REENCARNAÇÃO
BIBLIOGRAFIA
01 - A Gênese - Cap. XI, 33, 34 02 - À luz da oração - pág. 65
03 - A Reencarnação - pág. 158/243/261 04 - Animais nossos irmãos - pág. 83
05 - Perispírito - pág. 184 06 - Boa Nova - pág. 98
07 - Catecismo Espírita - pág. 28 - 13ª. lição 08 - Cinquenta e duas lições C.E.- pág. 26
09 - Depois da Morte - pág. 80/245 10 - Devassando o Invisível - pág. 100
11 - Emmanuel - pág. 42 12 - Entre o Céu e a Terra - pág. 53/63/169
13 - Espírito, perispírito e alma - pág. 98/194 14 - Estude e Viva - pág. 128/178
15 - Estudos Espíritas - pág. 69 16 - Lampadário Espírita - pág. 45/65
17 - Manual e Dicionário Básico do Esp. - pág. 94 18 - Na era do Espírito - pág. 158
19 - Na sombra e na luz - pág. 103 20 - Nascer e renascer - pág. 15
21 - O Céu e o Inferno - pág. 411 22 - O Consolador - pág. 35/72
23 - O grande Enigma - pág. 190 24 - O Livro dos Espíritos - perg. 166,1010
25 - Reencarnação e evolução... - toda a obra  26 - Religião dos Espíritos - pág. 61
27 - Indulgência - pág. 28 28 - No porta lda luz - pág. 23
29 - Falando à Terra - pág. 93 30 - Oferenda - pág. 39, 119
31 - Reencarnação no Brasil - toda a obra 32 - Temas da vida e da morte - pág. 13
33 - Você e a reencarnação - toda a obra 34 - Passos da vida - pág. 40

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

REENCARNAÇÃO – COMPILAÇÃO

01 - A GÊNESE - ALLAN KARDEC, cap. XI, ítem: 33 e 34

A GÊNESE ESPIRITUAL
33.O princípio da reencarnação é uma consequência necessária da Lei do Progresso. Sem a reencarnação como explicar a diferença que existe entre o estado social atual e o dos tempos de barbárie? Se as almas são criadas ao mesmo tempo que o corpo, as que nascem hoje são também todas novas, tão primitivas como aquelas que viviam há mil anos; acrescentemos que não haveria, entre elas, nenhuma conexão, nenhuma relação necessária; que seriam completamente independentes umas das outras; por que, pois, as almas de hoje seriam melhor dotadas por Deus do que as suas predecessoras? Por que compreendem melhor?

Por que têm instintos mais depurados, costumes mais doces? Por que têm intuição de certas coisas sem havê-las aprendido? Desafiamos a sair daí, a menos que se admita que Deus criou almas de diversas qualidades, segundo os tempos e os lugares, proposição inconciliável com a idéia de uma soberana justiça. Dizei, ao contrário, que as almas de hoje já viveram em tempos recuados; que puderam ser bárbaras como o seu século, mas que progrediram; que à cada nova existência elas trazem o que adquiriram em existências anteriores; que, consequentemente as almas dos tempos civilizados são almas não criadas mais perfeitas, mas que se aperfeiçoaram, elas mesmas, com o tempo, e tereis a única explicação plausível da causa do progresso social.

34.Algumas pessoas pensam que as diferentes existências da alma se cumprem de mundo a mundo, e não sobre um mesmo globo, onde cada Espírito não aparece senão uma única vez. Esta doutrina seria admissível, se todos os habitantes da Terra estivessem no mesmo nível intelectual e moral; não poderiam então progredir senão indo para um outro mundo, e a sua reencarnação sobre a Terra seria inútil; ora, Deus nada faz de inútil.

Desde o instante em que ali se encontrarem todos os graus de inteligência e de moralidade, desde a selvageria que ladeiam o animal até a mais avançada civilização, ela oferece um campo vasto de progresso; perguntar-se-ia por que o selvagem seria obrigado a procurar alhures o grau acima dele, quando o encontra ao seu lado, e assim de passo em passo; por que o homem avançado não pudera fazer as suas primeiras etapas senão em mundos inferiores, então que os análagos de todos esses mundos estão ao seu redor, que há diferentes graus de adiantamento, não somente de povo a povo, mas no mesmo povo e na mesma família?

Se assim fora, Deus teria feito alguma coisa de inútil, colocando lado a lado o ignorante e o sábio, a barbárie e a civilização, o bem e o mal, ao passo que é precisamente esse contato que faz os retardatários avançarem? Não há, pois, mais necessidade de que esses homens mudem de mundo em cada etapa, como não o há para algum estudante mudar de colégio em cada classe; longe disso ser uma vantagem para o progresso, seria um entrave, porque o Espírito estaria privado do exemplo que lhe oferece a visão dos graus superiores, e a possibilidade de reparar seus erros no meio e sob o olhar daqueles que ofendeu, possibilidade que é, para ele, o mais poderoso meio de avanço moral.

Depois de uma curta coabitação, os Espíritos se dispersam e se tornam estranhos uns aos outros, os laços de família e de amizade, não tendo o tempo de se consolidarem, romper-se-iam. Ao inconveniente moral se juntaria um inconveniente material. A natureza dos elementos, as leis orgânicas, as condições de existência, variam segundo os mundos; sob esse aspecto, não há dois mundos que sejam perfeitamente idênticos. Nossos tratados de física, de química, de anatomia, de medicina, de botânica, etc.. para nada serviriam nos outros mundos, e todavia, o que aqui se aprende não está perdido; não só isso desenvolve a inteligência mas as idéias que se haurem ajudam a adquirir outras novas.

Se o Espírito não fizesse senão uma aparição, frequentemente de curta duração, no mesmo mundo, a cada migração, encontrar-se-ia em condições todas diferentes; operaria, cada vez, sobre elementos novos, com forças e segundo leis desconhecidas para ele, antes que tivesse tempo de elaborar os elementos conhecidos, de estudá-los, de exercê-los. Isso seria, cada vez, uma nova aprendizagem a fazer, e essas mudanças incessantes seriam um obstáculos ao seu progresso.

O Espírito deve, pois, permanecer sobre o mesmo mundo até que haja adquirido a soma de conhecimentos e o grau de perfeição que esse mundo comporta. Que os Espíritos deixem, por um mundo mais avançado, aquele sobre o qual nada podem mais adquirir, isso deve sê-lo e isso é; tal é o princípio. Se há os que o deixam antes, sem dúvida, é por causas individuais que Deus pesa em sua sabedoria.

Tudo tem um objetivo na criação, sem o que Deus não seria nem prudente, nem sábio; ora, se a Terra não deve ser senão uma única etapa para o progresso de cada indivíduo, que utilidade haveria para as crianças que morrem em tenra idade, o virem passar aqui alguns anos, alguns meses, algumas horas, durante so quais nada poderiam adquirir? Ocorre o mesmo para os idiotas e os cretinos. Uma teoria não é boa senão com a condição de resolver todas as questões que se lhe ligam.

A questão das mortes prematuras tem sido uma pedra de tropeço para todas as doutrinas, exceto para a Doutrina Espírita, a única que a resolveu de modo racional e completo. Para aqueles que perfazem sobre a Terra uma carreira normal, há, para o seu progresso, uma vantagem real em se encontrar no próprio meio, para aí continuar o que deixou inacabado, frequentemente, na mesma família ou em contato com as mesmas pessoas, para reparar o mal que pode fazer, ou para sofrer-lhe a pena de talião.

08 - 52 LIÇÕES DE CATECISMO ESPÍRITA - ELISEU RIGONATTI - 13ª. LIÇÃO -

A REENCARNAÇÃO - pág. 26
A finalidade de nossa existência é conseguirmos a perfeição. Um espírito para ser perfeito precisa possuir todas as virtudes e saber aplicá-las; precisa também conhecer todas as ciências e todas as artes e utilizá-las para o bem.

Uma encarnação não é suficiente para que alcancemos a sabedoria e a pureza dos espíritos superiores. Deus nos concede permissão para reencarnarmos muitas vezes até que tenhamos atingido o grau de espíritos puros. Em cada encarnação nós aprendemos um pouquinho mais e ao mesmo tempo corrigimos os erros de nossas encarnações anteriores.

REENCARNAR-SE SIGNIFICA NASCER DE NOVO. Quando nascemos o nosso corpo espiritual se une ao corpo material. Todos nós já nascemos muitas vezes e muitas outras vezes nasceremos até que consigamos ser perfeitos. As nossas encarnações não se passam todas na Terra. A Terra é uma das pequeninas escolas do reino de Deus. Quando tivermos aprendido tudo o que aqui se ensina, encarnaremos em mundos mais adiantados.

Durante o tempo em que estamos reencarnados, nós nos esquecemos de nossas vidas passadas; quando morremos, isto é, desencarnamos, nós nos lembraremos de todas elas. A lembrança do passado atrapalharia a nossa vida de hoje; por isso Deus, em sua infinita misericórdia, nos faz esquecer temporariamente o que fomos antigamente.

No momento de reencarnar deixamos de viver no mundo espiritual e começamos a viver no mundo material em que estamos. Para que possamos aprender tudo, em cada encarnação vivemos de um modo diferente. Em uma encarnação seremos pobres; em outra, ricos; em algumas seremos professores, pedreiros, mecânicos, costureiras, etc...

É pelas muitas encarnações que nós nos instruimos, moralizamos e procuramos novos meios de progresso. Deus aproveita as reencarnações para exercer sua justiça. Todos os que se entregam aos vícios e praticam o mal terão reencarnações de sofrimentos. As vidas dolorosas são o resultado do mal feito em existências passadas. Todos os que praticam o bem terão reencarnações felizes.

11 - EMMANUEL - EMMANUEL - pág. 42 - O que significam as reencarnações.

Cada encarnação é como se fora um atalho nas estradas da ascensão. Por esse motivo, o ser humano deve amar a sua existência de lutas e de amarguras temporárias, porquanto ela significa uma bênção divina, quase um perdão de Deus. A golpes de vontade persistente e firme, o Espírito alcança elevados pontos na sua escalada, nos quais não mais estacionará no caminho escabroso, mas sentirá cada vez mais a necessidade de evolução e de experiência, que o ajudarão a realizar em si as perfeições divinas.

14 - Estude e Viva -Emmanuel e André Luiz - pág. 128/178

Através da reencarnação
Fora melhor que não existissem na Terra pe­dintes e mendigos, na expectativa do agasalho e do pão. Se é justo deplorar o atraso moral do Planeta que ainda acalenta privação e necessidade, examinemos a nós mesmos, quando nos inclinamos para a ambição desvairada, e verificaremos que a penúria, através da reencarnação, é o ensinamento que nos corrige os excessos.

Fora melhor não
víssemos mutilados e enfermos, suplicando alívio e remédio. Se é compreensível lastimar as condições da estância física, que ainda expõe semelhantes quadros de sofrimento, observemos o pesado lastro de animalidade que conservamos no próprio ser e reconheceremos que sem as doenças do corpo, através da reencarnação, seria quase impossível aprimorar as faculdades da alma.

Fora melhor não enxergássemos crianças infelizes, suscitando angústia no lar ou piedade na via pública. Se é natural comover-nos diante de problemas assim dolorosos, meditemos nos ódios e aversões, conflitos e contendas, que tantas vezes carregamos para além do sepulcro, transformando-nos, depois da morte, em Espíritos vingativos e obsessores, e agradeceremos às Leis Divinas que nos fazem abatidos e pequeninos, através da reencamacão, entregando-nos ao amparo e ao arbítrio daqueles mesmos irmãos a quem ferimos noutras épocas, a fim de que nós, carecentes de tudo na infância, até mesmo da comiseração maternal que nos alimpe e conserve o organismo indefeso, venhamos, por fim, a aprender que a Eterna Sabedoria nos ergueu para o amor imperecível na Vida Triunfante

Terra bendita! Terra, que tanta vez malsinamos nos dias de infortúnio ou nos momentos de ignorância, nós te agradecemos as dores e as aflições que nos ofereces, por espólio de nossos próprios erros, e rogamos a Deus nos fortaleça nos propósitos de reajuste e aperfeiçoamento, para que, um dia, possamos retribuir-te, de benefícios que nos tens prodigalizado de milênios, através da reencarnação!...

15 - ESTUDOS ESPÍRITAS - JOANNA DE ÂNGELIS - ÍTEM RENASCER - pág. 69

Conceito: Conhecida como PALINGENESIA entre os povos da Antiguidade e ora denominada METENSOMATOSE pelos modernos investigadores, a reencarnação significa "o retornar do espírito ao corpo tantas vezes quantas se tornem necessárias para o AUTOBURILAMENTO", libertando-se das paixões e adquirindo experiências superiores, sublimando as expressões do instinto ao tempo em que desenvolve a inteligência e penetra nas potencialidades transcendentes da intuição. É o RENASCIMENTO no corpo físico.

A REENCARNAÇÃO é a mais excelente demonstração da Justiça Divina, em relação aos infratores das Leis, na trajetória humana, facultando-lhes a oportunidade de ressarcirem numa os erros cometidos nas existências transatas. A evolução é impositivo da Lei de Deus, incessante, inquestionável. Nessa Lei não existe o repouso, o letargo das forças, a inércia. Por toda parte e sempre o impositivo da evolução, o imperativo do progresso.

Desde a mais débil expressão anímica que a vida, dormente, sonha e espera, até a angelitude em que fomenta e frui a felicidade e o amor, o progresso se faz imperioso. O estacionamento, a parada, representaria o caos. Ininterruptamente as conquistas que se acumulam, jazendo, às vezes, embrionárias ou adormentadas, num ciclo carnal, se desenvolvem noutro; ou, quando entorpecidas transitoriamente na investidura somática, se desdobram, valiosas, além da constrição celular.

A reencarnação enseja, mediante processo racional, a depuração do espírito que evolve, contribuindo simultaneamente para o aperfeiçoamento e a sutilidade da própria organização física, nos milênios contínuos da evolução. Aceita logicamente por uns e anatematizada por outros, dentre os mais eminentes religiosos e pensadores da Humanidade, tem as suas bases assentes nos impositivos da Sabedoria de Nosso Pai que tudo estabeleceu em diretrizes consentâneas com as necessidades da Sua Obra.

Estruturada em princípios igualitários a todos concedidos em circunstâncias equivalentes, estatui como base o amor e esparze a misericórdia, em convites de excelsa probidade, para os náufragos das realizações malogradas, que têm necessidade de recomeço para avançarem na direção do êxito que a todos nos aguarda.

Histórico: Revelada pelos Espíritos - seus lídimos divulgadores - desde os primórdios das experiências nos Santuários da iniciação esotérica do passado longínquo, constitui o alicerce das Religiões do pretérito, que nela hauriram para os seus adeptos, norteando-os com segurança pelas trilhas da elevação.

Pode-se afirmar que a sua é a história da evolução do pensamento religioso, que nas imarcescíveis nascentes da mediunidade encontrou a informação segura dos sucessivos renascimentos, como eficiente veículo de evolução. Na Índia, desde remotíssima antiguidade, de que nos dão notícias os Vedas e o Bhagavad-Gitã, o conhecimento da reencarnação era sobejamente divulgado através dos cantos imortais da formação moral e cultural do homem.

