A PRECE

Na maioria dos credos religiosos, a prece é entendida como um meio para obter dádivas ou soluções de problemas, na crença de que há entes espirituais que as podem propiciar. Permanece-se, ao pedir, na suposição da existência de milagres, de entidades milagreiras que, na exclusiva dependência da própria vontade, podem fazê-los, derrogando leis naturais, numa barganha com as pessoas que dão óbulos, acendem velas, fazem promessas, submetem-se a sacrifícios, para induzi-las, em troca, a ofertarem aquilo que desejam — a solução de um problema doméstico, o bom sucesso num negócio, a realização de determinado casamento.

A maioria das preces tem esse cunho. E as desilusões que as pessoas possam ter, acerca desta ou daquela religião, desta ou daquela doutrina, desta ou daquela crença, estão sempre relacionadas à falta de resultados no atendimento aos caprichos que a elas os conduziu. Tais atitudes permanecem porque ainda arraigadas a idéias e a crendices hoje superadas e que o Espiritismo, hoje, com suas noções renovadoras de morte, espírito, salvação, de vida no além, vem corrigir e reformular.

A — A morte

A morte, para a grande maioria, apresenta-se qual separação dos entes queridos, perda de tudo aquilo a que se está afeiçoado e se ama, a interrupção de progresso, aprendizado, na consecução de objetivos que, muitas vezes, se constituem na principal razão de viver. A morte não é isso. A morte é desencarne: a transmudação para uma nova vida, algo semelhante a uma metamorfose, onde o ser encontra ou aguarda entes queridos, a quem continua a amar, continuando a ser amado. Depara-se com oportunidades novas, pelas quais pode multiplicar bens e valores relativos ao seu crescimento, sempre subordinado às leis da vida — às leis do trabalho e do aprendizado — que o guiam no progredir.

Entretanto, a perda de tudo a que estamos afeiçoados, que possuímos e almejamos, pode existir. Se a isto chamarmos morte, então a morte existe. Surge quando cessamos de realizar, deixamos de ser úteis, nos acomodamos nos vícios e na transgressão da lei. Ao estacionar, nos separamos daqueles que amamos, porque, prosseguindo sua marcha, nos deixam para trás. No erro e no crime, nos vícios e na transgressão da lei, perdemos tudo que possuímos, aquilo a que estamos afeiçoados e amamos, porque compelidos a refazer experiências, a revalorizar as dádivas recebidas, a reavaliar oportunidades e a reconstruí-las.

A morte existe, mas não no desencarne. Ela reside na preguiça, na revolta, na indiferença, na ausência de luta, no desleixo dos bens que nos foram dispensados, em todas as formas de transgressão da lei que requer sejamos operosos na construção do bem comum.

B — O milagre

O milagre, como derrogação de leis naturais, não existe. Sua noção prende-se a concepções antigas segundo as quais, pelo desconhecimento das leis, os fatos inexplicáveis eram atribuídos a causas sobrenaturais, devidos à atuação de potências ocultas. E isso explica-se. O espírito, ao ingressar na fase hominal, está ainda animalizado, dominado quase que totalmente pelos instintos, com um mínimo de recursos, para satisfazer às suas necessidades primárias.

Suas preocupações maiores se limitam ao atendimento dessas necessidades — o alimento é escasso, escassas são as possibilidades de obtê-lo. Posto a ter que decidir por si mesmo, tudo na vida parece conspirar contra ele, com obstáculos que se antepõem aos seus anseios, às suas necessidades, aos seus desejos. Incapaz de entender as causas dos fenômenos e acreditando na sobrevivência, entende que os mortos adquirem poderes sobrenaturais e são a causa de tudo, segundo sua própria vontade. Por isso passa às práticas de persuasão e de entendimento com eles. Estabelece sistemas de troca, de intercâmbio, nos quais reside o significado dos ritos e cultos.

