5 - DOENÇAS CONTEMPORÂNEAS

5 - DOENÇAS CONTEMPORÂNEAS

O conceito de saúde. Os comportamentos neuróticos. Doenças físicas e mentais. A tragédia do cotidiano. O homem moderno.

O conceito de saúde

Léxicamente, "saúde é o estado do que é são, do que tem as funções orgânicas regulares". A Organização Mundial de Saúde elucida que a falta de doença não significa necessariamente um estado de saúde, antes, porém, esta resulta da harmonia de três fatores essenciais, a saber: bem-estar psicológico, equilíbrio orgânico e satisfação econômica, assim contribuindo para uma situação saudável do indivíduo.

Num período de transição e mudança brusca da escala dos valores convencionais, com a inevitável irrupção dos excessos geradores da anarquia, a saúde tende a ceder espaço a conflitos emocionais, desordens orgânicas e dificuldades econômicas, propiciando o surgimento de patologias complexas no homem.

A sociedade enferma perturba-o, e este, desajustado, piora o estado geral do grupo.

O sentido de dignidade pessoal, nesta situação, é substituído pela astúcia e pelo prazer, proporcionando distonias emocionais que facultam a instalação de enfermidades orgânicas de variada procedência.

Abstraindo-se destas últimas, aquelas que são originadas por germes, bacilos, vírus e traumatismos, multiplicam-se as de ordem psicológica, que se avolumam nos dias atuais.

O homem teima por ignorar-se. Assume atitudes contraditórias, vivendo comportamentos estranhos. Prefere deixar que os acontecimentos tenham curso, às vezes desastroso, a conduzi-los de forma consciente.

Os dias se sucedem, sem que ele dê-se conta das suas responsabilidades ou frua dos seus benefícios em uma atitude lúcida, perfeitamente compatível com as conquistas contem¬porâneas.
Surpreendido, no entanto, pela doença e pela morte, desperta assustado, sem haver vivido, estranhando-se a si mesmo e descobrindo tardiamente que não se conhecia. Foi um estranho, durante toda a existência, inclusive, a ele próprio.

A saúde, entretanto, fá-lo participativo, membro amante do grupo social, desperto e responsável na luta com que se enriquece de beleza e alegria, assumindo posições de vigor e segurança íntima, que lhe constituem prémio ao esforço desenvolvido.

A falta de saúde, que se generaliza, conduz a mente lúcida a um diagnóstico pessimista, o que não significa ser desesperador.

Em tal situação, por falta de alternativa, o homem enfrenta a dificuldade, por ser pensante, e altera o quadro, impulsionado ao avanço, a aceitar os desafios.

Deixa de fugir da sua realidade, descobre-se e trabalha para alcançar etapas mais lúcidas no seu desenvolvimento emocional, pessoal.

Quem se resolve, porém, pela submissão autodestrutiva não merece o envolvimento respeitoso de que todos são credores diante dos combatentes, porquanto, deixando de investir esforços, abandona a sua dignidade de ser humano e prefere o esfacelamento das suas possibilidades como o seu agradável estado de saúde, certamente patológico.

A saúde produz para o bem e para o progresso da sociedade, sem compaixão pelos mecanismos de evasão e pieguismos comportamentais vigentes.

Realizadora, propele a vida para as suas cumeadas e vitórias, sem parada nas baixadas desanimadoras.

Os comportamentos neuróticos

Produtos do inconsciente profundo, a se manifestarem como comportamentos neuróticos, os fatores psicogênicos têm suas raízes na conduta do próprio paciente em reencarnações passadas, nas quais se desarmonizou interiormente. Fosse mediante conflitos de consciência ou resultados de açôes ignóbeis, os mecanismos propiciadores de reabilitação íntima imprimem no inconsciente atual as matrizes que se exteriorizam como dissociações e fragmentações da personalidade, alucinações, neuroses e psicoses.

ínsitas no indivíduo, essas causas endógenas se associam às outras, de natureza exógena, tornando-se desagregadoras da individualidade vitimada pelas pressões que experimenta.

As pressões de qualquer natureza são decisivas para estabelecer o clima comportamental da criatura.

Por formação antropológica, em luta renhida contra os fatores compressivos e adversários, o homem aspira à liberdade. Todos os seus esforços convergem para uma atitude, uma atuação, um movimento, livres de empeços, de detenções, de aprisionamento.