Difundida amplamente entre os orientais, foi Pitágoras quem a introduziu na cultura grega, após tê-la absorvido dos esoteristas egípcios e persas, nas contínuas viagens realizadas, que visavam buscar melhores informações para o enigma da vida nos seus multifários mistérios. Não obstante oferecessem os egípcios uma concepção especial, através do que consideravam a METEMPSICOSE, ou reencarnação do espírito humano em forma animal, subentende-se que tal concepção era consequência de errônea interpretação do fenômeno da ZOANTROPIA, decorrente da perturbação espiritual em que muitas Entidades infelizes se apresentavam nos Cultos, traduzindo as punições que experimentavam por deformação do uso das funções orgânicas e psicológicas engendrando auto-suplícios apenas transitórios, na Erraticidade.

Neste sentido, mesmo Heródoto, o "pai da História", ensinando a Doutrina das Vidas Sucessivas, supunha que a Metempsicose fosse uma punição necessária ao espírito calceta, o que, se assim o fora, violaria a lei incessante da evolução com um retrocesso à fase animal. Sófocles como Aristófanes adotaram a crença na reencarnação.

Platão divulgou-a, fundamentando o seu ensino nas informações pitagóricas. Posteriormente, os neoplatônicos, tais Orígenes, Tertuliano, Jâmblico Pórfiro, discípulo e herdeiro de Plotino, consideravam a reencarnação como sendo o único meio capaz de elucidar os problemas e enigmas com que defrontavam no exame da Filosofia e na interpretação das necessidades humanas.

Virgílio e Ovídio, os eminentes pensadores romanos, impregnaram-se das suas excelentes lições, difundindo-as largamente. Os druidas apoiavam todos os seus ensinos na justiça da PALINGENESIA. Os hebreus aceitavam-na, adotando-a sob o nome de Ressurreição, de que a Bíblia nos dá reiteradas confirmações.

Nas experiências medievais, em que a cultura se deteve esmagada, fez-se que desaparecesse temporariamente, apesar de cultuada por alguns raros estudiosos, para que Allan Kardec, ainda pela revelação dos Espíritos, novamente trouxesse à Terra, na mais comovente demonstração confirmativa do Consolador, consoante o prometera Jesus. Muitos pensadores medievais adotaram a conceituação das vidas sucessivas, entregando-se às pesquisas mediante as quais não poucas vezes pagaram o atrevimento com a própria vida, em se considerando a intolerância e ignorância então vigentes em torno dos problemas espirituais.

Incontáveis pessoas se hão surpreendido em face das lembranças das vidas passadas, em que mergulham inconscientemente, experimentando nas evocações os estados emocionais característicos das personagens que antes animaram. Da sistemática recordação, com os sucessivos mergulhos de distonias de várias ordens, perturbando-se, sem conseguirem estabelecer os limites entre os fatos de uma e de outra existência: a do passado, que retorna vigorosa, e a do presente, que se vai submetendo ao impositivo da outra.

Na vida infantil, porque o espírito ainda se encontra em processo de fixação total nas células, apropriando-se do campo somático, a pouco e pouco, surgem frequentemente nos diversos campos da Arte, da Filosofia, da Ciência e da Religião os que externam precocidade surpreendente, revelando conhecimentos superiores aos do tempo em que vivem ou recordando os ensinamentos aprendidos anteriormente.

A memória da aprendizagem e dos fatos não se perde nunca, pois que esta não é patrimônio das células cerebrais, que as traduzem, estando incorporada ao perispírito, que a fixa, acumulando as experiências das múltiplas existências, mediante as quais o Espírito evolute, nas diversas faixas que se lhe fazem necessárias.

Crianças houve que foram capazes de se expressar corretamente em diversos idiomas, desde os dois anos de idade, sem os terem aprendido. Incontáveis crianças também revelaram pendor musical, compondo e interpretando peças clássicas antes que pudessem segurar um violino, ou dispor de mobilidade para uma oitava no teclado de um piano. Escultores deslumbraram seus mestres em plena idade infantil.

Assim também, matemáticos, astrônomos, físicos modernos evocam da última reencarnação quanto aprenderam e agora retornam a ampliar, ainda mais, as suas aquisições para serem aplicadas a serviço da Humanidade. No passado, Jean Baratier, que desencarnou com a idade de dezenove anos, vítima de "cansaço cerebral", falava corretamente diversos idiomas. Aos nove anos escreveu um dicionário, com larga complexidade etimológica.

William Hamilton com apenas três anos estudou o hebraico. Mais tarde, aos doze anos, conhecia 12 idiomas que falava corretamente. Outros - como no caso de Jaques Criston, que conseguia discutir utilizando-se do latim, grego, árabe, hebraico, sobre as mais diversas questões, com tranquilidade - fizeram-se célebres. Henri de Hennecke, com dois anos, expressava-se em três línguas. Volumosa é a lituratura sobre o assunto, não somente na xenoglossia como em diversos ramos do Conhecimento.

As evocações das vidas passadas independem da idade em que podem ocorrer. Naturalmente que na primeira infância são mais repetidas as lembranças da reencarnação anterior, pela facilidade com que o espírito, não totalmente interpenetrado pelas células físicas, conserva a memória das ocorrências guardadas. No presente, as experiências de regressão da memória, pela hipnologia, vêm trazendo larga e valiosa contribuição ao estudo da reencarnação, pelas largas possibilidades de comprovação de que se podem dispor, ampliando grandemente o campo das observações e provas.

REENCARNAÇÃO DE JESUS: Foi Jesus, indubitavelmente, quem melhor afirmou a necessidade da reencarnação, a fim de que o homem possa atingir o Reino de Deus. Em seu diálogo com Nicodemos asseverou iniludivelmente que o retorno à organização física para reparar e aprender, nascendo "do corpo e do espírito repetindo as experiências que a necessidade impõe para a própria redenção. Não obstante Nicodemos interrogar: como tal seria possível, retornar ao ventre materno?, o Senhor assegurou-o, interrogando-o, a seu turno: como seria crível que ele, doutor em Jerusalém, ignorasse aquilo, que era conhecido pelos estudiosos e profetas?!

Interpretou-se por longos anos, erradamente, que o batismo produziria o renascimento do homem. O Senhor, porém, foi incisivo quanto ao retorno à vida física. Os modernos conhecimentos científicos atestam que as primeiras formas de vida, desde a concepção, se fazem em ambiente aquoso, seja a própria constituição do gameta feminino como o masculino, de cuja fusão (água) nasce o novo corpo, que, adquirindo personalidade diversa da que possuía antes (espírito), recomeça o cadinho purificador, expungindo males e sublimando experiências para "entrar no Reino dos Céus".

Posteriormente, respondendo às perguntas dos discípulos, ao descer do Tabor, após a Transfiguração, reiterou que o Elias esperado, "aquele que havia de vir, já viera", facultando aos discípulos que entenderam ser de "João Batista que Ele falara". Somente pela reencarnação e não através da ressurreição João Batista poderia ser Elias, o Profeta querido de Israel.

Considerando a severidade com que Elias tratara os adoradores do deus Baal, mandando-os passar a fio de espada, pela espada padeceu, ao impositivo das paixões de Herodíades e do terrível medo do reizete Heródes. Jesus não modificou nem o ensino dos profetas nem o estabelecido pela Lei Antiga. Antes adotou-os, acrescentando a sublime Lei do Amor, como sendo a única que poderia facultar ao homem a paz e a felicidade almejadas, propiciando-lhes desde a Terra o sonhado Reino dos Céus.

Através da reencarnação mais se afirmam os laços de família, generalizando-se o amor em caráter universalista, em detrimento do egoísmo decorrente dos laços do sangue e da carne. Os Espíritos recomeçam as jornadas interrompidas onde melhor encontram as condições para a melhoria íntima, volvendo aos mesmos sítios da consanguinidade, quando ali podem usufruir benefícios de reajustamento familial ou de maior progresso espiritual. Esquecendo-se temporariamente das razões matrizes do amor ou do ódio, como do impositivo do resgate nas aflições e dores de vários portes, o Espírito frui a bênção de ter diminuídos os móveis através dos quais fracassou ou se permitiu fascinar, reencetando as tarefas, por tendências, afinidades ou desagrados que motivaram aproximação ou repulsa das pessoas com as quais é convidado a viver.

Sejam quais forem, porém, os motivos da simpatia ou da antipatia, a cada um cabe superar as dificuldades e vencer as animosidades, a fim de lograr êxito no empreendimento reencarnacionista, sem o que todo tentame redundaria como improfícuo, senão pernicioso. O transitório esquecimento do passado facilita os recomeços, ensejando mais amplas possibilidades ao entendimento e à cordialidade. Lembrasse-se o Espírito dos motivos da antipatia ou do amor, vincular-se-ia apenas aos seres simpáticos, afastando-se daqueles por quem se sentiu prejudicado, complicando, indefinidamente, a libertação das causas infelizes do fracasso.

Assim, o filho revel retorna na condição de pai, a esposa ultrajada volve como mãe abnegada, o criminoso odiento reinicia ao lado da vítima antiga, o infrator da existência física, autocida, reencarna com as limitações que ocasionou, mediante o atentado perpetrado contra organização somática. A cerebração mal aplicada redunda em idiotia irreversível e a impiedade, o ultraje, o abuso de qualquer natureza constroem o suplício da miséria, física ou moral, como medida educadora de que necessita o defraudador.

Merece considerar, ainda, que em cada dia surgem oportunidades novas que facultam ao homem fazer e refazer, aprimorando-se sem cessar, olvidando o mal e adicionando o bem às próprias aquisições com que se prepara para a libertação íntima e intransferível. Por isso é a atual oportunidade, para cada um que se encontra no labor da carne, bênção de realce que não pode ser malbaratada sem consequências lamentáveis, de que só tardiamente compreenderá em toda sua complexidade.

Seja qual for a situação em que te encontres, agradece a Deus a atual conjuntura expiatória ou provacional, utilizando-te do tempo com sabedoria e discernimento, de modo a construíres o futuro, desde que o presente se te afigure afligente ou doloroso. O que hoje possuis vem de ontem, podendo edificar para o amanhã, através do uso que faças das faculdades ao teu alcance. Qualquer corpo, mesmo quando mutilado ou limitado, assinalado por enfermidades ultrizes e rigorosas, constitui concessão superior que a todos cabe zelar e cultivar, desdobrando recursos e entesourando aquisições, mediante os quais poderá planar logo mais nas Regiões Felizes, livre dos retornos dolorosos e recomeços difíceis.

16 - LAMPADÁRIO ESPÍRITA - JOANNA DE ÂNGELIS - pág. 45, 65

9. RENOVAÇÃO E REENCARNAÇÃO - pág. 45 - A poda renova a planta. O filtro depura a água. O fogo retempera os metais. A luta dignifica o homem. O sofrimento purifica o espírito. A reencarnação é abençoado e valioso ensejo para sublimação, na longa jornada da imortalidade. O atrito gasta arestas. O instrumento no uso gasta-se. A atividade gasta as energias. A reencarnação gasta as dívidas cármicas pela aplicação da atividade bem orientada que se deve imprimir ao labor da própria santificação.

O amor renova as expressões da coragem. A dor mensura a fragilidade humana. A esperança estimula nos embates renhidos. A alegria espalha bênçãos. A tristeza convida à meditação. A reencarnação é expressiva doação divina para o enobrecimento do espírito em evolução. A chuva abençoa com a abundância. O sol abençoa com a luz e o calor. A noite abençoa com a oportunidade do repouso. A reencarnação abençoa a vida com a renovação de propósitos, o mecanismo de "fazer" ou "deixar de fazer", na elaboração da felicidade intransferível e inalienável para todos nós.

"A encarnação é necessária ao duplo progresso moral e intelectual do Espírito: ao progresso intelectual pela atividade obrigatória do trabalho; ao progresso moral pela necessidade recíproca dos homens entre si. A vida social é a pedra de toque das boas ou más qualidades".

Se os percalços se acumulam no teu caminho, levando-te à exastão na luta; se as aflições te povoam a mente, aniquilando tua paz; se os sofrimentos se dilatam, impossibilitando-te a atividade ordeira; se o cansaço invencível te prende nas amarras do desânimo; se as inquietações te ameaçam a estrutura do equilíbrio quase em colapso; se as dores morais se sucedem incessantes sem te oferecerem trégua para a recuperação da paz, agradece, assim mesmo, o favor imerecido da reencarnação que fruis, coroando-te com as fortunas do céu para os resgates da terra, e renova-te, embora sejam duros os golpes da peleja.

Em momento algum te deixes mergulhar nos torpes estados da blasfêmia ou da irritabilidade, da impaciência ou da ira, do desespero ou da malversação do tempo e das possibilidades do corpo e da mente. Em situação nenhuma te permitas a rebeldia ou o descoroçoamento na árdua viagem carnal. Ora e ora, medita e medita.

Sucedendo à saúde, a enfermidade aflige, mas após ela a libertação faculta a plenitude do refazimento e da renovação de paisagens, e bendirás todas as dificuldades que te assinalaram a reencarnação benfeitora quando, tudo concluído, chegares, de volta, à vida verdadeira.

14.NECESSIDADE DA REENCARNAÇÃO - pág. 65. "As luas têm sido cruéis. Dificuldades me assinalam os passos em todo lugar. Sofro em demasia." - Clamam, com irreflexão, aqueles que jornadeiam, desatentos, a trilha evolutiva. "Acompanho a marcha do progresso e constato que o êxito a coroar tantas cabeças não me alcança. Creio que em breve desistirei da luta". - Rebelam-se os companheiros do labor diário, em pleno campo redentor.

"Fracassos me seguem nos melhores empreendimentos, conduzindo-me a desespero infrene. A dor é comensal dos meus dias. Que fazer?" - Refletem, de mente desalinhada, os que se distanciam da fé racional e se consomem em interrogações aflitivas. No entanto, todos esses que seguem, sob aparente amargura, aprendem na enxerga da aflição a valorizar os tesouros divinos que malbarataram por leviandade ou loucura. Recomeçam pelos sítios em que desertaram da vida, fixando experiências que a rebeldia, mal contida, ainda hoje transforma em novos cardos a se lhe cravarem nos tecidos sutis da alma.

Tem paciência diante da aflição punitiva ou libertadora. Não recolhas à análise deprimente dos fatos ou das oportunidades. Enquanto contabilizas desditas, olvidas a claridade estelar espargindo luminosidade, seja durante o dia, seja na escuridade da noite. Tudo são lições. O desgosto de agora transformar-se-á em proveitosa experiência de amanhã. Caminho percorrido - local identificado. Afervora-te ao exame do trabalho sem a desarmonia ansiosa dos resultados que temes. O que hoje parece insucesso logo mais se converterá em dadivoso bem.

