CARIDADE

A noção de caridade está posta na parábola do bom samaritano. (Evangelho de Lucas, Cap. 10; vers. 25 a 37)

Nela se narra sobre um homem assaltado, ferido e abandonado no caminho por malfeitores, pelo qual passam um sacerdote e um levita, sem parar. Um samaritano, entretanto, ao se deparar com ele, condoído, o acode. Leva-o para uma estalagem e lá o deixa, sob cuidados, responsabilizando-se pelos gastos.

A Caridade está simbolizada na ação do samaritano que, embora menos esclarecido que os outros, quanto à lei de Deus, concretiza o auxílio. Quanto à moral, nada melhor a exprime do que esta frase de Neio Lúcio em:— "Cultura e santificação representam forças inseparáveis da glória espiritual. A sabedoria e o amor são as duas asas dos anjos que alcançaram o Trono Divino, mas, em toda parte, quem ama segue à frente daquele que simplesmente sabe."

Buscando uma definição para a caridade, deparamo-nos com esta outra frase, de Emmanuel, em torno da Caridade: "Não olvides que a caridade é o coração no teu gesto." À guisa de definição diremos então: — "Caridade é amor na ação".

Mais uma vez vemos o Espiritismo a reformular conceitos, a ampliá-los, a revolver-lhes o conteúdo, para clarificá-lo — aprofundar-lhe o sentido. Com ele vemos a noção de caridade sair daquele conceito restrito de auxílio direto ao semelhante, para constituir-se numa característica que tipifica a ação — toda ação, relativa às nossas manifestações. É amor na ação.

A — O amor no pensamento

Passemos a esclarecer: Antes de tudo, entendemos por AMOR o conjunto dos sentimentos e desejos que nos determinam o agir na produção do bem comum, sujeitos à evolução, conduzida pelo livre-arbítrio e discernimento de cada um. Vontade e discernimento são os dois elementos que, com base na experiência, se ampliam, se desenvolvem e pelos quais se nos fixam os motivos a que nos afeiçoamos, os anseios que acalentamos, os interesses que cultuamos, pelos quais nos tornamos responsáveis.

Sobre eles, e com frequência por eles determinada, se nos estrutura o pensamento qual irradiação a propagar-se, a veicular energia, ativando, primeiramente, nossos recursos. Espraia-se por nossa organização fisiopsicossomática e estabelece influência benéfica ou injuriosa, segundo o teor dos pensamentos que o geraram. Propaga-se qual onda eletromagnética para influenciar, da mesma maneira, mentes que com ele se sintonizam que, a seu turno, nos influenciam.

Estabelece-se regime de permuta no qual, com base nos fenômenos de telementação, reflexão e associação de idéias, se nos reforça o teor dos pensamentos, se nos enriquece o conteúdo e se nos acresce o cabedal com os dados intercambiados. Os pensamentos de amor exercem ação benéfica, fortificam as mentes, fortalecem os espíritos, desenvolvendo-lhes qualidades, além de protegê-los contra os pensamentos de natureza inferior.

Qual aparelho de rádio que, sintonizado em uma estação, impede a captação da transmissão feita por outra estação, assim a mente que emite uma irradiação sintoniza-se, dentro de certa faixa de frequência, com outras, de forma seletiva, impedindo que outros pensamentos, mesmo se intencionalmente dirigidos, a atinjam e a influenciem. O primeiro aspecto da caridade consiste, portanto, em acalentar, em relação a tudo aquilo com que nos relacionamos, sentimentos de amor:

piedade, para aquele que desespera;
benevolência, para aquele que erra;
compreensão, para aquele que não nos alcança;
paciência, para quem nos padece orientação;
comiseração, para quem sofre;
tolerância, para quem não nos entende;
compaixão, para o miserável;
bondade, para quem convive conosco;
disciplina, na realização de propósitos;
energia, na sustentação do bem comum;
fortaleza, perante os embates;
renúncia, perante o interesse geral;
lealdade, para o compromisso assumido;
dedicação, às tarefas que nos são atribuídas;
humildade, no servir;
coragem, frente ao desconhecido;
altanaria, no coração;
, a nos guiar a caminhada;
estudo, para ampliar os horizontes;
perdão, para aquele que nos ofende;
esquecimento, para a injúria.

B — O discernimento para a ação

Cabe-nos, primeiramente, povoar nossa mente de pensamentos de amor. Mas não somente para cultivá-los dentro de nós; mas para traduzi-los nos gestos, na ação. Sem ficar adstritos à edificação de belas teorias, impedindo a concretização delas nas realizações de ordem prática a que possam conduzir; nem permanecer ensimesmados nos temas de nossa predileção, ignaros da colaboração que os que conosco convivem esperam de nós.

Não há âmbito de desenvolvimento do espírito que possa ser percorrido sem ampliação do conhecimento, secundado pela sua equivalente realização prática. O exercício, a prática, a realização das obras que o conhecimento preconiza, são os que o consagram, consolidam suas conquistas, abrem-lhe caminho para novas aquisições, novas reformulações, os que estabelecem mútuo revigoramento, que a todos faz crescer. Permanecer adstrito às aquisições de conhecimentos, sem a correspondente realização de obras, é dirigir-se para a inutilidade, afastar-se da realidade, adentrar-se nos domínios da fantasia; é construir falsos valores para a possibilidade de se melhorar.

