NÃO TENHA MEDO DE MUDAR

"NÃO TENHA MEDO DE MUDAR"

Existem muitas pessoas que gostam de fazer afirmaçôes enfáticas como:

- Eu sou assim, assim mesmo que eu sou; eu não mudo, não sou uma Maria vai com as outras; eu tenho personalidade; quando eu empaco, empaco mesmo; nasci assim e vou morrer assim; vai ter que me engolir, como eu sou; não dou meu braço a torcer, entre outras menos cotadas. Pensam essas pessoas que, com estas frases estão mostrando que são fortes e duras; mas em verdade estão sendo apenas teimosas.

Mudar de comportamento é a coisa mais interessante que um ser humano pode fazer por si mesmo. Há pessoas que passam a vida toda repetindo um erro que lhes rende um mau resultado e não percebem que, se faço sempre a mesma coisa e do mesmo jeito não posso esperar um resultado diferente.

Na minha juventude conheci um homem que adorava jogar buraco. Todo o seu tempo vago reunia-se com os amigos para jogar buraco e, assim, passava as tardes de sábado e os dias de domingo jogando buraco. Como tinha alguma intimidade com ele, sugeri que ele se ocupasse de uma outra coisa aos domingos, fosse pescar ou praticar um esporte mas ele me disse que gostava de jogar buraco e nada neste mundo era mais importante para ele, além disto, para que mudar de hábito? O buraco nenhum mal lhe fazia. Ele não percebia que, enquanto jogava buraco, perdia oportunidade de crescimento com a leitura, com os jogos esportivos com uma sessão de teatro ou cinema. O hábito de jogar buraco havia colocado o seu Rafael, esse era o nome dele, em um buraco verdadeiro de onde ele nada mais via senão as canastras que ia, maquinalmente, arrumando sobre a mesa.

Um dia em que eu insisti um pouco mais com ele sobre ocupar o seu fim de semana de outro modo, ele me disse: menino, para de bobagens. Você não vai me mudar porque eu não quero. Vou jogar buraco até morrer e enquanto tiver parceiros e, de fato foi assim. Jogou buraco até meses antes de sua morte e, deste modo, jogou fora uma vida que poderia ter sido mais útil ao próximo e a ele mesmo.

As pessoas que pensam assim, que acham que os que mudam, são pessoas sem caráter, seres fracos que não sabem o que querem e, com esse pensamento laboram em erro, pois só as pessoas fortes não temem o novo e mudam suas vidas. Conta-se que Mahatma Gandhi, fez um discurso em Nova Deli, defendendo uma determinada tese. Uma semana depois, em Bombain fez outro discurso sobre o mesmo assunto, porém, tomou um caminho oposto ao que trilhara no discurso anterior. Bapu, sua sobrinha, o teria questionado:

- Tio, mas o senhor disse hoje o contrário do que disse na semana passada. - Bapu, em uma semana se muda muito. Eis uma frase interessantíssima: em uma semana se muda muito.

Poucas pessoas se dão conta de que a essência do evangelho é a MUDANÇA. O que Jesus deseja de nós é que abandonemos velhas posturas, antigos hábitos nocivos para assumir novas posições perante a vida. Quando Jesus diz à mulher adúltera: "Vai e não peques mais", ele está falando de mudanças. A mulher teria que modificar a sua vida e se tornar uma nova criatura. No momento em que, conversando com o rapaz muito rico, que deseja saber eomo alcançar o Reino de Deus, Jesus lhe diz para vender o que tinha, dar aos pobres para ter um tesouro no céu. Novamente o Cristo fala de mudanças. O rapaz, até aquele momento, estivera valorizando os bens materiais e Jesus pede que ele mude a sua atitude e inclua em sua vida o desapego.

Gostaria de dar alguns exemplos de pessoas que mudaram as suas vidas radicalmente. A primeira é a de um homem que se dizia fariseu, filho de fariseu e disto se orgulhava muito. Chamava-se Saulo (Saul) e era natural de Tarso, na Cilícia. Saulo assim que ouviu falar do Cristianismo, encarou a nova crença como uma espécie de praga corrosiva do Judaísmo e que, por isso, deveria ser combatida com todas as armas que estivessem ao alcance do Templo. Pensava, como mais tarde pensaria Maquiavel, que os fins justificariam os meios. Tomado de verdadeira obsessão, Saulo participa da morte de Estêvão por apedrejamento. Investido da autoridade do Templo, ele invade as casas dos cristãos e os arrasta às prisões. Não satisfeito, ele pede permissão por escrito ao Templo para combater a seita dos cristãos em Damasco.

