O SERMÃO DO MONTE 1

Prefácio

Neste trabalho, com o intuito de favorecer nossas compreensões, o irmão Fajardo nos descortina atraentes alternativas de capitação do veio ordenador do Sermão do Monte. Nele vão cuidadosamente examinadas as passagens evangélicas relacionadas com o mais fascinante código de regime de vida. Investigando inclusivamente, com disciplina e perspicácia, o amigo nos convida ao acolhimento, recorrendo à excelente fruição de claridades que um estudo comprometido proporciona.

Instruções qualificadas com espírito de serviço sempre somam fortuna se desejamos otimizar o aproveitamento de quaisquer lições.

Examinemos o verbo e a parábola, a comunicação e a oralidade e relacionemo-los com o testemunho.

Se o verbo é o amor na expressão, realizando, o amor no verbo é o mito ou parábola. Nessa categoria de expressão expande-se o poder comunicativo da oralidade a serviço da comunhão fraterna. O amor simplifica, ampliando consciência, unificando, moralizando. E a moralização é conversiva, otimizando a dinâmica fraterna no fluxo reverso da Natureza. Como em um diálogo suave, destinado a germanar harmoniosamente, otimizando a comunicação, as parábolas familiarizam em famulato dialético e conjugam estranhezas. Se o amor unifica, a simplificação ama. Assim, pois, toda comunhão, enquanto comunicação, simplifica amando. Toda comunicação essencial reúne, como ato que moraliza.

Alegorias e parábolas, bem como mitos e fábulas, são poderosos instrumentos de revelação. A serviço da compreensão, fundamentam a representação contingente, mantendo desimpedida a aproximação possível da verdade. Segundo o governo da realidade, emanando do leito subjacente que conduz todo fluxo, são serviçais obsequiosos que conservam livre a pujança do verbo. Convenientemente expressam a unidade conjuminada entre a Ordem transcendente, ideal, e o Amor imanente, em devir. Educando, em linguagem de fraternidade, reconduzem em continuum a manifestação do oculto substancial que, como potência divina, alimenta moralmente as atitudes. São veículos de moderação, de equanimidade.

Com a amizade com que recolocam o ponto do meio, mitos e parábolas se atualizam incessantemente, reunindo compreensões pelos corações. Em fanado simbólico, elevam a infância ao plano reflexivo com que a vida inicia as consciências e enlevam a vetustez com seus convites para a renovação. Têm a vantagem de, figurativamente, nutrir reminiscências ideais despertadas pelo fogo da experiência, facilitando a adesão voluntária ao Belo imortal. Livres da irradiação de caprichosos sistemas que se impõem como indispensáveis guias pedagógicos, têm por expressão predileta a oralidade. Linguagem da alma, inscrevem-se no contexto da memória universal do espírito, sempre atual, sem escrita, já que estão mais de acordo com a oponente e fraterna dinâmica da Natureza. De fato, comunicando, favorecem a fluência conversiva da consciência motivada.

Na inércia de sua trajetória retilínea, a consciência materializada reclama auxílio reflexivo na recuperação de sua atividade contemplativa. E é contagiando que o poderoso magnetismo da parábola comunga em continuum. E que a parábola contagia pelo ponto comum das individualidades através de um magnetismo concentrado. Essa dinâmica se comporta como uma semente fazendo a árvore de sua espécie, para se reconduzir em abundância. Iniciado pela potência seminal, o terreno se desperta para a exuberante realização da árvore. A infinitesimal pequenez original é suficiente, por iniciação, para o terreno se despertar de seu amortecimento e manifestar a vida, transformando-se e diversificando-se em grandeza infinita. A semente representa um singular poder ordenador subestabelecido desprezivelmente no macrocosmo dos sentidos. E o terreno se motiva, através do amor entranhado em sua substância, para transformar sua inércia, subordinando-se ao pequeno. Com o poder do pouco, o gérmen educa a metamorfose do terreno na árvore possível. A fim de se multiplicar, como talento divino sob os cuidados do tempo chegado, a semente amadurece o terreno em árvore. O aparente milagre do fruto é um canto orgânico de totalização em que a vida funde o terreno e a semente, o psiquismo e a mente, sob a cadência do tempo, para que a consciência se simplifique no divino Vinhateiro.

Melhor é a luz que se equilibra no amor, tornando-se compreensão pelo coração. Nessa harmonia, como vida, iluminando sem ferir, brotando e reunindo inexaurivelmente, a unidade de todas as coisas se revela luz-amor. A unidade de todas as coisas que são, como modo, em fluxo reverso, modula e modaliza como luz-amor. Assim equilibrada, sem ostentar dogmatismo, essa luz é preferível à que se insinua sob multiformes pretextos ordenadores que, como modernidades, reclamam as irresistíveis atualizações reformistas, sempre oportunas. Claro, há luz e luzes. A que ilumina dentro e as que se apresentam como alternativas de ciência. Há verdade e opiniões. Atualizando-nos dinamicamente entre essas oponências e diversidades comunicamo-nos com o outro. Tornando-nos comuns com o outro e com a circunstância, pouco a pouco simbolizamos o pródigo problema da memória da abastança. Residem aqui o fundamento da comunicação e a utilidade da parábola para a alma de muitos suspiros.

