03 - BEM AVENTURADOS OS MANSOS

3 - Bem-aventurados os mansos porque herdarão a terra.

BEM AVENTURADOS - O Homem não natural. À semelhança das Bem-aventuranças anteriores, esta é inteiramente oposta ao pensamento do que a Bíblia chama de Homem natural. O mundo julga em termos de poder, auto-confiança, agressividade e conquista. Mas Jesus exaltou traços impopulares de caráter, tais como humildade de espírito, pesar e agora mansidão.

Jesus é realmente o revolucionário dos revolucionários. Ele realmente inverte o sistema e valores da cultura dominante.

A radicalidade dos ensinos de Cristo implica um estilo de vida totalmente diferente para seus seguidores. Não é por acaso que Jesus se refere ao fato de alguém tornar-se cristão como sendo um novo nascimento João 3: 3 e 5. Como Paulo coloca: E, assim, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas antigas já passaram; eis que se fizeram novas. II Coríntios 5: 17.

O cristão renascido pertence a um reino inteiramente diferente da cultura em geral, e até mesmo, infelizmente, da cultura de muitas igrejas. Como resultado, ele tem um novo conjunto de valores.

O ensino de Cristo na terceira Bem aventurança mais uma vez se coloca contra a sabedoria aceitável de nosso mundo. De acordo com Ele, não são os desordeiros, violentos, agressivos, ou egoístas que herdarão a Terra. E sim os mansos. São os que percebem a sua debilidade e por isso possuem humildade de espírito, os que choraram por suas deficiências, e se comprometeram com o estilo de vida dos mansos, que posteriormente acabarão herdando a Terra. Esse ensinamento não pode ser obtido de lições de história ou da leitura do jornal diário.

As palavras da terceira bem-aventurança não devem ser lidas superficialmente. São palavras profundas, repletas de sabedoria. São palavras impossíveis de serem vividas por nós através de nossas próprias forças. À medida que avançarmos nas Bem-aventuranças teremos uma maior compreensão de nossa necessidade do poder transformador do espírito Santo em nossa vida.

Hoje precisamos orar para que Deus não apenas nos conceda discernimento para percebermos o caminho de Jesus, mas que Ele nos dê poder para caminharmos nele[1].

MANSOS - Ou os humildes, termo tomado do Saltério na forma grega. O verso 4 poderia ser simplesmente uma glosa do verso 3; a sua omissão reduziria o número das bem-aventuranças a sete[2].

As dificuldades que temos que enfrentar podem ser muito minoradas pôr aquela mansidão que se esconde em Cristo. Se possuirmos a humildade de nosso Mestre, sobrepor-nos-emos aos menosprezos, às repulsas, aos aborrecimentos a que estamos diariamente expostos, e estes deixarão de nos lançar sombra sobre o espírito.

A mais elevada prova de nobreza num cristão é o domínio de si mesmo. Aquele que, em face de maus tratos ou crueldade, deixa de manter o calmo e confiante, rouba a Deus de seu direito de nele revelar Sua própria perfeição de caráter. Humildade de coração é a força que dá vitória aos seguidores de Cristo; é o penhor de sua ligação com as cortes do alto[3].

Grego: praús manso, suave, gentil. Cristo disse que ele era manso: praús e humilde de coração 11: 29, e por isso todos os que estão cansados e oprimidos verso 28 podem ir a ele e achar descanso para sua alma. O equivalente hebraico do grego: praús é anaw ou ani, pobre, afligido, humilde, manso. Emprega-se esta palavra hebraica para descrever a Moisés que era muito manso Números 12: 3. Também aparece na passagem messiânica de Isaias 61: 1 a 3; Salmo 37: 11, onde também se traduz como manso.

A mansidão é uma atitude do coração, da mente e da vida, que prepara o caminho para a santificação. À vista de Deus, o espírito afável: praús é de grande de estima. I Pedro 3: 4. A mansidão aparece repetidas vezes no NT como uma virtude importantíssima do cristão Gálatas 5: 23; I Timóteo 6: 11. A mansidão em relação com Deus significa que teremos de aceitar sua vontade e a forma em que nos trata, que nos submeteremos a ele em todas as coisas sem vacilação. Uma pessoa mansa domina perfeitamente sua eu. Devido ao enaltecimento do eu, nossos primeiros pais perderam o reino que lhes tinha sido confiado. Por meio da mansidão este pode ser recuperado[4].

A palavra manso pode trazer a idéia de servidão, fraqueza de caráter, consentimento, incapacidade ou falta de coragem para enfrentar uma situação delicada. Pode apresentar um retrato de uma criatura submissa e ineficaz. Porém a palavra manso, no grego: Praus era uma das grandes palavras da ética.

Aristóteles tinha muito a dizer da qualidade da mansidão, grego praotês. Aristóteles seguia um método para definir qualquer virtude que consistia em encontrar um termo entre o médio e os extremos. Por uma parte o extremo estava no excesso, e por outra no escasso, entre ambos estava à virtude, o termo médio feliz. Por exemplo: Em um extremo se encontrava o pródigo, no meio o avarento, e entre ambos o generoso.

Aristóteles define a mansidão praotês, como o termo de equilíbrio, ele via na virtude mansidão o equilíbrio entre o excesso e a falta de ira. Assim poderia ser traduzida a Bem-aventurança: Bendito o que se indigna a seu devido tempo por uma boa causa e não o contrário.

Se nos perguntarmos qual é o devido tempo e qual o contrário diríamos que, por regra geral que na vida não se deve irritar por um insulto ou uma injúria que se é dirigida pessoalmente; isto é algo que o cristão não deve nunca ter em conta, mas deve-se indignar pelas injúrias que fazem outras pessoas. A ira egoísta sempre é um pecado, a ira limpa do egoísmo pode ser uma grande dinâmica do mundo.

A palavra grega praús tem um segundo sentido. Ela é usada para referir-se a um animal que tenha sido domesticado, e que era acostumado a obedecer à palavra de mando, que aprendeu a obedecer. É a palavra usada para referir-se ao animal que aprendeu aceitar o controle. Assim que a possível tradução desta bem-aventurança poderia ser: Bendita a pessoa que tem sob seu controle todos seus instintos e paixões! Bendito o que se mantém total e constantemente debaixo de seu controle.

Não se trata da bênção da pessoa que se controla a si mesmo, porque isto está fora da capacidade humana, mas da pessoa que está em íntima sintonia e totalmente sob controle de Deus, porque só em seu serviço encontramos perfeita liberdade, e em fazer Sua vontade encontramos paz.

Há um terceiro enfoque nesta bem-aventurança. Os gregos contrastavam sempre a qualidade que chamavam praotês, e que a versão RV traduz por mansidão com qualidade que chamavam hysêlokardia que quer dizer altivez de coração. Em praotês se encontra a verdadeira humildade que lança fora todo o orgulho.

Sem humildade não se pode aprender, porque o primeiro passo do aprendizado é ser consciente de nossa própria ignorância.

Quintiliano, o grande Mestre de oratória hispanoromano, dizia a seus alunos: “Não me cabe dúvida de que seriam excelentes alunos se não estivessem convencidos que sabem tudo”. Não se pode ensinar nada a uma pessoa que crê que sabe tudo. Sem humildade não pode haver tal coisa como o amor, porque o verdadeiro princípio do amor é o sentimento de indignidade. Sem humildade não pode haver verdadeira religião, porque toda verdadeira religião inicia-se por dar-se conta de nossa debilidade própria e de nossa necessidade de Deus. Uma pessoa só alcança sua verdadeira humanidade quando está consciente de que é uma criatura e Deus é o Criador, e sem Deus não se pode fazer nada.

Praotês descreve a humildade, a aceitação da necessidade de aprender e a necessidade de ser perdoado. Descreve a única atitude adequada do homem para com Deus. Assim a possível tradução desta bem-aventurança seria: “Bendito o que tem a humildade de reconhecer sua própria ignorância, debilidade e necessidade”[5].

Os mansos são aqueles que se humilham diante de Deus por reconhecerem sua total dependência Dele. Como conseqüência são gentis no trato para com o próximo. Moisés revelava este traço de caráter em notável medida; e a posse do mesmo por Jesus foi uma das bases para Ele convidar homens e mulheres cansados e oprimidos e achar alívio e descanso Nele, que era exatamente manso e humilde, Mateus 11: 28 e 29. Quando Deus tiver destruído todos os que em sua arrogância resistem à sua vontade, os mansos serão os únicos a herdar a Terra[6].

Os mansos. Serenidade, às vezes negativa e às vezes positivamente boa. Essa Bem-aventurança se alicerça em Salmo 37: 11. Os homens que padecem sob o mal, sem se deixarem contaminar pelo espírito de amargura mas com paciência, possuem qualidades aprovadas por Deus. Tais como Natanael são israelitas em que não há dolo. João 1: 47. Na história da Inglaterra houve pessoas que, ao serem perseguidas pelo governo e pela sociedade e até pela igreja oficial, herdaram o continente americano[7].

Mansidão não é fraqueza. O amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sabe, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. I Coríntios 13: 4 a 7.

Apalavra grega traduzida como manso significa gentil, pon­derado e cortês, e implica o exercício do domínio próprio que torna essas qualidades possíveis. Por isso, a New English Bible está perfeita­mente em harmonia com os pensamentos de Jesus, quando traduz Ma­teus 5: 5 como: Bem-aventurados os de espírito gentil. O significado de mansidão engloba muitos dos traços característicos da magistral de­finição do amor, que Paulo dá na leitura do texto bíblico.

A mansidão bíblica não deve ser confundida com indolência. Alguns que aparentam ser mansos podem ser simplesmente negligentes. Nem deve ser confundida com fraqueza de personalidade ou caráter. Os personagens que a Bíblia cha­ma de mansos tiveram grande firmeza de caráter. A pessoa mansa pode permanecer tão firme ao lado da verdade, que estaria disposta a morrer por ela se fosse necessário. Os mártires foram mansos, mas não fracos. A mansidão bíblica e compatível com grande força e autoridade.

A mansidão interior nos leva a uma visão do próprio eu. Quando finalmente reconhecer que sou um pecador sem esperança e sentir tristeza por isso, estarei pronto para a mansidão. Estarei preparado pa­ra colocar todo o orgulho de lado. Porque tem urna visão realística de si mesmos, os mansos não são escravizados por atitudes defensivas ou de retaliação. Uma das maiores necessidades de nosso mundo, igreja e famílias de mansidão[8].

O Tratamento de Choque Continua. Não por força nem por poder, mas pelo Meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos. Zacarias 4: 6.

Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a Terra. Mateus 5: 5. Essa declaração causou um grande choque para os judeus nos dias de Jesus. Eles estavam aguardando um Mes­sias que os libertaria do poder de Roma através da força armada.

O Messias, criam, seria como Davi, o rei guerreiro. Nos Salmos de Salomão livro pseudoepígrafo escrito durante o pe­ríodo entre o AT e o NT não anunciavam que o ungido Filho de Davi seria um rei que se levantaria dentre o povo pa­ra libertar Israel de seus inimigos? Ele aniquilaria todos os seus bens com vara de ferro, para destruir as nações ímpias com a palavra de Sua boca. Salmos de Salomão 17: 26 e 27.