A reencarnação significa precioso ensejo de sublimar e superar, registrando como bênçãos nos refolhos da alma as experiências de libertação do imediatismo e da extravagância. É expressivo o retorno à carne para refazimento das experiências deixadas à margem; tantas se fazem necessárias quantas as oportunidades de evoluir, até chegar à perfeição.

Nunca se nos deparam os mesmos recursos no roteiro da vida, nas mesmas condições. Não pisarás duas vezes as águas do mesmo rio. Embora retornes ao local da véspera, as águas que fluem não são as mesmas. A oportunidade, conquanto se nos apresente assinalada pelo nosso desagrado, representa preciosa dádiva. Transforma, portanto, a dor em cântico de júbilo. Cada etapa vencida é vitória conquistada a marcar os teus triunfos sobre as próprias lutas, incessantemente até conquistares a paz em plenitude.

Não fôssem os dissabores, e os estímulos para as tarefas desapareceriam. A reencarnação ficaria destituída de valor se não BURILASSE os espíritos quando do retorno iluminativo. O pavio que não arde, conserva-se; todavia, não espalha luz. a lâmina que não se consome, no uso, não vai além de ornamento a pesar na economia das utilidades.

Nasce e renasce o espírito em diversos círculos para conquistar e reconquistar afetos, alargando os horizontes da fraternidade entre todas as criaturas, de modo a que o Reino de Deus não se transforme em oásis fechado de felicidade grupal, distante da Humanidade inteira. Com propriedade, portanto, anotou o Codificador do Espiritismo que "a reencarnação, aliás, precisa ter um fim útil".

Ascendamos através das lutas diárias nesse "estado transitório" da encarnação, calcando óbices e superando dificuldades, de tal modo que esta oportunidade significativa para os que se encontram revestidos da organização carnal constitua a ponte que leva ao planalto da vida melhor, sem sombra, sem dor, sem desespero, fazendo-os vencedores das paixões e da morte, verdadeiramente espíritos felizes.

17 - MANUAL E DICIONÁRIO BÁSICO DE ESPIRITISMO - ARIOVALDO CAVERSAN - pág. 94

Volta do Espírito à vida corpórea, num outro corpo físico, que nada tem a ver com o anterior. Essa volta se dá em função de trabalho e aprendizagem, tendo em vista o seu próprio desenvolvimento moral e intelectual e para o progresso do mundo material. O desenvolvimento espiritual depende exclusivamente do bom emprego do livre arbítrio e de saber cumprir e suportar os encargos que o espírito assumiu, as expiações de faltas passadas e as atribulações e dificuldades da vida presente.

A reencarnação pode dar-se imediatamente, ou após longa permanência do espírito no plano espiritual. Os laços de afinidade e de afeição dos espíritos, ficam preservados com a reencarnação. As separações físicas são apenas momentos na vida do espírito. Na vida corporal, geralmente, reunem-se numa mesma família espíritos amigos, que trabalham juntos para seu adiantamento. Na vida espiritual, os espíritos se reunem em grupos ou em famílias, pelas afeições, simpatias e inclinações.

Assim, constantes mudanças de um plano para outro fazem com que espíritos amigos se separem apenas temporariamente uns dos outros. A reencarnação é um meio indispensável para a purificação do espírito, pelas oportunidades de trabalho e estudo, pelas provas e expiações na vida corporal e pelas missões de melhoramento progressivo da Humanidade.

A cada nova existência corporal, adianta-se o espírito na senda do progresso pessoal. A possibilidade da reencarnação é uma expressão da bondade e da justiça de Deus para com os espíritos inferiores, que foram criados simples e ignorantes, porém com o destino de evolução e instrução. Através da reencarnação, podem os espíritos dar prosseguimento ou concluir o que não conseguiram realizar na encarnação anterior e/ou resgatar erros através de novas provações.

Para os espíritos em evolução, a reencarnação é uma fonte de certeza e esperança de um futuro venturoso, pois sua sorte não fica eternamente decidida em apenas uma existência material. Pela reencarnação, a justiça divina fica patente e as desigualdades dos indivíduos explicadas.

ENCARNAÇÃO: Concessão de Deus aos Espíritos, como meio de fazê-los chegar à perfeição, na medida em que se forem instruindo nas lutas e tribulações da vida corporal e trabalhando em prol do progresso material. O espírito assume um novo corpo carnal em expiação, evolução ou missão. É o perispírito que torna possível a encarnação, por ser semimaterial. O perispírito permite ao espírito unir-se ao corpo físico.

23 - O grande Enigma - Léon Denis - pág. 190

A Vida. - As Idades da Vida. - A Morte

A lei circular preside a todos os movimentos do mundo; rege as evoluções da Natureza, as da história da Humanidade. Cada ser gravita em um círculo, cada vida descreve um circuito, toda a história huumana se divide em ciclos. Os dias, as horas, o ano e os séculos rolam na órbita do Espaço e do Tempo, e renascem, porque seu fim, se há um fim, é precisamente o de voltar ao princípio. Os ventos, as nuvens, as águas, as flores e a luz seguem o mesmo destino. Os ventos voltam de novo, pelas mesmas órbitas, para as cavernas misteriosas donde procedem.

O vapor sobe para as alturas; forma nuvens, verdadeiros oceanos suspensos sobre nossas frontes. As nuvens que plainam no espaço, mares imensos e móveis, fundem-se em chuvas, e tornam a ser os rios e os regatos que já foram. Assim, o Ródano, o Rena, o Danúbio e o Volga já têm rolado acima de nossas cabeças antes de correr a nossos pés. É esta a lei, a lei da Natureza e da Humanidade. Todo ser já existiu; renasce e sobe, evolve assim em uma espiral, cujas órbitas vão aumentando cada vez mais, e é por isso que a História vai tomando um caráter universal: é o corso e ricorso de que fala o filósofo italiano, Gianbattista Vico.

Uma vez colocados esses princípios, consagremos esta meditação a estudar as idades da vida humana: a mocidade, a idade madura, a velhice, à luz dessa grande lei, sendo a morte sua coroação e apoteose. Desses estudos surgirá o grande princípio espiritualista da reencarnação, o único que explica o mistério do ser e do seu destino. É preciso renascer - é esta a lei comum do destino humano, que também evolve em um círculo de que Deus é o centro. "Ninguém - dizia Jesus a Nicodemos -, ninguém verá o reino de Deus - isto é, não compreenderá a lei de seu destino - se não renascer da água e do espírito."

A reencarnação está claramente expressa nessas palavras, e Jesus repreende a Nicodemos "ser mestre em Israel e desconhecer essas coisas". Quantos, entre nossos mestres contemporâneos, são passíveis da mesma censura! Há muitos que se contentam com a noção superficial da vida, e nunca se sentem tentados a olhar para o fundo! É tão fácil negar as coisas para fugir ao dever e ao trabalho de estudar e compreender!

O positivista jamais encara o problema da origem, nem o dos fins; contenta-se com o momento presente e o explora da melhor maneira. Muitos homens, mesmo inteligentes, agem igual, àquele. Por seu lado, o católico limita-se a crer no que manda a Igreja, que faz da vida um mistério do começo ao fim, pondo-lhe alguns milagres no meio; e quando estas duas palavras são pronunciadas: milagre, mistério! todos se inclinam, todos se calam, todos crêem. Por outra parte, os universitários só acreditaram, durante muito tempo, nos dados da experimentação. Para eles, tudo que não figurasse em seus programas era destituído de valor. Nunca os ídolos de Bacon tiveram tantos adoradores. A ciência oficial, também, há meio século vem apenas contribuindo com diminuto progresso para o pensamento moderno.

Entretanto, o médico dos nossos dias, tão ligado, até então, aos sistemas materialistas da Escola, começa a sacudir o jugo; e é das fileiras da Medicina atual que saem os doutores mais autorizados e mais competentes do Espiritualismo.

A próxima geração será mais feliz e ainda melhor dotada. Cresce uma mocidade, que não surge de nenhum pedagógico e só se instrui na grande escola da Natureza e da consciência íntima. Esta será verdadeiramente a mocidade livre, isto é, independente de qualquer educação factícia, de qualquer método empírico e convencional. Ela ouve as verdadeiras vozes; a voz interior, a voz subliminal do ser, a voz que explica o homem ao homem e resolve o teorema do destino com a clareza que lhe é possível.

É para essa sociedade de amanhã que escrevo estas páginas; dedico-as aos iniciados e aos avisados, àqueles que, segundo a palavra do Mestre, têm olhos de ver e ouvidos de ouvir. Voltemos, pois, à lei circulatória da vida e do destino, isto é, à doutrina da reencarnação. Resumiremos ligeiramente a exposição científica, porque nosso fim não é fazer trabalho dogmático, senão apenas nos entregarmos às efusões platônicas sobre a vida, suas fases, sobre o destino e sobre a morte, que a remata aparentemente, para lhe permitir retome o seu novo curso.

O nascimento. - A união da Alma e do corpo começa com a concepção e só fica completa na ocasião do nascimento. É o invólucro fluídico que liga o Espírito ao gérmen; essa união se vai apertando cada vez mais, até tornar-se completa, e isto se dá quando a criança vê a luz do dia terrestre. No intervalo da concepção ao nascimento, as faculdades da Alma vão, pouco a pouco, sendo aniquiladas pelo poder sempre crescente da força vital recebida dos geradores, que diminui o movimento vibratório do perispírito, até o momento em que o Espírito na criança fica inteiramente inconsciente. Esta diminuição vibratória do movimento fluídico produz a perda da lembrança das vidas anteriores, de que breve trataremos.

O Espírito na criança dormita em seu invólucro material, e, à medida que se aproxima o nascimento, suas idéias se apagam, e, assim, o conhecimento do passado, de que não tem mais consciência quando abre os olhos à luz do dia. Essa consciência só voltará quando, pela desmaterialização final ou pelas influências profundas da exteriorização, na hipnose, a Alma retomar seu movimento vibratório e encontrar seu passado e o mundo adormecido de suas recordações. Eis a verdadeira gênese da vida humana.

As aquisições do passado são latentes em cada Alma: as faculdades não se destroem; têm raízes no inconsciente e sua aparência depende do progresso anteriormente capitalizado, dos conhecimentos, das impressões, das imagens, do saber e da experiência. É o que constitui o "caráter" de cada indivíduo vivo e lhe dá as aptidões originais e proporcionais a seu grau de evolução.

A criança adquire de seus pais apenas a força vital, à qual é preciso ajuntar certos elementos hereditários. Por ocasião da encarnação, o perispírito se une, molécula por molécula, à matéria do gérmen. Nesse gérmen, que deve mais tarde constituir o indivíduo, reside uma força inicial, que resulta da soma dos elementos de vida do pai e da mãe, no momento da geração. Esse gérmen contém uma energia potencial maior, ou menor, que, transformando-se em energia ativa, durante o período total da vida, determina o grau de longevidade do ser.

É, pois, sob a influência dessa força vital, emanada dos geradores, que, por sua vez, a recebem dos antepassados, que o perispírito desenvolve suas propriedades funcionais. Assim, o duplo fluídico reproduz, sob a forma de movimentos, o traço indelével de todos os estados da Alma, desde seu primeiro nascimento; por outra parte, o gérmen material recebe a impressão de todos os estados sucessivos do perispírito: há aí um paralelismo vital absolutamente lógico e harmonioso. Torna-se assim o perispírito o regulador e o apoio da energia vital modificada pela hereditariedade. É por aí que se forma o tipo individual de cada um. Ele é o "mediador plástico" do filósofo escocês Wordsworth, a tessitura fluídica permanente, através da qual passa a torrente da matéria fluente que destrói e reconstrói incessantemente o organismo vivo. É a armadura invisível que sustém interiormente a estátua humana.

O perispírito é o princípio de identidade física e moral que mantém, indefectível, no meio das vicissitudes do ser móvel e mutável, o princípio do "eu" consciente. A memória que nos dá a certeza íntima de nossa identidade pessoal é a irradiação reflexa desse perispírito. Tal é a origem de nossa vida. Em realidade, somos unicamente filhos de nós próprios. Os fatos aí estão para confirmar tal asserção. Os filósofos do século XVIII, com seu sistema da alma, comparada a uma tábua rasa, sobre a qual nada ainda existe escrito, estão, pois, enganados. Os doutores do generacionismo estariam mais perto da verdade; exageraram, entretanto, o alcance de sua doutrina, e assim suas conclusões.

Cada encarnação perispiritual introduz, sem dúvida, modalidades novas na alma da criança, que reedita sua vida; mas, encontra o terreno já cultivado para isso. Platão tinha razão quando dizia: - "Aprender é recordar-se." Assim se explicam os fenômenos de cultura e a fisiologia dos grandes gênios de que fala a História: a ciência dominante de Pico de la Mirandola; a intuição de Pascal, reconstituindo, aos treze anos de idade, os teoremas de Euclides; Mozart, compondo, com a idade de doze anos, uma de suas obras mais célebres.

Pode suceder, entretanto, que as leis de hereditariedade embaracem a manifestação do gênio, porque o Espírito molda o seu corpo, mas só se pode servir dos elementos postos à sua disposição por essa hereditariedade. O que acabamos de dizer basta, por enquanto, para justificar cientificamente a doutrina luminosa das vidas sucessivas. Responderemos, em poucas palavras, à objeção dos que não cessam de redizer que, se nossas vidas fossem múltiplas, delas conservaríamos, pelo menos, uma vaga lembrança.

Já vimos como e - por que - se perde, na ocasião do nascimento, a memória do passado. Esse eclipse parcial e momentâneo das existências anteriores é absolutamente necessário para conservarmos intacta, aqui, em nosso mundo, a liberdade. Se delas nos recordássemos com muita facilidade, haveria confusão na ordem lógica e fatal do destino; e o Mestre disse em seu Evangelho: "Infeliz daquele que, tendo posto a mão na charrua, olhar para trás." Traçar um sulco firme e seguro, exige olhar para diante e fixar unicamente o futuro.

A obliteração do passado, entretanto, não é, nem absoluta, nem definitiva. O perispírito, que registrou todos os conhecimentos, todas as sensações, todos os atos, acorda; sob a influência do hipnotismo, as vozes profundas do passado se fazem ouvir. Assemelhamo-nos às árvores milenárias das florestas. Seus lustros e decênios estão inscritos nos círculos concêntricos da casca secular; assim, cada idade de nossas existências sucessivas deixa uma zona inalterável sobre o perispírito, que retraça fielmente os matizes mais imperceptíveis do passado e os atos mais aparentemente apagados da vida mental e de nossa consciência.

Mas é notadamente à hora da morte que o perispírito, prestes a desprender-se, sente despertar na memória as visões adormecidas das existências transatas. Atesta-o a experiência de cada dia. Por um médico amigo, ouvimos dizer que, em sua mocidade, estando a ponto de afogar-se, no momento em que começava a asfixia todos os quadros de sua vida se desenrolaram no pensamento em sucessão retrógrada, com pormenores, e acompanhados de sensação de bem ou de mal, em cada um dos atos de sua vida inteira. Era o julgamento espiritual que começava. Esse julgamento, sabe-se, não é mais que o balanço instantâneo da consciência, que faz pronunciemos, nós mesmos, o veredicto que nos fixa a sorte no novo mundo onde vamos ingressar.

