O CÉU DOS SUICIDAS

Assim como o autor, o protagonista de O céu dos suicidas tem o nome de Ricardo Lísias.

Em primeira pessoa, o Lísias fictício narra sua busca por determinadas respostas e, a partir delas, por uma espécie de redenção.

“Desde que tudo isso começou, tenho percebido que sentir saudades significa, em alguma parcela, arrepender-se”, diz ele.

“Tudo isso” refere-se ao suicídio de André, grande amigo do personagem.

Imbuindo-se de responsabilidade pelo ocorrido, perturbado com o destino post mortem dos suicidas, Ricardo oscila entre a tristeza e a ansiedade, entre o desespero e a confusão.

O protagonista é um especialista em coleções, embora ele mesmo tenha encerrado seus arquivos de tampinhas e de selos — o primeiro foi diluído, o segundo foi passado adiante.

Sua relação com os objetos e com a arte de colecionar é bastante criteriosa, uma vez que Ricardo não admite vulgaridade ou descuido no ato de acumular um ou outro tipo de material.

Para o personagem, não importa a diretriz ou o foco de interesse de um colecionador; o que importa é o esforço empregado na procura pelas peças mais raras e na atividade da contextualização e catalogação.

Colecionar é, para ele, uma forma de relembrar e contar um pouco de uma história.

Assim se deu sua obsessão pela filatelia: enquanto acumulava selos da década de 80, o protagonista, em paralelo, anotava as constantes mudanças na economia brasileira durante o período.

O colecionismo, no entanto, é apenas um simbolismo em O céu dos suicidas.

Seu foco principal é o luto, a culpa e a necessidade de desfazer certos nós e encontrar compreensão e equilíbrio.

Após a morte de André — um sujeito com transtornos mentais que fora internado por duas vezes em clínicas psiquiátricas —, Ricardo empreende buscas externas e internas.

Suas origens, sua adolescência e seus tempos de estudante universitário são vasculhados à procura de algumas respostas urgentes. Santos, Campinas, São Paulo e Beirute servem de palco para as escavações que devem culminar nos desejados esclarecimentos.

Quando o protagonista se volta para o problema da alma do suicida, várias religiões e seus respectivos modos de abordar a questão são trazidos à tona.

O céu dos suicidas está dividido em inúmeros capítulos breves — alguns têm seu foco no presente, outros são recordações dolorosamente arrancadas do lugar em que repousavam.

Na medida em que a história avança, a perturbação e a imaturidade do protagonista se tornam mais visíveis e aflitivas.

Ricardo é fatalmente um narrador que atravessa uma angústia extrema e, embora seu tom comedido não seja alterado do início ao fim, o leitor testemunha, nas ações irrefletidas, os arroubos de violência, loucura e melancolia do personagem.

É precisamente por não ser capaz de avaliar as circunstâncias com precisão — a partir da racionalidade com a qual parece estar habituado — que o protagonista atesta sua instabilidade emocional.

As sentenças de Ricardo Lísias (desta vez autor e narrador) são curtas e diretas, mas são também significativas.

A personalidade temporariamente perturbada do personagem é a única forma de compreendê-lo e, de maneira pouco precisa, estabelecer uma ordem cronológica e dar uma dimensão realista aos acontecimentos.

Descrições de locais são raras e, em lugar delas, Ricardo nos diz como enxerga, como se sente e o quanto sente, como se lembra e que tipo de dor, incômodo ou irritação tudo aquilo lhe causa.

A busca por um lenitivo para seu constante sofrimento é dramática e sufocante para personagem e leitor e, por ter sido tão bem composta, coloca Ricardo Lísias como um dos melhores escritores brasileiros contemporâneos.

Fiquei com saudades do tempo da faculdade.

Eu não me preocupava com nada. Não sei como conseguia passar o mês com tão pouco dinheiro.

Só a história me interessava: ia dos arquivos para o cinema temático, e acumulava informações sobre economia, biografias e as tendências da última corrente francesa. Do mesmo jeito, contextualizava qualquer coisa e me apaixonava por todo tipo de documento.

Ricardo Lisias