Sua maior preocupação — a finalidade da vida — é obter alimentos, abrigo, vestimenta, tudo que lhe possa assegurar a satisfação de suas necessidades imediatas. Sonha com facilidades, com abundância, com o repouso, com o refastelamento na fartura, na ociosidade e nos prazeres. A luta, entretanto, desenvolve-lhe as aptidões e as faculdades.

No desenvolvimento das artes, da técnica, do conhecimento, passa a perceber que certos homens são mais capazes do que outros — deixam normas de vida que se impõem pelo que encerram de verdade e de conhecimento, em relação à vida. Nesse sentido passa a acreditar que o poder que se atribui aos mortos, uns o detêm mais do que outros. Passa a conceber os deuses. Paralelamente, desenvolve-se sua vida moral.

"Aprendendo a arregimentar riquezas, poder, a usufruir prazeres, começa a perceber que a vida é feita de outras coisas que vão se tornando cada vez mais importantes. Começa a afigurar-se-lhe o valor da amizade, do carinho, da família. Passa a entender que o homem não é um ser isolado, mas um ser social; que as necessidades da vida podem ser mais bem satisfeitas quando, além de desenvolver aptidões, aprender a granjear amigos, cultivar a simpatia, a solidariedade, a piedade, a justiça, a caridade, a sinceridade, a retidão, a economia...

Com Moisés aprende que, para melhorar as condições de vida, é preciso implantar a justiça para todos, e dispor-se à obediência a leis naturais, no campo moral, implantadas por um deus único. Com Jesus, ás noções novamente se ampliam e se estabelece que a verdadeira vida é a do espírito. Que se é importante ao homem prover sua subsistência, mais importante é prover ao desenvolvimento de suas faculdades espirituais, na prática do amor.

Deus não é só justiça, mas é também amor. Governa por leis naturais, de amor, que o homem deve conhecer e praticar, porque, nisto, está o seu progresso — a salvação. Os bens que beneficiam os espíritos não são os bens materiais: estes são meio, não fim. A finalidade da vida não está no possuir, mas está no progresso que possamos realizar; não na ociosidade, mas na luta, no trabalho, nas oportunidades que nos desenvolvem as aptidões e as virtudes. Para isso é necessário dar com toda a capacidade de realização e sentimento, para que a vida responda com as suas dádivas:

ser manso, para estabelecer a harmonia;
ser misericordioso, para estabelecer a confiança;
ser puro, para estabelecer a paz;
ser humilde, para estabelecer a cooperação;
ser caridoso, para estabelecer o equilíbrio.

A vida é regulada por leis naturais, inderrogáveis, seja no plano físico, seja no plano moral. Estas são as leis expressas no Evangelho, código de leis que importa conhecer e praticar.

C — Aptidões e virtudes

O Espiritismo, com as leis da evolução e da reencarnação, qual nova revelação — o Consolador prometido pelo Cristo — reesclarece as noções e amplia os conceitos.
Explica que o homem, recém-egresso da animalidade, destituído de recursos, para satisfazer às suas necessidades primárias, tem sua atitude voltada ao pedir:

— à árvore pede o fruto;
— à sombra, amparo;
— à caverna, abrigo;
— à fonte, água;
— ao fogo, proteção;
— à pedra, força.

E, nesse peregrinar constante pela vida, nesse estender a mão a tudo que o circunda, é que se manifesta aquele princípio divino que nele está, observando, gravando, rememorando, automatizando impulsos e respostas, desenvolvendo o seu raciocinar. Com esse desenvolver do raciocinar, guiado pelo Plano Maior, começa a intuir as causas que beneficiam o frutificar e percebe que nelas ele pode influir:

— se o chão é seco, pode ser regado;
— se infestado, purificado;
— se poluído, higienizado;
— se pantanoso, drenado;
— se árido, adubado.