Agora que conhecemos a lei da existência e a doutrina científica da encarnação, ser-nos-á mais fácil compreender as vicissitudes da viagem terrestre, as idades pelas quais passamos e o papel que cada degrau da vida humana vem ter na economia harmoniosa do seu conjunto. Aparecer-nos-ão, assim, a adolescência, a idade madura e a velhice sob o verdadeiro aspecto; debaixo dessa luz elevada do Espiritualismo, saberemos melhor apreciar e compreender. Morrer para reviver, reviver para morrer e para viver ainda, tal é a lei única e universal. O nascimento e a morte são os pórticos luminosos ou obscuros, sob os quais é preciso passemos, para entrar no templo do destino.

Fato estranho! essa ciência profunda da origem das coisas, essa gênese do ser, essa lei do destino, a antigüidade as conhecia e as compreendia infinitamente melhor que nós outros. O que mal começamos a restabelecer e provar cientificamente, já o sabiam, por intuição e iniciação, a Grécia, o Egito, o Oriente. Formava o fundo dos mistérios Ísicos e de Elêusis, espécie de representação dramática da reencarnação das Almas, da sua entrada no Hades, depuração e transmigração sucessivas.

Essas festas duravam três dias e traduziam, em uma trilogia comovente, todo o mistério deste mundo e do Além. No fim das iniciações solenes, os sábios eram sagrados por toda a vida, e os povos, a quem só se deixava ver a parte simbólica e hieroglífica de tais verdades esotéricas, pressentiam-nas, sob o revestiimento do símbolo, e guardavam assim o verdadeiro sentido da vida. Hoje, esse sentido, nós o perdemos. O Cristianismo primitivo, o de Jesus e o dos Apóstolos, possuía-o ainda. A partir do dia em que o espírito grego, em sua sutileza, criou a Teologia, o senso esotérico desapareceu e a virtude secreta dos ritos hieráticos evaporou-se, qual se fosse a virtude de um sal insípido. A escolástica sufocou a primeira revelação sob suas montanhas de silogismos e argumentos especiosos e sofísticos.

A mitologia pagã possuía, no mais elevado grau, a inteligência das origens e a noção da gênese vital. Sob a forma de mitos poéticos, transpirava a verdade inicial, tal qual sob a casca da árvore se revela a seiva da vida. É à luz do Espiritualismo que desejo estudar as diversas fases da vida humana, ligando-as e comparando-as às estações alternadas que se sucedem no tempo.

Igual a Maurice de Guérin, o iluminado e iniciado que morreu jovem, tal como ocorre a todos "os amados dos deuses", queríamos poder também "penetrar os elementos interiores das coisas, remontar o raio das estrelas e a corrente dos ríos e da vida, até ao imo dos mistérios de sua geração; ser admitido, enfim, pela grande Natureza, no mais retirado de suas divinas moradas, isto é, ao ponto de partida da vida universal. Lá nos supreenderia, certamente, a causa primeira do movimento, e ouviríamos o primeiro cântico dos seres, em sua matinal frescura".

Esses dons intuitivos são, em certos homens, uma das formas mais elevadas da mediunidade. A mediunidade, pode-se dizer, é - una - em seu princípio e multiforme em suas manifestações: é a verdadeira iniciação íntima, o misterioso idioma com que o mundo superior se comunica com a Alma, com o pensamento daqueles que escolheu para correspondentes na Terra . Meditemos, pois, a essa luz e nessas disposições, sobre o mistério da vida humana e as harmoonias secretas que presidem às suas fases sucessivas e às diferentes idades, verdadeiras estações da Alma, que dão, cada uma por sua vez, suas flores e seus frutos.

Os poetas têm cantado a mocidade com a opulência de seus dons, o brilho de suas cores, os surtos de sua força, o encanto de sua graça e de sua beleza... "A mocidade é semelhante às florestas" diz ainda Maurice de Guérin, em seu imortal Centauro -, às florestas verdejantes, atormentadas pelos ventos; ela mostra, por todos os lados, as ricas dádivas da vida; profundo murmúrio penetra sempre em sua folhagem." A imagem é bela e bela principalmente pela sua justeza e verdade.

O que caracteriza a mocidade é a opulência, a plenitude da vida, a superabundância das coisas, o impulso para o futuro. A dedicação, a necessidade de amar, de nos comunicarmos, caracteriza esse período da vida em que a Alma, novamente ligada a um corpo cujos elementos são novos e fortes, se sente capaz de empreender vasta carreira e se promete a si mesma grandes esperanças. A mocidade tem capital importância, porque é a primeira orientação para o destino; nela o esquecimento do passado é completo; este não existe mais, e todas as suas potências estão voltadas para o futuro. Eis por que os moralistas e os educadores concentraram sua experiência e seus esforços nesse prefácio da vida humana, do qual dependerá todo o livro. "A esperança da seara está na semente", dizia Leibniz; a promessa dos frutos está igualmente contida no sorriso das flores.

O Cristianismo monacal e medieval falseou completamente a noção da vida e da educação. Preconizando a fealdade física e o desprezo do corpo, não compreendeu que a Alma talha seu corpo, tal qual Deus forma a Alma, e que o corpo deve trazer a assinatura de ambos, firma que deve ser a assinatura da Beleza. Enquanto o nosso século ou o que se seguir não tiver corrigido esse erro, nada terão feito para o verdadeiro progresso do mundo. Embelezai os corpos, se quiserdes semear as Almas e aplainar o caminho do destino. Não esqueçais, ó futuros educadores de povos, que a fealdade é um elemento mórbido.

Torna-se, pois, necessário, refazer completamente a educação da mocidade, se desejarmos acelerar as vitórias e o progresso do século por vir. É preciso que tudo em torno dessa juventude: homens e coisas, artes, ciências, literatura, tudo lhe fale de grandiosidade, nobreza, força, glória e beleza. Quando a mocidade antiga ia concorrer anualmente às festas gloriosas da Olimpíada, desde que punha o pé na cidade célebre, era empolgada pela magia fascinadora da Beleza. Os edifícios, com sua impecável simetria; o Forum, com suas soberbas estátuas, representando ora a formosura de Hércules, ora a de Apolo; o concurso religioso do povo; a majestade dos templos; a harmoniosa organização da festa; as coroas de mirto e louro, que faziam já recender o orgulho da viitória; tudo falava aos efebos vindos das extremidades da Ática para lutar no stadium: "Ó jovens" sede felizes, sede grandes, sede belos, sede fortes!" Um pouco mais além, no santuário de Olímpia, Zeus de Fídias, radiante de imortal beleza, consagrava, com seu gesto divino, essa lição solene e harmoniosa das coisas.

É preciso ressuscitar essa disciplina da antigüidade sagrada, se quisermos refazer a juventude e a força da Humanidade. Tudo repousa hoje na ciência oficial - para método, na democracia - para princípio social. Eis precisamente que ambas estão ameaçadas. A ciência materialista esvai-se na dissecação e na análise; decompõe em lugar de criar, disseca em lugar de agir. Por outra parte, a democracia, em suas obras vivas, traz já os germens da decadência. Preconiza a mediocridade em todos os gêneros; proscreve o gênio e desconfia da força; o século XX começou com esse balanço intelectual e moral, impotente e doloroso. O erro foi de tomar a ciência por ideal e a democracia por fim, enquanto que ambas são meios, apenas.

A mocidade de amanhã deverá reagir vigorosamente contra essas duas idolatrias; - a de hoje já começa a fazê-lo. Há, entre os nossos jovens, alguns Espíritos de elite, iniciados, esclarecidos da primeira hora, que desbravam o caminho e preparam o êxodo e a marcha do Espírito para o futuro. São os espiritualistas de bom quilate, os que sabem que lá, onde sopra o Espírito, é que está a verdadeira bondade. Será a divisa da legião nova, isto é, da mocidade livre, liberta das peias de falsas disciplinas, da mocidade que se interroga e se ausculta a si própria, que ouve as vozes íntimas e procura compreender seu destino, estudando o mistério e a lei da evolução.

Será o "reino do Espírito" a que as Almas amantes da Altura aspiram. Certamente, o fim ainda está longe de ser atingido; é preciso pulverizar muitos ídolos, cujo pedestal é rebelde ao martelo do demolidar; entretanto, tudo nos orienta para esse termo, entrevisto pelos pensadores, para além dos horizontes de nossa idade: uma força para aí nos conduz, assim qual impele um bate e o vento do mar largo; e esperamos, antes de morrer, poder saudar de longe a terra prometida, que o sol futuro iluminará com sua glória matinal e suas fecundas claridades.

A Idade madura é, em realidade, a idade de ouro da vida, porque é a época da colheita, o messidor, em que a maturação se opera no coração, no espírito, em todo o ser. As exuberâncias da mocidade são aclaradas, à semelhança das aléias, das abertas que o lenhador traçou na opulência da floresta. As ilusões e os sonhos brilhantes se desvanecem, sob a bruma dourada que outrora recobria as coisas; vêem-se aparecer as linhas graves, as formas austeras da realidade.

Os que nos rodeiam não têm mais na fronte a auréola poética que nossa imaginação criadora lhes havia colocado; o próprio amor nos revelou alguns de seus desfalecimentos, talvez mesmo traições; enfim, demonstrou-nos que a própria virtude não é, por vezes, mais que uma palavra. Nesse período da vida, uma grande desgraça ameaça a maior parte dos homens: o cepticismo. Infeliz daquele que se deixa invadir por essa larva malsã, que neutraliza todas as forças da maturidade! É, então, bem ao contrário, que o homem deve redobrar de ânimo, revelar em si o santo entusiasmo da mocidade. Felizes daqueles cujo coração guardou a fé dos primeiros dias!

Sem dúvida, a idade madura é menos prática, menos primaveril que a adolescência; as flores decaíram do seu colorido e perfume; mas os frutos, igualando-se aos dos ramos de uma árvore, começam a aparecer na extremidade da Alma. Na mocidade, sente-se o homem engrandecer; sente-se amadurecer no meio da vida, e é esta uma das mais nobres e mais produtivas paragens da evolução humana. A idade madura é, por excelência, o período da plenitude; é o rio que corre com toda a força e espalha pelas campinas a riqueza e a fecundidade.

Nas Almas evoluídas, ricas do capital acumulado nas vidas anteriores, as grandes obras são escritas ou esboçadas na mocidade; o gênio é adolescente, podemo-nos exprimir assim. A maior parte dos grandes homens da História sentiram desde sua primeira mocidade subir ao horizonte do pensamento a estrela que um dia lhes iluminaria a glória e a imortalidade.

Cristóvão Colombo era ainda criança, e já o visitavam as visões do Novo Mundo; Rafael era imortal antes de ter atingido a segunda mocidade. Milton contava 12 anos de idade, quando germinou em seu pensamento a primeira idéia do Paraíso Perdído. Mas, para a maioria dos homens - porque o gênio é a exceção - o talento, só, é a regra ordinária. É na maturidade da vida, no meio da floresta, como se exprimia o Dante, que se realizam, tanto os grandes pensamentos, quanto as grandes obras. A arte da vida consiste em preparar a idade madura, qual o trabalhador prepara, apressadamente, a colheita.

Dever-se-ia fazer durar muito tempo, bastante tempo, esse período medieval de nossa existência, em que a vida perispiritual esplende em sua pujança, possui todo o poder radiante e vibratório; e, por isso, se torna necessário conservar ,o mais tempo possível um alimento essencial de ação e de trabalho: sangue puro, sistema nervoso disciplinado, corpo vigoroso e são: essa 'mens sana ín corpore sano', de que fala o sábio, e que é o equilíbrio perfeito da vida física, intelectual e moral. Compreende-se, então, quanto a harmonia e a ordem do ser humano são coisas difíceis de organizar e conquistar.

Quantas mocidades brilhantes e cheias de promessa caem em abril, a exemplo do que ocorre com as flores! O grande inimigo da idade madura, e assim o da vida inteira, é o egoísmo. O homem se diminui e mata pela necessidade de gozar. As paixões carnais e cerebrais calcinam o homem pelas duas extremidades, se assim se pode dizer: esvaziam o cérebro e o coração. O sangue não rejuvenesce com presteza necessária a retardar a velhice; e é assim que, antes do prazo real, a morte chega. É preciso dar para reaver, e o sacrifício se torna elemento conservador, pois, diz o Mestre: "aquele que tem muito cuidado em guardar a vida, por essa mesma razão a compromete e perde". "Não há ninguém que viva tanto na Terra, quanto aquele que está sempre prestes a morrer." "Eles te chamam, tu foges - diz o poeta à morte -; eu quero viver, tu vens."

A idade madura é o verão de nossa existência terrena; a exemplo da estação estival, é feita de ardores, cheia de luz; o nascer do sol é logo manhã; o poente é radioso, e as noites alumiadas suntuosamente pelas estrelas. Sente-se aí a criatura feliz com o viver; tem a consciência de sua força, e dela sabe servir-se. É quando atinge física e moralmente o ponto culminante da Beleza. Porque há uma beleza na idade madura, e esta é a verdadeira. Um de nossos erros está em crer que a beleza da mocidade é a única senhora da vida; falta-lhe, entretanto, o elemento principal; a força, resultante do equil íbrio geeral e harmonioso do ser.

A idade mediana é a idade da vitória; a adolesscência revela a rosa e o mirto; à maturidade da vida se reservam os lauréis. O trabalho, a inspiração e o amor reúnem-se para lhe tecer as coroas: é a hora solene em que os troféus vêm colocar-se a seus pés. Todas as divindades favoráveis lhe sorriem, todos a favorecem. A Fortuna viril e o gênio tutelar da Pátria convidam-na a sacrificar em seus altares.

A velhice é o outono da vida; no último declíínio, a vida está no inverno. Somente com o pronunnciar esta palavra - velhice -, sente-se já o frio que sobe ao coração; a velhice, segundo o modo de ver comum dos homens, é a decrepitude, a ruína; ela recapitula todas as tristezas, todos os males, todas as dores da vida; é o prelúdio melancólico e aflitivo do último adeus. Há aí um grave erro. Em regra geeral, nenhuma fase da vida humana é inteiramente deserdada dos dons da Nat.ureza, e muito menos das bênçãos de Deus. Por que o derradeiro quartel da "existência, o que precede imediatamente a coroação do destino, será mais triste que os outros? Seria uma contradição - e esta não pode existir na obra divina - onde tudo é harmonia comparável à da composição viva de um concerto impecável.

Ao contrário, a velhice é bela, é grande, é santa. Vamos estudá-la um instante, à luz pura e serena do Espiritualismo. Cícero escreveu um eloqüente tratado sobre a velhice. Sem dúvida, tornamos a encontrar nessas célebres páginas alguma coisa do gênio harmonioso desse grande homem; é, no entanto, uma obra puramente filosófica, e que só contém vistas frias, uma resignação estéril e abstrações puras. Precisamos colocar-nos em outro ponto de vista, para compreender e admirar a peroração augusta da existência terrestre.

