REFORMA ÍNTIMA E PSICANÁLISE

"PARA O INDIVÍDUO SE REFORMAR INTIMAMENTE É PRECISO QUE TENHA
VONTADE DE FAZER UMA ANÁLISE INTERIOR, CONHECER-SE MELHOR.
É UM PROCESSO DOLOROSO, MAS NECESSÁRIO PARA QUE A MUDANÇA
NÃO SEJA SUPERFICIAL."

Ao se avaliar o ser humano como um todo, formado por um corpo somático, espiritual e psíquico, pode-se observar a importância dos estudos científicos no campo das ciências naturais, biologia, física, química e a própria medicina, bem como aqueles realizados pelos diversos segmentos envolvidos na compreensão da filosofia espírita de Allan Kardec e os fenômenos espirituais, com suas leis imutáveis que estão ligadas aos ensinamentos de Jesus.

Do ponto de vista psíquico, a compreensão humana a respeito de seus atos manifestos, conteúdos inconscientes, conflitos ambivalentes entre razão e emoção, amor e ódio, bem como suas consequências nos relacionamentos sociais, familiares e capacidade produtiva do trabalho, começaram a ser desvendados pelo Dr. Sigmund Freud no final do século XIX. Posteriormente se desenvolveu a psicanálise e diversos autores realizaram estudos clínicos com o objetivo de compreender o ser humano, seus conflitos, suas angústias ligadas aos sentimentos, bem como as inúmeras frustrações afetivas que todo indivíduo vivência. Demonstrou-se que o ser humano, através de sua inteligência e seus mecanismos de memória, gera continuamente ressentimentos sobre fatos e assuntos aparentemente esquecidos do passado.

Os indivíduos que são acometidos por sintomas físicos e psíquicos de stress, ansiedade ou síndromes depressivas, com dificuldades de lidar com os desafios do cotidiano, sofrem inconscientemente, através dos mecanismos de memória e do ressentimento, as frustrações afetivas já vivenciadas em suas emoções. Estes sintomas emocionais podem ser intensos a ponto de alterar todo o comportamento do indivíduo, exteriorizando-se no corpo somático sob a forma de doenças psicossomáticas ou resistências para se realizar a REFORMA ÍNTIMA.

O simples fato de ter que rememorar as frustrações afetivas, muito dolorosas para o indivíduo, faz com que o mesmo crie rotas de fuga para o entendimento e a compreensão destes sentimentos conflituosos. "A frustração afetiva é um tipo de fome que pode facilitar o desenvolvimento dos processos de obsessão. (...) A humanidade é carente de afeto e amor. Estamos atentos à lição de nosso Emmanuel, que nos pede considerar que é dentro da civilização do Ocidente que nasceu a psicanálise, com Sigmund Freud, para que nós sejamos tratados especificamente, individualmente, para nos ajustarmos ao amor que Jesus nos ensinou:

'Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei'. Esse enunciado não veio de nenhuma decretação humana. Veio daquele que nós temos como sendo nosso Senhor" (Dos hippies aos problemas do mundo, de Francisco Cândido Xavier). "Quem já não enfrentou um des-gastante relacionamento afetivo? Irmãos que não se aguentam; pai e filho que não se suportam; mãe e filha que competem; colegas de profissão que disputam palmo a palmo o mesmo terreno; vizinhos que não se toleram.

Enfim, há um universo de relações que acontecem na vida do indivíduo, obrigando-o a aturá-las compulsoriamente. Ninguém se livra do laço de sangue ou de algum outro liame especialmente colocado em seu caminho para toda uma vida. Difícil se torna a reforma íntima nesse setor do coração" (Fundamentos da Reforma íntima, pelo espírito Cairbar Schutel, psicografado por Abel Glaser).

REFORMA ÍNTIMA E ANÁLISE INTERNA

O que significa reforma íntima? A palavra reforma quer dizer "ato ou efeito de reformar, mudança, modificação, reformulação, forma nova". Intimo reporta a "aquilo que está muito dentro, que atua no interior, muito cordial e afetuoso, amigo íntimo, que se passa ou efetua no interior da família, estreitamento ligado por afeição ou confiança, âmago, túnica". Mas porque não chamar de análise interna? A palavra análise lembra "examinar cada parte de um todo, tendo em vista conhecer sua natureza, suas relações afetivas, suas proporções e suas funções".

