12 - JANSENISMO

I - INTRODUÇÃO

A - O Jansenismo foi uma teologia cristã que surgiu na França e Bélgica, no século XVII e se desenvolveu no século XVIII.

Tem esse nome porque tem origem nas idéias do bispo de Yprès, Cornelius Jansen. O Jansenismo era uma versão modificada do calvinismo, que por sua vez se baseia na teologia de Agostinho de Hipona.

Podemos distinguir no jansenismo três diferentes aspectos:

- o dogmático, de que o Augustinus é o fundamental representante
- o moral, que tem Antoine Arnauld como principal promotor
- o disciplinar, no qual encontramos Saint-Cyran como modelo

Claro que cada uma destas dimensões do jansenismo não se reduz a estes nomes. Mas cada um deles, à sua maneira, foi o iniciador ou principal promotor de cada um destes princípios. WIKIPÉDIA

B - Com o intuito de reformular globalmente a vida cristã, o holandês Cornélio Jansênio (1585-1638) deu início a um movimento que abalou a Igreja católica durante os séculos XVII e XVIII. Descontente com o exagerado racionalismo dos teólogos escolásticos, Jansênio - doutor em teologia pela universidade de Louvain e bispo de Ypres - uniu-se a Jean Duvergier de Hauranne, futuro abade de Saint-Cyran, que também pretendia o retorno do catolicismo à disciplina e à moral religiosa dos primórdios do cristianismo. Os jansenistas dedicaram-se particularmente à discussão do problema da graça, buscando nas obras de Santo Agostinho (354-430) elementos que permitissem conciliar as teses dos partidários da Reforma com a doutrina católica.

Foi em janeiro de 1646 quando o pai de Pascal (Blaise Pascal) teve a perna seriamente lesionada, que dois homens profundamente religiosos vieram cuidar do adoentado Etienne - assim, Blaise ficaria profundamente impressionado pelo grau de caridade cristã e espiritualidade que estes dois homens evocavam. Desde que estes dois homens eram jansenistas, pareceu natural a Pascal ser atraído pela escola de pensamento jansenista. Essencialmente, o jansenismo ressuscitava a antiga controvérsia pelagiana, um debate teológico na igreja antiga (cerca do ano 400 d. C.) entre Agostinho e Pelágio sobre as questões:

- da graça,

- livre-arbítrio

- e o pecado original.

Em contraste ao ensino jesuíta de que a graça é eficaz quando o recebedor consente e coopera com Deus através do livre-arbítrio, Jansênio ensinava que a graça é totalmente imerecida e por isso concedida ao recipiente por Deus através da predestinação. Assim, as idéias propostas por Jansênio seguiam a tradição do pensamento agostiniano, e não diferente dos pensamentos de João Calvino. Todavia, suas proposições centrais foram declaradas heréticas pelo papa Inocente X em 1653, mas o fogo da controvérsia continuaria a bramar por algum tempo, e no meio deste conflito teológico, Blaise Pascal entraria na arena como um pensador filosófico e polemicista par excellence.

II - Jansenismo dogmático

A doutrina dogmática do jansenismo tem uma grande importância, na medida em que dá origem e sustento às outras dimensões. Muitas das prescrições morais e disciplinares do jansenismo são consequência das suas posições dogmáticas.

A doutrina jansenista filia-se num agostinianismo pouco crítico e lido com os olhos de Baio, apresentando neste aspecto um nítido parentesco com as doutrinas protestantes, sobretudo as calvinistas, sobre a graça, a natureza humana e a predestinação. O ponto central e essencial é uma antropologia pessimista, que vê no pecado original a corrupção da natureza humana, doravante incapaz de qualquer obra boa e fatalmente inclinada para o mal.

Intrinsecamente corrompido pelo pecado, o homem torna-se um joguete de duas forças antagônicas: a concupiscência e a graça. Cada uma delas exerce sobre o homem uma determinação interna a que ele não pode resistir. Ou seja, assim como o homem que recebe a graça age forçosamente segundo essa graça, assim também aquele a quem a graça não é dada segue fatalmente a concupiscência. A liberdade do homem salvaguardar-se-ia pelo facto de tanto a graça como a concupiscência apenas determinarem o homem internamente, deixando-o livre da coacção externa. Nisto consiste a diferença em relação ao protestantismo.

A graça, portanto, é de tal modo determinante que, uma vez recebida, o homem não pode resistir-lhe. Daí que toda a graça é eficaz, pelo que não existe a graça suficiente, a graça que seria concedida sempre e a todos, mas que poderia não ser seguida pelo homem.