A velhice recapitula todo o livro da vida; resume os dons das outras épocas da existência, sem as ilusões, nem as paixões, nem os erros. O ancião viu o nada de tudo quanto deixa; entreviu a certeza de tudo o que há de vir; é um vidente. Sabe, crê, vê, espera. Em torno da fronte, coroada de cabeleira branca qual a faixa hierática dos antigos pontífices, paira majestade sacerdotal. À falta de reis, entre certos povos, eram os velhos que governavam.

A velhice é ainda, e apesar de tudo, uma das belezas da vida, e certamente uma de suas mais altas harmonias. Diz-se muitas vezes: que belo velho! Se a velhice não tivesse estética especial, por que tal exclamação? Entretanto, é preciso não esquecer de que, em nossa época, "há - já o dizia Chateaubriand - muiitos velhos, o que não é a mesma coisa, e - poucos anciães!" O ancião, com efeito, é bom, indulgente, estima e encoraja a mocidade; seu coração não envelheceu. Os velhos, porém, são ciumentos, malévolos e severos; e, se nossas gerações novas perdem o culto de outrora pelos antepassados, não é, precisamente, porque os velhos deixaram de ter a alta serenidade, a benevolência amável que fazia, primitivamente, a poesia dos antigos lares?

A velhice é santa, pura quanto a primeira infância; por isso, aproxima-se de Deus e vê mais claro e mais longe nas profundezas do Infinito. Ela é, em realidade, um começo de desmaterialização. A insônia, característico ordinário dessa idade, disso oferece a prova material. A velhice assemelha-se à vigília prolongada, à vigília da eternidade, e o velho é uma espécie de sentinela avançada, na extrema fronteira da vida; já tem um pé na terra prometida e vê a outra margem, a segunda vertente do destino. Daí, essas ausências estranhas, essas distrações prolongadas, que costumamos tomar por enfraquecimento mental e que são, em realidade, explorações momentâneas no Além, isto é, fenômenos de expatriação passageira. Eis o que nem sempre se compreende. A velhice, tem-se dito muitas vezes, é a tarde da vida, é a noite. A tarde da vida, em verdade; mas, há tardes belas e poentes com reflexos de apoteose. . É a noite; mas, a noite é tão bela, com o seu ornato de constelações!

Igual à noite, a velhice tem suas vias-lácteas, suas estradas brancas e luminosas, reflexo esplêndido de longa vida, cheia de virtude, de bondade, de honra! A velhice é visitada pelos Espíritos do Invisível, tem iluminações instintivas; um dom maravilhoso de adivinhação e profecia; é a mediunidade permanente, e seus oráculos são o eco da voz de Deus. Eis por que são duplamente santas as bênçãos do ancião. Devem-se guardar no coração os últimos transportes do ancião que morre, qual o eco longínquo de uma voz amada de Deus e respeitada pelos homens.

A velhice, quando é digna e pura, assemelha-se ao nono livro da Sibila que, por si só, vale o preço de todos os outros, porque os recapitula e, resumindo todo o destino humano, anula os outros livros. Prossigamos nossa meditação sobre a velhice, e estudemos o trabalho interior que nela se estabelece. "De todas as histórias - diz-se - a mais bela é a das Almas." Isso é verdade. É belo penetrar nesse mundo interior, e surpreender as leis do pensamento, os movimentos secretos do amor. A Alma do ancião é uma cripta misteriosa, esclarecida pela alba inicial do sol do outro mundo.

De igual forma que as antigas iniciações se davam nas salas profundas das pirâmides, longe do olhar e do ruído dos mortais, abstratos e inconscientes, paralelamente, na cripta subterrânea da velhice dão-se as iniciações sagradas, que preludiam as revelações da morte. As transformações, ou melhor, as transfigurações operadas nas faculdades da Alma, pela velhice, são admiráveis. Esse trabalho interior resume-se em uma única palavra: a simplicidade. A velhice é eminentemente simplificadora de tudo. Simplifica, a princípio, o lado material da vida; suprime todas as necessidades irreais, as mil necessiidades artificiosas que a mocidade e a idade madura nos tenham criado e que faziam, de nossa existência complicada, verdadeira escravidão, servidão, tirania. Já o dissemos acima: - é um começo de espiritualização.

Dá-se o mesmo trabalho de simplificação na inteligência. As coisas adquiridas tornam-se mais transparentes; no fundo de cada palavra, encontra-se a idéia, entrevê-se Deus. O ancião tem uma faculdade preciosa: a de esquecer. Tudo que lhe foi fútil, supérfluo na vida, apaga-se; só conserva na memória, qual o fundo de um cadinho, o que foi substancial. A fronte do velho não tem mais a atitude altiva e provocadora da mocidade, a da idade viril; ela pende, sob o peso do pensamento, lembrando um fruto maduro.

O ancião curva a testa e inclina-se sobre o coração. Procura converter em amor tudo quanto lhe resta de faculdades, de vigor, de lembranças. A velhice não é uma decadência: é realmente um progresso, caminhada avante para o termo; e esse título é uma das bênçãos do Céu. A velhice é o prefácio da morte; é o que a torna santa, igual à vigília solene que faziam os iniciados antigos, antes de levantar o véu que cobria os mistérios. A morte é, pois, uma iniciação. Todas as religiões e todas as filosofias têm tentado explicar a morte; bem poucas lhe têm conservado o verdadeiro caráter.

O Cristianismo divinizou-a; seus santos encararam-na nobremente, seus poetas cantaram-na por uma libertação. Entretanto, os santos do Catolicismo só viram nela a exoneração da servidão da carne, o resgate do pecado, e, por isso mesmo, os ritos funerários da liturgia católica espalham uma espécie de terror sobre essa peroração, aliás, tão natural, da existência terrestre. A morte é, simplesmente, um segundo nascimento; deixamos o mundo pela mesma razão por que nele entramos, segundo a ordem da mesma lei.

Algum tempo antes da morte, um trabalho siilencioso se executa. A desmaterialização já está começada. Poderiam verificá-la por certos sinais, quantos rodeiam o moribundo, se não estivessem distraidos pelos fatos externos. A moléstia goza aqui de papel considerável. Ela acaba em alguns meses, em algumas semanas, em alguns dias, apenas, o que o lento trabalho da idade havia preparado: é a obra de "dissolução" de que fala o Apóstolo Paulo. Essa palavra dissolução é muito significativa: indica nitidamente que o organismo se desagrega, e que o perispírito se "desliga" do resto da carne em que estava envolvido.

Que se passou nesse momento supremo, a que todas as línguas chamam "agonia", isto é, o último combate? Pressente-se, adivinha-se. Um grande poeta moribundo traduziu tal instante solene neste verso: "É este o combate do dia e da noite." Com efeito, a Alma entra em um estado crepuscular, está no limite extremo, na fronteira dos dois mundos e é visitada pelas visões iniciais daquele em que vai entrar. O mundo que deixa, envia-lhe os fantasmas da lembrança e todo um cortejo de Espíritos lhe aparece do lado da aurora. Ninguém morre só, pela mesma forma que ninguém nasce só. Os invisíveis que o conheceram, que o amaram, que o assistiram aqui, em nosso orbe, vêm ajudar o moribundo a desembaraçar-se das úlltimas cadeias do cativeiro terrestre.

Nessa hora solene, as faculdades aumentam; a Alma, já meio desprendida, dilata-se; começa a entrar em sua atmosfera natural, a retomar a vida vibratória normal, e é por isso que, nesse momento, se revelam, em alguns agonizantes, fenômenos curiosos de mediunidade. A Bíblia está cheia dessas revelações supremas. A morte do patriarca Jaco é o tipo perfeito da desmaterialização e de suas leis. Os doze filhos estão reunidos em torno do leito, formando uma viva coroa funerária. O ancião recolhe-se- e, depois de reconstituir o passado, as lembranças, profetiza a cada um deles o futuro da família e de sua raça.

A vista se lhe estende mais longe ainda: percebe na extremidade dos tempos aquele que deve um dia recapitular toda a mediunidade secular do velho Israel: o Messias, e mostra, por último rebento de sua raça, aquele que resumirá toda a glória da posteridade de Jacó. Nenhum Faraó, em seu orgulho, morreu com tanta grandeza quanto esse velho obscuro e ignorado, que expirava a um canto da terra de Gessen.

Voltemos ao ato da morte. A desmaterialização está completa; o perispírito se desprende do invólucro carnal, que vive ainda algumas horas, talvez, de uma vida puramente vegetativa. Assim, os estados sucessivos da personalidade humana desenrolam-se em ordem inversa àquela que preside ao nascimento. A vida vegetativa, com que o ser havia começado no seio maternal, é agora a última a extinguir-se; a vida intelectual e a vida sensitiva são as duas primeiras que partem:

Que se passa então? O Espírito, isto é, a Alma e seu envoltório fluídico e, por conseqüência, o eu leva a última impressão moral e física que teve na Terra, e a conserva durante um tempo mais ou menos prolongado, conforme o grau respectivo de sua evolução. Eis por que convém rodear a agonia dos moribundos de palavras doces e santas, de pensamentos elevados, porque são estes últimos gestos, essas últimas imagens que se imprimem nas folhas do livro subliminal da consciência; é a linha última que o morto lerá desde sua entrada no Além, ou antes, desde quando tiver consciência de seu novo modo de ser.

A morte é, pois, em realidade, uma passagem, uma transição e uma translação. Se devemos tomar à vida moderna uma imagem, comparemo-la a um túnel. Com efeito, a Alma avança no desfiladeiro da morte, mais ou menos lentamente, segundo seu grau de desmaterialização e espiritual idade. As Almas superiores, que sempre viveram nas altas esferas do pensamento e da virtude, atravessam essa obscuridade com a rapidez do trem expresso que desemboca, em um instante, na plena luz do vale, mas é esse um privilégio de pequeno número de Espíritos evoluídos; são os eleitos e os sábios.

Não falaremos aqui dos criminosos, dos seres animalizados, de instintos grosseiros, que viveram, ou antes, vegetaram toda uma existência nos pântanos do vício e na enxurrada do crime. Para estes é a noite, a noite cheia de terríveis pesadelos. Temos dificuldade, entretanto, em crer que as fronteiras do Além e os caminhos da vida errática estejam povoados desses seres terríveis a que os ocultistas chamam - elementais. Só se poderiam ver aí símbolos e imagens, reflexos de paixões, vícios, crimes que os perversos cometeram na Terra.

Encaremos aqui, apenas, as vidas ordinárias, as existências que seguem tranqüilamente as fases lógicas do seu destino. É a condição comum da maior parte dos mortais. A Alma entrou na sombria galeria: aí fica em obscuridade, ou antes, em uma penumbra próxima da luz. É o crepúsculo do Além. Os poetas, com muita felicidade, têm pintado esse estado e descrito esse meio-dia, esse claro-escuro do mundo extraterrestre. Aqui, as analogias entre a vida e a morte são impressionantes. A criança permanece muitos dias sem fixar a luz e sem ter conhecimento do que a rodeia; seus olhos ainda não se abriram, e assim a irradiação do pensamento.

O recém-nascido no mundo invisível fica, também ele, algum tempo sem tomar conhecimento do seu modo de ser e de seu destino. Ele ouve, ao mesmo tempo, os murmúrios próximos ou remotos dos dois mundos; entrevê movimentos e gestos, que não poderia precisar, nem definir. Meio entrado na quarta dimensão, perde a noção precisa da terceira, na qual havia até então evolvido. Não dá mais tento, nem da quantidade, nem do número, nem do espaço, nem do tempo, pois que seus sentidos que, quais outros tantos instrumentos de óptica, o ajudavam a calcular, a medir, a pesar, se fecharam de repente, qual uma porta para sempre condenada. Que estado estranho, esse da Alma, que tateia, cega, nas estradas do Além! E, no entanto, esse estado é real.

Nesse momento, as influências magnéticas da prece, das lembranças, do amor, podem gozar um papel considerável e apressar o advento das claridades reveladoras que vão iluminar essa consciência ainda adormecida, essa Alma "em trabalhos" do seu destino. A prece, nesse caso, é uma verdadeira evocação; é o grito de apelo à Alma indecisa e flutuante. Eis por que o esquecimento dos mortos e a negligência de seu culto são reprováveis e nos acarretam mais tarde olvidos semelhantes.

Esse período de transição, entretanto, e essa parada no túnel da morte são absolutamente necessários, em preparo da visão de luz que deve suceder à obscuridade. É preciso que o sentido psíquico se vá adaptando proporcionalmente ao novo foco que o vai esclarecer. Uma passagem súbita, sem transição nenhuma desta vida à outra, seria um deslumbramento que produziria perturbação prolongada. Natura non facit saltus, disse o grande Lineu; essa lei rege igualmente os graus progressivos do desprendimento espiritual.

É preciso que a visão da Alma se engrandeça, que a ave noturna, impossibilitada de encarar a auurora, fortaleça as pupilas, e possa, igual à águia, olhar de face o Sol, com olhar intrépido. Esse trabalho de preparação executa-se progressivamente, durante a demora, mais ou menos prolongada, no túnel que precede a vida errática propriamente dita. Pouco a pouco, vai a luz sendo feita; a princípio muito pálida, alba inicial que se ergue sobre a crista dos montes; depois, à alba sucede a aurora; aqui, a Alma entrevê o mundo novo em que habita; ela pode ler em si mesma, e se compreende, graças a uma luz sutil que a penetra em toda a sua essência. Gradualmente, todo o seu destino, com as vidas anteriores, e, antes de tudo, com a noção consciente e reflexa da última, vai revelando-se, qual em um clichê cinematográfico vibratório e animado. O Espírito, então, compreende o que é, onde está e o que vale.

As Almas, por instinto infalível, vão para a esfera proporcionada a seu grau de evolução, à sua faculdade de iluminação, à sua aptidão atual de perfectibilidade. As afinidades fluídicas conduzem-na, qual doce mas imperiosa brisa que impele um batel, para outras Almas similares, com as quais vai unir-se em uma espécie de amizade, de parentesco magnético; e, assim, a vida, uma vida verdadeiramente social, mas de grau superior, reconstitui-se, tal qual outrora na Terra, porque a Alma humana não poderia renunciar à sua natureza. A estrutura íntima, sua faculdade de irradiação, lhe impõe a sociedade que merece.

No Além, as famílias, os grupos de Almas e os círculos de Espíritos reformam-se segundo as leis de afinidade e simpatia. O purgatório é visitado pelos anjos, dizem os místicos teólogos. O mundo errático é visitado, dirigido, harmonizado pelos Espíritos superiores, dizemos nós. Aqui, em nosso orbe terráqueo, entre os eleitos pelo gênio, pela santidade e pela glória, houve e haverá sempre iniciadores. São predestinados, missionários que receberam por encargo fazer progredir o mundo na Verdade e na Justiça, com o preço de seus esforços, de suas lágrimas e, algumas vezes, de seu sangue.