A última coisa que os judeus do primeiro século desejavam era um Messias manso. Eles queriam um líder que pudesse e desse a Roma o que ela merecia. Jesus era o oposto do modelo que eles desejavam e aguardavam.

Bem, é fácil para nós cristãos percebermos que os judeus estavam errados. Mas não somos culpados de apresentar o mesmo tipo de pen­samento às vezes? Também não temos a tendência de prestar honras aos bem-sucedidos e glorificar as realizações dos grandes pregadores e lideres da igreja, como se a batalha fosse ganha pelas palavras e es­forços humanos? E não somos também tentados, como Davi, a confiar em organização e números em busca de força? Boas como essas coisas possam parecer, elas não são a fonte do sucesso do cristão.

Deus tem inúmeras maneiras de levar a cabo a comissão do evan­gelho e introduzir a plenitude do reino, das quais nada sabemos. De vez em quando precisamos reler a história de Gideão. No caso dele, Deus continuou reduzindo os números em vez de acrescentar, antes de con­ceder a vitória.

No reino de Cristo, é a mansidão que está na base do sucesso, e não o poder humano. Precisamos nos lembrar de que a vitória, tanto em nossa vida pessoal como na igreja em geral, não vem por força, nem por poder, mas pelo Espírito de Deus[9].

Mansos Apesar de Tudo

Era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra. Números 12: 3.

A mansidão não veio naturalmente para Moisés. Ele havia sido treinado como um príncipe egípcio, e indubitavelmente tinha uma ex­celente auto-estima como jovem governante. Num momento de des­controle, matou um egípcio que vira maltratando um israelita. Êxodo 2: 12. Pensou que sabia cuidar do povo de Deus e re­solver as batalhas Dele.

Esse homicídio levou o jovem príncipe a fugir para o deserto a fim de salvar sua vida. Foi lá que sua educação se tornou completa. Moisés teve que desaprender muitas das lições que lhe foram ensinadas na eli­te da Universidade do Egito. Naquele intervalo de 40 anos, longe do poder, que ele aprendeu a mansidão como pastor de ovelhas. A mansidão o qualificou para se tornar o primeiro líder da nação de Deus, Israel. A mansidão fez de Moisés o representante de Cristo para o povo de Deus Deuteronômio 18: 18.

O novo Moises estava longe de ser fraco ou vacilante, mas foi manso. Em grande parte havia perdido seu orgulho e ira descontrola­da, mas não foi fraco. Ao contrário, foi um líder poderoso e destemido sob a orientação divina. Sua força, poder e autoridade foram ago­ra temperados pela mansidão. Havia sido transformado, foi escolhido para liderar o povo de Deus.

A Bíblia está repleta de heróis mansos. Tome como exemplo Davi em seu relacionamento com Saul. Davi sabia que devia ser rei, no en­tanto, como sofreu sob o tratamento injusto e cruel de Saul. Exemplificou a mansidão num grau extraordinário.

E no NT temos o exemplo de Paulo, que foi conver­tido a Jesus enquanto estava numa missão para perseguir os cristãos. Paulo também se educou no deserto, entre sua função como líder do judaísmo e como líder do cristianismo. Tornou-se um exemplo de mansidão para com aqueles que o maltrataram, tanto dentro como fo­ra da igreja. Na base de sua força estava à mansidão gentil que não fa­zia parte do seu eu natural.

Sendo transformados; aprendemos lições de mansidão, e somos usa­dos por Deus[10].

A Mansidão Suprema. Tomai sobre vós o Meu jugo e aprendei de Mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para a vossa alma. Mateus 11: 29.

As vidas de Moisés, Davi e Paulo são úteis, mas é o exemplo de Jesus que tem extrema importância para os cristãos. A vida de Cristo foi o exemplo por excelência de mansidão. Vemos isso em todos os lu­gares dos Evangelhos. Percebemos isso em Sua reação com as pessoas, especialmente quando Ele sofreu perseguição, desprezo e escárnio. Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem, Ele foi capaz de di­zer aos que O crucificaram.

Sendo Deus, Jesus tinha poder para vingar-­Se daqueles que zombavam Dele enquanto morria. Mas Ele preferiu não fazê-lo. Ele preferiu morrer até mesmo por aqueles que estavam maldosamente usando e abusando dEle.

A mansidão de Jesus é vista em relação a ou­tras pessoas, ela é até mais evidente em Sua submissão ao Pai. Contem­ple-O no Getsêmani, onde Ele teve finalmente que ficar face a face com a crise da cruz. Três vezes ele orou para permanecer submisso a vontade de Seu Pai. Embora fosse um Homem destemido e de grande firmeza de caráter, Jesus foi submisso a Deus. Sua mansidão estava evi­dente em tudo que fazia e dizia.

Filipenses 2: 5 a 8 é especialmente útil na compreensão da mansidão de Jesus, quando Paulo nos diz para seguir o exemplo de Cristo Jesus, pois Ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação ser igual a Deus; antes, a Si mesmo Se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-Se em semelhança de homens; e, reconhecido em fi­gura humana, a Si mesmo Se humilhou, tornando-Se obediente até a morte e morte de cruz.

Esta passagem proporciona a cada um de nós um exemplo incrível para seguirmos em nossa vida diária. Jesus era Deus, contudo consen­tiu em viver a vida terrena, não como um rei que merecia respeito, mas como Alguém que tinha a missão de servir os outros. Esta é a essência do cristianismo. Deus deseja liber­tar-nos do orgulho e auto-suficiência, para que possamos nos tomar Seus servos e servos de nossos semelhantes[11].

Comentário Miquéias 6: 8. Foi-te anunciado, ó homem, o que é bom, e o que Iahweh exige de ti: nada mais do que praticar o direito, gostar do amor e caminhar humildemente com teu Deus.

ANUNCIADO - Grego: Foi-te anunciado; Hebraico: Ele te fez saber; Vulgata: Eu te anunciarei[12].

Declarou-te. A resposta que deu Miquéias não era uma nova revelação e não representava uma mudança nos requerimentos divinos. O propósito do plano de salvação, a saber, a restauração da imagem de Deus no alma humana, tinha sido revelado claramente a Adão, e o conhecimento deste propósito tinha sido transmitido às gerações sucessivas. Esse conhecimento foi confirmado pelo depoimento pessoal do Espírito Romanos 8: 16 e foi ampliado mediante sucessivas revelações dos profetas. Os contemporâneos de Miquéias tinham o Pentateuco em forma escrita e sem dúvida outras porções da Bíblia, bem como o depoimento dos profetas desses dias, tais como Isaías e Oséias, Isaias 1: 1; Oséias1; Miquéias 1.

No entanto, o povo parecia ter esquecido que os ritos externos não têm valor sem uma verdadeira piedade. Uma das principais missões dos profetas era ensinar às pessoas que uma mera prática religiosa externa não podia substituir ao caráter e à obediência íntima I Samuel 5: 22; Salmo 51: 16 a 17; Isaias 1: 11 a 17; Oséias 6: 6; Jeremias 6: 20; 7: 3 a 7; João 4: 23 a 24. Deus não desejava seus bens senão seu espírito; não só seu culto senão sua vontade; não só seu serviço senão sua alma[13].

PRATICAR O DIREITO

Justiça. Hebraico: mishpat da raiz shafat, julgar. A forma plural, mishpatim, geralmente traduzida juízos, usa-se a respeito dos preceitos adicionais que dão minuciosas instruções quanto à forma em que devia observar-se o Decálogo Êxodo 21: 1; PP p. 379. Fazer mishpat é ordenar a vida de acordo com os juízos de Deus[14].

GOSTAR DO AMOR - Misericórdia.

Hebraico: hésed, palavra que designa uma ampla gama de qualidades, como o indicam suas diversas traduções, tais como: bondade, benevolência, favor carinhoso, bondade misericordioso, misericórdia[15].

HUMILDEMENTE - Humilhar-te. Caminhar humildemente.

Quando os homens caminham com Deus, Gênesis 5: 22; 6: 9, põem sua vida em harmonia com a vontade divina.

A humilhação desta passagem prove do Hebraico: tsana, que na forma em que aqui se acha aparece só uma vez. Além do significado de humildemente, esse vocábulo implica com circunspeção, com precaução, cuidadosamente.

O desenvolvimento de uma íntima relação com Deus é o propósito da verdadeira religião: As cerimônias externas só têm valor se contribuem a esse desenvolvimento. Mas devido a que com freqüência tem sido mais fácil praticar um culto externo do que mudar as más tendências do coração, os homens sempre têm estado mais dispostos ao culto de cerimônias que ao cultivo das graças do espírito. Tal foi o caso dos escribas e fariseus a quem reprovou Jesus. Eram muito minuciosos para calcular seu dízimo, mas descuidavam o mais importante da lei: a justiça, a misericórdia e a fé Mateus 23: 23.

Fazer justiça, e amar misericórdia é proceder com retitude e bondade. Estas virtudes afetam nossa relação com nossos próximos e resumo o propósito da segunda tabela do Decálogo ver comentário Mateus 22: 39 a 40. Humilhar-te ante teu Deus é viver em harmonia com os princípios da primeira tabela do Decálogo ver comentário Mateus 22: 37 e 38. Isto inibe nossa relação com Deus. O amor expressado em ação com respeito a Deus e a nossos próximos é bom. É tudo o que Deus requer pois o cumprimento da lei é o amor Romanos 13: 10[16].

PORQUE - Uma Ordem Impossível. Não vos vingueis a vós mesmos, amados, porque esta escrito: A Mim Me pertence à vingança; Eu é que retribuirei, diz o Senhor. Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. Romanos 12: 19 a 21.

Como seria o mundo se as pessoas levassem em consideração os conselhos de Paulo sobre a vingança? Como seria se as pessoas esco­lhessem viver pelos princípios da mansidão, em vez dos princípios do orgulho e autodefesa?

A conclusão é óbvia. Não seria o nosso mundo. Seria o Céu. E sen­do que nunca veremos o mundo nesse estado perfeito antes da segun­da vinda de Jesus, cada um de nós pode começar a experimentar isto aqui e agora. O ponto de partida sou eu.

Como cristãos, por muito tempo temos esperado que uma nova reforma comece em outro lugar. Muitos de nós estão esperando que a reforma comece de cima para baixo em alguma outra corporação importante.

Esse modo de pensar está totalmente equivocado. A reforma bíbli­ca não começa assim. Começa com indivíduos que entregam o coração a Deus e se dedicam a viver os princípios do reino de Deus em sua vida diária, aqui e agora. A reforma começa comigo.

Bem, você deve estar pensando, isto é impossível. Não posso alimentar e cuidar de meus inimigos. Tal ordem está além de minhas forças.

Você está certo. Você não pode fazer isto. Mas Deus pode, se estiver disposto a permitir que Ele viva em sua vida, através do poder do Espírito Santo.

Oh, como Ele deseja abençoá-lo hoje! Como Ele deseja libertá-lo de seu eu natural e abençoá-lo com a mansidão de Cristo.

Oração: Querido Pai, hoje desejo que Tu entres em minha vida e faças por mim o que não posso fazer por mim mesmo. Ajuda-me a não revidar aqueles que me trataram mal. Dá-me força para partilhar Tua bondade com eles. Dá-me a graça de vencer o mal com o bem[17].

