pensando em colher na imortalidade, no futuro, sem nutrir-se dos benefícios dessa ação no hoje e no agora, vivendo um mundo imaginário "desconectado" dos sentimentos. Seu traço principal é a negação dos prazeres humanos com os quais seu portador carrega sofríveis desajustes. Apresenta-se esse conflito interior com variados assuntos como a riqueza, a beleza, a inteligência, a virtude e outros temas existenciais; por isso é comum projetar julgamentos estereotipados e repreensivos à conduta alheia, exatamente naqueles embates que a criatura carrega.

Doentio nesse lance da vida mental é a suposição que se elabora para si mesmo sobre os futuros frutos que obterá na vida dos espíritos, simplesmente pelo fato de "aguentar resignadamente" as dores pelas quais vêm passando, quando tais dores nesse tipo de vivência são desajustes de inaceitação e rebeldia, provas morais adicionais e distante das provas reais, ante os quadros de aferição terrena a que todo espírito reencarnado está submetido com mais ou menos intensidade.

O conhecimento espírita para agregar valor espiritualizante precisa ser contextualizado, ou seja, adequado à vivência prática de quem o possui, respeitando sua individualidade, seus problemas e suas qualidades. O acúmulo de informações, sem a devida renovação da experiência de viver e conviver, poderá, em algumas situações, servir ao interesse pessoal na sutil fuga dos deveres que a Terra "impõe" como planeta expiatório.

Abençoada é a literatura espírita, mas a cultura humana, que é construída a partir das informações e experiências entre os homens, transportou com certo exagero as avaliações de boa parte dos adeptos espíritas para o mundo espiritual, as existências passadas e a influência dos desencarnados. E' a velha dicotomia passado, presente e futuro no campo da fragmentação da "realidade mental".

Verdadeiramente, o presente é a nossa realidade, contudo o atavismo do reino dos céus, ressumando do passado conjugado às esperanças futuras na vida extrafísica, determina ampla soma de desencontros com as desconfortáveis experiências que todos temos que passar para aquilatar valores e vencer imperfeições.

Essa "síndrome", portanto, gerou uma cultura de supervalorização das questões do mundo extrafísico trazendo como consequência a negação da relação com o mundo físico.

Três são os resultados éticos e emocionais de semelhante postura mental:

- A transferência de responsabilidade sobre os insucessos pessoais, imputada a espíritos e carmas.

- Negação do passado da atual existência pela camuflagem de medos, frustrações, desejos, culpas e sentimentos; são as máscaras emocionais.

- Foco dos pensamentos centrado no tipo de relações sociais das colônias de além túmulo contidas na literatura espiritista.

Ante essa cruel vivência da vida interior, torna-se escassa a auto-estima, enfraquece-se o desejo de progresso e espera-se resultados ótimos na vida além túmulo pelo simples fato de apenas pertencer às fileiras de serviço ou frequência das casas doutrinárias, como se assim todos os problemas estivessem solucionados. E' quando encontra decepções e surpresas desagradáveis na própria convivência com os companheiros de tarefa, melindra-se ostensivamente, afogando-se em mágoas e deserções irrefletidas, supondo que "novos carmas" surgiram para elevá-lo ainda mais na escala de sua suposta ascensão.

Muita oração e paciência requisitam tais corações em nossas fileiras. São doentes graves e podem carecer de tratamentos especializados dos ramos da psique, quando essas desarmonias são persistentes e progressivas.

Evita, desse modo, fugir de teu mundo. Não espere um grupo de cooperadores Celestes na esfera de tuas ações espíritas, relegando o trabalho educativo de ti mesmo ao preço da insipiência e descuidos alheios.

Os dirigentes conscientes e comprometidos ensejem um ambiente doutrinário que conecte o tarefeiro com seu mundo, interagindo sempre o centro espírita com a sociedade e seus problemas, fortalecendo seus irmãos para viverem no mundo sem serem do mundo, e para serem espíritas sem desejarem ser "anjos"...

Vemos assim mais uma faceta sutil das batalhas do espírita na Terra que apela com urgência para a arregimentação de grupos espíritas mais humanos e acolhedores. Grupos que saibam estender mãos e coração a essas desamornias provacionais, tonificando o necessitado de forças novas e soluções realistas e libertadoras. Grupos que tenham competência de demonstrar socorro e rota a quem lhes busca, independentemente da natureza de sua problemática, de educar para entender que cada criatura é o arquiteto de seu destino, o construtor de sua felicidade, apontando-lhe o estudo e o trabalho indispensáveis para seu reajustamento ante as dores do mundo.

Indispensável constatar que semelhantes grupos só podem ser construídos se seus condutores forem criaturas que vivam o mundo da realidade física com coerência e possuam respostas para os conflitos humanos, porque as buscaram para superar suas próprias lutas íntimas. O bom dirigente é aquele que passa experiência e expõe seus caminhos sem, contudo, acreditar que eles sejam os melhores ou que vão servir para todos.

Certamente, conquistando a harmonização afetiva consigo mesmo, o homem conseguirá sentir com mais exatidão e realismo a vida que o cerca, seu pensamento refletirá a nobreza dos seus desejos, as atitudes falarão de sua compostura moral e, então, ele assumirá suas responsabilidades com mais empenho e dedicação, aprendendo a amar a todos e a tudo como são e estão, por sua vez prosseguindo seu caminho de compromissos com a consciência, inderrogavelmente, praticando o bem sem cessar, o que nos faz recordar a sábia alocução entre Allan Kardec e os Espíritos Superiores, assim descrita na questão 642 de O Livro dos Espíritos:

"Para agradar a Deus e assegurar a sua posição futura, bastará que o homem não pratique o mal?"

"Não; cumpre-lhe fazer o bem no limite de suas forças, porquanto responderá por todo mal que haja resultado de não haver praticado o bem."

Companheiros da jornada carnal,

A Terra é uma universidade prodigiosa para nossas necessidades. Fugir de contribuir com o progresso e o crescimento desse planeta é ingratidão e inconsciência. Para almas em nosso estágio, nós que já recusamos o mal, mas ainda temos o desejo do bem embrionário, ela é farta despenseira de bênçãos.

Aprendamos a amar as leiras terrenas.

Conquanto os conflitos que carregamos, mesmo com os anseios não satisfeitos, inconformados com as lutas e com tendências para a "reclusão opcional", sigamos sempre o ideal da melhora, cultivando resignação ativa sem acomodar, ampliando os sonhos sem deixar de trabalhar e esforçar. A desistência ou a fuga fazem-nos jornadeiros insensatos e desculpistas, covardes e indiferentes à riqueza da vida.

A insatisfação crônica não será remediada com vida ascética e puritanismo, porém com nobre devoção ao dever, levando-nos, paulatinamente, a redescobrir a alegria de viver e o fulgor glorioso da paz através dos sacrifícios em equilibrar-se, enfrentando nosso infeliz passado onde se encontram as causas reais das dores que nos atormentam.

Vigiemos a conduta para não transportarmo-nos para as compensações ilusórias das viciações ou na aceitação desonrosa de "vender a alma" a novas formas de prazer, nas derrapagens morais da corrupção no ganho fácil.

E jamais esqueçamos, em tempo algum, que a solução definitiva da "síndrome de além túmulo" será aprender a amar a oportunidade do renascimento, por mais escassez e dureza nas provações, fazendo o melhor que pudermos e com muita fé na abundância da misericórdia de Deus...

Ermance Dufaux