As altas missões da Alma jamais cessam. Os Espíritos sublimes, que têm instituído e melhorado seus semelhantes na Terra, continuam em mundo superior, em quadro mais vasto, seu apostolado de luz e sua redenção de amor. Conforme dissemos no início destas páginas, é assim que a História eternamente recomeça e se torna cada vez mais universal. A lei circulatória que preside ao eterno progresso dos Estados e dos mundos, desenrola-se sem cessar em esferas e mundos cada vez mais engrandecidos; tudo recomeça no Alto, em virtude da mesma lei que faz tudo evolver no plano inferior. Todo o segredo do Universo aí está.

As Almas, a quem a consciência acusa de haver falhado na última existência, compreenderam a necessidade de reencarnar, e preparam-se para isso. Tudo se agita, tudo se move nessas esferas, sempre em vibração, sempre em movimento. É a atividade incessante, ininterrupta, progressiva, eterna. O trabalho dos povos na Terra nada é, em comparação com esse labor harmonioso do Universo. Lá em cima, nenhum empecilho material, nenhum obstáculo carnal faz parar os surtos, nem entibia ou enfraquece o vôo. Nenhuma hesitação, nenhuma ansiedade, nenhuma incerteza. A Alma vê o fim, sabe os meios, precipita-se no sentido em que se deve dirigir.

Quem nos poderá descrever a harmonia dessas inteligências puras, o esforço dessas vontades firmes, o impulso desses amores mais fortes que a morte?

Que linguagem poderá jamais descrever a comunhão sublime e fraternal desses Espíritos que mantêm entre si diálogos ardentes quanto o é a luz, sutis quanto o são os perfumes, onde cada vibração magnética tem eco no próprio imo de Deus? Tal é a vida celeste; tal é a vida eterna; são essas perspecctivas que a morte abre definitivamente diante do Esspírito! 6 homem! compreende, pois, teu destino, sê altivo e feliz de viver; não blasfemes da lei de amor e beleza que abre diante de ti caminhos tão amplos e radiosos! Aceita a vida tal qual é, com as suas fases, alternativas, vicissitudes; ela é o prefácio, o prelúdio de uma outra vida mais elevada, onde plainarás qual águia na imensidade, depois de haveres penosamente rastejado em um mundo material e imperfeito.

Não é, pois, com um hino fúnebre que devemos acolher a morte, e sim com um cântico de vida, porque não é o astro da tarde que se ergue cruel, mas a estrela radiosa da verdadeira manhã. Canta, ó alma, o hino triunfal, o hosana do novo século, no qual tudo irá nascer para destinos mais gloriosos. Sobe sempre mais alto na pirâmide infinita da luz; e, semelhante ao herói da legenda do Excelsior, vai fixar tua tenda nos Tabores radiosos do Incomensurável, do Eterno!

24 - O LIVRO DOS ESPÍRITOS - ALLAN KARDEC, cap. IV, Pluralidade das existências, ítem I - Da reencarnação

Perg. 166. A alma que não atingiu a perfeição durante a vida corpórea, como acaba de depurar-se? - Submetendo-se à prova de uma nova existência.

Perg. 166a. Como realiza ela essa nova existência? Pela sua transformação como Espírito? - Ao se depurar, a alma sofre sem dúvida uma transformação, mas para isto necessita da prova da vida corpórea.

Perg. 166b. A alma tem muitas existências corpóreas? - Sim, todos nós temos muitas existências. Os que dizem o contrário querem manter-vos na ignorância em que eles mesmos se encontram; esse é o seu desejo.

Perg. 166c. Parece resultar, desse princípio, que, após ter deixado o corpo, a alma toma outro. Dito de outra maneira, que ela se reencarna em novo corpo. É assim que se deve entender? É evidente.

Perg. 167. Qual é a finalidade da reencarnação? - Expiação, melhoramento progressivo da humanidade. Sem isto, onde estaria a justiça?.

Perg. 168. O número das existências corpóreas é limitado, ou o Espírito se reencarna perpetuamente? - A cada nova existência, o Espírito dá um passo na senda do progresso; quando se despoja de todas as suas impurezas, não precisa mais das provas da vida corpórea.

Perg. 169. O número das encarnações é o mesmo para todos os Espíritos? - Não. Aquele que avança rapidamente poupa-se das provas. Não obstante, as encarnações sucessivas são sempre muito numerosas, porque o progresso é quase infinito.

Perg. 170. Em que se transforma o Espírito, depois da sua última encarnação? - Espírito bem-aventurado; um Espírito Puro.

II-JUSTIÇA DA REENCARNAÇÃO: Perg. 171. Sobre o que se funda o dogma da reencarnação? -Sobre a justiça de Deus e a revelação, pois não nos cansamos de repetir: um bom pai deixa sempre aos filhos uma porta aberta ao arrependimento. A razão não diz que seria injusto privar para sempre da felicidade eterna aqueles cujo melhoramento não dependeu deles mesmos? Todos os homens não são filhos de Deus? Somente entre os homens egoístas é que se encontram a iniquidade, o ódio implacável e os castigos sem perdão.

Todos os Espíritos tendem à perfeição, e Deus lhes proporciona os meios de consegui-la com as provas da vida corpórea. Mas, na sua justiça, permite-lhes realizar, em novas existências, aquilo que não puderam fazer ou acabar numa primeira prova. Não estaria de acordo com a equidade, nem segundo a bondade de Deus, castigar para sempre aqueles que encontraram obstáculos ao seu melhoramento, independentemente de sua vontade, no próprio meio em que foram colocados.

Se a sorte do homem fosse irrevogavelmente fixada após a sua morte, Deus não teria pesado as ações de todos na mesma balança e não os teria tratado com imparcialidade. A doutrina da reencarnação, que consiste em admitir para o homem muitas existências sucessivas, é a única que corresponde à idéia da justiça de Deus com respeito aos homens de condição moral inferior; a única que pode explicar o nosso futuro e fundamentar as nossas esperanças, pois oferece-nos o meio de resgatarmos os nossos erros por meio de novas provas. A razão assim nos diz, e é que os Espíritos nos ensinam.

O homem que tem a consciência da sua inferioridade encontra na doutrina da reencarnação uma consoladora esperança. Se crê na justiça de Deus, não pode esperar que, por toda a eternidade, haja de ser igual aos que agiram melhor do que ele. O pensamento de que essa inferioridade não o deserdará para sempre do bem supremo, e de que ele poderá consquistá-lo por meio de novos esforços, ampara-o e reanima a sua coragem. Qual é aquele que, no fim da sua carreira, não lamenta ter adquirido demasiado tarde uma experiência que já não pode aproveitar? Pois esta experiência tardia não estará perdida: ele a aproveitará numa nova existência.

26 - RELIGIÃO DOS ESPÍRITOS - EMMANUEL - ÍTEM REENCARNAÇÃO - QUESTÃO Nº 617 - pág. 61

REENCARNAÇÃO nem sempre é sucesso expiatório, como nem toda luta no campo físico expressa punição. Suor na oficina é acesso à competência. Esforço na escola é aquisição de cultura. Porque alguém se consagre hoje à Medicina, não quer isso dizer que haja ontem semeado moléstias e sofrimentos.

Muitas vezes, o Espírito, para senhorear o domínio das ciências que tratam do corpo, voluntariamente lhe busca o trato difícil, no rumo de mais elevada ascensão. Porque um homem se dedique presentemente às atividades da engenharia, não exprime semelhante escolha essa ou aquela dívida do passado na destruição dos recursos da Terra.

Em muitas ocasiões, o Espírito elege esse gênero de trabalho, tentando crescer no conhecimento das leis que regem o plano material, em marcha para mais altos postos na Vida Superior. Entretanto, se o médico ou o engenheiro sofrem golpes mortais no exercício da profissão a que se devotam, decerto nela possuem serviço reparador que é preciso atender na pauta das corrigendas necessárias e justas.

TODA RESTAURAÇÃO EXIGE DIFICULDADES EQUIVALENTES. Todo valor evolutivo reclama serviço próprio. Nada existe sem preço. Por esse motivo, se as paixões gritam jungidas aos flagelos que lhes extinguem a sombra, as tarefas sublimes fulgem ligadas às renunciações que lhes acendem a luz.

À vista disso, não te habitues a medir as dores alheias pelo critério de expiação, porque, quase sempre almas heróicas que suportam o fogo constante das grandes dores morais, no sacrifício do lar ou nas lutas do povo, apenas obedecem aos impulsos do bem excelso, a fim de que a negação do homem seja bafejada pela esperança de Deus.

Recorda que, se fosse arrebatado ao Céu, não tolerarias o gozo estanque, sabendo que os teus filhos se agitam no torvelinho infernal. De imediato, solicitarias a descida aos tormentos da treva para ajudá-los na travessia da angústia..

Lembra-te disso e compreenderás, por fim, a grandeza do Cristo que, sem débito algum, condicionou-se às nossas deficiências, aceitando, para ajudar-nos, a cruz dos ladrões, para que todos consigamos, na glória de seu amor, soerguer-nos da morte no erro à bênção da Vida Eterna.

27 - INDULGÊNCIA - EMMANUEL - PÁG. 28

Sem a chave da REENCARNAÇÃO, a vida inteira reduzir-se-ia a escuro labirinto. De existência a existência, no mundo, nossa individualidade imperecível sofre o desgaste da imperfeição, assim como o aprendiz, de curso a curso, na escola, perde o fardo da ignorância. Compreendendo semelhante verdade, saibamos valorizar o tempo, no espaço terrestre, realizando integral aproveitamento da oportunidade que o Senhor nos concede, entre as criaturas, acumulando em nós as riquezas do Conhecimento Superior e os tesouros da sublimação pelo aprimoramento de nossas qualidades morais.

Lembremo-nos de que nunca iludiremos a vigilância da lei. Na Terra, a organização judiciária corrige tão-somente os erros espetaculares, expressos nos crimes ou nos desregramentos que compelem os missionários da ordem a drásticas atitudes, segregando a deliquência na penitenciária ou no hospital, derradeiros limites do desequilíbrio a que se acolhem os trânsfugas sociais.

Todavia, é imperioso reconhecer que todas as nossas falhas são registradas em nós mesmos, constrangendo a Justiça Eterna a providências de reajuste em nosso favor, no instituto universal da reencarnação, que dispõe de infinitos recursos para o trabalho regenerativo.

De mil modos, ilaqueamos no corpo físico a atenção dos juízes humanos, nos delitos ocultos, exercitando a perversidade com inteligência, oprimindo os outros com suposta humildade, ferindo o próximo com virtudes fictícias, estragando o equipamento corpóreo sem qualquer consideração para com os empréstimos divino e, sobretudo, explorando os irmãos de luta com manifesto abuso de nossos poderes intelectuais...

No entanto, por isso mesmo também, renascemos sob doloroso regime de sanções, dilacerados por nós mesmos, nas possibilidades que outrora desfrutávamos e que passam a sofrer frustrações aflitivas. Moléstias do corpo e impedimentos do sangue, mutilações e defeitos, inquietações e deformidades, fobias complexas e deficiências inúmeras constituem pontos de corrigenda do nosso passado que hoje nos restauram à frente do futuro.

Cultivemos, desse modo, o coração nobre no vaso da consciência reta para que a planta de nossa vida se levante para o Hálito de Deus porquanto basta a boa vontade na sementeira do amor que o Mestre nos legou para que a multidão de nossos débitos seja coberta e esquecida pela Divina Misericórdia, possibilitando o soerguimento de nosso espírito, até agora arrojado ao lodo de velhos compromissos com a sombra, na subida vitoriosa para a Luz Imortal.

Enquanto alimentamos o mal em nossos pensamentos, palavras e ações, estamos sob os choques de retorno das nossas próprias criações, dentro da vida.

28 - NO PORTAL DA LUZ - EMMANUEL - PÁG. 23

PERANTE A REENCARNAÇÃO: Não perderás tempo, reclamando contra a vida. Na hipótese de que te empenhes realmente pela aquisição do conhecimento espírita, reflete na lei da reencarnação. És um espírito eterno envergando temporária forma física, à maneira de um servidor vestindo uniforme de trabalho, francamente deteriorável e passageiro.

Observa os próprios hábitos e tendências e perceberás o que foste nas existências passadas. Analisa os que te rodeiam, no círculo doméstico-social e identificarás com que te comprometeste para sanar os próprios débitos ou traçar a própria senda de elevação.

Estuda o quadro que te emoldura as atividades e anotarás de que ponto deves partir em demanda à melhoria. Sobretudo, é preciso ponderar que se ninguém nasce para o mal, muito menos renascerá para reconstituí-lo ou reafirmá-lo.

Um aluno repete o currículo de lições no objetivo de ganhar a frente, não para acomodar-se à retaguarda. Convence-te de que retornamos à Terra com o fim de ampliar os valores do bem, cada vez mais.

Indispensável corrigir-nos naquilo que erramos. Replantar dignamente a leira do destino que relegamos outrora ao relaxamento. Levantar aqueles que impelimos à queda. Amar os que aborrecemos.

Acender alegria nos corações que encharcamos de lágrimas. Estás hoje no lugar e na posição em que podes claramente doar à vida, na pessoa dos outros, tudo aquilo que és capaz de sentir, pensar, falar ou fazer de melhor.

29 - FALANDO À TERRA - ESPÍRITOS DIVERSOS - PÁG. 93

Por meio afeito esteja o aprendiz da Revelação Nova aos enunciados da fé que o reconforta e educa para a grande transição, a morte é sempre um caminho surpreendente. Sabemos que a reencarnação nos enforma na carne e que, antes de qualquer operação biológica no renascimento, já vivemos na pátria espiritual, quase sempre no mesmo ponto em que se verifica o nosso reingresso; entretanto, quem não experimentaria o deslumbramento do novo despertar?

O pássaro encarcerado na gaiola, em escuro porão, por muitos e muitos anos, em se vendo inesperadamente libertado, contempla os quadros da natureza livre, estuante de imenso júbilo, como se o vento e o sol, o rio e o arvoredo lhe fossem preciosas descobertas. Em verdade, sentir-se-ia enfraquecido e incapaz de sem auxílio sustentar-se na floresta enorme, viciado, como se encontra, com o alpiste e o bebedouro diariamente colocados no artificial domicílio de arame.

É o nosso caso.
Por muito que nos disponhamos a encarar, face a face, as realidades da morte, atravessamos os pórticos da vida nova, de coração aos pulos e a passos vacilantes. A paisagem dos mundos felizes e a residência dos eleitos ficam ainda muito distantes... A visão pormenorizada de toda a existência humana, no estado de liberdade de nosso corpo espiritual, quadro que mereceu de Bozzano apontamentos valiosos e especiais, começa por reintegrar-nos na posse de nós mesmos. Enquanto a caridade dos irmãos mais velhos nos auxilia a libertação da grade orgânica do mundo, a memória como que retira da câmara cerebral, às pressas, o conjunto das imagens que gravou em si mesma, durante a permanência na carne, a fim de incorporá-las, definitivamente, aos seus arquivos eternos.

Sem capacidade para definir o fenômeno introspectivo, devo apenas registrar a impressão de que a vida efetua um movimento de recuo, dentro de nós mesmos. Em pensamento, voltamos da hora derradeira do envoltório somático ao berço que nos viu ressurgir na Terra e aí somos geralmente surpreendidos por extensa barragem de sombra, estabelecida pelo choque de retorno da alma às correntes da vida física, que raros espíritos desencarnados conseguem transpor de imediato. Para mim, igualmente, o obstáculo foi dificílimo.