As pressões que lhe limitam os espaços emocionais e físicos aturdem-no, dando margem a evasões, agressividade, disfarces e violências, através dos quais tenta escamotear o seu estado real. Isto quando não tomba na depressão, no pessimismo.

Vivendo sob estímulos, faculta-os à sociedade, que progride e age conforme as energias que os constituem.

Quando esses estímulos são emuladores à felicidade, eis o homem atuante e encorajado, trabalhando pelo progresso próprio e geral, mediante um comportamento otimista. No sentido oposto, quase nunca se motiva à reação, para ascender aos sentimentos ideais que promovem a vida, libertando-se das constrições naturalmente transitórias.

Equivocado quanto aos referenciais da existência, deixa-se imbuir pelas sensações da posse, do prazer fugidio, caindo em depressões, seja pela constituição psicológica fragmentária ou porque estabelece como condição de triunfo a aquisição das coisas que se podem amealhar e perdem o valor quando se não possui o essencial, que é a capacidade de administrá-las, não se lhes submetendo ao jugo enganoso.

Assim, apresentam-se os que se crêem infelizes porque não têm e os que se fazem desditosos porque, tendo, não se contentam em face da ausência da plenitude interior.

O mito da ambição do rei Midas, que tudo quanto tocava se convertia em ouro, causa da sua felicidade e desgraça, tem atualidade no comportamento neurótico dos possuidores--possuídos.

A experiência, no entanto, fazendo a pessoa aprofundar-se na consciência dos valores, altera-lhe o campo de compreensão, favorencendo o entesouramento do equilíbrio. Todavia, tal ocorrência é resultado da luta que deve ser travada sem cessar.

Assim, a saúde psicológica decorre da autoconsciência, da libertação íntima e da visão correta que se deve manter a respeito da vida, das suas necessidades éticas, emocionais e humanas.

O comportamento neurótico, assustador e predominante na sociedade consumista procura esconder o desajuste e as fobias do homem contemporâneo, que se afunda em mecanismos patológicos.

Receando ser ele mesmo, torna-se pessoa-espelho a re-fletir as conveniências dos outros, ou homem-parede a reagir contra todas as vibrações que lhe são dirigidas, antes de as examinar.

"Agredir antes, evitando ser agredido" é a filosofia dos fracos, fechando-se no círculo apertado dos receios e da não aceitação dos outros, forma neurótica de ocultar a não aceitação de si mesmo.

São raros aqueles que preferem ser homens-pontes, colocados entre extremos para ajudar, facilitar o trânsito, socorrer nos abismos existenciais...

O espírito de competição neurotizante vigente e estabelecido como fomentador das riquezas deve ceder lugar ao de cooperação, responsável pela solidariedade e pela paz, humanizando a sociedade e tornando a pessoa bem identificada.

Competir não é negativo, desde que tenha por meta progredir, e não vencer os outros, porém superar-se cada vez mais, desenvolvendo capacidades latentes e novas na individualidade. Competir, todavia, para derrubar quem está à frente, em cima, é atitude neurótica, inconformista, invejosa, que abre brecha àquele que vem atrás e repetirá a façanha em relação ao aparente vencedor atual. Tal atitude responde pela insegurança que domina em todas as áreas do relacionamento social.

Da mesma forma, deixar-se viver sem aventurar-se, no bom sentido do termo, como se transitasse em um sonho cujos acontecimentos inevitáveis se dão sem qualquer ingerência da pessoa, é uma atitude patológica, irracional, em se considerando a capacidade de discernimento e a de realização que caracteriza a criatura humana.

O homem-ação de equilíbrio gera os fatores do próprio desenvolvimento, abandonando o conformismo neurótico, a fim de comandar o destino sempre maleável a injunções novas e motivadoras.

Os seres humanos têm as suas matrizes em a natureza, com a qual devem manter um relacionamento saudável, em vez de evitá-la. Sendo partes integrantes da mesma, não se devem alienar, antes buscar-lhe a cooperação e auxiliá-la num intercâmbio de energias vigorosas, com o que sairão da gaiola particular onde se ocultam e se acautelam.

Há personalidades neuróticas que a temem, receosas de serem absorvidas pela sua grandiosidade e dando às suas expressões - céus, montanhas, mares, florestas, etc. - determinados tipos de projeções humanas, poderosas e devoradoras. Assim, anulam-na, matando-a no seu consciente através da negação da sua necessidade.