Percebe que, influindo no meio de modo a provocar circunstâncias favoráveis, atua nas causas do desenvolvimento, e seu pedir é correspondido em quantidades sempre maiores, tanto quanto o forem as benfeitorias que ele produzir. Descobre, enfim, que a forma mais fecunda e atendível do pedir, é aprender a trabalhar em benefício da vida. Revela-se-nos que tudo está na natureza e tudo nela pode ser conseguido, desde que criemos em nós as possibilidades do obter, desde que desenvolvamos as aptidões que nos capacitem a obter.

Mas não só. Assim como no plano material a natureza nos dá tudo que possamos necessitar, desde que aprendamos a produzir, dá-nos todos os meios possíveis para multiplicar nossas forças, desde que aprendamos a libertá-las de seus celeiros e a manuseá-las para os devidos fins, assim no campo moral nos dá dos os meios de sermos felizes, desde que aprenda a distinguir as fontes lídimas da vida: — ser centro de harmonia, causa do bem alheio, semeadores daquilo que desejamos auferir para nós.

D — O rezar comum

Inútil o petitório aos que já se foram, na ilusão do obter fora do merecimento. A obtenção de bens não é dádiva do céu, mas é conquista feita de esforço e de amor. O amor é alimento do espírito. Ë com ele que o espírito se engrandece, se fortifica, se fortalece, desenvolve qualidades: pela prática do bem, pelo amar aos inimigos, pelo perdoar setenta vezes sete, pelo não julgar, pelo aprender a estabelecer, entre todos, paz e solidariedade.

A ascensão do espírito não se consegue com petitórios a supostas entidades poderosas, mas é uma conquista pessoal, feita de suor e lágrimas, de esforços e fadigas, de superação de si próprio, à custa de renúncia e sacrifícios, diante dos quais o Plano Maior oferece incentivo, orientação e auxílio. Porém:

— antes que solicitar as bênçãos do céu, é preciso libertar-nos dos vícios e das mazelas;
— antes que pedir amor e compreensão, é preciso amar e compreender;
— antes que pedir perdão para nossas faltas, é preciso perdoar;
— antes que pedir auxílio, é preciso auxiliar.

Mas a humanidade não compreende o alcance e o significado da revelação; permanece na superfície: paga dízimas; cumpre rituais; frequenta casas de oração, aonde leva seu petitório. Não vê senão as regras estabelecidas no credo a que se filia, cumpre-as todas à risca e, só por isso, considera-se justa, perfeita, com direito a desprezar os que não lhe seguem as atitudes.

Por mais que o Senhor envie ao homem seus mensageiros, para despertá-lo, a fim de que se lhe possa descortinar, diante do espírito acomodado, a imensa vastidão dos planos da natureza, em lugar de sentir as revelações que eles lhe trazem, os motivos para expandir-se em concordância com as dimensões da criação, ele tudo diminui, tudo nivela, tudo reduz às medidas do seu modo de ser.
Com isso não ultrapassa as fronteiras do pedir. Não concebe nada além de cumprir aquelas poucas regras já estabelecidas de longa data nos credos religiosos: o jejuar, doar moedas, acender velas em altares, fazer oferendas, promessas, penitências e o mais.

E pede dentro das limitações que sua mente estabelece: pede bens materiais, sucesso nos negócios, proteção e força para superar na guerra o inimigo... Distingue as preces: umas lhe parecem mais eficientes, outras mais adequadas, conforme o caso. Diante de um mundo em que o significado das revelações se perde, em que o homem se lança novamente à ilusão de que a finalidade da vida é obter tudo que ela possa oferecer para a satisfação dos sentidos, o Espiritismo se levanta qual nova revelação a evidenciar a realidade do espírito, da vida que continua, da evolução do espírito pelas leis que governam o mundo e lhe exigem para o progresso esforço próprio.

Impõem-lhe a renúncia ao repouso indevido, para que possa dedicar o tempo ao aperfeiçoamento próprio, sem que o desperdice, mas para que o utilize em melhorar-se. Se queremos o saber, conquistemo-lo: se desejamos riquezas, aprendamos a entender o significado e as finalidades delas, para que nos possam servir de meio útil às realizações; se ansiamos poder, aprendamos antes a ser justos e equânimes; se almejamos ser amados, aprendamos a amar, porque em tudo, enfim, é dando que recebemos.

