MEREÇA SER FELIZ

"Os enfoques deste livro são vigorosos receituários MORAIS para a erradicação da doença do orgulho e, ao mesmo tempo, um tratado para a busca da felicidade, que só começará a despontar quando tivermos a coragem de apedrejar os espelhos de ilusão e quebrar as imagens fictícias de nós mesmos, mirando o espelho da realidade no resgate do "EU DIVINO" e exuberante ao qual todos nós destinamos ser." - Maria Modesto Cravo

1 - PÉROLA DE DEUS

A pérola, uma das mais belas jóias naturais, é formada a partir do instante em que as ostras são agredidas por algum agente externo e liberam uma substância chamada nácar, cujo objetivo é envolver aquele elemento agressor e protegê-las. O acúmulo de várias camadas de nácar em movimentos concêntricos forma a pérola depois de algum tempo.

A felicidade é como a pérola que se forma dentro da ostra: nasce dos embates de cada dia no esforço da transformação no reino do sentimento.

Portanto, mesmo com os problemas e dificuldades, não desanime ou interrompa teus ideais de espiritualização. A seu tempo, perceberás um clarão reluzente na tua intimidade refletindo a riqueza e a sabedoria do Pai, que servirão para embelezar a vida e fazer-te mensageiro da paz em ti mesmo. E a pérola da alegria definitiva.

Ser feliz é estar bem consigo e com o mundo. E deixar a pérola da alegria luzir para tudo que vibra à tua volta. Ser feliz é desconhecer barreiras, porque a felicidade anda de mãos dadas com a fé. Ser feliz!

Quanto significa essa expressão!

Abra-te para a vida sem medo ou culpa, acredite no futuro, trabalhe e sirva, ame e perdoe.

Inevitavelmente serás respondido pelas leis que conspiram a favor de teu progresso e ascensão.

Prossiga confiante na conquista de ti próprio e guarda a inabalável certeza que foste criado por Deus para ser feliz na condição de "ostra da Terra" e pérola de Sua Criação.

Ermance Dufaux

2 - APRESENTAÇÃO

"É necessário que ele cresça e que eu diminua." João Batista - Jo 3:30

Não tenho o que se poderia chamar de uma linguagem estética e coerente com a beleza e a harmonia da obra Mereça ser Feliz. Porém, minha identidade com o coração de Ermance Dufaux, seu trabalho no Hospital Esperança e seu amor pela causa que nos une leva-me a arriscar algumas frases singelas de estímulo.

O orgulho é grave doença espiritual que afeta a mente em severos quadros de desequilíbrio. Vencer essa perigosa "bactéria da alma" significa desiludir da falsa imagem que criamos para que nos sintamos importantes na vida. Essa necessidade surge do profundo sentimento de inutilidade que a maioria dos espíritos têm agasalhado em seus corações atrelados à esfera da Terra. Baixa estima a si mesmo e insatisfação são suas manifestações costumeiras.

Os enfoques deste livro são vigorosos receituários morais para a erradicação da doença do orgulho e, ao mesmo tempo, um tratado para a busca da felicidade, que só começará a despontar quando tivermos a coragem de apedrejar os espelhos da ilusão e quebrar as imagens fictícias de nós mesmos, mirando o espelho da realidade no resgate do "eu divino" e exuberante ao qual todos nos destinamos ser.

Severo desafio aguarda os espíritas!

O movimento humano em torno das idéias doutrinárias edificou formalidades que adulam a vaidade pessoal e enaltece as vitórias institucionais. E o pior é que estão se acostumando com isso. Nessa miragem, o amor e a espontaneidade têm sido relegados a pretexto de atender protocolos de pureza filosófica, entravando lamentavelmente as riquezas da alma em detrimento de padrões que mais apontam para a vaidade que para a Verdade.

Doa a quem doer, mas hoje temos que admitir: existe um "espiritismo dos homens" e o Espiritismo do Cristo. E nem sempre eles se encontram na mesma direção!!!

A prova disso está nos inúmeros e lamentáveis casos que atendemos no Hospital Esperança, onde amigos queridos de ideal, que muito amamos, sofrem dolorosas crises de prepotência, atestando crises agudas de insanidade e arrependimento tardio depois de longas peregrinações nos vales do poder e da angústia...