Como é que se faz para colocar esse conceito sobre reforma íntima no contexto da análise emocional? Até que ponto o indivíduo deseja realmente conhecer a própria natureza e organizar os problemas internos? Pois para se ter as coisas no lugar certo e realizar a análise emocional, requer-se muito investimento pessoal, coragem e perseverança.

O mexer dentro é doloroso! É muito mais cômodo fazer uma reforma superficial do que uma análise interna, pois assim se evita muito desgaste de energia espiritual e psíquica. Só que esta reforma superficial não é duradoura e rapidamente aparecem outros problemas como responsáveis ou "culpados" pelo sofrimento. "Por que não tenho fé bastante para vencer todos os percalços que surgem na minha frente? É uma indagação que o ser humano habitualmente se faz ao entrar em choque com dificuldades do cotidiano, que o abalam profundamente" (Fundamentos da Reforma íntima, pelo espírito Cairbar Schutel, psicografado por Abel Glaser).

A reforma íntima e a análise interna implicam em resistências, fuga. Cada vez que se tenta a retirada dos distúrbios obsessivos psíquicos e espirituais, alguma coisa acontece, fazendo com que ocorram mais resistências. Então as justificativas aparecem, como "não posso mexer aí porque ainda não é o momento" ou "quem você pensa que é para me obrigar a entender o que não quero".

No estudo da filosofia espírita e na prática da clínica psicanalítica, a natureza do distúrbio do comportamento interior aparece explicitamente. E quando o indivíduo tenta colocar toda a sua natureza irracional e inconsciente para fora, para ser compreendida, o mesmo fica irritado, com muita raiva, demonstrando isso nas atitudes: dando desculpas e mais desculpas, colocando a culpa nos outros, chegando atrasado, olhando o relógio a cada momento, como se aquele horário fosse uma tortura, pedindo licença para ir ao banheiro, devaneando, ficando apático, com inércia do pensamento, não querendo entender o que está se passando.

Ou seja, muitas são as justificativas para se evitar a análise interna e o conhecimento pessoal. Como começar então a fazer essa análise interna? O mais importante, a princípio, é que realmente se queira o entendimento e o conhecimento da filosofia espírita e das emoções. É necessário saber o que realmente se quer: iniciar e dar continuidade ao trabalho de reforma íntima, com a análise e conhecimento das relações afetivas, ou continuar tentando escondê-las com inúmeras desculpas.

TORNANDO-SE UM DEPENDENTE EMOCIONAL

A parte interna do indivíduo diz respeito à história emocional de cada um. Se o indivíduo não se conhece, pode se tornar um dependente emocional, depositando toda a sua insegurança no outro. E esta dependência implica em agressividade, passividade, desconfiança, inveja, inatividade, falta de solidariedade, desafeto, descrença, culpa e melindre. Tudo isto vai fazendo com que o indivíduo se torne mais dependente e, paradoxalmente, mais distante do outro, gerando angústia, conflito, solidão, depressão e, consequentemente, mau humor. É o tipo de pessoa que nunca está satisfeita com nada e nem com ela mesma.

A análise interna é feita com o conhecimento e entendimento dos conflitos internos. Estes conflitos são exteriorizados muitas vezes através da agressão, do chamar a atenção ou da fuga dos compromissos com o cotidiano, pois a frustração afetiva dói muito. Que dor é essa que faz com que as pessoas tenham grandes dificuldades de aproximação, fazendo com que fiquem com o meio de comunicação todo desorganizado?

A partir do momento em que a análise interna é aceita, a resistência diminui e, aos poucos, a "casa" vai ficando em ordem. Olhando mais para dentro de si, a vontade de organizar e colocar os sentimentos nos lugares certos aparecem de forma adequada. Sendo assim, com as emoções organizadas, fica mais fácil planejar com mais competência a convivência com o meio em que se vive.