Diversas são as implicações desta doutrina. Por um lado, o pecado pessoal significa necessariamente uma privação da graça: quem peca, é porque não tem graça, pois se a tivesse agiria segundo ela. Por outro lado, o homem não tem mérito nas boas obras, pois elas são fruto da graça que interiormente o determina, e não da sua liberdade. Além disso, o homem privado da graça (e uma vez que não há graça suficiente, ela é sempre ocasional) peca infalivelmente e é incapaz de qualquer boa obra, pois segue sempre a concupiscência. Daí que as obras dos infiéis sejam sempre pecado, pois estão privados da graça eficaz proveniente da redenção de Cristo. Uma outra implicação mais grave brota de toda esta doutrina. O homem só realiza boas obras por virtude da graça eficaz. Ora, tal graça não é sempre concedida, mas é Deus que com absoluta liberdade determina a quem a concede. Logo, é Deus que determina quem são os que realizam boas obras e, consequentemente, aqueles que se salvam e aqueles que se condenam. A consequência lógica do jansenismo é a doutrina da predestinação. Aqui temos mais um forte ponto de contacto com o calvinismo.

Por conseguinte, Cristo não morreu por todos os homens, mas somente por aqueles que se salvam, os eleitos, e só esses recebem a graça. No fundo, com o jansenismo assistimos mais uma vez à tentativa, tão presente nas heresias dos primeiros séculos, de admitir na Igreja apenas as pessoas puras e perfeitas, e não todos os homens que estejam dispostos ao arrependimento. Todas estas doutrinas, duma forma ou doutra estão presentes no Augustinus, e foram condenadas por diversas vezes pela Igreja Católica.

A - Jansenismo moral

Mas não foi o aspecto dogmático do jansenismo que originou a sua grande difusão e popularidade. Foi antes a sua doutrina moral. Como dissemos, podemos encontrar um eloquente exemplo da moral jansenista em Arnauld e no seu livro De la fréquente communion. Mas devemos buscar a doutrina moral do jansenismo também nas fontes anteriores, a começar pelo Augustinus.

Nesta obra, no tomo II, encontramos os fundamentos da moral jansenista. Segundo o autor, a ignorância, ainda que invencível, não escusa do pecado, porque tal ignorância é precisamente a consequência do pecado original. Além disso, como vimos, o homem, sem a graça, peca necessariamente, a sua natureza arrasta-o sempre irresistivelmente para o pecado, de tal modo que, se o homem, por suas forças, pretender escapar a um pecado, cai fatalmente noutro. Ou seja, o pecado é inevitável na vida humana. Daí todo o pessimismo jansenista em relação à natureza humana, que tanto leva ao desprezo por todas as obras, ainda que aparentemente meritórias, dos pecadores e dos infiéis, como conduz a um extremo rigorismo no que diz respeito a qualquer possível “cedência à natureza”.

Saint-Cyran foi o iniciador da prática moral jansenista. A penitência, para ele, era tratada com um imenso rigorismo. Assim, dizia ele que a absolvição não perdoava propriamente os pecados, mas declarava sim que eles haviam sido perdoados por Deus. Deste modo, era necessária uma contrição perfeita para que a absolvição fosse válida, pois a simples atrição era insuficiente. A consequência prática disto era a recusa da absolvição aos pecadores reincidentes e àqueles em que não fosse certa uma perfeita contrição. As religiosas de Port-Royal tinham por hábito não se atreverem a receber a absolvição, por não se julgarem preparadas…

Em relação à comunhão, as condições exigidas também eram bastante rigoristas. Exigia-se a perfeição, de modo que acabava por ser considerada mais meritório o desejo de comungar, ou a “comunhão espiritual”, do que a própria comunhão eucarística. Daí que um dos efeitos do jansenismo, através dos tempos, tenha sido precisamente o afastamento dos sacramentos.

Esta atitude relativamente à recepção dos sacramentos é facilmente compreensível se tivermos em conta que Deus, para o jansenismo, aparece como o terrível juiz que decide arbitrariamente da nossa sorte, de modo que a relação com Ele, como dissemos, é baseada no temor e não no amor. Todo este rigorismo aparecia como contraposição ao laxismo que os jansenistas personificavam nos jesuítas. E, de facto, um dos méritos do jansenismo foi precisamente a denúncia desse laxismo que imperava na vida cristã de muitos. O erro, porém, foi condenar, junto com o laxismo, todo o probabilismo e a preocupação pastoral, a favor dum rigorismo teórico e desencarnado.

B - Jansenismo disciplinar

A nível disciplinar, o jansenismo advoga uma reforma da Igreja que elimine as perniciosas novidades introduzidas desde o tempo dos antigos padres e os desvios operados por escolásticos e jesuítas. Isto baseado na concepção da Igreja como sociedade imutável, de origem divina, e como tal isenta de qualquer mudança.

