16 - XINTOÍSMO

I - DEFINIÇÃO

A - Conjunto de crenças e práticas expressas em manifestações sociais e atitudes individuais, o xintoísmo preservou seu espírito ao longo dos tempos embora não tenha fundador, escrituras sagradas oficiais ou dogmas.
Xintoísmo é a religião nacional do Japão, que se constitui de crenças e práticas religiosas de tipo animista. De origem chinesa, o termo xinto significa "caminho dos deuses". O xintoísmo reconhece um poder sagrado cuja natureza não pode ser explicada em palavras, o kami, e que se acha difundido na natureza sob a forma do Sol (Amaterasu), da Lua (Tsukiyomi), da tempestade (Susanoo) e muitas outras. Os espíritos dos antepassados também são considerados deuses tutelares da família ou do país, motivo pelo qual os ritos fúnebres possuem grande relevo. C.A.C.P.

B - O xintoísmo é a religião tradicional japonesa, estreitamente ligada à cultura e modo de vida japoneses. Shintou (??) em japonês, o primeiro kanji é shin (?), o mesmo kanji para kami. O segundo kanji é tô (?), que significa caminho e é o mesmo kanji usado no final de palavras como: judô, aikidô e sadô (cerimônia do chá).

O xintoísmo não é uma religião confessional: sendo assim, toda teologia e liturgia é quase que inteiramente voltada não para códigos de ética e moral na sociedade em si (como ocorre com as religiões abraâmicas, por exemplo), mas sim para práticas voltadas para o relacionamento familiar, como o culto aos ancestrais e o respeito aos mais velhos. Por não ser uma religião voltada diretamente para o estabelecimento de valores sociais per se, o xintoísmo apesar de por muito tempo ter sido religião oficial do Estado no Japão - não é uma religião altamente burocratizada que se relaciona com diversas estruturas da sociedade e com estas se mistura (como ocorreu com o catolicismo, por exemplo, que como religião confessional e voltada para o ordenamento da sociedade, se insere rapidamente nas mais variadas esferas sociais como a política e o direito).

Não tem um correspondente exato para o conceito ocidental de Deus, embora geralmente se traduza "Kami" por "Deuses". Neste sentido, o xintoísmo é comumente classificado como uma religião que tem como características principais o politeísmo e o animismo. É muito difícil exemplificar o conceito de Kami utilizando uma terminologia variada - que não a própria terminologia japonesa "kami" - sem acabar sendo reducionista ou muito fenomenológico. Pois se ao mesmo tempo que seres espirituais a que poderíamos chamar espíritos e gênios se enquadram dentro do conceito de kami, também são kamis, por exemplo, seres que poderíamos chamar de deuses, dado o seu papel na mitologia, teologia, liturgia e cosmogonia da tradição xintoísta, como é o caso de, por exemplo, Amaterasu, kami que representa o sol. Neste sentido, tentar traduzir o termo kami simplesmente como "deuses" seria falho, assim como chama-los simplesmente de "espíritos". Como ocorre muitas vezes com traduções, muito do significado original do termo pode se perder, e talvez o melhor a ser feito, no caso do conceito de kami, é não traduzi-lo, e sim entender que tipo de seres espirituais são englobados no conceito de kami.

O Xinto não se propagou de forma significativa para fora do território japonês, talvez porque é uma religião nacionalista por excelência. No entanto, influenciou fortemente praticamente todas as religiões que já chegaram ao Japão, inclusive algumas que se popularizaram depois em outros países, como por exemplo a Igreja Messiânica, o Budismo Terra Pura e o movimento Seicho-No-Ie.

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II - Origens

A - A tradição religiosa do xintoísmo formou-se no período anterior ao budismo, que ganhou força no Japão no século VI. A partir de então, contatos entre o xintoísmo e o budismo modificaram ambas as religiões. Os budistas adotaram divindades dos xintoístas, e estes, que consideravam seus deuses espíritos invisíveis e sem formas precisas, aprenderam com o budismo a erigir imagens e templos votivos. Houve quem proclamasse que as duas religiões eram manifestações diferentes da mesma verdade, o que originou uma tendência sincretista.

As narrativas míticas da tradição xintoísta foram registradas por escrito no Kojiki (712; Anais das coisas antigas), e no Nihongi (720; Crônicas do Japão), as mais antigas fontes literárias. Os mitos referem-se a um caos primordial em que os elementos se mesclam em massa amorfa e indistinta, "como num ovo". Os deuses surgiram desse caos.