Amigos que deveriam chegar aqui para trabalhar e servir em nossas leiras, mas que chegam cansados e doentes, tristes e culpados...

Quando os princípios religiosos são mais importantes do que os sentimentos, a fraternidade não tem vez e a fé é submetida aos roteiros do imediatismo nas cerimónias exteriores, bem a gosto do ego, desvalorizando os ditames da consciência.

Em Mereça ser Feliz encontraremos diretrizes para inverter a ordem em nossos programas no bem junto à lavoura espírita, caso tenhamos, de fato, suficiente humildade para aceitarmos quem somos verdadeiramente e decidirmos por interromper as fantasias de grandeza e elevação que, por enquanto, ainda não são conquistas definitivas de nossas almas.

Ao optarmos por sermos um pouco menores, diminuindo para que o Cristo cresça em nós, também optamos pela felicidade.

Da servidora de Jesus Cristo e trabalhadora da causa do amor e do bem,

Maria Modesto CravoU)
29 de março de 2002
(2)Maria Modesto Cravo
Nasceu em Uberaba a 16 de abril de 1899 e desencarnou em Belo Horizonte a 08 de agosto de 1964. Uma das pioneiras do Espiritismo em Uberaba, atuou com devotamento junto ao "Centro Espírita Uberabense" e ao "Lar Espírita". Médium de excelentes qualidades, trabalhadora incansável do amor ao próximo e mulher de muitas virtudes, Dona Modesta, como era conhecida, foi a fundadora do "Sanatório Espírita de Uberaba" voltado para tratamento dos transtornos mentais, inaugurado em 31/12/1933 e em plena atividade até hoje. Foi nessa casa de amor que se tornou conhecido o valoroso companheiro Dr. Inácio Ferreira, médico psiquiatra e um baluarte do bem.

3 - PREFÁCIO

... "o Reino de Deus não vem com aparência exterior." Lc, 17:20

Estamos informados que todos merecemos a felicidade. Porém, nem todos possuímos na intimidade a crença de que a merecemos.

Para gozar do direito natural de ser feliz não basta simplesmente cumprir com algumas receitas de conduta, como se fossem fórmulas prontas para êxito imediato. Merecimento é um estado afetivo a ser conquistado, um sentimento sem o qual permanecemos reféns da tirania da culpa e do medo. Merecimento é a liberdade conferida pela consciência para o florescimento de elevados recursos interiores; é resultante do esforço de aperfeiçoamento espiritual, constituindo vigoroso campo de atração para o recolhimento da "boa parte" da vida; é o estado íntimo que só começaremos a sintonizar quando passarmos a ouvir a sublime melodia da consciência em substituição ao valor que damos à gritaria do ego.

As concepções humanas, quase sempre, interpretam felicidade como sorte ou "escolha divina" buscando-a através de "fórmulas mágicas" de imediatismo. Diante desse quadro, torna-se imperiosa a necessidade de redefinir seu conceito à luz da espiritualidade, estudando os caminhos para readquirirmos a condição de paz da qual deliberadamente nos afastamos em milénios de experiências no terreno das aparências insufladas pelo orgulho. Prepondera na Terra uma falsa noção de felicidade através da satisfação de carências estimuladas pelas ilusões da vida moderna, enquanto felicidade é conquista de valores inalienáveis e realização existencial. Não basta viver, temos que existir, ser. A auto-realização legítima nem sempre é aquilo que desejamos para nossas vidas. A cultura humana de ajustar anseios pessoais aos padrões coletivos da sociedade tem constituído campo de revolta e desânimo para muitas criaturas.

O oposto da felicidade não é a tristeza, é a insatisfação. A insatisfação humana ocorre porque as criaturas estão vivendo, mas não sabem existir. A tristeza é emoção, pode ser passageira; todavia a insatisfação é estado, resultado de uma enorme sequência de insucessos, más escolhas que levam o homem a sucumbir e vagar nos caminhos da "porta larga" sob os convites das futilidades mundanas.

O importante é ser, existir, plenificar-se para passarmos pela vida sem deixar que ela passe por nós, ser "proprietários do destino", merecer a liberdade. Entretanto, para nós, os calcetas das reencarnações, essa alforria tem um preço: a educação nos roteiros do amor.