Herdarão a Terra

Receberão a terra por herança. Salmo 37: 11. Os pobres de espírito têm de receber as riquezas do reino dos céus; os mansos têm de receber a terra por herança. É evidente que não são os mansos quem agora possuem a terra, senão os orgulhosos. No entanto, a seu devido tempo os reinos deste mundo serão entregues aos santos, aos que aprenderam a virtude da humildade Daniel 7: 27. Finalmente, disse Cristo, os que se humilham, os que aprendam a mansidão, serão engrandecidos Mateus 23: 12[18].

Os mansos disse Jesus herdarão a terra. É fato histórico que as pessoas que tiveram autocontrole, tinham seus instintos, impulsos e paixões sob o controle da disciplina, pessoas que foram verdadeiramente grandes. A Bíblia diz sobre Moisés o maior líder e legislador que o mundo conheceu: Moisés era um homem muito manso, mais de que todos os homens que havia sobre a terra. Números 12: 3. Moisés não tinha um caráter aguado, não era uma ameba que não podia erguer-se e tornar-se firme; podia ficar corado de ira, porém a tinha sob controle e se pronunciava no momento adequado. O autor de Provérbio diz: O que domina seu espírito é mais forte do que o que domina uma cidade. Provérbios 16: 32.

A falta desta qualidade derrubou Alexandre o Grande, que num ataque de fúria incontrolado, em meio a uma orgia, arremessou a lança contra seu melhor amigo e o matou. Não pode guiar outras pessoas se não guia a si mesmo, não pode servir aos outros se não se submete a si mesmo, nem querer controlar os outros se não se controla a si mesmo. Se a pessoa se submete ao perfeito controle de Deus obterá esta mansidão que permitirá herdar a Terra.

Está claro que a palavra praüs quer dizer muito mais que somente a palavra manso; está claro no texto, que não temos uma palavra adequada no português para traduzir perfeitamente, ainda que a palavra pacífico se aproxime. A tradução completa desta bem aventurança poderia ser: Ah! A bem aventurança que se indigna sempre a seu devido tempo pela causa devida, e não ao contrário, e que tem sob seu controle, porque está submetido ao controle de Deus, todo instinto, impulso e paixão, e que tem a humildade de reconhecer sua própria ignorância e debilidade: porque tal pessoa é soberana entre os seres humanos[19].

O Messias mostra que a nova ordem do Reino de Deus promete a terra a tais pessoas. Esta é uma característica dos regenerados. Uma alusão as profecias de Daniel 7: 27, que fala da esperança da vinda do Messias, no Reino de Deus sobre a terra e de uma nova ordem social. Na citação de Salmo 37: 11 temos idéia que Deus removerá da terra os inimigos de Israel[20].

Herdeiros da Terra. Porque o Senhor Se agrada do Seu povo; Ele adornará os mansos com a salvação. Salmo 149: 4.

A economia política terrena está baseada em segurança e poder. Não está numa quantidade infinita de riquezas. Como resultado, ho­mens e mulheres, em todos os lugares, lutam para obter sua parte ou, falando honestamente, mais do que a sua parte.

Os resultados da agressão e egoísmo humanos são vistos em todo lugar. Nação luta contra nação no cenário internacional, enquanto in­divíduos batalham por posição na escala corporativa.

Parece que a herança dos mansos não seria grande coisa. A recom­pensa final de Jesus foi a cruz. E muitos dos Seus fiéis seguidores foram perseguidos, aprisionados e levados a morte.

Os jornais diários parecem contradizer diretamente a sentença de Jesus de que os mansos herdarão a Terra. O ponto de vista terreno pa­rece estar posicionado a favor da lei darwinista da selva: a sobrevivên­cia do mais forte. Mas as realidades aparentes não são as únicas realidades. Não são as realidades definitivas.

A promessa da terceira bem-aventurança está no futuro. Os man­sos... Herdarão a Terra, no final de todas as coisas Mateus 5: 5.

Não será a Terra que conhecemos atualmente, com des­truição, egoísmo e poluição. Será uma Terra restaurada a sua condição edênica. Será uma Terra na qual não haverá mais tristezas, funerais ou hospitais. Será um planeta que verdadeiramente valerá à pena.

Como Isaias diz:

Então, se abrirão os olhos dos cegos, e se desimpedirão os ouvidos dos surdos; os coxos saltarão como cervos, e a língua dos mudos canta­rá; pois águas arrebentarão no deserto, e ribeiros, no ermo. A areia es­braseada se transformará em lagos, e a terra sedenta, em mananciais de águas. Isaias 35: 5 a 7.

Não apenas as características físicas da Terra serão diferentes, mas também seus cidadãos. A mansidão será uma característica de todos. Apenas os que têm como característica a mansidão herdarão a Terra[21].

NOTA ADICIONAL DE MATEUS CAPÍTULO 7

Nos escritos dos eruditos rabínicos se encontram numerosos paralelos com os ensinos religiosos e morais apresentadas por Jesus no Sermão do Monte e em outras passagens. Corresponde perguntar: Até que ponto depende um do outro? A maioria dos eruditos Judeus do século XX afirmam que em boa medida Jesus dependeu das tradições Judias das escolas rabínicas de seu tempo.

Em 1881 T. Tal Een Blik in Talmoed em Evangelie, Amsterdam afirmou que os ensinos morais apresentadas no NT aparecem sem exceção no Talmude, e que o Talmude foi à fonte da qual os Evangelhos tomaram seus ensinos morais. Um estudo judeu mais recente pretende que em todos os Evangelhos não há nem um só ensino de ética que não tenha seu paralelo no AT nos livros apócrifos, ou na literatura talmúdica ou midrásica do período próximo ao de Jesus. José Klausner, Jesus de Nazaré, traduzido por Herbert Danby ao inglês e publicado em 1925, p. 384. Afirma que Jesus não apresentou quase nenhum ensino ético que fosse fundamentalmente alheia ao judaísmo. Tão extraordinária é a similitude, que quase poderia parecer que os Evangelhos foram compostos singela e exclusivamente de materiais conteúdos no Talmude e no Midrash. Idem, pp. 388 e 389. Ainda que não são tão radicais como os eruditos judeus recém mencionados, muitos comentaristas cristãos citam numerosos paralelos na literatura rabínica, criando assim a impressão de que Jesus realmente ensinou poucas coisas que não fossem familiares para o pensamento judeu. Ver pp. 97 a 101.

Não se pode negar que há paralelismos notáveis. Mas não se deduz necessariamente que Jesus tomou seus ensinos morais da literatura rabínica. A comparação mais extensa jamais feita entre o NT e a literatura judaica é a que efetuaram Strack e Billerbeck em sua monumental obra de 4.102 páginas publicada em alemão Kommentar zum Neuen Testament aus Talmud und Midrasch no ano 1922. Já que estes autores sem dúvida são as autoridades máximas neste tema, resulta interessante notar suas observações e conclusões, as quais aparecem num epílogo aos comentários do Sermão do Monte tomo I, pp. 470 a 474. Fazem notar que, com a exceção do que disse Hillel, os paralelos com o Sermão do Monte atribuído por nome a rabinos, são todos de mestres rabínicos que viveram depois do tempo de Jesus. É possível argumentar na contramão desta conclusão dizendo que muitos ditos, que se atribuem a autores posteriores, são de origem mais antiga, pelo qual poderiam ter servido como fonte para os ensinos de Jesus. No entanto, Strack e Billerbeck respeitam a regra bem estabelecida de que um dito que se lhe atribui a certo autor pertence em realidade ao erudito cujo nome leva, sempre que não possa provar-se de boa fonte que esse dito já existia antes.

Quando se aplica esta regra aos ensinos do Sermão do Monte, imediatamente se comprova que a grande maioria delas deve atribuir-se a Jesus, pois ele viveu antes que os eruditos a quem se lhe atribuem estes ensinos na literatura rabínica. Não se nega que alguns destes ditos puderam ter sido mais antigos, mas tem de ser responsabilidade do que assim o crê o encontrar a evidência de que cada dito provia em realidade de uma época anterior.

Examinemos por um momento o outro lado do problema. Até que ponto pôde ter sido o ensino de Jesus origem para alguns dos ditos da literatura rabínica? Strack e Billerbeck tomam em conta evidências de que os mais antigos eruditos rabinos tanaíticos, quem viveram pelo ano 100 d. C., conheciam bem algumas dos ensinos de Jesus. Por exemplo, a afirmação de Mateus 5: 17 surgem numa disputa entre Gamaliel II 90 d. C. e um cristão Talmude Shabbath 116a, 116b. Não se pode medir a influência que teve Jesus no desenvolvimento do pensamento judaico, sobretudo durante esses primeiros anos quando a sinagoga e a igreja estiveram muito relacionadas uma com a outra. A seguinte citação poderia ser considerada como uma apreciação justa da situação: Se chegou até o ponto de sugerir, ainda que dificilmente possa provar-se alguma vez, que as críticas feitas por Jesus, em tempos posteriores quando sua origem se tinha esquecido, poderiam ter jogado algum papel no desenvolvimento do código judaico que foi tomando a forma da Mishnah e o Talmude. H. D. A. Major, T. W. Manson, e C. J. Wright, The Mission and Message of Jesus, 1938, p. 304.

Quando se recorda que a porcentagem de ditos rabínicos que não se baseiam, total ou parcialmente, no texto bíblico é mínimo, não se deve surpreender que possam achar-se paralelos entre estes ditos e os de Jesus, quem deu as Escrituras do AT. Quando os homens piedosos de todas as épocas permitiram que influísse neles o Espírito que tinha inspirado o AT, seus ditos refletiram a luz do céu. Em verdade, esta observação explica por que os filósofos que trabalharam fora do âmbito da religião revelada, tais como Confúcio e Platão, com freqüência expuseram elevados ideais. Jesus é a luz verdadeira, que ilumina todo homem. João 1: 9; DTN, p. 430.

Ainda que se possam assinalar paralelos entre os ditos de Jesus e os dos rabinos judeus, ao mesmo tempo há diferenças importantes, segundo o mostram Strack e Billerbeck. Nenhum erudito judeu deixou tal multidão de ditos religiosos e morais como o fez Jesus. Nenhum rabino judeu pôde expressar seus ditos na forma breve e autorizada que tanto se admira nos ensinos de Jesus. Sobretudo, nenhum erudito judeu posterior teve as mesmas metas que tivesse Jesus e nisto consiste a principal diferença, apesar de todos os paralelos.

Jesus se declarou enfaticamente contrário à doutrina farisaica da salvação pelas obras e ensinou peremptoriamente que a justiça legalista era insuficiente. Ao mesmo tempo, mostrou a seu povo um novo caminho que leva a uma justiça mais elevada. A literatura rabínica proporciona uma evidência carregada de que a religião dos judeus, bem como a expunham os rabinos, era uma religião em que a redenção depende de si mesmo. Por outra parte, a religião de Cristo não se centra em determinada coleção de verdades e ensinos éticos, senão só em Jesus, em sua pessoa e em seu ministério.