Conseguida a carta, ele parte para a grande cidade fervendo de ódio. Imagina que, em lá chegando, com o seu pequeno destacamento, esmagaria o conluio cristão em um abrir e fechar de olhos e, assim, prestaria um inestimável serviço ao Templo de Jerusalém.

Jesus, porém, estava muito interessado naquele rapaz que havia, naquela encarnação, se comprometido com a pregação do Evangelho para os gentios e tinha se esquecido desta tarefa; por isso foi encontrá-lo na Estrada de Damasco. Naquele dia, o antigo fariseu e perseguidor dos cristãos, deu um novo sentido à sua vida. O homem que cai de sua montaria e rola pela poeira cego pela luz que o envolvera, levanta-se e, naquele mesmo momento, torna-se um outro homem.

Poucos lutaram por uma causa que antes haviam negado com a energia, força e coragem como o fez Saulo de Tarso. Ele enfrentou, inicialmente, a desconfiança dos apóstolos que não acreditavam em sua conversão; fez inúmeras viagens pelo Evangelho; semeou igrejas pelo mundo não judaico; converteu pessoas; orientou os seus convertidos pessoalmente e através de cartas, onde formulou uma verdadeira teologia e, ao longo de sua nova vida, buscou de tal modo seguir o Cristo que, em um certo momento, ele diz: "Já não sou mais eu quem vive, é Cristo que vive em mim". Assim, Paulo se toma um exemplo de que é possível mudar comportamentos, redefinir nossos projetos de vida e abandonar o homem velho que ainda grita em nós nos subterrâneos do espírito.

A segunda pessoa é um jovem nascido em Tagaste no dia 13 de novembro de 354 de Nossa Era. Chamava-se Aurelius Agostinus que, mais tarde, será chamado Santo Agostinho. Seu pai, Patrício, era pagão e sua mãe, Mônica, havia se convertido à fé do Cristo. No início de sua vida, buscou aformosear a alma intelectualmente, estudando as matérias que um homem culto de sua época deveria conhecer. Seu tempo vago, ele o gastava na companhia de jovens tão estróinas quanto ele, entretanto, no fundo da alma desse rapaz havia uma íntima insatisfação com a vida, que ele tentava dissipar com as diversôes que lhe estavam à mão naquele tempo.

Ao seu lado, incansável, Mônica tentava ganhá-lo para Jesus, entretanto, ele resistia, talvez por considerar a religião de sua mãe, demasiadamente simples para as suas pretensôes intelectuais. Filiou-se, então, ao Maniqueísmo do qual participou intensamente. Continuava, porém, angustiado. Um dia, conduzido por suas emoções, acomodou-se sob uma figueira que ficava aos fundos do jardim de sua casa.

Ali, enquanto meditava, ouviu uma canção cantada por uma criança que ele ouvia, mas não via. A canção repetia: "Toma e lê". Jamais ouvira aquela canção em parte alguma, mas, pelo estilo, lhe pareceu um texto de Paulo. Voltou a casa e tomou o Evangelho de Mônica, abriu nas cartas de Paulo e a primeira coisa que leu foi o seguinte:

"Caminhemos, não nas orgias e na embriagues, não nas alcovas e nas impudicícias, não em rixas e em invejas, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não tenhais cuidado com a carne, mas sim em dela desarraigardes os apetites".

Terminada a leitura desta passagem da carta de Paulo aos Romanos, sentiu-se como se lhe fossem abertos os olhos do espírito e pesadas correntes que o atavam aos vícios fossem quebradas; em uma palavra, sentiu-se liberto. A partir deste momento, nasce um outro Agostinho, um Agostinho preocupado com a tarefa de evangelizar e de amar o Cristo.