Pensamos que o essencial na comunicação pode ser percebido arquetipicamente no segredo do coração, de modo inexplicável, como faz o olhar, sem necessidade de palavras que o traduzam. Como contágio instantâneo e total. Nessa substância trabalha a experiência evocando reminiscências, transcendendo possibilidades. Ulteriormente a percepção salta do oculto. Para se revelar, ela se reveste de entendimento, ganhando roupagens contingentes que a veiculam imanentemente, podendo ser registradas em meios circunstanciais que favorecem a assimilação, com o concurso do estudo e do tempo. Nessa fase o contágio se atualiza e se particulariza, localizando-se e se modernizando, fazendo a historia da pedagogia. Assim como a ordem salta da simplicidade para as partes que continuam, para se atualizar e se manifestar com fluência salta o contágio da substância. A comunicação, de acordo com o contágio que se atualiza, dependentemente do tempo individual da motivação, faz historia. E a historia, tanto quanto a saúde que representa a vida animando, como alma em ação, promove a parábola a um meio genérico de comunicação, mas ainda assim, suavemente afeiçoado à voz de cada um. Apropriada a conversões, a natureza dialética da parábola é inclusiva, em sua dinâmica atualizável. O verbo se gratifica com a conjugação.

Antes de serem escritos, os mais essenciais ensinamentos de humanidade foram transmitidos com os recursos da oralidade. A oralidade essencial de Jesus permanece sem ser superada, tal o seu potencial de comunicação reveladora. O Divino Senhor da Luz certamente escreveu, mas com exiguidade. Para estatuir nas almas os registros primordiais da Lei Ele ensinava para a multidão por parábolas, mas consentia em explicá-las em particular a seus discípulos. Do geral ou total ao particular, da parábola à explicação, o Senhor se comunicava dinamicamente. É que a oralidade, que propõe a muitos o mesmo conteúdo alegórico, permite que essa alegoria, como o um a ser compreendido, promovendo eficiente com-um-nicação entre almas, seja percebida particularmente, segundo o sujeito e o momento. Mitos, parábolas, fábulas, lendas e outros recursos orais nos contam histórias. E a história é o princípio da pedagogia que se atualiza de acordo com o potencial de cada um. A pedagogia, como denominador comum entre história e saúde, torna a história recurso de promover saúde, que é exatamente transferência de com-um-hão de cada qual com tudo o mais. O um é simples na medida em que não pode ser dividido em partes e que sempre se reconduz, sendo origem e fim de todo transformismo, sem que tenha nascimento ou morte, governando, como substância ainda, a diversidade oponente que respira e o manifesta.

Se o Evangelho do Senhor comunica evocando, pedindo "ouvidos de ouvir", como testamento, é código de sabedoria. Como testamento ele se otimiza com o "desaparecimento do testador", recordando a inesquecível lição do irmão Paulo aos Hebreus (9.16). Daí a necessidade de cada um recorrer individualmente a ele, como herdeiro que comunga, interagindo eticamente com a fortuna atualizável das explicações. Promovendo sabedoria o Evangelho torna cada aprendiz amigo da sabedoria ou filósofo e, como Filosofia, o Testamento do Senhor demonstra, pedindo "olhos de ver". É preciso ouvir e ver com fé, inteligivelmente, com o oculto e substancial da natureza individual. Sócrates também nada escreveu para os outros. Antes, preferiu despertar autoconhecimento nas consciências adormecidas gravidicamente no plano das manifestações, descobrindo filosoficamente que a unidade arquetípica da realidade é o modo individual de viver. Esse modo que é susceptível de ser cristianizado como luz-amor.

Amalgamando a ordenação subjacente com as manifestações de amor, a vida verbaliza símbolos que serenizam. Esse o substancial valor das parábolas como linguagem do testemunho que evoca memória celeste individual.

Deixemo-nos arrebatar pelas reflexões sobre o Sermão do Monte. E permitamos que o Senhor nos abençoe as experiências diárias. Elas são instrumentos com que retemperamos as fibras de nossos corações para a inadiável promoção de nossa capacidade de assimilação. Comunguemo-nos com as parábolas do Monte e qualifiquemos nossos modos.

Julho de 2004, Tugúrio da Serra, Caeté, M. Gerais

Zerínho

CLAUDIO FAJARDO
01
..AS BEM-AVENTURANÇAS
02
..O SAL DA TERRA, A LUZ DO MUNDO
03
..A LEI E OS PROFETAS
04
..A VERDADEIRA JUSTIÇA
05
..ADULTÉRIO E DIVÓRCIO
06
..ATITUDE CRISTÃ
07
..EXPRESSÕES DE AMOR
08
..BOAS OBRAS
09
..A VERDADEIRA ORAÇÃO
10
..ORAÇÃO DOMINICAL
11
..SOBRE O JEJUM
12
..O TESOURO NO CÉU
13
..O OLHO BOM
14
..PROVIDÊNCIA DIVINA
15
..JUÍZO INOPORTUNO
16
..BOM SENSO
17
..AJUDA-TE E O CÉU DE AJUDARÁ
18
..ESTATUTO DIVINO
19
..PORTA ESTREITA
20
..OS FALSOS PROFETAS
21
..SELEÇÃO
22
..O HOMEM PRUDENTE
23
..CONCLUSÃO