De peito e braços hirtos, embora os afeiçoados me certificassem do desprendimento, aflito, mas imóvel, assisti ao desenrolar de minha existência última, com todo o séquito de meus atos, palavras e pensamentos, como se a minha vida fosse uma película cinematográfica projetada, ao inverso, na tela de minha consciência. Tudo claro, eficiente e rápido. Atingido, porém, o instante exato em que reapareciam as horas da meninice, intraduzível turvação mental me absorveu o raciocínio...

Debati-me, inquieto, buscando clarear as minhas reminiscências e precisar-lhes os contornos; no entanto, incoercível vacuidade me assaltou o pensamento expectante e caí num repouso inconsciente e profundo, qual trabalhador fatigado, após longo dia de estafante labor. Quando acordei, convenci-me de haver reconquistado o equilíbrio total. O leito alvo, em amplo e bem arejado aposento, obrigou-me a refletir na hospitalização. Quis movimentar-me, mas não pude. Meu corpo me parecia chumbado ao lençol farto e macio. Tentei erguer as mãos, no gesto instintivo do enfermo que, ávido, procura a campainha de chamada; contudo, meus braços desobedeceram, como se fossem de bronze.

Examinei a sala, assombrado. Enquanto as paredes se achavam revestidas de uma substância acetinada, de tom róseo, o teto arqueado exibia um painel de repousante beleza, do qual sobressaía um campo de lírios prateados e abertos, proporcionando a real sensação de vitalidade e perfume. A contemplação do quadro, que se desdobrava no alto, pareceu reanimar-me. Leve sopro de renovação fortaleceu-me o íntimo. Poderia falar? — pensei. Que espécie de enfermidade me deprimia? Não sentia dores físicas, e, entretanto, extremo abatimento me anulava todas as forças. Tentei gemer e consegui. O meu "ai" arfante cortou o ar em dolorido apelo.

Aproximou-se alguém, e, então, pude ver a meu lado graciosa mensageira de ternura fraterna. Indubitavelmente, seria uma colaboradora da enfermagem. Intrigou-me sua veste, estranha para mim, mas depressa não mais liguei a essa particularidade, inebriado pelo carinho espontâneo e pela bondade sem afetação com que passou a confortar-me. Acariciando-me a cabeça quase imóvel, chamou-me irmão e pronunciou palavras de estímulo que me aliviaram todo o ser. O contacto daquela mão de enfermeira, tocada de boa-vontade, parecia inocular-me fluidos revigorantes.

Noutra ocasião, talvez eu não tivesse notado, mas, agora, surpreendia em mim, sem dúvida em razão de meu pronunciado enfraquecimento, certa receptividade magnética que, em outras circunstâncias, me passaria despercebida. Reconheci essa minha virtude, reparando que a jovem assistente projetava sobre mim, intencionalmente ou não, copiosa chuva de forças reconfortantes que eu, num impulso firme da vontade, procurava acumular na região da voz, tentando a fala. A intimidade com a literatura espiritualista me favorecia as operações naturais do pensamento.

Doente e enfraquecido qual me achava, não seria justo aproveitar as energias que me repassavam o campo orgânico? Sendo a vontade o elemento determinador nos fenômenos magnéticos, não poderia, de minha parte, valer-me dela na aquisição de recursos com que me fosse possível rearticular a palavra? Desejei, então, instintivamente, transformar a garganta num aspirador vigoroso para fixar as energias flutuantes em minhas cordas vocais. Iniciei o exercício silencioso e recebi a impressão nítida de que os fluidos emitidos pela enfermeira se condensaram no ponto indicado por minha mente e, findos alguns instantes de expectação, meus lábios se moveram e as palavras surgiram entrecortadas.

— Minha irmã — indaguei, com dificuldade —, onde estou? que aconteceu? A interpelada, muito gentil, declarou que eu me achava abatido e aconselhou-me serenidade. Perguntei pelos meus familiares, pelos amigos, pelo médico da casa e pelas drogas que deveria tomar, melhorando o timbre de voz à proporção que me adiantava na experiência nova. A jovem sorriu e informou: — Chamarei o amigo que o aguarda na ante-sala. É companheiro que lhe espera o despertar. Retirou-se, lépida, e percebi que minha resistência decresceu.

Agora, sozinho, experimentei monologar, mas não fui além de algumas frases que para outros seriam ininteligíveis. O abatimento quase completo voltou a imperar sobre mim. Decorridos alguns minutos, regressava a jovem, fazendo-se acompanhada de alguém. Era um cavalheiro maduro, alto, de rosto pletórico, corpo bem fornido e passo firme. Abeirou-se de mim com simpatia, e, quando aplicou a destra sobre a minha fronte, renovei o processo mental de absorção da força que ele me trazia e o meu revigoramento não se fez esperar. Pousei nele os olhos, agora mais seguros, e reconheci-o. Confrangeu-se-me o coração no peito. Era Lameira de Andrade.

Até ali me sentira tão naturalmente instalado naquela casa como se estivesse num hospital terrestre comum, julgando-me reintegrado no aparelho físico; mas... e a presença de Lameira que eu sabia desencarnado desde muito?!... Refleti na possibilidade de estar sendo agraciado por dons mediúnicos e dirigi-me a ele, tentando tranqüilizar-me: — Obrigado, meu irmão, obrigado!... Não contava com uma clarividência assim, tão avançada... Despendi na observação toda a minha força mental. O visitante ouviu-me as frases "impronunciadas", sorriu, franco, e acentuou:

— Você já dormiu bastante e deve sabê-lo. Acha-se num hospital de emergência. Você, Romeu, está desencarnado. A inopinada revelação me golpeou profundamente. O coração, como se fora lanhado por invisível chicote, bateu precipite no tórax. Aturdi-me. Apalpei o leito, as vestes, a mim mesmo: tudo tangível, adensado, concreto. Intraduzível sensação de asfixia começou a entontecer-me, experimentando eu o mal-estar da criatura encarnada ao sentir o sangue afluir-lhe à cabeça. Aflitivas perguntas vagavam em meu ser. Como teria sido aquilo? e meus interesses na Terra? meus serviços inacabados? A sumária declaração do companheiro perturbara-me.

Recordei a desenvoltura com que nos habituamos a doutrinar os irmãos desencarnados na experiência comum, e somente aí senti brotar em meu íntimo a verdadeira piedade por todos os que são arrebatados à realidade da morte, na ignorância do Além. Lameira percebeu-me o constrangimento e informou, prestativo: — Meu caro, com a transição pelo túmulo nada se acaba, mas tudo se modifica, se nos achamos efetivamente empenhados no verdadeiro aperfeiçoamento. Agora, as oportunidades são outras; as do mundo foram interrompidas. O que você fez está feito.

Talvez porque meus olhos se nublassem de pranto, aditou em voz firme:— Não cultive qualquer estado mental deprimente. Onde a matéria é mais leve, a vibração espiritual é mais importante. Lembrei-me de antigos estudos e esforcei-me. Logrei concentrar, de novo, as minhas energias e, mais confortado, perguntei por meus familiares de outro tempo, estranhando não me houvessem recebido ali, no recomeço da vida nova. Com a mesma calma, o prestimoso companheiro explicou, delicadamente:— Nem todos podem retornar, com o êxito desejável, à comunhão com o círculo doméstico. Há emoções violentas que nos prejudicam, sem que apercebamos isso. A planta frágil exige proteção. Adaptação e crescimento são imperativos artigos da Lei. Espere.

E contou que inúmeros irmãos desprevenidos, quando se rebelam contra o socorro assistencial de que me via rodeado, são naturalmente atraídos para velhos círculos de luta, escravizando-se a sensações que não mais se justificam, e passando a viver em longo processo de vampirismo natural. A palestra do amigo, reportando-se a paisagens sombrias e a almas atormentadas, quando me afligiam os meus próprios cuidados, acabou por levar-me a indefinível abatimento. Assaltou-me a dispnéia dos asmáticos.

Lameira compreendeu tudo, silenciou como quem ora sem palavras e começou a aplicar-me passes na região do baço. Vi-lhe as mãos, despedindo brilhantes raios róseos, arrancando, ao contacto de minha epiderme, fios tênues de uma substância azul-violácea. Pouco a pouco, reparei que forças novas me invadiam, como se eu fora emperrada máquina repentinamente lubrificada e restituída, com êxito, às suas funções normais.

Terminada a intervenção magnética e surpreendido ante o milagroso efeito, pude sentar-me, amparando-me nos braços do amigo que se acomodou ao meu lado, com o sorriso do colaborador vitorioso e feliz. — Aqui — esclareceu, bondoso —, o passe é uma transfusão de energias, com resultados imediatos, quase milagrosos. E porque eu indagasse sobre o tempo em que me cabia esperar a restauração plena, ponderou: — Romeu, em nossas atividades comuns na Terra, clareamos a vida, mas somente por fora; com a lâmpada sublime dos conhecimentos espiritualistas e, da existência tiramos todos os proveitos, assim como o pomicultor avarento ou ignorante colhe os frutos da árvore sem lhe auscultar as necessidades e sem sequer uma nota de reconhecimento aos serviços que ela lhe presta, supondo-se o credor absoluto de suas vantagens preciosas. É assim, meu amigo, que desencarnamos...

Tão plenos de confiança no Céu, quanto vivíamos alvoroçados com as revelações na Terra, mas vazios de espiritualidade santificante. Fez breve pausa, como se quisesse dar algum repouso à minha atenção, e prosseguiu: — E por mostrarmos aqui o que realmente somos, bastas vezes não passamos de mendigos ou de cegos, com o poder de pronunciar lindas palavras, mas sem irradiar ondas de simpatia ou de edificação aos outros seres. Na esfera que deixamos para trás, usávamos o corpo denso quase sempre sem lhe analisar a grandeza; o coração, o cérebro, os pulmões, o fígado, o baço, os rins, sustentados por glândulas de recursos sutis, não vivem à mostra, no veículo que baldeamos no túmulo, como trapo velho; e, no entanto, desempenham funções básicas em nossa comunhão com os ensinamentos preciosos do plano carnal.

Valemo-nos desses órgãos quase sem nenhuma consideração para com os reais benefícios que nos prestam; e, se algum dia nos recordamos deles, é, com frequência, quando destrambelham, irritados ou enfermos, geralmente por nossa própria culpa. Em muitas ocasiões, antes dos quarenta anos de idade, no corpo físico, desequilibramos o aparelho circulatório, impondo-lhe comoções violentas da nossa cólera destrutiva, viciamos as células cerebrais com o provocar e manter pensamentos perturbadores, ulceramos o estômago, ingurgitamos o fígado ou obstruímos os rins com alimentação imprópria ou com tóxicos vários, despendendo anos e anos em reparos do carro físico, os quais nem sempre se levam a termo por nos surpreender a morte antes do integral reajustamento.

As elucidações pareciam impregnadas de virtudes calmantes para as minhas chagas mentais, porque, enquanto eu lhes dedicava a minha atenção, doce alívio me penetrava...Lameira interrompeu-se, fitou-me longamente e, como se quisesse imprimir maior significação às palavras, modificou o tom de voz, prosseguindo, delicado:— Imagine semelhante situação aplicada à nossa alma. Nosso corpo espiritual encerra também potentes núcleos de energia, que, entretanto, não vivem expostos à visão externa, qual acontece ao veículo de carne. São centros de força, destinados à absorção e à transmissão de poderes divinos, quando conseguimos harmonizá-los com as grandes leis da vida. Localizam-se nas regiões do cérebro, do coração, da laringe, do baço e do baixo-ventre. Não importa que a ciência do mundo os desconheça por enquanto.

O conhecimento humano avança por longos e pedregosos trilhos. A circulação do sangue e a nutrição das células só agora vão recebendo alguma claridade nas observações cotidianas, e os processos da geração constituem ainda quase um enigma para os investigadores da vida renascente. Não é de estranhar, portanto, que a inteligência mediana da Terra ainda ignore o profundo e romplexo mecanismo da alma.

Percebeu Lameira a imensa atenção com que seguia as palavras e, provavelmente condoído de minha prostração, acentuou:— Aliás, quero esclarecer-lhe que, com esta minha minuciosa explicação, desejo apenas salientar que raramente desencarnamos em condições satisfatórias. À proporção que nos desenvolvemos em conhecimento, cresce nossa capacidade de pensar, e quem pensa gera determinadas forças e as irradia. Para estilo mais conciso, recorra à simbologia, sempre valiosa em qualquer lição. Imaginemos o fruto verde e o fruto maduro. O primeiro demorar-se-á em longo estádio preparatório, elaborando a polpa, ainda sem expressão de utilidade; o segundo já se oferece pronto a quantos queiram aproveitar-lhe a carne e renovar-lhe as virtudes na sementeira, ou em benefício de seres inferiores que vivem na terra. A imagem é pálida e insuficiente, mas serve para confronto rudimentar.

Enquanto a mente da criatura transita nas zonas selvagens, sob os fluidos condensados da carne, ou sem não possui recursos de autoprojeção, em face do círculo restrito em que vibra; mas, se nossa razão amadurece o campo do pensamento se alarga, projetando a distância nossa influência individual. É natural que a força emitida nos alcance em primeiro lugar. Se o benfeitor é o primeiro a envolver-se nas irradiações do bem que produz, o homem incauto, que despede as negras correntes do mal, é também o primeiro a sofrer-lhes o efeito. Assim é muito especialmente depois da morte, temos nossa organização espiritual ligada às nossas próprias criações.

Quase sempre, acordamos com os centros de força viciados pelos quadros mentais a que por muitos e muitos anos demos origem e sustento. As possibilidades de imaginar e de desejar aumentam-nos a responsabilidade. Somos na Terra, dentro da esfera da razão, frutos amadurecidos que, sem proveito integral para os demais, em vista de nossa constante fuga ao trabalho, nos intoxicamos, dando
pasto a elementos viciosos que deveríamos reconhecer incompatíveis com a nossa atual posição. Dispondo de tantos recursos de serviço, sem a devida aplicação, assemelhamo-nos também, de algum modo, ao poço de águas estagnadas, que desenvolve microorganismos prejudiciais, ao invés de semear benefícios, e somos habitualmente surpreendidos pela morte nessa lnconveniente situação.

Os grandes ensinamentos das religiões são fórmulas que, aplicadas nas experiências de cada dia, operam a higiene e a iluminação de nossa alma, rumo aos degraus superiores. Todavia, enquanto permanecemos no corpo, infinita é a nossa distração. Invariavelmente dispostos a ensinar o bom caminho aos outros, dele nos afastamos, sempre que a virtude nos peça algo contra os nossos desejos. Valendo-me da pausa natural de sua palavra carinhosa e fluente, arrisquei: - Quer dizer então que... Lameira não me deixou terminar. Tornando à frase convincente, esclareceu:

— Quer dizer que para cá voltamos à semelhança de máquinas desarranjadas à oficina. Vícios do pensamento, inclinações nocivas não combatidas, desequilíbrios nervosos não extintos, sentimentos de culpa imanifestos, hábitos deprimentes, impulsos não educados, excessivo apego a objetos, situações e paisagens materiais ainda arraigadas, acidentes íntimos de mágoa ou de revolta, paixões ocultas, e verdadeira mole de outros fenômenos corruptores do sentimento — nos obrigam a lamentável demora na viagem, constrangendo-nos à perda de muito tempo que poderia ser utilizado em nossa própria ascensão.