Os comportamentos neuróticos são desgastantes, extrapolando os limites das resistências orgânicas, que passam a somatizá-los, abrindo campo para várias enfermidades que poderiam ser evitadas.

Doenças físicas e mentais

A expressiva soma de atividades físicas e mentais atesta que o homem é um ser inacabado. A sua estrutura orgânica, aprimorada nos milénios da evolução antropológica, ainda padece a fragilidade dos elementos que a constituem.

Vulnerável a transformações degenerativas, é tecido que reveste o psiquismo e que, através dos seus neurónios cerebrais, se exterioriza, afirmando-lhe a preexistência consciencial, independente das moléculas que constituem a aparelhagem material.

A consciência, na sua realidade, é fator extrafísico, não produzido pelo cérebro, pois que possui os elementos que se consubstanciam na forma que lhe torna necessária à exteriorização.

Essa energia pensante, preexistente e sobrevivente ao corpo, evolve através das experiências reencarnacionistas, que lhe constituem processo de aquisição de conhecimentos e sentimentos, até lograr a sabedoria. Como consequência, faz-se herdeira de si mesma, utilizando-se dos recursos que amealha e deve investir para mais avançados logros, etapa a etapa.

Em razão disso, podemos repetir que somente "há doenças porque há doentes", isto é, a doença é um efeito de distúrbios profundos no campo da energia pensante ou Espírito.

As suas resistências ou carências orgânicas resultam dos processos da organização molecular dos equipamentos de que se serve, produzidos pela ação da necessidade pensante.

O psicossoma organiza o soma necessário à viagem, breve no tempo, para a individualidade espiritual.

As doenças orgânicas se instalam em decorrência das necessidades cármicas que lhe são inerentes, convocando o ser a reflexões e reformulações morais proporcionadoras do reequilíbrio.

Nas patologias congênitas, o psicossoma impõe os fatores cármicos modeladores necessários à evolução, sob impositivos que impedem, pelos limites das injunções difíceis, a reincidência no fracasso moral.

Assim considerando, à medida que a Ciência se equipa e soluciona patologias graves, criando terapias preventivas e proporcionando recursos curativos de valor, surgem novas doenças que passam a constituir-se tremendos desafios. Isto se dá porque à evolução tecnológica e científica da sociedade não se apresenta em igual correspondência o mecanismo de conquistas morais.

O homem conquista o exterior e perde-se interiormente. Avança na horizontal do progresso técnico sem o logro da vertical ética. No inevitável conflito que se estabelece - comodidade e prazer, sem harmonia interna nem plenitude - desconecta os centros de equilíbrio e abre-se favoravelmente a agentes agressores novos, aos quais dá vida e que lhe desorganizam os arquipélagos celulares.

Outrossim, as tensões, frustrações, vícios, ansiedades, fobias facultam as distonias psíquicas, que são somatizadas aos problemas orgânicos ou estes e suas sequelas dão surgimento aos tormentos mentais e emocionais.

Todo equipamento para funcionar em harmonia, com ajustamento às finalidades a que se destina, exige perfeita eficiência de todas as peças que o compõem.

Da mesma forma, a maquinaria orgânica depende dos fluxos e refluxos da energia psíquica; esta, por sua vez, das respostas das diversas peças que aciona. Nessa interdependência, a vibração mental do homem é-lhe propiciadora de equilíbrio ou distonia, conscientemente ou não. Sabendo canalizar-lhe a corrente vibratória, organiza e submete os implementos físicos ao seu comando, produzindo efeitos de saúde, por largo período, não indefinidamente, em face da precariedade dos elementos construídos para o uso transitório.

As doenças contemporâneas, substituindo algumas antigas e somando-se a outras não debeladas ainda, enquadram-se no esquema do comportamento evolutivo do ser, no seu processo de harmonização interior, de deificação.

Na sua ausência, a energia pensante possui os recursos divinos que deve exteriorizar. Para tanto, à semelhança de uma semente, somente quando submetida à germinação faculta a eclosão dos seus extraordinários elementos, até então adormecidos ou mortos. A morte da forma desata-lhe a vida latente.

A mente equilibrada comandará o corpo em harmonia e, nesse intercâmbio, surgirá a saúde ideal.

A tragédia do cotidiano.

Os conteúdos psicológicos do homem hodierno são de aturdimento, instabilidade emocional, insegurança pessoal, levando-o à perda do senso trágico.