A importância espiritual dos ensinos de Jesus não se deve medir meramente por seus grandes princípios morais. Muitos destes já tinham sido expostos no AT ou nos ditos do homem que, em diferentes graus, tinham sido iluminados pela luz do céu. Mas Cristo falou como nunca homem tinha falado e com uma autoridade que exigia que se lhe prestasse atendimento. O que distingue claramente a nosso Senhor é o fato de que Ele é divino e os outros mestres tão só foram humanos. Jesus não veio só dizer aos homens como deviam viver, senão a dar-lhes o poder necessário para viver essa vida. Não só veio para mostrar aos seres humanos que o pecado é mau e que a justiça é a verdadeira meta da vida, senão veio apagar os pecados passados e a dar aos homens a justiça proveniente do céu. Isto não podia fazer os mestres humanos. No máximo podiam assinalar aos homens um caminho melhor. Mas Jesus é o caminho, e a verdade, e a vida João 14: 6. Cristo nos foi feito por Deus sabedoria, justificativa, santificação e redenção. I Corintios 1: 30.

Jesus é a luz verdadeira João 1: 9. O é a fonte de toda verdadeira luz, e não o reflexo da luz de outros João 1: 9; 5: 35. Tudo o que é bom e enobrecedor se originam Nele e leva a Ele[22].

Havia ocasiões em que Cristo falava com uma autoridade que fazia com que Suas palavras penetrassem com irresistível força, com um senso avassalador da grandeza Daquele que falava, e os instrumentos humanos recuavam até a insignificância em comparação com Aquele que estava diante deles. Eles eram profundamente movidos; seu espírito tinha a impressão de que Ele repetia um mandamento vindo da mais excelente glória. Ao Ele convidar as pessoas para ouvir, sentiam-se fascinadas, arrebatadas, e sobrevinha-lhes a convicção. Cada palavra encontrava lugar, e os ouvintes criam e recebiam as palavras a que não tinham poder de resistir. Cada palavra por Ele proferida parecia aos ouvintes como a vida de Deus. Ele dava provas de que era a luz do mundo e a autoridade da igreja, reivindicando preeminência sobre todos eles[23].

SALMO 37: INTRODUÇÃO

Lutero disse do Salmo 37: Aqui está a paciência dos santos. Neste Salmo se considera o problema do aparente triunfo dos ímpios, dificuldade que se resolve no pensamento do salmista quando reconhece que a dita prosperidade é transitória. Aconselha-nos a que desenvolvamos nossa confiança em Deus à medida que crescemos, passando os anos verso 25, pois ele a seu devido tempo castigará os pecadores e recompensará os justos. O Salmo é desenvolvido, em forma de acróstico, do ensino do primeiro verso. A estrutura acróstica é bastante regular. Cada letra do alfabeto hebraico encabeça uma estrofe que consta regularmente de duas linhas, mas que em português salvo os versos 7, 20, 34 são de dois versos.

A irregularidade mais notável neste acróstico se encontra ao começo da estrofe que corresponde à letra áyin verso 28 ú. p. e 29. Parece ter uma dificuldade no texto. A Bíblia hebraica de Kittel toma como letra inicial dessa seção a áyin de olam para sempre, ainda que tem uma lámed prefixada. Este arranjo não é habitual nos acrósticos hebraicos. Na BJ e em NC se nota claramente a divisão em 22 estrofes bem regulares.

Neste Salmo, como em outros acrósticos ver Salmo 25, não há tanto um desenvolvimento lógico de idéias como uma ampliação de diversos aspectos do tema central. O ensino se faz eficaz mediante a força acumulada da repetição. O tema do Salmo 37 é similar ao do Salmo 73 e à mensagem do livro de Jó, em onde se considera a justiça de Deus em seu trato com os homens, tanto com os que lhe servem como com os que o recusam[24].

A SORTE DO JUSTO E DO ÍMPIO

Este Salmo alfabético, o Espelho da Providência, Tertuliano, para aqueles que a felicidade do ímpio é indigna, opõe o ensinamento dos sábios sobre a retribuição temporal dos justos e dos ímpios. Este debate será retomado por Eclesiastes 8: 11 a 14 e por Jó[25].

1 - Não te irrites por causa dos maus, nem invejes o que pratica a injustiça:

NÃO TE IRRITES - Não te impacientes. Não te acalores. Não devemos preocupar-nos pelo aparente triunfo dos ímpios Provérbios 24: 19. Como cristãos deveríamos ganhar a vitória sobre a impaciência, porque ao impacientar nos perdemos a perspectiva das coisas e a clareza de visão. Mais ainda quando nos enojamos com o pecador, não podemos ajudá-lo; e, pomo-los de parte do erro[26].

NEM INVEJES - Provérbios 3: 31; 23: 17; 24: 1, 19; Salmo 73: 3. O Salmo começa com a mesma nota tônica de Provérbios, e em boa parte segue assim até seu fim[27].

2 - Pois são como a erva, secam depressa, eles murcham como a verde relva.

SÃO COMO A ERVA - Um exemplo muito comum Salmo 90: 5, 6; 103: 15[28].

A erva é usada como exemplo de coisas passageiras, transitórias e efêmeras. Não devemos colocar nossa confiança na inveja aos ímpios, eles terão um fim.

3 - Confiam em Iahweh e faze o bem, habita na terra e vive tranqüilo,

CONFIA - Os melhores antídotos para a impaciência são a confiança em Deus e achar-se sempre ocupado no que tem valor ante Deus e para o próximo[29].

HABITA - Em hebraico o verbo aparece em imperativo: habita, vive. A ordem de Deus garante a permanência na terra. Não se precisa vagar em procura de segurança[30].

NA TERRA - A Terra Santa Salmo 25: 13; Deuteronômio 16: 20. Vive tranqüilo: Literalmente: apascenta com segurança. Isaias 14: 30. Estas promessas serão retomadas em sentido espiritual pelas bem aventuranças Mateus 5: 3 a 4; Romanos 14: 13[31].

VIVE TRANQUILO - Te apascentarás. Também está no imperativo: apascenta, alimenta. Alguns preferem traduzir alimenta-te de fidelidade. Neste verso se apresentam quatro regras para manter a paz mental quando se está perplexo pela aparente prosperidade dos ímpios:

1. Confiar em Deus,

2. Manter-se ocupado fazendo o bem,

3. Viver calmamente no lugar onde Deus nos situa,

4. Procurar a fidelidade de Deus[32].

Para os Temerosos, Débeis e Fracos, confia no Senhor. Cada dia tem seus encargos, seus cuidados e perplexidades; e quando nos encontramos, quão propensos somos a falar de nossas dificuldades e provações! Introduzem-se tantas perturbações emprestadas, condescenden-se com tantos temores, manifesta-se tal peso de ansiedade, que quase se pode supor que não temos um Salvador compassivo e amoroso, pronto a ouvir todas as nossas petições e a ser para nós um socorro bem presente em todos os momentos de necessidade.

Alguns estão sempre temendo e inventando aflições. Cada dia está rodeado pelos indícios do amor de Deus, cada dia desfruta as munificências de Sua providência; mas passam por alto essas bênçãos atuais. Seu espírito demora-se continuamente em algo desagradável que receiam possa ocorrer; ou talvez exista realmente alguma dificuldade, a qual, embora pequena, cegam-lhes os olhos às muitas coisas que requerem gratidão. As dificuldades que enfrentam, em vez de impeli-los para Deus, a única fonte de auxílio, os separam Dele, pois suscitaram inquietação e descontentamento.

Irmãos e irmãs fazem bem em ser assim descrentes? Porque havíamos de ser ingratos e temerosos? Jesus é nosso amigo. Todo o céu está interessado em nosso bem-estar; e nossa ansiedade e temor entristecem o Santo Espírito de Deus. Não devemos condescender com uma solicitude que só nos irrita e extenua, mas não nos ajuda a suportar provações. Não se deve dar lugar àquela falta de confiança em Deus que nos leva a fazer da preparação para as necessidades futuras a principal atividade da vida, como se nossa felicidade consistisse nessas coisas terrenas, e pudéssemos obtê-las enquanto desprezássemos o fato de que Deus controla todas as coisas.

Podeis estar perplexos nos negócios; vossas perspectivas podem tornar-se cada vez mais sombrias, e podeis estar ameaçados de sofrer perdas. Mas não fiqueis desalentados; lançai vossa ansiedade sobre Deus e permanecei calmos e animados. Começai cada dia com oração fervorosa, não deixando de oferecer louvor e ações de graça. Pedi sabedoria para gerir vossos negócios com discrição, evitando assim perdas e reveses. Faça tudo o que estiver ao vosso alcance para ocasionar resultados favoráveis. Jesus promete auxílio divino, mas não a parte dos esforços humanos[33].


Confie no Senhor

Estava fazendo um frio tremendo e a água do rio estava congelada até bem fundo. Um homem chegou até a margem e quis atravessar. Não havia ponte ali. Olhou-o bastante tempo e concluiu que poderia sustentá-lo, mas não tinha certeza. Então disse consigo: Se atravesso engatinhando, é mais difícil o gelo se partir.

Do outro lado o homem viu um grande caminhão descer até o rio. Sem parada alguma, o caminhão atravessou sobre o gelo e chegou até o outro lado do rio.

No caminhão havia um garotinho com o seu pai. O menino não se preocupou nem um pouco com a possível quebra do gelo. Assobiou alegremente durante todo o tempo.

Qual deles estava mais seguro sobre o gelo: o meninozinho alegre ou o homenzinho tímido? Ambos estavam seguros, mas entre eles havia uma grande diferença: o menino que confiava no pai sentia-se seguro e alegre, o homem que não confiava no gelo estava seguro, mas preocupado.

Há cristãos que são como aquele menino; outros, são como aquele homem. Uns confiam que Deus os conduz no caminho para o Céu. Sentem-se felizes com Deus, e não se preocupam nem um pouquinho. Outros têm medo de perder a fé, ou ficam ansiosos, duvidando que a sua fé seja suficiente forte. Eles então se arrastam quando poderiam andar de condução e assobiar.

Você tem Jesus, o seu Salvador. Ele está com você diariamente. Confie nele então. Seja feliz, seja calmo e confiante. Não se preocupe. E não ande de gatinhas. Peça que Ele cuide de você na passagem para o Céu.

E confie que Ele o fará entrar com segurança. A Bíblia diz: Sois guardados pelo poder de Deus. Então faça o que o salmista mandou: Confie no Senhor.

4 - Coloca tua alegria em Iahweh e Ele realizará os desejos do teu coração.

ALEGRIA - Deleita-te. Se escolhemos e amamos o que Deus ama, nos alegraremos em nossos desejos ou petições. Com referência à identificação de nossos pensamentos e nossas metas com os planos que Deus tem para nós[34].

5 - Entrega teu caminho a Iahweh, confia Nele e Ele agirá;

ENTREGA - Encomenda a Iahweh. Salmo 22: 8; I Pedro 5: 7. Se o ônus nos resulta demasiado pesado, não temos mais que jogar sobre o Senhor. David Livingstone declarou que este verso o sustentava em todo momento, tanto em África como em Inglaterra[35].

AGIRÁ - O fará. Hebraico: asah, ele atuará. Sua maneira de atuar se apresenta no verso 6[36].

6 - Manifestará tua justiça como a luz e teu direito como o meio dia.

JUSTIÇA - Se confiamos em Deus quando somos caluniados, ele fará que as nuvens se dissipem a fim de que nosso verdadeiro caráter, nossos verdadeiros motivos, seja tão claro como a luz do sol ao meio dia Jeremias 51: 10[37].

