Conclusão

"A perfeição, como asseverou Jesus, encontra-se inteiramente na prática da caridade sem limites, pois os deveres da caridade abrangem todas as posições sociais, desde a mais ínfima até a mais elevada. Nenhuma caridade teria a praticar o homem que vivesse isolado. Somente no contato com semelhantes, nas lutas mais penosas, ele encontra a ocasião de praticá-la. Aquele que se isola, portanto, afasta de si, voluntariamente, o mais poderoso meio de perfeição: só tendo de pensar em si, sua vida assemelha-se à de um egoísta. "
(Allan Kardec. O Evangelho Segundo o Espiritis­mo. Capítulo XVIII. Sede Perfeitos. O Homem no Mundo. Um Espírito Protetor.)


Após a vinda do Meigo Rabi da Galiléia entre nós, nos dias distantes da Palestina, muitos rumos empreendemos para conduzir a sua Boa-Nova. Lamentavelmente tomamos sempre os atalhos que mais satisfizeram nossos apegos e interesses em cada época.

Com a institucionalização, em Roma, do Cristianismo, certamente decidido com a melhor das intenções dos potentados contemporâneos, seguiram-se as páginas sombrias da força, do desamor e da perseguição, culminando-se com as atrocidades dos inquisidores da Idade Média, que tantos imolaram em nome do Cordeiro de Deus.

Foi impraticável conciliar o modelo de caridade, na vida humilde e pura que Francisco de Assis reviveu do Cristo, com as pretensões da corte hierárquica que a poderosa Igreja de Roma, ricamente ornamentada, chegara a estabelecer; os absurdos contrastes que se perpetuaram até nossos dias. Em vão, quem está no poder parece que dele não quer abdicar...

Era sacrificial e significava expor a vida às feras, ou nas fogueiras, declarar-se, no princípio, seguidor do Sublime Filho de Nazaré. Os que por Ele foram tocados revestiam-se espontaneamente de uma coragem inquebrantável, a tudo resistindo com amor e serenidade.
Quais seriam as experiências íntimas profundas, vividas na alma daqueles primeiros cristãos? Que amor! Que devoção!
Aqueles que conviveram mais diretamente com Jesus e Dele receberam o impulso magnético renovador, experimentaram verdades profundamente entendidas e passaram a viver no mundo fora do próprio mundo. Mudaram os seus objetivos e o sentido da existência.

Começaram se agrupando na Casa do Caminho para realizar a caridade, disseminando dali, entre aqueles abrigados pelo sofrimento, a mensagem do Evangelho exem­plificado. Cumpriram, os primeiros discípulos, a tarefa de propagação dos ensinamentos do Mestre de Amor, vivenciando-os no trabalho diário. Eram eles respeitados pelo que realizavam em favor do próximo, com desprendimento e por dedicação a uma causa.

Séculos transcorreram, mas as suas boas obras resistiram e continuaram a espalhar nos homens simples a semente do Evangelho Imortal... Quantos exemplos deixaram para ser seguidos? Quantas criaturas conduziram ao rebanho do Bom Pastor? Viver hoje com Jesus também é ainda muito difícil...

Os sacrifícios físicos aos quais eram submetidos aquelas pobres criaturas desapareceram. As dificuldades hoje estão dentro do próprio homem e não mais fora dele. Como resistir aos próprios impulsos hoje? Esse é o desafio a enfrentar, em lugar das feras, das lanças perseguidoras ou das fogueiras ardentes de ontem!

Ninguém tem os seus dias contados na atualidade por seguir qualquer líder religioso ou dedicar-se a qualquer filosofia. O problema está em querermos hoje sair do comodismo, em renunciar à satisfação dos prazeres sensoriais, de tudo que nos é pertencido e que muito nos agrada, como os vícios, por exemplo. Ninguém hoje aceita o sofrimento com resignação por entender que os aflitos serão bem-aventurados e consolados... Ninguém resiste às reações de orgulho por desejar cultivar a humildade, na compreensão de que os pobres de espírito serão bem-aventurados e deles será o reino dos céus...

Ninguém controla ou combate o desenfreado adultério, praticado livremente ou mesmo por pensamento, por acreditar que os puros de coração serão bem-aventurados e verão a Deus... Ninguém, nesse nosso mundo, atenua a violência ou modera as agressões e ódios por deliberado esforço admitindo que os brandos e pacíficos serão bem-aventurados e herdarão a Terra...

Ninguém quer perdoar, aceitar os erros humanos, tolerar as falhas, por procurar viver compativelmente com o ensinamento de que os misericordiosos serão bem-aventurados e obterão misericórdia... Ninguém procura minorar a miséria no mundo, não apenas pela es­mola mas proporcionando aos pobres e fracos melhores condições de vida, em renúncia ao muito que possuímos, por entender que fora da caridade não há salvação...

Então, continuaremos como somos, até que as crises e as instabilidades económicas nos sacudam; os saques e os assaltos nos despertem; a destruição e as guerras fratricidas nos façam mudar as estruturas que edificamos para exaltação do orgulho e do prazer.
Nos assustam a quantidade de armas nucleares, mísseis teleguiados, aviões fantasmas e submarinos atômicos, prontos para disparar, colocados nas mãos dos mais instáveis dirigentes das chamadas superpotências. Quanta veleidade... Quanta insensatez...

Ao avaliarmos pelo grau de intolerância, vingança e ira predominante entre governantes e governados, em defesa dos seus poderes económicos e regimes políticos, é de se esperar que muito sangue ainda irá correr, muitas cabeças deverão rolar, muita dor atingirá os homens endurecidos na força para fazê-los entender que nada disso soluciona os graves e enormes problemas do homem moderno.

A nossa grande esperança é fazermos a nossa parte, o melhor possível, vivendo hoje com Jesus, nas transformações lentas para o novo amanhã, que se inicia dentro de cada um de nós, apoiados com a fé na Misericórdia Divina, que atenderá as rogativas dos corações de boa-vontade e poderá salvar este nosso planeta das autodestruições...

Ney Prieto Peres