Desestruturados pelos choques comportamentais e esmagados pelo volume das informações impossível de ser digerido, as massas eliminam arquétipos ou os transferem para indivíduos imaturos, portadores de fragilidade psicológica, aterrando-os, soterrando-os, na avalancha das necessidades mescladas com os conflitos existenciais.

Simultaneamente, desaparecem os mitos ancestrais individuais, e a cultura devoradora investe contra os outros, os coletivos, deixando as criaturas desprotegidas das suas crenças, dos seus apoios psicológicos.

A fé cega substituída pela ditadura da razão destruiu ou substituiu os mitos nos quais se sustentavam os homens, apresentando outros, igualmente frágeis, que novamente sofrem a agressão dos valores contemporâneos.

A consciência coletiva, herdeira do choque dos opostos, do ser e do não ser, da coragem e do medo, do homem e da mulher, não sobrevive sem a segurança mítica.

Os seus arquétipos, multimilenarmente estruturados na convicção mitológica, alternam a forma de sobrevivência, transferindo-se os mitos deificados, porém sobreviventes, na sua profundidade psicológica, a todos os golpes mortais que lhe foram desferidos através dos tempos.

Ressucitam, não obstante, disfarçados em novos modelos, porém ainda dominadores, prometendo glórias e castigos, prazeres e frustrações aos seus apaniguados, conforme o culto que deles recebam.

Assim, ao lado da violência que se espraia dominadora, vicejam religiões apressadas, salvadoras, na sua ingenuidade mítica, arrastando multidões desprevenidas e sem esclarecimento que, fracassadas no contubérnio social, ali se refugiam, cultuando o paraíso eterno que lhes está reservado como prêmio ao sofrimento e ao desprezo de que se sentem objeto pela cultura consumista e desalmada.

A autorrealizaçáo pelo fanatismo mantém os bolsões da miséria socioeconômica, por não trabalhar o idealismo latente no homem, a fim de que transforme os processos geradores de desgraça atual em realização pessoal e felicidade, na Terra, mesmo.

De certa maneira, o arrebanhar das multidões para as crenças salvadoras diminui, de alguma forma, o volume da violência, que irrompe, paralelamente, porquanto, sem o mito da salvação pela fé, toda essa potencialidade seria canalizada na direção da agressividade destruidora.

A agressividade salvacionista a que dá lugar, embora os prejuízos éticos e sociais que engendra, acalma os conteúdos psicológicos, desviando os sujeitos dos crimes que poderiam cometer.

O mito da violência, por sua vez, nascido nos porões do submundo da miséria socioeconômico-moral e graças à eclosão das drogas em uso abusivo, engendra o símbolo da força, do poder, do estrelismo, no campeonato da aventura e da bravata, exibindo as heranças atávicas da animalidade primitiva ainda predominante no homem.

Toma-se pela força o que deveria ser dado pela fraternidade, através do equilíbrio da justiça social e dos deveres humanos, em solidário empenho pela promoção dos indivíduos, dignos de todos os direitos à vida que apenas alguns desfrutam.

A tragédia do cotidiano se apresenta nas mil faces da violência que se mescla ao comportamento geral, muitas vezes disfarçando-se até em formas de submissão rebelde e humildade-humilhante, que descarregam suas frustrações, adquiridas ao lado dos mais fortes, no dorso desprotegido dos mais fracos.

Os conteúdos psicológicos, mantenedores do equilíbrio, fragmentam-se ao choque do cotidiano agitado e desestruturam o homem, que se asselvaja ou foge para a furna sombria da alienação, considerando-se incapaz de enfrentar a convivência difícil do grupo social, igualmente superficial, interesseiro, despreparado para a conjuntura vigente.

Graças a isso, os indivíduos fracassam ou enfermam, atritam ou debandam, enquanto os crédulos ressuscitam os mitos das velhas crendices de malfeitos, de perseguições da inveja, do ciúme e do despeito, ou arregimentam argumentos destituídos de lógica para explicar as ocorrências malsucedidas, danosas...

Certamente, sucedem tais perseguições; busca-se o malfazer; campeiam as paixões inferiores que são pertinentes ao homem, ainda em estágio infantil da sua evolução, sem que seja mau.

A sua aparente maldade resulta dos instintos agressivos ainda não superados, que lhe predominam em a natureza animal, em detrimento da sua natureza espiritual.