7 - Descansa em Iahweh e Nele espera não te irrite contra quem triunfa, contra o homem que se serve de intrigas.

DESCANSA EM IAHWEH - Guarda silêncio. Se guardássemos silêncio poderíamos ouvir na quietude a voz de Deus que nos fala para aquietar-nos[38].

NELE ESPERA - Esta frase indica que o Senhor providencia caminhos de graça e poder para seguirmos. O salmista em sua oração inclui todos os crentes que crêem no Senhor. Salmo 25: 3; 27: 14[39].

NÃO TE IRRITES - Não te alteres. O hebraico usa o mesmo verbo do verso 1[40].

8 - Deixa à ira, abandona o furor, não te irrites: só farias o mal.

DEIXA A IRA - O salmista segue dando conselhos a respeito de como devemos considerar os ímpios. Não temos de guardar sentimentos de ira contra eles nem contra Deus porque lhes concede um pouco mais de tempo. Seu castigo final está nas mãos de Deus[41].

NÃO TE IRRITES - Não te excites. Aqui se usa o mesmo verbo do verso 1. Trata-se de uma repetição da frase tônica[42].

SÓ FARIAS O MAL - A fazer o mal. Hebraico: não te acalores só para fazer o mal. A ira e a impaciência levam a cometer pecado. O mal que se fomenta no coração é pecado, e conduz ao ato pecaminoso manifesto[43].

9 - Porque os maus vão ser extirpados e quem espera em Iahweh possuirá a terra.

QUEM ESPERA - Os que esperam. Os versos 9 a 15 tratam principalmente da sorte dos ímpios[44].

POSSUIRÁ A TERRA - Herdarão a terra. 3, 11, 22, 29, 34. Esta consoladora e preciosa promessa se deixa ouvir em todo o Salmo. 25: 13; Isaias 57: 13; Mateus 5: 5[45].

10 - Mais um pouco e não haverá mais ímpio, buscarás o seu lugar e não existirá.

NÃO HAVERÁ MAIS ÍMPIO - Não existirá o mau. Estas palavras se cumprirão quando Deus exterminará os malfeitores e eliminará o pecado do universo[46].

11 - Mas os pobres mansos vão possuir a terra e deleitar-se com paz abundante.

POSSUIR A TERRA - Herdarão a terra. O Senhor prometeu preparar um lugar para que onde Ele estivesse seus filhos estariam com Ele. João 14: 1 a 3. João nos dois últimos capítulos do Apocalipse viu este novo céu e esta nova terra onde o Senhor enxugará dos olhos toda a lágrima, a dor e a morte não mais existirão porque as primeiras coisas são passadas. Os mansos aguardam o cumprimento desta bendita promessa.

PAZ ABUNDANTE - Abundância de paz. Se cumprirá sobretudo quando não existir nem pecado nem os pecadores[47].

12 - O ímpio faz intriga contra o justo e contra ele range os dentes;

RANGE - Se eu caio, eles me cercam, rangendo os dentes contra mim. Salmo 35: 16.

13 - Mas o Senhor ri as custa dele, pois vê que seu dia vem chegando.

O SENHOR RI. O Senhor se rirá... O salmista emprega a linguagem humana em relação a Deus[48].

Comentário Salmo 2: 4. Em contraste com o quadro tumultuoso das nações, representa-se Iahweh como sentado serenamente nos céus, rindo-se das vãs tentativas dos rebeldes. A Providência que todo o rege impede que se realizem os desígnios das pessoas de coração corrupto e entorpece seu caminho II Samuel 15: 31. Os autores bíblicos descrevem Deus como se tivesse atributos humanos. Dizem: se rirá Salmo 37: 13; 59: 8; etc. O Talmude consigna que a Torah emprega a linguagem comum dos seres humanos Yebamoth 71a; Kiddushin 17b; Makkoth 12a. O autor inspirado expressa as características e atitudes da Deidade na linguagem dos seres humanos, a fim de que estes possam compreender. Compare-se com a incapacidade de Elen Gold de White para expressar as glórias do céu porque não podia usar o idioma de Canaã Primeiros Escritos, p. 19. A idéia sugerida pelo vocábulo rir se expressa ainda mais em outros: zomba, furor e ira verso 4 e 5. Todos indicam o desprezo divino pela rebelião[49].

SEU DIA - Em Seu dia. I Samuel 26: 10; Jó 18: 20; Jeremias 50: 27 e 31[50].

14 - Os ímpios desembainham a espada e retesam o arco para matar o homem reto, para abater o pobre e o indigente.

POBRE E INDINGENTE - Tanto este vocábulo como pobre representam os que sofrem necessidades físicas e os que são oprimidos.Salmo 9: 18[51].

HOMEM RETO - De reto proceder. Alguns dos manuscritos hebraicos, como também a LXX, dizem: retos de coração[52].

15 - Mas a espada lhes entrará no coração e seus arcos serão quebrados.

ENTRARÁ NO CORAÇÃO - Em seu mesmo coração. O mal é como um bumerangue: volta sobre o ímpio Salmo 7: 15 e 16; 9: 15; Ester 7: 10[53].

16 - Vale mais o pouco do justo que as grandes riquezas dos ímpios.

VALE MAIS - Melhor. Provérbios 15: 16. Nos versos 16 a 34 o tema principal é a sorte final dos justos[54].

RIQUEZAS - Abundância. Refere-se a riquezas matéria. Hebraico: A riqueza de numerosos ímpios[55].

17 - Pois os braços dos ímpios serão quebrados, mas Iahweh é o apoio dos justos.

POIS OS BRAÇOS - Porque os braços. Este verso, escrito em forma de provérbio, é um exemplo de paralelismo antitético simples[56].

18 - Iahweh conhece os dias dos íntegros e sua herança permanecerá para sempre.

Comentário Salmo 1: 6. IAHWEH CONHECE - Deus se ocupa dos justos; e, portanto, prosperam. No último verso do Salmo 1 se dá a razão definitiva do fim diferente dos dois caminhos. Como Deus conhece, ele discrimina e aprova ou dá condenação em harmonia com as normas eternas.

Uma lição e só uma história se repetem com clareza: que de algum modo o mundo está edificado sobre fundamentos morais; que ao longo da vida lhes vai bem aos bons, e ao longo da vida lhes vai mal os ímpios. Citação de Froude, que aparece no comentário de Soncino sobre os Salmos, pág. 2, edição 1945[57].

NOS DIAS - Deus sabe o que ocorre aos perfeitos todos os dias uma metonímia. Ver comentário Salmo 31: 15[58].

20 - Eis que os ímpios vão perecer, os inimigos de Iahweh vão murchar como a beleza dos prados vai desfazer-se em fumaça.

VÃO MURCHAR COMO A BELEZA DOS PRADOS - Como a gordura dos carneiros. Hebraico: kiqar karim. Seu significado não é claro. Yaqar literalmente significa preciosa. A idéia de gordura se baseia na observação de que as mais preciosas partes dos cordeiros são as que contêm gordurosa. Karim também pode traduzir-se, como em Isaias 30: 23, espaçosos prados RVR, pastagem dilatada, pastos vastos NC. Por isso alguns traduzem: como a beleza dos prados se murchará NC; se desfarão como o ornato dos prados; linguagem muito bem compreendida num país onde os campos de pastoreio eram consumidos pelo ardente verão. Alguns eruditos sugerem que, além de uma ligeira mudança na vocalização, deve se entender que teve uma confusão de duas letras que em hebraico são muito parecidas, e que em vez de kiqar, deve se ler kiqod, como queimação. Também se modifica a voz karim, e o resultado final é: como queimação de forno. A LXX traduz muito diferente: E os inimigos do Senhor no momento de ser honrados e exaltados se desvaneceram por completo como fumaça[59].

EM FUMAÇA - Pois os meus dias se consomem em fumaça, como braseiros queimam meus ossos. Salmo 102: 3.

21 - O ímpio toma emprestado e não devolve, mas o justo se compadece e dá.

O JUSTO SE COMPADECE - O justo tem misericórdia. Os versos 21 e 22 são dois dísticos de paralelismo antitético nos quais se contrastam as obras e os caracteres dos ímpios com os dos justos. Os ímpios não pagam suas dívidas, mas os justos têm suficientes como para socorrer caritativamente os necessitados ver a promessa de Deuteronômio 15: 6; 28: 12, 44[60].

22 - Os que Ele abençoa vão possuir a terra, os que Ele amaldiçoa vão ser extirpados.

EXTIRPADOS - Grego: Os que bendizem... Os que maldizem[61].

23 - Iahweh assegura os passos do homem, eles são firmes e seu caminho lhe agrada.

24 - Quando tropeça não chega a cair, pois Iahweh o sustenta pela mão.

NÃO CHEGA A CAIR - Quando o homem cair. Ainda que provavelmente o salmista se referisse em primeiro lugar à pessoa que cai em alguma situação desafortunada, na decepção ou na calamidade Salmo 34: 19, também poderia ter aludido à queda no pecado. O justo não está isento de pecado; mas quando erra, imediatamente toma as medidas necessárias para retificar seu erro. Quando estamos vestidos com a justiça de Cristo não nos deleitaremos no pecado, pois Cristo estará operando conosco. Ainda que cometamos erros, odiaremos o pecado que causou o sofrimento do Filho de Deus[62].

SUSTENTA PELA MÃO - Sustenta sua mão. Para que não caia por terra quando tropeça Isaias 41: 13; 43: 2[63].

25 - Fui jovem e já estou velho, mas nunca vi um justo abandonado, nem sua descendência mendigando o pão.

VELHO - Envelheci. Este depoimento é o fruto de uma minuciosa e contínua observação que o salmista fez ao longo de sua vida. Esta passagem indica que Davi escreveu este poema em seus últimos anos. Não é que os justos não passam privações, senão que Deus não os abandona quando sofrem. Na vida prosperam porque sua descendência tem o que precisa. O salmista enuncia aqui uma verdade geral: a verdadeira religião faz que a pessoa seja ativa e independente, e a livra de ter que mendigar para subsistir. O quadro oposto de Jó 15: 20, 23[64].

26 – Todo dia ele se compadece e empresta, e sua descendência é uma bênção.

TODO DIA - Em todo tempo. Literalmente, todo o dia. Ação constante. Faz parte do justo compadecer e emprestar. Mas o ímpio toma emprestado[65].

27 - Evita o mal e pratica o bem, e para sempre terás habitação.

EVITA - Aparta-te. Este verso encerra a lição de todo o Salmo. Salmo 34: 14[66].

28 - Pois Iahweh ama o direito e jamais abandona seus fiéis.

JAMAIS - Os malfeitores serão destruídos: seguindo o grego, o que restitui a letra áyin, ausente no hebraico e permite manter a mesma estrutura poética do Salmo. O hebraico seria traduzido eles seus amigos serão guardados para sempre[67].

Para sempre. Hebraico: olam. Aqui deveria começar uma seção com a letra áyin, mas o termo olam tem uma lámed prefixada, algo não habitual no acróstico. É possível, se tem em conta a LXX, que tenha desaparecido uma palavra: malvados, que em hebraico começa com áyin[68].

29 - Os justos vão possuir a terra e nela habitarão para sempre.

