O QUE AS PESSOAS PENSAM DE NÓS

Deixe-me começar este capítulo com uma antiga história que li em um livro antigo de língua portuguesa, colocada em versos pelo Barão de Paranapiacaba. A história se chama O Moleiro, O Filho e O Burro.

Vamos a ela: havia em uma aldeia um homem muito pobre que vivia em companhia de seu único filho. Um dia, a fome chegou ao extremo e não tendo dinheiro para comer o homem decidiu vender um burro, único animal que possuíam e que lhes podia reder algo. O pai, então, chamou o filho e lhe disse:

- Filho, vamos levar nosso burrinho para a feira.

- Sim, pai.

- Eu decidi o seguinte: para que o burrrinho não fique muito cansado e chegue à feira com mau aspecto, vamos amarrá-lo em um varal e levá-lo nas costas.

- Está bem, pai. Assim o faremos. Assim pensado, assim feito. O pai pegou o animal amarrou-lhes as patas no varal e colocou nas costas dele e do filho e lá se foi rumo à feira.

Em caminho, ao passar pela frente de uma taberna um grupo de desocupados, ao vê-los, gritaram: o que é aquilo lá? Nunca se viu coisa assim! Desde que o mundo é mundo, os burros foram feitos para levar pessoas, mas as coisas estão mudando e as pessoas vão levando o burrro. Não se sabe ali quem é o mais burro dos três".

O moleiro, ouvindo isto, falou ao filho: - Filho, aquelas pessoas estão com razão. De fato não tem sentido levar um burro nas costas quando se pode montar nele.

- É isso mesmo, pai.

Ato contínuo, os dois pararam, desataram as patas do animal e montaram nele. Quando passaram em frente a uma fábrica onde os operários estavam entrando, uma mulher falou indignada:

Coitado do burrinho, tão pequeno e carregando aqueles dois mandriões que não têm pena do bichinho.

O moleiro parou e voltou a falar ao filho: - É, meu filho, eu não havia pensado nisto. Vamos aliviar o peso do burrinho. Você monnta e eu vou puxando.

- Como quiser, papai.

Assim seguiram, certos de que estavam fazendo a coisa correta. Perto de uma igreja, o cura que estava na porta, disse com acrimônia: Meu filho, que ato perverso. Você montado e seu avozinho, já velho e cansado puxando o burro!

Desta vez foi o menino que, parando, observou:

- Mais uma vez erramos, papai. Monte você que eu vou puxando.

- Está bem, filho.

E assim a viagem continuou, entretanto, ao passar por uma aldeia próxima à feira, uma jovem, admoestou o moleiro: Velho malvado! Não tens vergonha? Tu repimpado na montaria e o menino ao sol, puxando o burro!

Perguntamos: qual é o modo correto de levar o burro? A resposta é simples é o modo que nós escolhermos, porque, se ficarmos dando atenção a tudo o que as pessoas dizem, não vamos contentar a ninguém. Não devemos nos esquecer de que a nossa vida é nossa e nós, somente nós, somos responsáveis por ela. Um dia, quando voltarmos ao plano espiritual, os nossos mentores nos perguntarão? O que fizeste de tua vida? E de nada adiantará dizer que cometemos erros por seguir conselhos errados.

Não queremos dizer que não devamos ouvir os conselhos das pessoas que consideramos mais experientes e que, portanto, nos podem ajudar. O que se quer dizer é que não podemos nos deixar influenciar pela opinião alheia e como uma folha seca, ser levados pelo vento de um lado para outro. Um conselho não é para ser seguido com base na emoção, mas para ser objeto de uma longa e atenta reflexão. Um conselho deve ser examinado com base no bom senso e na razão. Quem ouve um conselho deve separar os prós e os contras e verificar as conseqüências das ações aconselhadas.

No caso dos conselhos, há ainda um fato muito interessante: muitas pessoas não pedem conselhos para segui-los mas para saber se a opinião do conselheiro é igual à sua. Em verdade, essas pessoas querem que o conselheiro funcione como reforçador da decisão que ela tomou. Uma mulher diz a sua amiga:

- Cristina, preciso de um conselho seu.

- Do que se trata, Isabel?

- Acho que o meu casamento acabou.

- Acabou?

- Nada mais tenho a dizer ao Mauro nem ele a mim.

- Bem. Eu acho que a separação é precipitada. Afinal são dez anos de casamento. Será que nada mais restou deste relacionamento, nem os filhos?

- Minha filha, meus filhos não me prendem. Eles tem a vida deles, além do mais eles são testemunhas do que acontece aqui em casa. A Lucinha mesma, disse que, para viver brigando, é melhor separar-se.

- Mesmo assim, Isabel, uma separação é sempre uma separação, deixa marcas.

- Ué! Você não se separou do Paulo?

- Mas a minha separação foi diferente.

- Não sei em que.

Vamos ver esse exemplo: Isabel se apresenta a Cristina como alguém que, aparentemente, precisa de um conselho para tomar uma decisão importante. Abre a conversa dizendo o que esperava da amiga e esta expõe o seu ponto de vista. Ao ouvi-lo, Isabel reage. Outros argumentos são colocados e Isabel reagindo sempre, o que significa é que ela já decidiu deixar o marido e, como é insegura, busca em Cristina o reforço necessário para concretizar a separação. Se Cristina houvesse dito: "concordo com você, foi bom enquanto durou". Talvez Isabel houvesse dito: Muito obrigada, Cristina, seguirei o seu conselho. Em verdade, Isabel ouviu o que desejava ouvir.

Quando leciono, sempre que posso, exponho às pessoas a teoria das vozes: No mundo ouvimos muitas vozes, umas mais altas, outras mais baixas, umas mais fortes, outras mais fracas. Quando somos pequenos ouvimos as vozes de nossos pais, nos ensinando o que é certo e o que é errado; depois, vamos para a escola e ouvimos as vozes de nossos professores, ao mesmo tempo em que também ouvimos as vozes de nosssos colegas. Ouvimos ainda, as vozes poderosas da mídia e as vozes envolventes das religiões. A pessoa inteligente é aquela que consegue, ouvindo todas essa vozes, formar a sua voz que, apesar de ser uma espécie de síntese de todas essas vozes, é uma voz única porque é nossa e por nós foi construída.

José C. Leal