A luz da sabedoria espiritual, satisfação individual decorre da plena identificação com as linhas mestras do projeto reencarnatório que antecede o retorno do Espírito ao corpo físico, cujo objetivo prioritário é colocá-lo em melhores condições ante o infalível tribunal da consciência. Portanto, ser feliz é uma questão de afinar as atitudes e sentimentos com esse "plano de espiritualização", somente possível pelo "reencontro" com a Verdade sobre nós mesmos. Esse reencontro com o "Eu Divino" é o resgate da consciência lúcida, é a conscientização, é o preço que se paga para ser feliz.

O centro espírita tem um relevante papel nesse panorama social de deseducação para a conquista da plenitude, por ensejar um entendimento mais amplo sobre como efetuar esse reencontro conosco próprio, em regime de paz e esperança.

Em especial os espíritas, depositários do inesgotável tesouro do Espiritismo, carecem avaliar com urgência e humildade os assuntos aqui considerados, tendo em vista o número cada vez maior de corações afins no ideal que carregam para cá, na vida extrafísica, exageradas expectativas de salvação e elevação em razão de movimentações de superfície nos compromissos junto à abençoada seara espiritista. E, para aqueles outros que realmente se comprometeram com a mudança de si mesmos, nossas análises podem lhes abrir uma visão mais ampla dos mecanismos sutis da vida íntima, favorecendo o domínio sobre "forças ignoradas" na direção da harmonia definitiva.

Um desafio urgente nos espera nas tarefas de amor às quais nos matriculamos em serviço pela felicidade alheia: descobrir como operar também a nossa felicidade pessoal para que o desânimo e as distrações do caminho não nos enganem com os apelos de deserção e cansaço - atitudes comuns em servidores valorosos, porém, invigilantes e menos abnegados.

Apesar da lógica dos conhecimentos espíritas, muitos corações idealistas e generosos, iludidos por si mesmos, optam por suporem-se grandiosos e livres do laborioso dever da renovação de suas atitudes somente porque adornam-se com títulos, que causam a sensação de "evolução realizada" tais como os médiuns, doutrinadores, palestrantes, dirigentes, escritores e tarefeiros de diversos gêneros.

O objetivo da obra Mereça ser Feliz, prosseguindo a série Harmonia Interior, é ajudar a pensar alguns caminhos para esse auto-enfrentamento. Nada mais fizemos que oferecer reflexões para incursões no desconhecido mundo de nós próprios. Enfoques diferentes para velhos temas morais no intuito de facilitar o entendimento e avaliação que, habitualmente, assinalamos distante e fora de nós. Nossos enfoques nada possuem de definitivos ou conclusivos. O debate saudável e as investigações sérias, entre todos aqueles que almejam a melhoria espiritual, poderão acrescer-lhes vastos horizontes de entendimento.

Portanto, nossa esperança repousa, tão somente, em oferecer aos amigos reencarnados uma pequenina fresta pela qual se possa vislumbrar um pouco mais sobre a realidade evolutiva eivada de necessidades das quais ainda somos portadores. Sem nos darmos conta da extensão dessa realidade, continuaremos iludidos sob a hipnose do orgulho, acreditando em virtudes que ainda não conquistamos, acalentando anseios e júbilos dos quais ainda não nos fizemos credores, vindo a tombar, após a morte, no reino da decepção e do queixume tão pertinentes àqueles que vislumbram as verdades espíritas, mas que esperam mais do que merecem na imortalidade.

Por que esperar a morte para enxergar e mudar o que se pode e deve ser burilado em plena romagem terrena? Por que esperar a vida espiritual para olhar no espelho da consciência e mirar a autêntica criatura que não se quer perceber na intimidade?

As anotações desse volume despretensioso foram inspiradas num curso de vinte dias que realizamos no Hospital Esperança, sob a direção de Eurípedes Barsanulfo. O amado benfeitor, utilizando-se do versículo acima, reuniu uma centena de almas que cooperam ativamente no labor da psicografía junto ao movimento espírita, concedendo-nos a alegria de compartilhar de sua venerável bagagem em admiráveis e inesquecíveis lições de vida, enfocando o orgulho como o principal obstáculo para a aquisição do contentamento eterno e da paz íntima. O benfeitor fez inspiradas análises sobre suas causas, seus efeitos e conduziu sempre nossos raciocínios e sentimentos ao imperativo da humildade como quesito primordial para a instauração do Reino de Deus no altar íntimo da consciência.