30 - A boca do justo medita sabedoria e a língua fala o direito;

MEDITA - Fala. Hebraico: hagah, sussurrar, meditar; hagah se traduz como meditar; Este verbo encerra a idéia de falar em voz baixa, como se sussurrasse alguma idéia agradável. Salmo 35: 28[69].

Literalmente: murmura. Tal poesia em voz baixa é uma meditação. Salmos 63: 7; 77: 13; 143: 5, que se opõe ao grito da prece na provação Salmos 3: 5; 5: 3; etc.[70].

Do verbo Hebraico: hagah, falar entre dentes, murmurar. Dali as idéias de ler baixinho, soliloquiar, meditar. No Salmo 119: 15 e 148 o salmista narra sua experiência pessoal com referência à meditação. Mas nessa passagem se usa um sinônimo de hagah. Compare-se com o conselho que deu Moisés ao povo de Israel em seu segundo discurso de despedida Deuteronômio 6: 6 a 9, e o que Deus deu a Josué ao início de sua carreira Josué 1: 8. Já que uma pessoa piedosa pensa em temas elevados, não é de se surpreender que colha os resultados que se descrevem no verso 3. Meditar na Palavra de Deus é a melhor maneira de encher as horas de insônia Salmo 17: 3; 42: 8; 119: 55; etc.[71].

31 - No coração está à lei do seu Deus, seus passos nunca vacilam.

NO CORAÇÃO - Deuteronômio 6: 6; Salmo 40: 8. A experiência do novo pacto Hebreus 8: 8 a 13[72].

LEI - Hebraico: Torah. Provérbios 3: 1. Vocábulo que no AT comumente se traduz por lei. Deriva da raiz verbal yarah, jogar, arrojar, e numa forma do verbo significa ensinar, instruir. Êxodo 4: 12; 24: 12; Levítico 10: 11; I Samuel 12: 23.

Torah significa ensino, instrução. Se traduz melhor: Não esqueças minha instrução. A LXX utiliza o termo nómos, que indica qualquer coisa assinalada: um costume, um convênio ou uma lei. No NT se emprega nómos para referir-se à lei. Se aplicasse a toda a Bíblia a idéia de que a lei serve para instruir ou guiar, desapareceria o caráter de cega obrigação que se lhe atribui, e então os mandamentos de Deus se converteriam em sinais que mostram o caminho da vida eterna e advertem contra perigosos desvios que conduzem aos caminhos do pecado e a morte verem[73].

32 - O ímpio espreita o justo e procura levá-lo a morte.

33 - Iahweh não o abandona em sua mão, e no julgamento não o deixa condenar.

ABANDONA - Deixará. Ou abandonará. NC[74]. Quem confia no Senhor jamais fica só, a promessa é: Estarei convosco todos os dias até a consumação dos séculos.

EM SUA MÃO - Expressão idiomática hebraica que significa em seu poder[75].

CONDENAR - Quando uma pessoa piedosa é condenada injustamente por seu próximo, Deus a absolverá I Corintios 4: 3 e 4[76].

34 - Espera por Iahweh e observa seu caminho; Ele te exaltará, para que possua a terra: tu verás o ímpio extirpado.

ESPERA - Salmo 27: 14.

VERÁS - Finalmente se vindicará a retidão dos santos verão o triunfo da verdade. Isto não necessariamente se deve entender como uma expressão de vingança, mas como uma profecia do triunfo final da justiça e do amor de Deus Malaquias 4: 3[77].

35 - Eu vi um ímpio muito poderoso elevar-se como um cedro do Líbano.

EU VI - O salmista é testemunha ocular[78].

CEDRO DO LÍBANO - Segundo o grego. Hebraico: desnudando enquanto eu resplandecia, verdejante. Salmo 92: 15[79].

Hebraico: ezraj ra anan, frase cujo sentido não é claro. A palavra ezraj significa natural de um lugar, cidadão Êxodo 12: 49; Levítico 16: 29; etc.; ra anan, viçoso, cheio de folhas. Talvez a LXX conserva melhor o verdadeiro sentido: cedros do Líbano. Alguns sugeriram que deve traduzir-se árvore que nunca foi transplantada[80].

36 - Passei de novo e eis que não existe mais, procurei-o, mas não foi encontrado.

PASSEI - Isto é, o ímpio[81].

37 - Observa o íntegro, vê o homem direito: há uma posteridade para o homem pacífico.

HÁ UMA POSTERIDADE PARA O HOMEM PACÍFICO - Final ditoso. Hebraico: ajarith. Este vocábulo tem vários significados, entre eles: fim, resultado final ver Números 23: 10; Provérbios 1: 19; etc., futuro Provérbios 23: 18; Jeremias 29: 11, descendência Salmo 37: 38. O salmista está pensando no fim do justo, que será o triunfo, em contraste com o triste fim do ímpio, tal como se expressa no seguinte verso. O paralelismo antitético resulta claro[82].

38 - Mas os transgressores serão todos destruídos, a posteridade do ímpio será extirpada.

POSTERIDADE DO ÍMPIO - Note-se o agudo contraste com o fim dos justos, cuja posteridade permanece[83].

39 - A salvação do justo vem de Iahweh, sua fortaleza no tempo de angústia.

FORTALEZA - Ou lugar de refúgio. Apesar do aparente triunfo dos ímpios, Deus é um refúgio para os justos. Os que nele confiam serão liberados finalmente[84].

40 - Iahweh os ajuda e liberta, ele vai libertá-los dos ímpios e salvá-los, porque Nele se abrigaram..

NELE SE ABRIGARAM - Porquanto nele esperaram. Ao estudar este Salmo é bom recordar que esta vida é a escola que nos prepara para a vida vindoura, ou seja um prelúdio do drama da vida eterna. Ao final, os justos sairão bem[85].

A Verdadeira Riqueza

Entre os judeus a questão: Quem é o meu próximo? Lucas 10: 29 suscitavam disputas intermináveis. Não tinham dúvidas quanto aos gentios e samaritanos. Estes eram estrangeiros e inimigos. Mas onde deveria ser feita a distinção entre seu povo e entre as diferentes classes da sociedade? A quem deveriam o sacerdote, o rabino, o ancião, considerar seu próximo? Consumiam a vida num ciclo de cerimônias para se purificarem. O contato com a multidão ignorante e descuidada, ensinavam causar uma mancha que requeria fatigantes esforços para remover. Deveriam eles considerar impuros seu próximo?

Na parábola do bom samaritano, Cristo respondeu a essa pergunta. Mostrou que nosso próximo não significa unicamente alguém da igreja ou fé a que pertencemos. Não faz referência a nacionalidade, cor ou distinção de classe. Nosso próximo é toda pessoa que carece de nosso auxílio. Nosso próximo é toda pessoa ferida e magoada pelo adversário. Nosso próximo é todo aquele que é propriedade de Deus.

A parábola do bom samaritano foi inspirada pela pergunta de um doutor da lei a Cristo. Enquanto o Salvador estava ensinando, eis que se levantou certo doutor da lei, tentando-O e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? Lucas 10: 25. Os fariseus tinham sugerido esta pergunta ao doutor da lei na esperança de enredar a Cristo em Suas palavras, e espreitavam ansiosamente a resposta. Mas o Salvador não entrou em controvérsia. Exigiu do próprio interlocutor, a resposta. Que está escrito na lei? Perguntou, como lês? Lucas 10: 26. Os judeus ainda acusavam Jesus de menosprezar a lei dada no Sinai, mas Ele fez a salvação depender da guarda dos mandamentos de Deus. O doutor da lei disse: Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento e ao teu próximo como a ti mesmo. Lucas 10: 27. Respondeste bem, disse Cristo; faze isso e viverás. Lucas 10: 28.

O doutor da lei não estava satisfeito com a atitude e obras dos fariseus. Estivera estudando as Escrituras com o desejo de aprender sua significação verdadeira. Tinha interesse real na questão, e perguntou com sinceridade: Que farei? Lucas 10: 25. Em sua resposta a respeito dos reclamos da lei, passou por alto toda a multidão de preceitos cerimoniais e rituais. A estes não deu importância, mas apresentou os dois grandes princípios de que dependem toda a lei e os profetas. O assentimento do Salvador a esta resposta colocou-O em posição vantajosa para com os rabinos. Não podiam condená-Lo por sancionar aquilo que fora proferido por um expositor da lei.

Faze isso e viverás, disse Cristo. Lucas 10: 28. Em Seus ensinos sempre apresentava a lei como uma unidade divina, mostrando que é impossível guardar um preceito e violar outro; porque um mesmo princípio os anima a todos. O destino do homem será determinado pela obediência a toda a lei.

Cristo sabia que ninguém poderia obedecer à lei por sua própria força. Desejava induzir o doutor da lei a um estudo mais esclarecido e minucioso para que achasse a verdade. Somente aceitando a virtude e a graça de Cristo pode observar a lei. A fé na propiciação pelo pecado habilita o homem caído a amar a Deus de todo o coração e ao próximo como a si mesmo.

O doutor sabia que não guardara nem os primeiros quatro, nem os últimos seis mandamentos. Foi convencido pelas penetrantes palavras de Cristo, mas em vez de confessar o seu pecado, procurou justificar-se. Em vez de reconhecer a verdade, tentou mostrar quão difícil é cumprir os mandamentos. Deste modo esperava rebater a convicção e justificar-se aos olhos do povo. As palavras do Salvador lhe mostraram que a pergunta era desnecessária, pois ele mesmo estava apto para a ela responder. Contudo interrogou novamente, dizendo: Quem é o meu próximo? Lucas 10: 29.

Outra vez recusou Cristo ser arrastado à controvérsia. Respondeu narrando um incidente, do qual os ouvintes estavam bem lembrados. Descia um homem, disse, de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram e, espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto. Lucas 10: 30.

Na jornada de Jerusalém a Jericó, o viajante precisava atravessar parte do deserto da Judéia. O caminho passava numa garganta rochosa e deserta, infestada de ladrões, e era muitas vezes local de violências. Aí o viajante fora atacado, despojado de tudo quanto possuía de valor, e abandonado meio morto no caminho. Estando nessas condições, um sacerdote por lá passou, viu o homem ferido e maltratado, engolfado em sangue, porém deixou-o sem prestar-lhe auxílio.

Passou de largo. Lucas 10: 31. Apareceu então um levita. Curioso de saber o que acontecera, deteve-se e contemplou o sofredor. Estava convicto de seu dever, mas não era um serviço agradável. Desejou não ter vindo por aquele caminho, de modo que não visse o ferido. Persuadiu-se de que não tinha nada com o caso, e também passou de largo.

Mas um samaritano que viajava pela mesma estrada, viu a vítima e fez o que os outros recusaram fazer. Com carinho e amabilidade tratou do ferido. Vendo-o, moveu-se de íntima compaixão. E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, aplicando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre a sua cavalgadura, levou-o para uma estalagem e cuidou dele; e, partindo ao outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele, e tudo que de mais gastares eu to pagarei, quando voltar. Lucas 10: 33 a 35. Tanto o sacerdote como o levita professavam piedade, mas o samaritano mostrou que era verdadeiramente convertido. Não lhe era mais agradável fazer o trabalho do que o era para o levita e o sacerdote, porém, no espírito e nos atos provou estar em harmonia com Deus.