O que vem a acontecer, fruto das sucessivas condenações de que o jansenismo foi vítima, é que se advoga um aumento da autoridade da hierarquia local, em detrimento da do Papa. Com o tempo, ainda, face às perseguições, o jansenismo procura fazer alianças com as autoridades civis, a fim de melhor resistir, e nesse aspecto assume um significado político. Sobretudo a partir do séc. XVIII, o jansenismo relaciona-se com a pretensão de independência face à Igreja de Roma e confunde-se com a criação de Igrejas nacionais.

Neste ponto, é interessante notar um paradoxo que acompanhou o jansenismo desde o seu início: os seus defensores sempre declararam a sua pertença à Igreja e a sua vontade de se submeterem aos seus juízos. Jansen, à hora da morte, declarou submeter-se de antemão ao juízo da Igreja. O Augustinus, aliás, tinha uma dedicatória ao papa Urbano VIII, que não chegou porém a ser impressa, devido à proibição que esse mesmo papa fizera da publicação. Mas assim como se declaravam dispostos a obedecer, os jansenistas também procuraram sempre todos os subterfúgios para continuarem a defender as suas idéias, apesar das condenações.

Pascal foi membro deste grupo.

WIKIPÉDIA

III - Os tradicionalistas, seriam Neo-jansenistas.

Jansênio, Bispo de Ypres, escreveu um livro intitulado Augustinus, no qual defendia, entre outras a tese de que as pessoas nascem predestinadas ao céu ou ao inferno. Deus não daria a graça suficiente para alguns se salvarem, de modo que tais pessoas inevitavelmente se perderiam.

O Jansenismo tinha ligações profundas com a teologia protestante, especialmente com o Calvinismo.

Na moral, os jansenistas defendiam um rigorismo que os levava a considerar Deus sem misericórdia. Daí, eles combaterem a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, fonte de misericórdia.

Como seus antecessoras protestantes, eles eram contra o culto aos santos, e, principalmente, contra a devoção a Nossa Senhora. Como os liturgicistas atuais, eles se diziam cristocêntricos. O que não os impedia de cultuarem os santos deles, de sua seita, ainda que não fossem canonizados. Eles organizaram, um verdadeiro culto para um dos membros da seita, o Cônego Pâris, no cemitério de St Médard, em Paris. Distribuíam suas relíquias, e nas orações que faziam junto ao túmulo desse pseudo santo, eles entravam em falsos êxtases. Culto de relíquias e varadas nas costas dos membros da seita eram atitudes comuns na seita jansenista. Há exemplos atuais parecidos em cemitérios de São Paulo.

Na organização da Igreja, os jansenistas desejavam uma diminuição do poder papal, com o aumento do poder dos Bispos, que seriam eleitos. O Jansenismo defendia também a eleição dos párocos. Eram eles, pois, democratizantes na esfera eclesiástica, o que os fez conseqüentemente, na civil, apoiarem a Revolução Francesa.

Em matéria de Liturgia , eles defendiam a Missa dita na língua do povo. Eram contrários à pompa. Também eram favoráveis a uma maior participação do povo na Missa. Foi um padre jansenista que organizou, ainda antes da Revolução Francesa, Missas com procissão de ofertório, com o povo levando mantimentos ao altar. Desse modo, o senhor vê que ao contrário do que diz o texto que o senhor me enviou, os jansenistas eram o oposto dos atuais tradicionalistas.

Sabe o senhor que sou insuspeito com relação aos tradicionalistas lefevristas, aos quais infelizmente tenho que reprovar o fato de terem organizado tribunais com poderes "papais", o que é um lamentável erro deles.

O autor do texto concede que a nova tradução da fórmula da consagração do vinho "pro multis" (por muitos) como "por todos" de fato está errada, e depois garante que, embora errada como tradução, estaria certa teologicamente. E este é o absurdo maior do texto dele.

Os méritos de Cristo são infinitos e, portanto, objetivamente suficientes para todos os homens. É o que se chama de Redenção objetiva.

Entretanto, nem todos os homens aproveitam dos méritos infinitos de Cristo, por recusarem o batismo, ou recusarem a Fé e os sacramentos. Estes sujeitos que tal recusa fazem, não se salvam por não quererem se aproveitar dos méritos infinitos de Cristo. Por isso, se ensina na doutrina católica, que embora a redenção seja objetivamente suficiente para todos, ela não é aproveitada por todos, mas só por muitos. Daí se distinguir redenção subjetiva de redenção objetiva.

Portanto, traduzir "pro multis" como "por todos" é teologicamente errado. Fazer isso é cair na heresia da salvação universal, que é a heresia muito ensinada hoje.

Orlando Fedeli