Fazemos um caminho de volta ao Pai. Somos os "Filhos Pródigos" que constroem sendas de libertação e aprimoramento, sendo exigido muito esforço e vontade nesse doloroso retorno. Entretanto nunca desistamos de ser feliz. Fomos criados para esse Alvo Divino. Acreditemos e sigamos com a certeza que pagar o preço do sacrifício pelo triunfo da paz interior é fonte de luz em qualquer tempo da vida.

Indubitavelmente, a sábia colocação de Jesus ao destacar o Reinado de Deus distante das aparências exteriores é, sobretudo, oportuna indicação inclinando-nos a deduzir que de ninguém dependemos para alcançarmos a plenitude da felicidade, a não ser de nós próprios.

Trabalhemos com afinco por merecê-la e façamos o bem pelo próximo, mas, igualmente, o façamos em nosso favor aprendendo a ser boas companhias para nós mesmos através de uma convivência pacífica e gratificante.

Lutemos pela nossa felicidade, mesmo que, por enquanto, no quadro escuro das provas, ser feliz seja apenas viver um pouco melhor hoje do que ontem.
Esperançosa em ter contribuído pálidamente para vê-los felizes, desejamos aos nossos leitores e amigos votos de paz e bom proveito em nossas singelas reflexões.

Ermance Dufaux
11 de fevereiro de 2002

..CAPÍTULO 1 - A PALESTRA DE EURÍPEDES BARSANULFO
..CAPÍTULO 2 - FELICIDADE DO TAREFEIRO ESPÍRITA
..CAPÍTULO 3 - ESTUDANDO O ORGULHO
..CAPÍTULO 4 - INFORMAR E CONSCIENTIZAR
..CAPÍTULO 5 - CONFESSAI-VOS UNS AOS OUTROS
..CAPÍTULO 6 - INTELIGÊNCIA INTRAPESSOAL
..CAPÍTULO 7 - COMPARAÇÕES
..CAPÍTULO 8 - CREDIBILIDADE SOCIAL E CIDADANIA
..CAPÍTULO 9 - CARMAS IMAGINÁRIOS
..CAPÍTULO 10 - OPINIÕES E AUTO-ESTIMA
..CAPÍTULO 11 - OS ESPÍRITAS DIANTE DA MORTE
..CAPÍTULO 12 - INTERIORIZAÇÃO
..CAPÍTULO 13 - PERSONALISMO, A LUPA DO ORGULHO
..CAPÍTULO 14 - VELHO DESCUIDO
..CAPÍTULO 15 - CARÊNCIAS
..CAPÍTULO 16 - APRENDER A FAZER
..CAPÍTULO 17 - CAMUFLAGENS E PROJEÇÕES
..CAPÍTULO 18 - VÍCIO DE PRESTÍGIO
..CAPÍTULO 19 - ETAPAS DA ALTERIDADE
..CAPÍTULO 20 - AZEDUME, TEMPERAMENTO EPIDÊMICO
..CAPÍTULO 21 - PURiTANISMO DO ESPÍRITA
..CAPÍTULO 22 - DESAFIO AFETIVO
..CAPÍTULO 23 - FUGA DO MUNDO
..CAPÍTULO 24 - SILENCIOSA EXPIAÇÃO
..CAPÍTULO 25 - OBSESSÃO E ORGULHO
..CAPÍTULO 26 - TRAÇOS DO ARREPENDIMENTO
..CAPÍTULO 27 - OS RESPONSÁVEIS SÃO FELIZES
..CAPÍTULO 28 - REFÉNS DO PRECONCEITO
..CAPÍTULO 29 - PERFIS PSÍQUICOS
..CAPÍTULO 30 - MISSÃO DOS INTELIGENTES
..CAPÍTULO 31 - SEVERES, PORÉM, SEM CULPA
..CAPÍTULO 32 - VENCENDO O PERSONALISMO
..CAPÍTULO 33 - ESPIRITISMO POR DENTRO
..CAPÍTULO 34 - SOLIDARIEDADE AOS TAREFEIROS ESPÍRITAS
..CAPÍTULO 35 - A PALESTRA DE MARIA MODESTO CRAVO
..CAPÍTULO 36 - APÊNDICE