Dando esta lição, Jesus apresentou os princípios da lei de maneira direta e incisiva, mostrando aos ouvintes que eles tinham negligenciado a prática destes princípios. Suas palavras eram tão definidas e acertadas que os ouvintes não podiam achar oportunidade de contestá-las. O doutor da lei não encontrou na lição nada que pudesse criticar. Seu preconceito a respeito de Cristo foi removido. Mas não tinha vencido suficientemente a aversão nacional, para recomendar por nome o samaritano.

Ao perguntar Cristo: Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores? Disse: O que usou de misericórdia para com ele. Lucas 10: 36 e 37.

Disse, pois, Jesus: Vai e faze da mesma maneira. Lucas 10: 37. Mostra o mesmo terno amor para com os necessitados. Assim demonstrarás que guardas toda a lei.

A grande diferença entre judeus e samaritanos era uma diferença de crença religiosa, uma questão quanto ao que constitui o verdadeiro culto. Os fariseus não diziam nada de bom dos samaritanos, mas lançavam sobre eles as mais amargas maldições. Tão forte era a antipatia entre judeus e samaritanos, que para a mulher de Samaria foi estranho que Cristo lhe pedisse de beber. Como, disse ela, sendo Tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana? porque, acrescenta o evangelista, os judeus não se comunicam com os samaritanos. João 4: 9.

E quando os judeus estavam tão cheios de ódio sanguinário contra Cristo que se levantaram no templo para apedrejá-Lo, não puderam achar melhores palavras para exprimir o seu ódio que: Não dizemos nós bem que és samaritano e que tens demônio? João 8: 48. Além disso, o sacerdote e o levita negligenciaram justamente a obra de que o Senhor os incumbira, e deixaram a um samaritano odiado e desprezado servir a um seu compatriota.

O samaritano cumprira o mandamento: Amarás o teu próximo como a ti mesmo, mostrando assim ser mais justo que os que o condenavam. Arriscando a vida, tratou do ferido como se fosse seu irmão. Este samaritano representa Cristo. Nosso Salvador manifestou por nós um amor, que o amor humano jamais pode igualar. Quando estávamos moídos e à morte, compadeceu-Se de nós. Não passou de largo, não nos abandonou desamparados nem nos deixou perecer sem esperança. Não permaneceu no lar santo e feliz onde era amado por todos os anjos. Viu nossa cruel necessidade, advogou nossa causa e identificou Seus interesses com os da humanidade. Morreu para salvar os inimigos. Rogou por Seus assassinos. Apontando Seu próprio exemplo, diz aos seguidores: Isto vos mando: que vos ameis uns aos outros. João 15: 17, como Eu vos amei a vós, que também vós uns aos outros vos ameis. João 13: 34.

O sacerdote e o levita haviam estado em adoração no templo cujo serviço Deus mesmo ordenara. Participar desse culto era grande e exaltado privilégio, e o sacerdote e o levita sentiram que sendo tão honrados, estava abaixo de sua dignidade servir a um sofredor desconhecido à beira da estrada. Assim, negligenciaram a oportunidade especial que Deus lhes deparara como agentes Seus para abençoar semelhante.

Muitos atualmente cometem erro semelhante. Dividem seus deveres em duas classes distintas. Uma classe consiste em grandes coisas reguladas pela lei de Deus; a outra, nas assim chamadas coisas pequenas, em que o mandamento Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Mateus 19: 19, é passado por alto. Essa esfera de trabalho é deixada ao léu, e sujeita à inclinação e ao impulso. Desse modo o caráter é manchado e a religião de Cristo mal representada.

Homens há que pensam ser humilhante para a sua dignidade o servirem à humanidade sofredora. Muitos olham com indiferença e desdém os que arruinaram seu corpo. Outros desprezam os pobres por diferentes motivos. Estão trabalhando, como crêem, na causa de Cristo, e procuram empreender algo de valor. Sentem que estão fazendo grande obra, e não se podem deter para notar as vicissitudes do necessitado e do infeliz. Sim, até pode dar-se que, favorecendo sua suposta grande obra, oprimam os pobres. Podem colocá-los em circunstâncias difíceis e penosas, privá-los de seus direitos ou negligenciar-lhes as necessidades. Apesar disso acham que tudo isto é justificável, porque estão, como cuidam, promovendo a causa de Cristo.

Muitos consentem em que um irmão ou vizinho se debata sob circunstâncias adversas, sem ampará-lo. Porque professam ser cristãos, pode ele ser induzido a pensar que em seu frio egoísmo estão representando a Cristo. Porque pretensos servos do Senhor não são Seus co-obreiros, o amor de Deus que deles devia exalar é em grande parte interceptado de seus semelhantes. E muitos louvores e ações de graças do coração e lábios humanos são impedidos de refluir a Deus. Ele é destituído da glória devida ao Seu Santo nome. É espoliado das pessoas pelas quais Cristo morreu, pessoas que anela introduzir em Seu reino, para habitarem em Sua presença pelos séculos infindos.

A verdade divina exerce pouca influência sobre o mundo, embora devesse exercer muita influência por nossa atitude. É bastante comum a simples profissão de religião, mas isso quase nada vale. Podemos professar ser seguidores de Cristo, podemos professar crer todas as verdades da Palavra de Deus; mas isto não fará bem ao nosso próximo, a não ser que nossa crença esteja entrelaçada com nossa vida diária. Nossa profissão pode ser tão alta quanto o Céu, mas não nos salvará a nós mesmos nem aos nossos semelhantes, a menos que sejamos cristãos. Um exemplo correto fará mais benefício ao mundo que qualquer profissão de fé.

A causa de Cristo não pode ser favorecida por nenhum procedimento egoísta. Sua causa é a causa do oprimido e do pobre. Há necessidade de terna simpatia de Cristo no coração de Seus seguidores professos - amor mais profundo aos que tanto avaliou que deu a própria vida para a sua salvação. Essas pessoas são preciosas, infinitamente mais preciosas do que qualquer outra oferenda que possamos apresentar a Deus. Empenharam-se toda a energia numa obra aparentemente grande, ao passo que desprezamos os necessitados ou privamos de seu direito o estrangeiro, nosso serviço não terá a aprovação divina.

A santificação da alma pela operação do Espírito Santo é a implantação da natureza de Cristo na humanidade. A religião do evangelho é Cristo na vida, um princípio vivo e atuante. É a graça de Cristo revelada no caráter e expressa em boas obras. Os princípios do evangelho não podem estar desligados de setor algum da vida diária. Todo ramo de trabalho e experiência cristãos deve ser uma representação da vida de Cristo.

O amor é o fundamento da piedade. Qualquer que seja a fé, ninguém tem verdadeiro amor a Deus se não manifestar amor desinteressado pelo seu irmão. Mas nunca poderemos possuir esse espírito apenas tentando amar os outros. O que é necessário é o amor de Cristo no coração. Quando o eu está imerso em Cristo, o amor brota espontaneamente. A perfeição de caráter do cristão é alcançada quando o impulso de auxiliar e abençoar a outros brotar constantemente do íntimo, quando a luz do Céu encher o coração e for revelada no semblante.

Não é possível que o coração em que Cristo habita seja destituído de amor. Se amarmos a Deus, porque primeiro nos amou, amaremos a todos por quem Cristo morreu. Não podemos entrar em contato com a divindade, sem primeiro nos aproximarmos da humanidade; porque Naquele que Se assenta no trono do Universo a divindade e a humanidade estão combinadas. Unidos com Cristo, estamos unidos aos nossos semelhantes pelos áureos elos da cadeia do amor. Então a piedade e compaixão de Cristo serão manifestas em nossa vida. Não ficaremos esperando os pedidos dos necessitados e infortunados. Não será necessário ouvir clamores para sentir as aflições dos outros. Atender o indigente e o sofredor será tão natural para nós como o foi para Cristo fazer o bem.

Onde quer que haja um impulso de amor e simpatia, onde quer que o coração se comova para abençoar e amparar os outros, é revelada a operação do Santo Espírito de Deus. Nas profundezas do paganismo os homens que não tiveram conhecimento da lei escrita de Deus, que nunca ouviram o nome de Cristo, têm sido bondosos com Seus servos, protegendo-os com o risco da própria vida. Seus atos mostram a operação de um poder divino. O Espírito Santo implantou a graça de Cristo no coração do selvagem, despertando nele a simpatia contrária à sua natureza e à sua educação. A luz verdadeira, que alumia a todo homem que vem ao mundo. João 1: 9, está-lhe brilhando na alma; e esta luz, se atendida, lhe guiará os pés para o reino de Deus.

O Deus que fez o mundo e tudo que nele há,... E de um só fez toda a geração dos homens para habitar sobre toda a face da terra,... Para que buscassem ao Senhor, se, porventura, tateando, O pudessem achar. Atos 17: 24, 26 e 27. Olhei, e eis aqui uma multidão... De todas as nações, e tribos, e povos, e línguas, que estavam diante do trono e perante o Cordeiro, trajando vestes brancas e com palmas em suas mãos. Apocalipse 7: 9. A glória do Céu consiste em erguer os caídos e confortar os infortunados. E onde quer que Cristo habite no coração humano, será revelado da mesma maneira. Onde quer que atue, a religião de Cristo abençoará. Onde quer que se manifeste, haverá claridade.

Deus não reconhece distinção alguma de nacionalidade, etnia ou classe social. É o Criador de todo homem. Todos os homens são de uma família pela criação, e todos são um pela redenção. Cristo veio para demolir toda parede de separação e abrir todos os compartimentos do templo a fim de que todos possam ter livres acesso a Deus. Seu amor é tão amplo, tão profundo, tão pleno, que penetra em toda parte. Liberta das ciladas de Satanás os que foram por ele iludidos. Põe-nos ao alcance do trono de Deus, o trono circundado do arco-íris da promessa.

Em Cristo não há nem judeu nem grego, servo nem livre. Todos são aproximados por Seu precioso sangue. Gálatas 3: 28; Efésios 2: 13.

Qualquer que seja a diferença de crença religiosa, um clamor da humanidade sofredora precisa ser ouvido e atendido. Onde existirem amargos sentimentos por diferenças de religião, pode ser feito muito bem pelo serviço pessoal. O serviço amável quebrará os preconceitos e conquistará almas para Deus.

Devemos atender às aflições, às dificuldades e às necessidades dos outros. Devemos partilhar das alegrias e cuidados tanto de nobres como de humildes, de ricos como de pobres. De graça recebestes, disse Cristo, de graça dai. Mateus 10: 8.

Ao redor de nós há almas pobres e tentadas que necessitam de palavras de simpatia e atos ajudadores. Há viúvas que carecem de simpatia e assistência. Há órfãos, aos quais Cristo ordenou aos Seus seguidores que recebessem como legado de Deus. Muitas vezes são abandonados. Podem ser maltrapilhos, grosseiros e, segundo toda a aparência, nada atraentes; contudo são propriedade de Deus. Foram comprados por preço, e aos Seus olhos são tão preciosos quanto nós. São membros da grande família de Deus, e os cristãos, como mordomos Seus, são por eles responsáveis. Suas almas, disse, requererei de tua mão.