Cristão agora, dedica-se à tarefa de combater os hereges e a ensinar, em suas muitas obras, o que ele acreditava ser o caminho da graça de Deus. Dedica-se, também, a combater as heresias que ele acreditava serem desvios do espírito verdadeiramente cristão. Se o leitor quiser conhecer a trajetória espiritual de Agostinho, sugiro a leitura de seu livro que tem o sugestivo título de Confissões, um dos documentos mais fortes, belos, sinceros e pungentes cujo conteúdo é o relato de uma alma que se despe corajosamente e se mostra com todas as suas imperfeições e vícios, mas que, em um certo momento, decidiu ser outro e romper com o passado.

O terceiro exemplo nos vem da Itália, mais precisamente, da aldeia de Assis onde em 1182, nasceu uma criança que se chamou Giovanni Bernardone, filho de um mercador opulento.

O nome Francesco (Francisco) foi um apelido que o menino tomou. Quando mais crescido, tomou-se de afeição e apreço pela cultura de França. Na sua juventude levou uma vida de prazeres própria dos jovens de famílias ricas que não tiveram uma segura orientação moral. Foi prisioneiro de guerra aos vinte anos de idade, passando um ano nas prisões de Perusa.

Assim viveu Francesco até que foi abatido por uma doença que o prostrou em um leito durante algum tempo. Recuperado da enfermidade, Francisco vai a um templo onde escuta uma voz que lhe diz: "Francisco salva a minha Igreja". De início, ele não compreende muito bem a mensagem que lhe vinha do alto, mas, por fim, chega à conclusão de que deveria abandonar a sua antiga vida e dedicar-se ao serviço religioso. Assim, funda um movimento cuja finalidade era fazer a Igreja voltar aos tempos primitivos e a vida apostólica, caracterizada pela pobreza e pelo desapego das coisas materiais. O poeta, porém, não desaparece por trás do monge, apenas reorienta a sua vida, as suas emoções e a sua poesia, no sentido de servir ao Cristo.

Até aqui as pessoas que nos lêem podem ter a impressão de que os nossos exemplos foram retirados de espíritos de maior evolução. É verdade, entretanto, se o leitor prestar bem atenção no seu dia-a-dia, há de ver um grade número de pessoas comuns que reorientaram suas vidas e fizeram mudanças pequenas ou grandes. Esses espíritos aos quais nos referimos eram missionários desviados, por isso, foram advertidos pela espiritualidade, que os lembrou de suas tarefas na Terra. Nós não temos a pretensão de estar na terra em missão mas em provas e expiações e, asssim, não devemos esperar que surjam vozes do Alto a nos pedir mudanças em nossas vidas. Em nosso caso, a mudança deve vir de dentro, da necessidade de não continuarmos com os erros do passado e matar o homem velho para que surja uma nova criatura em Jesus Cristo. Isso é perfeitamente possível, principalmente, se iniciarmos com as pequenas mudanças para um dia fazermos as grandes.

Uma outra questão interessante é a da pessoa que não muda, apesar dos problemas que a sua forma atual de vida lhe causam e vivem a se lamentar, mas nada fazem para mudar. São pessoas que sofrem com os casamentos problemáticos; com o emprego que não suportam; com o curso universitário que detestam; com a apatia do lugar em que moram; com o próprio corpo e assim por diante. Essas pessoas me fazem lembrar a seguinte história:

Um homem parou com o seu automóvel em um posto de gasolina para abastecer o veículo. Estava esperando os frentistas quando escutou um gemido prolongado e lamentoso. Penalizado, desceu do carro e perguntou ao gerente do posto:

- Quem está gemendo?

- É um cachorro.

- Ele está doente?!

-Não.

- Por que, então, geme tanto?

- Está deitado sobre um prego.

- Porque não se levanta?

- Porque não está doendo o suficiente.

Está é a situação de muitas pessoas que vivem durante longo tempo suportando humilhações, zombarias, maus tratos, insatisfações e, como o cachorro, em vez de dar um basta ao incômodo, suporta-o até a exaustão. O pior é que não há nesse comportamento verdadeiro estoicismo, uma vez que vivem reclamando do seu estado. Sofrem por medo de operar mudanças, apenas por isso e tornam suas vidas um longo martírio, que nada acrescenta à sua vida espiritual.

José C. Leal