Em toda e qualquer tragédia do cotidiano ressaltam os componentes psicológicos encarregados da desestruturação do homem, nesse processo de individuação para adquirir uma consciência equilibrada, capaz de proporcionar-lhe paz, saúde, realização interior, gerando no grupo social o equilíbrio entre os contrários e a satisfação real da convivência não competitiva, no entanto cooperativa.

O homem moderno

Buscando enganar a sua realidade mediante a própria fantasia, o homem moderno procura a projeção da imagem sem o apoio da consciência. Evita a reflexão esclarecedora, que pode desalgemar dos problemas, e permanece em contínuas tentativas de negar-se, mascarando a sua individualidade. O ego exerce predominância no seu comportamento e estereotipa fantasias que projeta no espelho da imaginação.

Irrealizado, porque fugindo do enfrentamento com o seu eu, transfere-se de aspirações e cuidados a cada novidade que depara pelo caminho. Não dispõe de decisão para desmascarar o ego, por temer petrificar-se de horror, qual se aquele fosse uma nova Medusa, que Perseu, e apenas ele, venceu, somente porque a fez contemplar-se no escudo espelhado que lhe dera Atena...

Obviamente, esse espelho representa a consciência lúcida, que descobre e separa objetivamente o que é real daquilo que apenas parece. Nesse sentido, o ego, que vive e reincide nos conteúdos inconscientes, necessita de conscientizar-se, desidentificando-se dos seus resíduos emergentes.

O homem vive na área das percepções concretas e, ao mesmo tempo, das abstratas.

A cultura da arte faz com que ele se porte ora como observador, ora como observado, e ainda o observador que se observa, a fim de poder transformar os complexos ou conflitos inconscientes em conhecimentos que possa conduzir, senhor da sua realidade, dos seus atos.

Sua meta é poder sair da agitação, na qual se desgoverna, para observar-se a distância, evitando o sofrimento macerador.

A este ato chamaremos a separação necessária entre o sujeito e o objeto, através da qual se observam os acontecimentos sem os sofrer de forma dilacerante, modificando o estado de ânimo angustiante para uma simples expressão do conhecimento, mediante a transferência da realidade que jaz no espírito para o exterior das formas e da emoção.

A reflexão constitui um admirável instrumento para o logro, apoiando-se na cultura e na realização artística, social, solidária, que desvela os mananciais de sentimento e de consciência humanos.

Jogado em um mundo exterior agressivo, no qual predominam a luta pela sobrevivência do corpo e a manutenção do status, o homem acumula conteúdos psíquicos não descartáveis nem digeríveis, avançando, apressado, para o estresse, as neuroses, as alienações.

Acumula coisas e valores que não pode usar e teme perder, ampliando o campo do querer, mais pelo receio de possuir de forma insuficiente, sem dar-se conta da necessidade de viver bem consigo mesmo, com a família e os amigos, participando das maravilhosas concessões da vida que lhe estão ao alcance.

A mensagem de Jesus é uma oportuna advertência para essa busca insana, quando Ele recomenda que "não se ande, pois, ansioso pelo dia de amanhã, porque o dia de amanhã a si mesmo trará seu cuidado; ao dia bastam os seus próprios males."(*)(*) Mateus: 6-34 Nota da Autora espiritual

Comedir-se, agir com sensatez e tranquilidade, confiar nos próprios valores e nas possibilidades latentes são regras que vão ficando esquecidas, a prejuízo da harmonia pessoal dos indivíduos.

Os interesses competitivos postos em jogo, a aflição por vencer os outros, o sobrepor-se às demais pessoas desarticularam as propostas da vitória do homem sobre si mesmo, da sua realização interior, da sua harmonia diante dos problemas que enfrenta. As linhas do comportamento alteradas, induzindo ao exterior, devem agora ser revisadas, sugerindo a conduta para o conhecimento dos valores reais, a redescoberta do sentido ético da existência, a busca da sua imortalidade.

Quando o homem moderno passar a considerar a própria imortalidade em face da experiência fugaz do soma, empreenderá a viagem plenificadora de trabalhar pelos projetos duradouros em detrimento das ilusões temporárias, observando o futuro e vivendo-o desde já, empenhado no programa da sua conscientização espiritual. Nele se insculpirá, então, o modelo da realização em um ser integral, destituído do medo da vida e da morte, da sombra e da luz, do transitório e do permanente, da aparência e da realidade.

Joanna de Ângelis