LEIA SEMPRE, LEIA MUITO

É preciso ler, ler sempre, ler muito, ler bem. A leitura nos ajuda a formar as nossas faculdades intelectuais e a ampliar a nossa sensibilidade estética. É pela leitura que nascemos para a vida intelectual. É após a leitura que aprendemos a arte de escrever, que nos tornamos mais críticos e observadores. Conforme nos diz Albalat: "A leitura é a mais bela e nobre das paixões, nutre a alma como o pão nutre o corpo". (Albalat, A formação do estilo)

Conta-se que Napoleão Bonaparte, prisioneiro dos ingleses em Santa Helena, reclamava de seu carcereiro Hudson Lowe, dizendo: "Este homem deveria compreender que o exercício é tão necessário a meu corpo, como a leitura, a meu espírito" .

A leitura, não raro, nos tira das agruras do mundo e nos leva para uma região distante, permitindo-nos que, ao voltar deste mundo ideal, possamos viver melhor a nossa realidade. Sobre esta questão escreveu Augusto Meyer ( 1902-1970) em seu livro "À sombra da Estante".

Ler um livro é desinteressar-se deste mundo comum e objetivo para viver em outro mundo. A janela iluminada noite a dentro, isola o leitor da realidade da rua, que é o sumidouro da vida subjetiva. Árvores ramalham. De vez em quando, passam passos. Lá no alto, estrelas teimosas namoram inutilmente a janela iluminada. O homem, prisioneiro do círculo claro da lâmpada, ligado a este mundo pela fatalidade vegetativa de seu corpo, está suspenso no ponto ideal de uma outra dimensão, além do tempo e do espaço. No tapete voador, só há lugar para dois passageiros: o leitor e o autor.

Afonso Karr, certa ocasião, chamou a leitura de uma ausência agradável de nós mesmos. Trata-se, porém, de uma ausência produtiva e não de um fenômeno de alienação ou de escapismo.

Quando se fala em ler, entretanto, devemos distinguir entre os grandes e os pequenos textos, ou seja, entre os textos poéticos e os textos de consumo. Normalmente os textos de qualidade são mais difíceis e o leitor iniciante tende a se desgostar deles por não conseguir compreendê-los bem. Diz Albalat:

Se um livro, reputado como bom, vos custar a ler, dominai-vos. Acostumai-vos a compreender aquilo de que não gostais para que venhais a gostar daquilo que não compreendeis.

O bom livro, portanto, é aquele que resiste a ser conquistado, que exige reflexão, que nos leva a outras leituras e nos convida a ir aos dicionários e enciclopédias de modo que o leitor, sem o perceber, sai da leitura mais rico do que quando a começou. O livro de consumo, ao contrário, é um livro fácil de ser lido, que a gente até pode ler com gosto, mas que ao final da leitura nada nos deixa e dias depois, não mais nos lembramos dele.

Certa vez um colega meu, que não gosta de ler, me disse que eu deveria ser uma pessoa muito solitária,uma vez que, segundo ele imaginava, eu passava todo o tempo lendo. Então, por brincadeira, disse a ele: "Você está muito enganado, não sou, nem um pouco, uma pessoa solitária. Ainda ontem mantive uma conversa muito animada com um senhor muito interessante chamado Sigmund Freud. Conversamos sobre religião e ele ma falou com uma profunda convicção que as religiões são ilusões criadas pelo homem por causa do sentimento de orfandade. Falou-me ainda, que Deus é uma criação humana e que, em verdade, ele seria o Pai primordial assassinado pelos filhos na horda e elevado à condição de divindade. Ele ficou muito admirado e balançou a cabeça como se julgasse que eu estava com um parafuso a mais ou a menos.

Depois, lendo o "Discurso Sobre O Método" de Reneé Descartes (1596-1650) encontrei a seguinte passagem:

A leitura de todos os bons livros é como uma conversa com os melhores espíritos dos séculos passados, que foram seus autores, e é mesmo uma conversa estudada, em que eles descobrem para nós seus melhores pensamentos.

O Espiritismo, dentre todas as religiões é a que melhor está relacionada com a leitura. Allan Kardec possui uma frase muito interessante: "Espíritas, amai-vos, eis o primeiro mandamento. Espíritas, instrui-vos, eis o segundo". O Espírita mais do que qualquer outro religioso precisa ler e não só os livros da doutrina espírita, o chamado Pentateuco Kardequiano formado por cinco livros:

• O Livro dos Espíritos

• O Livro dos Médiuns

• O Evangelho Segundo o Espiritismo

• O Céu e o Inferno

• A Gênese

Mas também os livros mediúnicos, estes selecionados criteriosamente, os chamados clássicos do Espiritismo como: Léon Denis, Ernesto Bozzano, Alexandre Aksakof, Lombroso, Paul Gibier, Conan Doyle, Wiliam Crookes e muitos outros. Se for possível, deve ainda dedicar-se à cultura não espírita entrando em contacto com os grandes livros da humanidade. Esses livros, à luz do Espiritismo poderão ser melhor apreciados e mesmo melhor aproveitados.

José C. Leal