17 - TOTEMISMO

É a religião dos povos selvagens: negros da África, silvícolas americanos, esquimós, populações aborígenes de continentes e ilhas orientais que somam milhões de adeptos. Consiste no culto de animais e vegetais, de antepassados e de forças divinizadas da Natureza.

Nesta religião essencialmente primitiva, os adeptos se julgam associados a seres animais e vegetais ou, mesmo, a fenômenos e elementos naturais como o sol, a água, o trovão, o raio, etc. Todos se crêem ligados entre si, na pessoa de um antepassado heróico, que tanto pode ser um homem, como um animal, como uma planta. Formam-se assim agrupamentos, clãs, mais ou menos numerosos denominados, por exemplo: clã do corvo, clã da serpente, clã do pinheiro, etc.

O antepassado totem é venerado pelo clã e torna-se um tabu (coisa sagrada, inviolável), que não pode ser morto, nem comido, nem tocado, ou destruído de maneira alguma. É o instrutor, o protetor do clã, o intermediário entre os homens e a força ou coisa que está além dos homens. Consultam-no nas dificuldades, fazem-lhe oferendas, criam-lhe ritos e cerimônias como sucede em qualquer outra religião. Como esses ritos e cerimônias são sempre presididos por feiticeiros, e fácil compreender que estes são os médiuns por via dos quais os espíritos desencarnados atuam entre esses povos.

Esta é a religião da idolatria do homem nos albores da inteligência, quando ainda impera o instinto, quando apenas desponta a Razão. É a religião dos povos espiritualmente primários. Numa forma um pouco mais avançada, isto é, de homens um pouco mais civilizados, entretanto, o totemismo manifesta a existência de espíritos protetores que, evocados por feiticeiros e sacerdotes, produzem a chuva, conjuram encantos, curam doenças, atam e desatam laços amorosos; neste ponto já não existe mais a crença do parentesco, já se desfizeram os laços da intimidade pessoal e o homem reconhece nesses espíritos entidades hierarquicamente superiores.

Por causa da ignorância crêem, então, em práticas de plena feitiçaria e magia negra. Avançando um pouco mais, essas entidades são postas em rigorosa hierarquia: deuses, gênios, semideuses, representando ou simbolizando, ora elementos naturais como chuva, sol, ventos; ora movimentos sociais como produção, destruição, guerra; ora sentimentos afetivos, passionais ou artísticos, tudo já do campo extremamente interessante da mitologia. Estude-se a mitologia grega, a romana, a bramânica, a escandinava e outras e se poderá conhecer detalhes dessa interessante fase evolutiva da religiosidade humana primitiva.

O clã do urso ou do lobo pensa que descende desses animais, tendo sempre havido um urso ou um lobo excepcionais que criaram a família. Pensam que no princípio andavam de quatro mas que, aos poucos, com o correr do tempo, vieram vindo para o reino é? homem, perdendo a cauda (coisa aliás que lamentam muito) e que essa perda foi por causa do hábito que adquiriram de sentar-se como os homens.

No Peru, os indígenas pensam que descendem de águias e condores; na África, de rinocerontes, elefantes, hipopótamos etc... e em muitas tribos há a crença totêmica de que muitos deles descendem de mulheres que se uniram aos totens animais, protetores do clã ou da tribo. Outros dizem que descendem de aves e peixes, ou ainda de pinheiros, carvalhos e palmeiras. O totem é sempre um tabu, salvo no caso de fome quando, então, preenchidas certas regras, pode ser tocado e comido.

É também crença entre eles que quando um homem infringe as leis totêmicas e fere um totem, pode adoecer e até mesmo morrer, mesmo quando não o haja feito propositadamente. Alguns chefes, mais inteligentes e práticos, declaram totens somente partes do corpo como, por exemplo, a cabeça, rara que assim possam, sem castigo, comer o resto. Outros pensam que, com a morte, certos homens se ransformam no totem do clã ou da tribo; por exemplo, no animal, no vegetal ou na coisa ou objeto que é o totem venerado.