A partir do final do século XVII teve início um movimento nacionalista que pretendeu restaurar o xintoísmo mediante a promoção das práticas antigas e a proclamação de uma ética nacional e de ritos patrióticos que originaram o xintoísmo estatal (Kokka Xinto). Os principais teóricos desse movimento foram Mabuqui, estudioso do Kojiki e do Nihongi, e Motoori Norinaga, que sistematizou as correntes religiosas de modo a combinar o culto da natureza com o dos heróis. Com a instauração do imperador Meiji, em 1868, o xintoísmo estatal foi proclamado religião oficial, liberto tanto das influências budistas como dos costumes do xintoísmo popular. O xintoísmo nacionalista exaltava a raça japonesa e divinizava o imperador, mas no final da segunda guerra mundial os Estados Unidos obrigaram o imperador a desfazer o mito de sua divindade. C.A.C.P.

B - As origens mais antigas do xintoísmo são desconhecidas, mas acredita-se que o que hoje é conhecido como xintoísmo começou a se formar provavelmente no período Jomon. Acredita-se que após as primeiras migrações do que viria a ser o povo japonês (também existem muitas dúvidas quanto a origem do povo japonês), as pessoas se estabeleceram em pequenas tribos, isoladas umas das outras, e cada qual possuía suas próprias divindades e ritos. Com a ascendência dos ancestrais do que viria a ser a família imperial japonesa (tradicionalmente considera-se que no Japão, de forma peculiar, houve uma única dinastia imperial até os dias atuais), as divindades cultuadas por este grupo, assim como seus ritos, passaram a ter certo destaque sobre os outros, apesar de muito das características regionalistas do xintoísmo ainda existirem - o que reforça esta ideia de uma religião primordialmente de caráter local. WIKIPÉDIA

III - Os deuses

A - KOJIKI

Segundo o Kojiki, o advento dos deuses iniciou-se com cinco divindades: Amenominakanushi (Senhor do augusto centro do céu), Takamimusubi (Alto gerador do deus prodigioso), Kamimusubi (Divino gerador do deus prodigioso), Umashiashikabihikoji (O mais velho soberano do cálamo) e Amenotokotachi (O que está eternamente deitado no céu).
A seqüência prossegue com as "sete gerações divinas", dois deuses e mais cinco pares: Kuminotokotachi (Eternamente deitado sobre a terra); Toyokumonu (Senhor da integração exuberante); Uhijini (Senhor da lama da terra); e Suhijini (Senhora da lama da terra); Tsunuguhi (Embrião que integra) e Ikuguhi (Aquela que integra a vida); Ohotonoji (O mais velho da grande morada) e Ohotonobe (Senhora mais velha da grande morada); Omodaru (Aspecto perfeito) e Ayakashikone (Majestosa); Izanagi (Varão que atrai) e Izanami (Mulher que atrai). Essas entidades recebem a designação de kami ou "espíritos divinos".
O último casal da série teogônica, Izanagi e Izanami, desempenha na cosmogonia xintoísta o papel da criação e, como tal, é a partir dele que se estrutura o corpo de mitos etiológicos que mostram, por exemplo, o aparecimento das ilhas japonesas e das divindades secundárias associadas a cada uma destas. A catábase (descida aos infernos) de Izanagi, realizada após a morte de sua mulher em conseqüência do parto do fogo, faz parte dessa categoria de mitos. Segundo a narrativa tradicional, Izanagi contemplou o corpo putrefato de Izanami e se purificou num rio ao retornar ao mundo dos vivos. De seus trajes abandonados e das impurezas que lhe saíram do corpo nasceram as divindades maléficas, além da deusa solar Amaterasu e dos deuses Susanowo e Tsukiyomi (Lua).
As relações entre o culto dos mortos e o culto dos kami manifestam-se no Kashikodokoro, santuário do palácio imperial de Tóquio, onde o imperador e sua corte rendem homenagens aos antepassados kami durante as grandes festas nacionais. O Kashikodokoro constitui, no Japão moderno, o centro onde se preservam as remotas tradições do xintoísmo.

C.C.C.P.

B - KAMI

O xintoísmo baseia-se no culto aos kami. Esta palavra é frequentemente traduzida por "deus" ou "divindade", o que não traduz completamente o conceito, dado que os kami pode ser também forças vitais ou espíritos. Ao contrário dos deuses das outras religiões, os kami não são omnipotentes ou omniscientes, possuindo poderes limitados. Nem todos kami são bons. Existem kami ligados a fenómenos meteorológicos (chuva, vento, [trovão]...), a lugares (montanhas, ervas, árvores, vales, rios, mares, encruzilhadas...) e kami associados à vida humana (vestuário, transportes, ofícios...). Incluem-se ainda no conceito de kami os espíritos de homens notáveis, como de certos guerreiros.