D — A prece

No aperfeiçoar-se, no renovar-se, o homem se modifica, supera as circunstâncias que o limitam, vence-as e as transforma a seu favor.
A prece eficiente é aquela em que os pensamentos e a vibração se elevam ao mais alto grau que possamos atingir, porque, externando os melhores pensamentos e os melhores sentimentos, nos pomos em sintonia com os da mesma natureza, nos colocamos em comunicação com aqueles que têm a incumbência de nos orientar e conduzir, criando para nós as melhores influências. É aquela dirigida para o Criador, aceitando as suas leis ou vontade, a dirigida em benefício do próximo, dos necessitados de toda espécie: doentes, pobres, dementes, reclusos, da infância e da velhice abandonadas.

Diz Emmanuel: "Através da prece o homem pensa que muda as circunstâncias, enquanto ele apenas muda a si próprio, porque é através da transformação de si próprio que o homem modifica as situações." Também André Luiz, no livro, repete o mesmo quando fixa a observância de Aulus a respeito de uma prece feita por uma entidade em favor de outras, que se envolviam em determinada situação. Diz ele:

"Encontramos aqui precioso ensinamento da oração. Anésia mobilizando-a, não conseguiu modificar os fatos em si, mas logrou modificar a si mesma. As dificuldades presentes não se alteraram. Jovino continua em perigo, a casa prossegue ameaçada em seus alicerces morais, a velhinha aproxima-se da morte, entretanto nossa irmã recolheu expressivo coeficiente de energias para aceitar as provas que lhe cabem, vencendo-as com paciência e valor. E um espírito transformado, naturalmente, transforma as situações."

Em outra passagem Emmanuel explica: "À medida em que orava, funda modificação se lhe imprimia no mundo interior. Os dardos de tristeza, que lhe dilaceravam a alma, desapareceram ante os raios de branda luz a se lhe exteriorizarem do coração." A prece deve externar nossa conformação perante as leis de Deus, nossos melhores sentimentos e pensamentos: isso que Jesus ensina no Pai Nosso. E é na compreensão desta verdade que São Francisco estrutura sua inconfundível prece:

— Fazei, Senhor, de cada um de nós, um instrumento de vossa paz;
— Que onde haja ofensa, derramemos perdão;
— Onde haja discórdia, consigamos união;
— Onde haja dúvida, acendamos certeza;
— Onde haja erro, anunciemos a verdade;
— Onde haja desespero, semeemos a esperança;
— Onde haja tristeza, conduzamos alegria;
— Onde haja trevas, difundamos claridade.
— Mestre bem amado, não procuremos ser consolados, mas procuremos consolar;
— Não busquemos ser compreendidos, mas busquemos compreender;
— Não desejemos ser amados, mas desejemos amar;
— Porque é dando que recebemos; é esquecendo-nos, que nos encontramos;
— É perdoando, que somos perdoados;
— É morrendo, que ressuscitamos para a vida eterna.

Realizar para a produção do bem comum, desenvolver na prece o melhor de nós mesmos, eis as forças que nos favorecem o engrandecimento. Por isso, Emmanuel assim nos exorta:

— Clareia para que te clareiem.
— Auxilia para que te auxiliem.
— Estuda, servindo, para que o cérebro, hipertrofiado, não te resseque o coração distraído.
— Indaga, edificando, para que a inércia te não confunda.
— Fortalece o bem, para que o bem te encoraje.
— Compreende a luta do próximo, a fim de que o próximo te entenda igualmente a luta.
— Lembra-te, pois, da eficácia da prece e ora, fazendo o melhor, para que o melhor se te faça, sem te esqueceres jamais de que toda rogativa alcança resposta segundo o nosso justo merecimento,


Rino Curti