É imperioso vencer inibições, desenvolver aptidões, traduzir o mentalizado em obras de boa vontade, guiar as mãos operosas na produção do bem comum; possibilitar ensinamento, fraterno e edificante, transmitindo a própria experiência, para quem se proponha a ouvir; induzir o surgimento da saúde, da paz, da fraternidade, das bênçãos do serviço, da prosperidade, do contentamento de viver, para que o discernimento se nos alargue, e as virtudes se nos consolidem.

Certamente que não poderemos nos desmanchar em atenções para tudo e para todos, mesmo porque temos uma esfera de influência restrita, pela nossa própria pequenês, que nos delimita a ação. O que se nos pede é o comportamento adequado naquilo para o qual somos chamados a participar, não se exigindo vôos maiores que aqueles que possamos dar, mesmo porque, fora do âmbito que nos caracteriza, nem saberíamos nos conduzir.

Não podemos dar, a mancheias, tudo que nos pertence, mesmo porque não sabemos dispensar aquilo de que precisamos para realizar e dar cumprimento à nossa missão. Não podemos atender a toda petição, acolher qualquer lamúria, ou pretender socorrer a toda deficiência. É preciso não esquecer que, muitas vezes:

a paixão se intitula de apego e afeição;
a cobiça se oculta na concessão;
a falsidade se acoberta na adulação;
o orgulho se encapacha na humildade aparente;
a preguiça se declara impotência;
a ignorância confunde virtude com fraqueza;
— e que toda dádiva deve constituir-se no talento que se multiplica.

No exercício evangélico, também cabe o não: "Seja o teu falar sim, sim; não, não". Diz Emmanuel em:— Ama. .. mas não permitas que o teu amor se converta em grilhão impedindo-te a marcha para a vida superior. Ajuda. .. entretanto, não deixes que o teu amparo possa criar perturbações e vícios para o caminho alheio. Atende com alegria ao que te pede um favor, contudo não cedas à leviandade e à insensatez.

Cultiva a delicadeza e a cordialidade, no entanto sê leal e sincero em tuas atitudes. O sim pode ser muito agradável em todas as situações, todavia o não, em determinados setores da vida humana, é mais construtivo." A caridade não dispensa discernimento. Pelo contrário, exige-o! Dentre todos os pensamentos que possamos externar é preciso distinguir aqueles que verdadeiramente sejam cunhados pelo amor, quais os que realmente possam conduzir à ação, na produção do bem, a risco de não comprometê-la inclusive.
Mas uma vez estabelecida a necessidade legítima, há que prestar concurso que nos compete.

Conta Neio Lúcio, que o Poderoso Pai, certa vez, em que pairava perigosa crise de ignorância e perversidade sobre a terra, enviara mensageiro da Ciência, com gloriosa mensagem. Este fez-se professor e permaneceu exclusivamente interessado nas obras da Ciência, enojado da multidão inconsciente. Não atendendo ele aos compromissos assumidos, requereu-se o envio de outro que se tornou médico admirado e dedicou-se somente a enfermos importantes, desprezando a plebe.

Depois de outras tentativas mal sucedidas, enviou mensageiro de amor. Este, compungido, passou a agir em benefício geral. Identificado com o povo, sabia repetir o ensinamento, tanto quanto necessário. Desculpava, mesmo se humilhado e ofendido, qual se tratara de desafio à sua capacidade de persistir na ação regeneradora que o Pai lhe confiara, entendendo que as mais baixas manifestações da natureza humana eram atestado de desconhecimento da grandeza do Pai, a requerer-lhe maior esforço de ação regeneradora.

Concluiu ele: "Foi assim, fazendo-se o último de todos, que conseguiu acender a luz da fé renovadora e da bondade pura no coração das criaturas terrestres, elevando-as a mais alto nível, com plena vitória na divina missão de que fora investido." Não vivemos só. Vivemos em convívio social, em dependência, uns dos demais. Por isso não podemos ater-nos somente ao pensamento bem formado, na atitude inoperante de quem só se contenta em saber, distraído nos limites do regozijo interior.

Diante do desespero, ofertar o concurso amigo;
do erro, o corretivo que educa;
da ignorância, o esclarecimento;
do que busca orientação, paciente ensino;
do sofrimento, o atendimento;
da ofensa, o silêncio;
da miséria, o oferecimento;
do companheiro, a amizade e confiança;
do caminho, o cumprimento do dever;
da meta a atingir, o esforço de vontade;
das dificuldades, a operosidade;
do bem geral, a subordinação do próprio.

Qualidade sem ação nada significa e caridade é qualidade em ação.
Por isso, Paulo (1.a Epístola aos Corínthios, Cap. 13, vers. 1 a 7) dizia:— "Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. Ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transformasse os montes, e não tivesse caridade, nada seria.

E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse caridade, nada disso me aproveitaria. A caridade sofredora é benigna; a caridade não é invejosa; a caridade não trata com leviandade, não se ensoberbece. Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta."

Para que possamos exercer a caridade em toda a sua plenitude, em toda a sua extensão, exige-se-nos edifiquemos todo o conhecimento, todas as aptidões, todas as virtudes, para a prática do amor em toda a sua amplitude.

No nosso estágio ela limita-se ao amor que possamos colocar em nossas ações. E visto que o amor é alimento do espírito; que só ele constrói; que sua prática encerra o acervo de recursos de que podemos dispor, para a efetivação do nosso desenvolvimento, claro se nos torna o ensinamento evangélico, pelo qual: FORA DA CARIDADE NÃO HÁ SALVAÇÃO.

Rino Curti