Na parte social há leis que proíbem casamentos no mesmo clã ou tribo e também contratos entre tribos, no sentido de poderem uns matar e comer os totens dos outros, medida esta que evita muitas guerras e violências. O totem dá força mágica ao homem que protege e assim, os feiticeiros, que interpretam os casos e fazem as cerimônia: do culto, adquirem grande prestígio.

Os totens são desenhados ou esculpidos por toda parte mormente em postes, que se colocam à entrada de aldeias ou residências. Os totens, em muitos casos, quando animais, são alimentados pelos clãs e muitas vezes convivem com o homens. Assim o clã do cachorro vermelho possui cachorro: vermelhos em grande quantidade; cada casa possui um; os cãezinhos recém-nascidos são, muitas vezes, amamentado; por mulheres que pensam, assim, permanecer nas boas graça; do totem.

Quando morre o totem, ele é chorado por todos e enterrado com todas as honras concedidas aos homens da tribo. Como pensam que o totem compreende a linguagen deles, quando falam mal do totem, os homens o fazem escondidos e em voz baixa. Quando um homem fica de cabelos brancos dizem que ofendeu, feriu ou matou o totem do clã; mesmo em defesa própria não pode o homem matar o totem, a não ser com o consentimento deste, o que os indígenas, aliás, sabem como obter. Caso não ocorra o acontecimento desta forma, o homem inevitavelmente será expulso da tribo.

Quando nasce uma criança, de certas tribos da África ela é posta junto do totem, para se ver como este a recebe Por exemplo: se o totem é a serpente, colocam a criança junto dela; se a serpente não a toca nem a morde, compreendem que o filho é legítimo, e ilegítimo, em caso contrário. Os totens dão aviso, entrando nas casas, nos terreiro: das tribos, ou voando sobre eles, quando há ameaças de desgraças iminentes, guerras, epidemias, etc.

Quando o totem fica impertinente e começa, por exemplo, a comer a plantação da tribo, há muitos processos engenhosos para chamá-lo à razão: deixam-no amarrado, com cuidado, e não lhe dão comida enquanto ele não promete interromper a devastação. A conversa é sempre feita por intermédio do feiticeiro da tribo. Nos nascimentos, a criança é tatuada com o desenho do totem, o mesmo acontecendo com todos os homens e mulheres. No casamento a noiva é presenteada com um animal totem, consagrado pelo feiticeiro, mas se o totem é vegetal a cerimônia se realiza junto dele ou à sua sombra.

As danças que se celebram nessa ocasião são compartilhadas pelos totens, representados por homens fantasiados. Quando morrem são envoltos na pele do totem ou em uma pele símbolo, que o representa. O estudo do totemismo é importante porque grande parte da humanidade já passou por essa fase, daí tomando rumos inumeráveis no terreno das crenças, até a mais alta compreensão espiritual, como o espiritismo.

O totem nunca é um ser isolado: é sempre um conjunto ou uma família de animais ou plantas. Pode ser de tribo (clã-totem), de indivíduo (gens-totem) e de sexo (sex-totem). O primeiro é cultuado por toda a tribo e normalmente contém os totens secundários de indivíduos e de sexo.

O segundo é cultuado pelo indivíduo e tem suas regras e limites e o último, o de sexo, é cultuado pelos moços e moças da tribo; regula e protege as coisas referentes ao amor entre eles. O totemismo é um sistema de caráter religioso e social. Religioso quando o totem protege o homem e este lhe rende culto; social quando o totem serve para estabelecer e manter relações amistosas entre diferentes clãs e tribos, possibilitando intercâmbio entre eles.

O totem social visa ampliar a área social do clã no espaço, propagando a sociedade deles e o totem religioso visa orientar num mesmo sentido os impulsos sempre primitivos e violentos do homem. O totemismo é, pois, uma ponta do arco e o espiritismo é outra; o totemismo é o primeiro degrau da subida e o espiritismo é o último, neste mundo e nesta fase evolutiva, bem entendido, desde que se o considere como nós o consideramos, uma cúpula de todas as doutrinas e cultos e não uma seita em si mesmo.

Edgard Armond