Para viver, não basta estar vivo, é preciso amar. A palavra conflito significa "embate dos que lutam, discussão acompanhada de ameaças, desavença, guerra, luta, combate, colisão". Os conflitos sempre existiram e o grande desafio está em como administrá-los, como procurar tirar do conflito um aprendizado, de modo a extrair algo de bom para a construção de uma vida nova e produtiva.

PAZ INTERIOR: O CAMINHO

"São os pensamentos dos indivíduos que os aproximam ou afastam de Deus, em maior ou menor grau, com maior ou menor duração. Quanto maior a sua paz interior, enorme a possibilidade de estar harmonizado com a superioridade divina; quanto maiores forem os distúrbios psíquicos ou as perturbações psicossomáticas, crescentes lhes serão as influências negativas do plano inferior da vida (o cotidiano). Estado de saúde física e mental: meta do indivíduo. O equilíbrio é indispensável para que o indivíduo espírita, devedor que é por natureza, enfrente os obstáculos de sua trilha no plano físico e seja bem sucedido na oportunidade da vida" (Fundamentos da Reforma íntima).

O aprender a escutar, observar atentamente o outro, não ter pressa de responder, faz com que haja maior oportunidade de acolher de modo mais tranquilo, sem denegrir, sem humilhar e sem desqualificar a figura humana, carente de atenção, afeto e amor. A convivência com o meio familiar e social é um processo pelo qual o emocional internaliza as atitudes, as crenças, valores e princípios de sua cultura, que chamamos de senso comum. A convivência requer amor manifesto, interação com outro, comunicação simbólica, comunicação através de palavras e experiência de aceitação emocional.

A necessidade de afeto, atenção e amor, fundamentais para o desenvolvimento normal da criança e do adulto, é demonstrada por estudos com crianças isoladas, aquelas crianças em orfanatos e instituições de caridade, ou de pais surradores, os quais foram, eles próprios, crianças privadas de afeto.

A palavra não é o único meio de comunicação, mas, em grande medida, um meio de percepção e pensamento. Quando se fala em amor manifesto, implica em ato ou efeito de qualidade de vida, resgate humano, melhora da forma de pensar, reforma íntima, transformação do homem, resgate do afeto, enfim, do amor. Pois quem ama não desrespeita, agride ou fere.

ENTENDENDO AMOR MANIFESTO

O processo de entendimento do amor manifesto é dinâmico: pequenas descobertas, pequenos avanços, pequenos sinais de grandeza interior, revestidos com os mais preciosos sinais de compreensão. Isto é, a reforma íntima tem a ver com a busca contínua do conhecimento para realização integral do indivíduo, através de estímulos adequados à plena utilização de sua capacidade física, psíquica e espiritual. Tem tudo a ver com auto-estima e com todas as dimensões de sua realização pessoal.

Analisando a lição de Emmanuel, citada anteriormente por Chico Xavier, o objetivo maior da ciência psicanalítica é levar o indivíduo a entender e administrar os conflitos, ocorrendo então sua transformação, aprendendo a ter melhor relacionamento com a afetividade. O estudo da filosofia espírita e da psicanálise é necessário para que o indivíduo se entenda como um todo e possa ser útil, disponível, aberto a negociações e disposto a amar, conseguindo encontrar seu Cristo interior.

O homem é um ser pré-determinado à incessante e eterna busca de conhecimento do afeto. É um andarilho que repete a cada dia, desde seu nascimento, uma longa peregrinação rumo ao amor, à paz, à alegria e à própria vida, uma vida de qualidade! E como a lagarta que se transforma em uma linda borboleta depois de um tempo. De início, ela é mais defensiva, feia, queima e, por isso, não consegue chegar perto de algum ser vivo sem machucá-lo.

Mas algo de sua natureza faz com que ela procure uma proteção na parte externa, o que a ajuda a sobreviver durante o processo dinâmico de transformação. E só quando ela está preparada para romper o casulo é que sai do anonimato, para viver a beleza e a liberdade que lhe foram reservadas.

Prof. dr. Pedro Onari- Sociedade Brasileira Holística de Psicanálise Espírita