Os textos xintoístas referem-se a "oitocentas miríades" de kami (yaoyorozu no kami); este número não deve ser interpretado literalmente, pretendendo-se apenas transmitir a noção de que existem inúmeros kami. Os kami não são perceptíveis pelo ser humano.

Podem ser divididos em dois tipos: os que habitam no céu (amatsukami) e os que habitam na terra (kunitsukami). Os primeiros trazem à terra influências positivas, enquanto que os segundos mantêm-na como ela é.

O kami mais eminente é a deusa-sol Amaterasu O-mikami, antepassada da família real japonesa. O seu santuário principal é o Grande de Santuário de Ise.

IV - TIPOS DE XINTOÍSMO

Reconhecem-se várias expressões do xintoísmo, que são o resultado da evolução histórica da religião, lugar da sua manifestação e prática religiosa dos adeptos.

Xintoísmo dos santuários: é o conjunto de crenças que se exprimem através das festas e das venerações nos santuários. Praticamente todos os santuários pertencem à Associação dos Santuários (Jinja honchó), fundada em Tóquio no ano de 1946.

Xintoísmo doméstico: exprime-se nos lares japoneses. Nas casas xintoístas existe em geral um pequeno altar consagrado aos deuses, o kamidana. Em cima deste altar encontra-se muitas vezes um amuleto oriundo do santuário local, do Grande Santuário de Isa e em alguns casos. Nestes altares colocam-se oferendas (saquê, arroz, sal) e recitam-se orações.

Xintoísmo imperial: é o resultado do desenvolvimento na casa imperial da prática dos ritos e cerimónias do xintoísmo.
Xintoísmo popular: caracteriza-se pela ausência de uma sistematização doutrinária e de uma organização. É o tipo de xintoísmo praticado essencialmente pelo indivíduo.

Xintoísmo das seitas: é composto essencialmente pelas treze seitas reconhecidas pelo Estado dos Meiji entre 1876 e 1908. Estas seitas possuem em geral um fundador (homem ou mulher). Até ao fim da Segunda Guerra Mundial, os grupos xintoístas que não pertenciam a uma das treze seitas não eram reconhecidos pelo Estado, o que gerou a integração de muitos desses grupos numa das seitas existentes. Depois da guerra, e tendo sido declarada a liberdade religiosa, alguns grupos estabeleceram-se como organizações independentes.
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V - ESCRITURA SAGRADA

O xintoísmo não possui um livro sagrado, como a Bíblia ou o Alcorão. Há no entanto um conjunto de textos sobre os ensinamentos da religião que recebem o nome de Shinten, "escrituras sagradas", mas não são considerados textos revelados ou de carácter sobrenatural.

Kojiki: datado de 712, é o texto sagrado mais antigo, sendo composto por três volumes.
Nihon-shoki: foi redigido em 720 em chinês em 30 volumes.
Kogo-shui: compilação das tradições do clã dos Imbe, uma família que junto com a família dos Nakatomi era responsável pelos ritos. A sua redacção foi concluída em 807.
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VI - ORGANIZAÇÃO SACERDOTAL

O sacerdote xintoísta é designado pelo termo shinshoku ou kannushi, sendo esta última forma uma designação moderna. A sua principal função é servir como um elo entre os kami e os crentes através da execução dos ritos nos santuários, visando assegurar a protecção do povo japonês e do imperador.

Os sacerdotes xintoístas não são obrigados a levar uma vida de castidade, podendo casar e fundar uma família.

O sacerdócio feminino desenvolveu-se no Japão após a Segunda Guerra Mundial. Para além de sacerdotisas, as mulheres podem ainda ser mikos. Uma miko é uma virgem que leva uma vida monástica, ajudando os sacerdotes a executar os ritos nos templos e executando as danças sagradas. Exercem estas funções durante cinco a dez anos.

Hoje em dia a formação de um sacerdote xintoísta é garantida pela frequência de um curso na Universidade de Kokugakuim ou da Universidade de Kogakkan. WIKIPÉDIA

VII - Cosmologia xintoísta

O xintoísmo possui duas concepções sobre como se encontra organizado o universo.