O pecado é o maior de todos os males, e é nosso dever compadecer-nos dos pecadores e auxiliá-los. Nem todos podem ser alcançados do mesmo modo, porém. Muitos há que ocultam sua pobreza de alma. Estes seriam grandemente auxiliados por uma palavra terna ou por uma boa lembrança. Outros estão na maior indigência, contudo não o sabem. Não reconhecem a terrível privação da alma. As multidões estão tão submersas no pecado, que perderam todo o senso das realidades eternas, perderam a semelhança de Deus, e mal sabem se têm alma para ser salva ou não. Não têm nem fé em Deus, nem confiança no homem. Alguns destes só podem ser alcançados por atos de beneficência desinteressada. Precisam ser primeiramente atendidas as suas necessidades materiais. Precisam ser alimentados, limpos e vestidos decentemente. Ao verem a prova de vosso amor desinteressado, ser-lhes-á mais fácil crerem no amor de Cristo.

Muitos há que erram e sentem a sua vergonha e loucura. Consideram seus enganos e erros até serem arrastados quase ao desespero. Não devemos desprezar estas pessoas. Quando alguém tem que nadar contra a correnteza, toda a força da mesma o impele para trás. Estenda-se-lhes uma mão auxiliadora, como o fez a Pedro quando se afogava, a mão do Irmão mais velho. Fale-lhe palavras de esperança, palavras que fortaleçam a confiança e despertem amor.

Seu irmão doente espiritualmente necessita de ti, como tu mesmo careceste do amor de um irmão. Necessita da experiência de alguém que fora tão fraco quanto ele, de alguém que possa com ele simpatizar e o auxilie. O conhecimento de nossa própria debilidade deve auxiliar-nos a ajudar a outros que estejam em amarga necessidade. Nunca devemos passar por uma alma sofredora sem tentar comunicar-lhe o conforto com que fomos consolados por Deus.

A comunhão com Cristo, o contato pessoal com o Salvador vivo, é que habilita a mente, o coração e a alma a triunfar sobre a natureza inferior. Falai ao peregrino de uma Mão todo-poderosa que o levantará, e de uma infinita humanidade em Cristo que dele se compadece. Não lhe é suficiente crer em lei e força, em coisas que não têm piedade, e jamais ouvem um pedido de socorro. Necessita apertar uma mão cálida, confiar num coração cheio de ternura. Que sua mente se demore no pensamento de que Deus está ao seu lado, sempre o contemplando com amor piedoso. Recomendai-lhe pensar no coração de um Pai que sempre se angustia pelo pecado, na mão sempre estendida de um Pai, e na voz de um Pai, que diz: Que se apodere da Minha força e faça paz comigo; sim, que faça paz comigo. Isaias 27: 5.

Ocupando-vos nesta obra tendes companheiros invisíveis aos olhos humanos. Os anjos do Céu estavam ao lado do samaritano que cuidou do estrangeiro ferido. Os anjos das cortes celestes assistem a todos quantos fazem o serviço de Deus, cuidando dos semelhantes. E tendes a cooperação do próprio Cristo. Ele é o Restaurador, e se trabalhardes sob Sua superintendência, vereis grandes resultados.

De sua fidelidade nessa obra não só depende o bem-estar de outros como também vosso destino eterno. Cristo procura erguer todos quantos querem ser alçados à Sua companhia para que sejamos um com Ele, como Ele é um com o Pai. Permite que tenhamos contato com o sofrimento e calamidade para nos tirar de nosso egoísmo; procura desenvolver em nós os atributos de Seu caráter, compaixão, ternura e amor. Aceitando esta obra de beneficência entramos em Sua escola para sermos qualificados para as cortes de Deus. Rejeitando-a, rejeitamos Sua instrução, e escolhemos a eterna separação de Sua presença.

Se observares as Minhas ordenanças, declara o Senhor, te darei lugar entre os que estão aqui, mesmo entre os anjos que circundam o Seu trono. Zacarias 3: 7. Cooperando com os seres celestes em sua obra na Terra, preparamo-nos para a Sua companhia no Céu. Espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação. Hebreus 1: 14, os anjos no Céu darão as boas-vindas àquele que na Terra viveu não para ser servido, mas para servir. Mateus 20: 28. Nesta abençoada companhia aprenderemos, para nossa alegria eterna, tudo que está encerrado na pergunta: Quem é o meu próximo? Lucas 10: 29[86].

Leitura Adicional

Os Mansos Herdarão a Terra

Há, através das bem-aventuranças, uma progressão na experiência cristã. Os que sentiram sua necessidade de Cristo, os que choraram por causa do pecado, e se sentaram com Cristo na escola da aflição, hão de, com o divino Mestre, aprender a ser mansos.

A paciência e a brandura ao sofrer ofensas, não eram características apreciadas pelos pagãos e pelos judeus. A declaração feita por Moisés sob a inspiração do Espírito Santo, de ser ele o homem mais manso que havia sobre a Terra, não teria sido considerada pelo povo de seu tempo como um louvor; teria antes provocado piedade ou desprezo. Mas Cristo coloca a mansidão entre os primeiros atributos necessários para habitar em Seu reino. Em Sua própria vida e caráter revela-se a divina beleza dessa graça preciosa.

Jesus, o resplendor da glória do Pai, não teve por usurpação ser igual a Deus. Mas aniquilou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-Se semelhante aos homens. Filipenses 2: 6 e 7. Consentiu em passar por todas as humildes experiências da vida, andando entre os filhos dos homens, não como rei, exigindo homenagens, mas como Alguém cuja missão era servir aos outros. Não havia em Sua maneira de ser nenhum traço de beatice ou de fria austeridade. O Redentor do mundo tinha uma natureza superior à dos anjos, todavia, unidas a Sua divina majestade achavam-se a mansidão e a humildade que atraíam todos a Ele.

Jesus Se esvaziou a Si mesmo e, em tudo quanto fez, o próprio eu não aparecia. Subordinava todas as coisas à vontade de Seu Pai. Quando Sua missão na Terra estava prestes a terminar, foi-Lhe possível dizer: Eu glorifiquei-Te na Terra, tendo consumado a obra que Me deste a fazer. João 17: 4. Ele nos pede: Aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração. Mateus 11: 29. Se alguém quiser vir após Mim, renuncie-se a si mesmo. Mateus 16: 24; que o próprio eu seja destronado e nunca mais possua a supremacia da alma.

Aquele que contempla a Cristo em Sua abnegação, em Sua humildade de coração será constrangido a dizer, como o fez Daniel quando viu Alguém semelhante aos filhos dos homens: Transmudou-se em mim a minha formosura em desmaio. Daniel 10: 8. A altivez e supremacia própria em que nos gloriamos, são vistas em sua verdadeira vileza, como testemunhos de servidão a Satanás. A natureza humana está sempre lutando por se manifestar, pronta para a disputa; mas aquele que aprende de Cristo, esvazia-se do próprio eu, do orgulho, do amor da supremacia, e há silêncio na alma. O próprio eu é colocado ao dispor do Espírito Santo. Não andamos então ansiosos de ocupar o primeiro lugar. Não ambicionamos comprimir e acotovelar para nos pôr em destaque; mas sentimos que nosso mais alto lugar é aos pés de nosso Salvador. Olhamos para Jesus, esperando que Sua mão nos conduza, escutando Sua voz, em busca de guia. O apóstolo Paulo teve essa experiência, e disse: Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim; e a vida que agora vivo na carne vivo-a na fé do Filho de Deus, o qual me amou e Se entregou a Si mesmo por mim. Gálatas 2: 20.

Quando recebemos a Cristo na alma, como hóspede permanente, a paz de Deus, que excede a todo entendimento, guarda nosso coração e espírito em Cristo Jesus. A vida do Salvador na Terra, embora passada em meio de conflito, foi uma vida de paz. Conquanto irados inimigos O estivessem sempre perseguindo, Ele disse: Aquele que Me enviou está comigo; o Pai não Me tem deixado só, porque Eu faço sempre o que Lhe agrada. João 8: 29. Nenhuma tempestade de ira humana ou diabólica poderia perturbar a calma daquela perfeita comunhão com Deus. E Ele nos diz: Deixo-vos a paz, a Minha paz vos dou. João 14:27. Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e encontrareis descanso. Mateus 11: 29.

Levai comigo o jugo do serviço, para a glória de Deus e o reergui mento da humanidade, e achareis suave o jugo, e leve o fardo.

É o amor do próprio eu que destrói a nossa paz. Enquanto o eu está bem vivo, estamos continuamente prontos a preservá-lo de mortificação e insulto; mas, se estamos mortos, e nossa vida escondida com Cristo em Deus, não levaremos a sério as desatenções e indiferenças. Seremos surdos às censuras, e cegos à zombaria e ao insulto. A amor é paciente, é benigno; o amor não arde em ciúmes, não se ufana, não se ensoberbece, não se conduz inconvenientemente, não procura os seus interesses, não se exaspera, não se ressente do mal; não se alegra com a injustiça, mas regozija-se com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor jamais acaba. I Corintios 13: 4 a 8.

A felicidade derivada de fontes terrenas é tão mutável como a podem tornar as várias circunstâncias; a paz de Cristo, porém, é constante e permanente. Ela não depende de qualquer circunstância da vida, da quantidade de bens mundanos, ou do número de amigos. Cristo é a fonte da água viva, e a felicidade que Dele procede não pode jamais falhar.

A mansidão de Cristo, manifestada no lar, tornará felizes os membros da família; ela não provoca disputas, não dá más respostas, mas acalma o temperamento irritado, e difunde uma suavidade que se faz sentir por todos os que se acham dentro do aprazível ambiente. Sempre que é nutrida, torna as famílias da Terra uma parte da grande família do Céu.

Muito melhor nos é sofrer sob falsa acusação, do que nos infligirmos a nós mesmos a tortura da desforra sobre os nossos inimigos. O espírito de ódio e vingança teve sua origem em Satanás, e só pode trazer mal sobre aquele que o nutre. Humildade de coração, aquela mansidão que é o fruto de permanecer em Cristo, é o verdadeiro segredo da bênção. Ele adornará os mansos com a salvação. Salmo 149: 4.

Os mansos herdarão a Terra. Salmo 37: 11. Foi mediante o desejo de exaltação própria que o pecado entrou no mundo, e nossos primeiros pais perderam o domínio sobre a bela Terra, seu reino. É mediante a abnegação que Cristo redime o que se havia perdido. E Ele diz que devemos vencer como Ele venceu. Apocalipse 3: 21. Por meio da humildade e renúncia do próprio eu, podemos tornar-nos co-herdeiros com Ele, quando os mansos herdarem a Terra.

A Terra prometida aos mansos não se parecerá com esta, obscurecida pelas sombras da morte e da maldição. Nós, segundo a Sua promessa, aguardamos novos céus e nova Terra, em que habita a justiça. II Pedro 3: 13. E ali nunca mais haverá maldição contra alguém; e nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e os Seus servos O servirão. Apocalipse 22: 3.

Não haverá decepção, nem pesar, nem pecado, ninguém que diga: enfermo estou; não haverá cortejos fúnebres, nem lamentações, nem morte, nem separações, nem corações partidos; mas Jesus ali estará, ali estará à paz. Os remidos nunca terão fome nem sede, nem a calma nem o Sol os afligirão, porque O que Se compadece deles os guiará e os levará mansamente aos mananciais das águas. Isaias 49: 10[87].

Itamar P. Marques

Autor: Pr. Itamar de Paula Marques, teólogo e administrador de empresas