Na primeira o universo é visto de forma tridimensional e vertical, com três mundos, a Alta Planície Celeste (Takama no hara), o País do Meio da Planície de Canaviais (Ashihara no nakatsu kuni) e o País de Yomi (Yomi no kuni). A Alta Planície Celeste é o mundo onde habitam os kami do céu; o kami mais importante deste mundo é a deusa Amatersu Omikami. O País do Meio da Planície de Canaviais é mundo dos humanos, criado pelos kami. Quanto ao País de Yomi, pode ser descrito como uma espécie de "Hades", um mundo subterrâneo onde habitam os mortos.

Na segunda visão o universo é bidemensional e vertical, com dois mundos que existem um ao lado do outro. Esses dois mundos são o País do Meio da Planície de Canaviais e o País Eterno, uma terra situada para além dos mares, marcado pela felicidade e onde a vida é eterna.

VIII - Festas

A - Reisai

São festas celebradas uma ou duas vezes por ano nos santuários. O dia em que é celebrada a festa pode ter múltiplos significados: pode corresponder ao dia de fundação do santuário, a um dia importante na sua história ou ser um dia associado à divindade do santuário.

Durante estas festas ocorre geralmente uma procissão dos kami, razão pela qual as festas são também chamadas de shinkó-sai ("Festa da Procissão dos Deuses") ou togyo-sai ("Festa da Augusta Travessia"). Os kami são instalados num carro (hóren) ou num palanquim (mikoshi) e são passeados pela aldeia ou cidade. A acompanharam estas festas há espectáculos de dança, que são executados num espírito de oferenda.

B - Festas da Primavera

São várias as festas da Primavera (haru matsuri). No dia 17 de Fevereiro desenrola-se a festa Toshigoi-matsuri no palácio imperial e em todos os santuários do Japão, durante a qual é feita uma prece que solicita boas colheitas e a prosperidade do país.

C - Festas do Outono
As festas do Outuno (aki matsuri) servem para agradecer às divindades pela existência de uma colheita abundante.

D - KANNAME-SAI

No santuário de Ise, a 17 de Outubro, decorre o importante rito do kanname-sai ("cerimónia da prova"), durante o qual os novos cereais são oferecidos à deusa Amaterasu. São também feitas oferendas das primeiras espigas de arroz cultivadas pelo imperador e pelos agricultores das províncias.


E - Festas do Verão

Estas festas (natsu matsuri) são essencialmente urbanas e tem como principal objectivo afastar as calamidades.

F - GION

Uma das festas de Verão mais conhecidas é a festa de Gion que se desenrola no santuário Yasaka em Quioto no mês de Julho e que inclui uma marcha com carros ricamente decorados. Segundo a tradição esta festa teria surgido no começo da época Heian, num tempo marcado por grande número de epidemias; para afastá-las os demónios aos quais se atribuíam estas doenças realizavam-se orações.

G - REI CELESTE

Outra importante festa é a do Rei Celeste (Tennó-matsuri) que tem lugar no santuário Tsushima situado na cidade com o mesmo nome (em Aichi). Na véspera da festa ocorre uma cerimónia na qual todas as impurezas são colocadas em canas que são largadas no rio. No dia da festa vários barcos, decorados com lanternas, deslizam pelo rio Tenno ao som de música e à luz de fogos-de-artifício.

IX - Xitoísmo e ciclo de vida

A - Primeira apresentação no santuário

A primeira apresentação no santuário ou hatsumyia mairi consiste em levar ao santuário local os recém-nascidos para serem apresentados às divindades. No caso dos meninos a apresentação ocorre no trigésimo primeiro dia e nas meninas no trigésimo terceiro dia (embora possam ocorrer variantes locais quanto ao número de dias). No passado era hábito a criança ser levada ao santuário pela avó, porque se considerava que a mãe estava impura por ter dado à luz, mas hoje em dia a criança é muitas vezes levada pela mãe.


B - Shichigosan

No dia 15 de Novembro as famílias deslocam-se aos santuários com os filhos para agradecer aos kami o facto destes gozarem de saúde e para orar pelo seu crescimento. As crianças que acompanham os pais são os meninos de três e cinco anos e as meninas de três e sete anos. O nome do festival deriva precisamente da idade das crianças: shichi (sete), go (cinco) e san (três).

C - Celebração da maturidade

A 15 de Janeiro celebra-se a festa da Idade Adulta (Seijin Shiki). Nesse dia os jovens com vinte anos reúnem-se nos santuários para receber uma benção, embora a festa também possua um carácter estatal, com cerimónias nas prefeituras. A Constituição japonesa atribui a maioridade aos jovens que atingiram os vinte anos.

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XINTOÍSMO - MONOGRAFIA