Notando-me a expressão de amargura no olhar inquiridor, prosseguiu, comovido:— Não acredite seja você o único a experimentar as dificuldades do ressurgimento. Lutei muito, por minha vez, e ainda me encontro em reajuste, satisfazendo certos compromissos que, desprevenido, assumi. Somos extensa fileira de trabalhadores em transição. Nem na extrema vanguarda, nem de todo para trás. Muitíssimos anos exige a obra da restauração, e nem poderia ser de outro modo. Ainda assim, meu amigo, cabe-nos render graças a Deus, porque milhões de pessoas, embora já sem o veiculo da carne, permanecem aferradas à matéria, com o risco as maiores desilusões para a necessária libertação.

Tais instruções calaram-me fundamente no espírito. Recordei a leitura das mensagens e dos apontamentos de André Luiz e concluí, pela experiência direta, enfrentava, por minha vez, os duros tempos do conserto próprio. Desdobraram-se os dias entre a aflição e a saúde amenizadas, de alguma sorte, pelas novas amizades me floriram a estrada de alegrias surpreendentes. Lameira foi para mim um cicerone bondoso e amigo vigilante. Pouco a pouco, reconheci que recebemos no Além o que realmente criamos para nós mesmos, em contato com as criaturas. Tudo o que é nosso em nós demora. O amor encontra, depois da morte, aqueles a que se consagra ou aquilo a que se devotou.

O ódio convive com as imagens horrendas que a si mesmo gerou e das quais se alimenta."É assim que me restauro; e, guardando intacto o velho ideal de aprender e servir, no trabalho de engrandecimento da vida imperecível, eis-me de retorno companheiros de luta, oferecendo-lhes o relatório de minhas surpresas iniciais na Espiritualidade. Saibam, destarte, que o corpo de sangue e ossos é simplesmente sombra da nossa entidade real e que todas as nossas virtudes ou vícios a nós se atrelam além da Terra; pelo que, de cada qual depende o caminho aberto ou o desfiladeiro sombrio na sublime romagem para a Luz.

Romeu A. Camargo

30 - OFERENDA- JOANNA DE ÂNGELIS - PÁG. 39, 119

GRAÇA E REENCARNAÇÃO

Toda vez em que se aborda o tema de reencarnação, os mais ferrenhos estudiosos dos Evangelhos, que se detêm na forma da mensagem antes que no seu conteúdo, opõem à necessidade do nascer de novo na carne, a que se referiu Jesus, a concessão da "graça", como mecanismo de salvação, em decorrência da divina misericórdia do Pai.

A salvação pela graça, sem dúvida, constitui uma dádiva arbitrária, que viola as leis do equilíbrio universal, a uns beneficiando, em detrimento de outros, em flagrante injustiça por parte do Soberano Criador. Igualmente, o conceito apresentado, em referência ao "sangue de Cristo" salvando as criaturas, deve ser entendido como a lição preciosa que o Mestre nos deu, demonstrando que, mesmo Ele, sendo puro, não se furtou ao holocausto da própria vida, num extremo ato de amor, a fim de que nos não evadamos à doação plena e total, quando chegado o momento do sacrifício pessoal.

Ensejar-se a um endividado revel a oportunidade de resgatar os débitos, constitui-lhe uma graça. Conceder-lhe, ao trânsfuga do dever o ensejo de reabilitação, torna-se para ele uma graça imerecida. Facultar-se, ao enfermo, recursos de renovação e saúde é-lhe uma graça auspiciosa.

Proporcionar-se, ao delinquente, o afastamento da sociedade, a reeducação e o retorno à comunidade, torna-se-lhe uma graça bendita. Agraciar-se, porém, o agressor esquecendo-lhe a vítima, é um ato de injustiça. Liberar-se o algoz, sem facultar o mesmo a quem lhe padeceu a perversidade, faz-se uma forma de estimular o crime.

O amor e a justiça cooperam em favor da reabilitação do devedor, que liberta a consciência da engrenagem do erro, encontrando a felicidade anelada. O amor verdadeiro não beneficia uns, olvidando outros. "Nenhuma das ovelhas que o Pai me confiou se perderá" - disse Jesus. Isto equivale a afirmar que todos se salvarão mediante as conquistas realizadas durante as sucessivas existências.

A reencarnação é a graça que o Pai concede aos que se comprazem no erro e na delinquência, a fim de desfrutarem a salvação, essa conquista que nos cumpre lograr a esforço próprio e com sacrifício pessoal.

A vida é unica, no seu processo de crescimento e perfeição, em que o berço e o túmulo representam portas de entrada e de saída para cada existência física. A carne nasce, morre e renasce inúmeras vezes, inclusive numa mesma existência corporal, mas a vida não cessa nunca.

Utiliza-te, portanto, da concessão feliz dos renascimentos físicos, a fim de cresceres em direção ao bem e à libertação de que o Mestre te acena, enquanto te aguarda, reabilitando-te dos erros cometidos, evitando incidir em outros e edificando-te no bem para o bem de todos.

VIAGEM DA REENCARNAÇÃO

Na abençoada jornada que encetas sob as bênçãos da reencarnação, utiliza-te de todas as ensanchas para o ministério do progresso espiritual, tua meta maior. Considera a vilegiatura carnal como sendo uma estrada quilometrada com objetivos definidos e meta bem caracterizada.

À semelhança de qualquer rota, o seu curso se desdobra por paisagens límpadas e encantadoras, a claro céu ensolarado, sob intempéries vigorosas e sobre solos assinalados por problemas que impossibilitam o acesso... Cada quilômetro vencido representa uma etapa anual de conquista laboriosa.

Da mesma forma que o viajante comum se preocupa para a excursão, precatando-se contra as prováveis dificuldades, armando-se de previdência para enfrentar os trâmites difíceis e as possíveis ocorrências, no movimento reencarnacionista, igualmente, faz-se indispensável que medidas acautelatórias, de natureza preventiva ou reparadora, sejam colocadas em pauta e examinadas.

Nem sempre o avanço se fará com rapidez ou facilidade. Aqui, é um caminho impérvio, onde os problemas se multiplicam impeditivos, podendo, sem embargo, a penates, ser contornado. Ali, estão penhascos ameaçadores, cujos declives exigem embreagens e freios regulados, mediante os quais se poderá vencer o perigo.

Além, se encontram pontes caídas sobre cursos d'água que, todavia, se farão transpostos, através de outros recursos. Há sempre desafios; entretanto sempre se dispõem de soluções para equacionamento dos óbices. Pelo caminho humano, em que o Espírito avança no rumo da Vida Maior, repontam, também, surpresas desagradáveis, incidentes e testes que medirão a capacidade de resistência quanto de discernimento de cada viajante...

Os problemas servem para avaliar as aquisições morais, enquanto facultam que as conquistas amealhadas sejam colocadas a prova. No curso da evolução, por onde o Espírito transita para o grande norte, aparecem, providenciais, túneis que facilitam o acesso às metas buscadas.

Ao invés da montanha desafiadora ou do abismo aparvalhante, a técnica, no mundo, consegue abreviar as distâncias abrindo passagens subterrâneas. Nelas, todavia, se defronta a questão das trevas, que são contornadas mediante os recursos das luzes artificiais ou das aberturas estratégicas, na direção da claridade...

O túnel moral, que intimida, mas facilita o processo da evolução, deve ser configurado como as provações, os graves momentos de dor, os testemunhos... O cristão decidido utiliza-se da prece - verdadeiro canal que traz do Alto as claridades indispensáveis para que se esbatam as sombras - perseverando no avanço.

Outras vezes pode acender também as luminescências da resignação e da coragem, que se assemelham à força elétrica, para vencer a escuridão aterradora... Não te olvides, jamais, que, por mais sombria se te apresenta a rota ou o túnel, por onde rumas, há claridade aguardando à frente, convidativa.

Não te avassalem os injustificáveis receios, nem te assomem os estresses alucinantes, não te facultes inquietações indesculpáveis... Enquanto se está na Terra nada há em definitivo, ninguém está em segurança total. A relatividade do corpo, os impositivos da evolução, os dados fornecidos pelo passado para a elaboração do programa presente e do futuro são os responsáveis pelas conjunturas de cada momento, e as surpresas são mapeamentos que reprogram atividades e realizações para o futuro.

Ninguém se considere, em razão disso, vitorioso, enquanto no corpo... Quase sempre uma viagem exitosa, até certo ponto, pode interromper-se por tempo indeterminado, no último quilômetro. Vigia e trabalha. Ora e serve. Confia e sê fiel ao bem. Sofre e liberta-te da constrição do erro. Insiste e não desanimes.

Jesus, nosso Modelo Perfeito, somente ao concluir a Sua tarefa entre nós, do alto do madeiro em que jazia crucificado, se considerou vitorioso ao bradar: - "Pai, em tuas mãos entrego o meu Espírito".

Quando tudo estiver consumado, poderás considerar-te vitorioso na tua viagem da reencarnação, por haveres logrado alcançar a meta perseguida que é a libertação total e plena.

31 - REENCARNAÇÃO NO BRASIL - HERNANI GUIMARÃES ANDRADE - TODA A OBRA

A REENCARNAÇÃO E SUA PESQUISA CIENTÍFICA:
CONCEITO

Reencarnar quer dizer nascer de novo, voltando-se outra vez à vida carnal. Equivale ao termo RENASCIMENTO, mais usado em certas filosofias religiosas orientais que adotaram como dogma. Nossa cultura ocidental contemporânea, fortemente baseada em princípios materialistas ou em religiões em que a idéia da reencarnação é considerada doutrina herética, praticamente desconhece o que seja o NOVO NASCIMENTO após a morte do corpo físico.

Uma vez que se negue a realidade da sobrevivência da alma, "ipso facto" do espírito, ou então que se creia em um céu e um inferno eternos como destino final dos que morrem, a reencarnação torna-se sem sentido e incompreensível. Entretanto, ela sempre constituíu a crença básica de quase todos os sistemas religiosos e filosóficos da antiguidade, inclusive do Judaísmo, de onde provieram as religiões judaíco-cristãs mais difundidas no Ocidente, e que hoje não aceitam mais o dogma da reencarnação.

Recentemente, observa-se o despertamento de um grande interesse pelas filosofias religiosas do Oriente, especialmente pela Vedanta e pelo Buddhismo. Esta volta ao pensameno oriental parece uma natural reação provocada pela insatisfação e sensação de vazio produzidas pelas atuais filosofias materialistas. O homem começa a sentir-se insatisfeito pelo imediatismo egoísta, pelo hedonismo, pela insegurança crescente, pela ansiedade permanente e pela luta sem sentido que vêm caracterizando o nosso atual sistema. Falta-lhe uma explicação coerente para a razão de ser de um viver tumultuário e sem paz nem objetivo definido. Todos se sentem saturados, quase exaustos, desta peleja inútil, cujo fim seria o vácuo além-túmulo após uma vida efêmera e intranquila.

Os cientistas, particularmente os físicos mais avançados, estão descobrindo que, no tocante ao conhecimento em relação à natureza do Universo e à realidade última da matéria, chegaram praticamente ao mesmo ponto alcançado, há séculos, pelos meditadores orientais, mestres das seitas vedantinas e budistas.

A reencarnação inclui-se entre os ensinamentos das filosofias religiosas do Oriente. Por isso a idéia de renascimento passou a interessar aos ocidentais também. Nos Estados Unidos, já há um certo número de pessoas que aceita tranquilamente a reencarnação. A Teosofia, nascida das doutrinas hinduístas (brahmavidya ou paravidya = sabedoria suprema) teve muita influência neste particular, não só na América como nos demais países da lingua inglesa. Aqui no Brasil, a difusão das idéias reencarnacionistas deve-se sobretudo ao Espiritismo Kardecista.

Mesmo assim, são muitos os ocidentais que ainda não aceitam, ou então ignoram, o que seja a reencarnação. É lógico que tais pessoas estejam também mal informadas acerca das pesquisas sérias, de natureza rigorosamente científica, que se vêm fazendo acerca do renascimento, em várias partes do mundo.

REFERÊNCIAS:
São numerosíssimos as obras e os trabalhos publicados no mundo, há vários anos, tratando da reencarnação. Alguns, em número reduzidíssimo, procuram desacreditar a idéia do renascimento, mas normalmente deixam de apresentar evidências sérias, experimentais ou observacionais, que dêem apoio às suas argumentações. Estas em sua quase maioria são baseadas em dogmas de fé, opiniões pessoais ou de "autoridades" escolhidas pela natureza de suas opiniões, obviamente simpáticas à negação da tese reencarnacionista.

O número de livros e outros trabalhos favoráveis à idéia da reencarnação é grande. Alguns relatam os casos principalmente em forma anedótica, preocupando-se moderadamente com a discussão e demonstração dos mesmos. Outros versam preferencialmente sobre a argumentação de apoio à tese reencarnacionista, apresentando alguns fatos como evidência de sustentação. As obras relatando os casos obtidos por processos de regressão por meio de hipnose, ou de outros vêm sendo levados a efeito sobretudo por psiquiatras ou psicólogos clínicos.

Finalmente, há trabalhos baseados, em sua maioria, na recordação espontânea manifestada na infância. Estes pacientes, tão logo chegam à idade em que aprendem a falar, passam espontaneamente a relatar fatos que ocorreram com eles em uma vida anterior. Essas crianças têm-se mostrado as melhores fontes de evidência a favor da idéia da reencarnação. Há, também, bons casos de recordação aflorando em adultos.

Entre os melhores trabalhos acerca dos casos de pessoas com recordações de vidas anteriores, colocam-se os do Dr. Ian Stevenson, médico psiquiatra e professor na Universidade de Virgínia, nos Estados Unidos da América. Desde 1961, ele tem viajado por diversos países do Oriente (Índia, Burma, Tailândia, Ceilão, Turquia, Líbano, Sri Lanka) e do Ocidente (Alaska, Canadá, Estados Unidos, Brasil, etc) à procura de casos de reencarnação. Além de inúmeros trabalhos publicados em periódicos especializados e também leigos (The Journal of Nervous and Mental Dísease), Dr. Steven lançou como parte dos proceedings da "American Society for Psychical Research", vol. XXVI, setembro 1966, o livro que se tornou um clássico no gênero: Twenty Cases Suggestive of Reincarnation, traduzido para o português sob o título Vinte Casos Sugestivos de Reencarnação; São Paulo: Editora Difusora Cultural, 1970.

Esta obra e mais quatro outras foram, posteriormente, lançadas pela "University Press of Virginia, Charlottesville, USA", formando uma coleção de cinco volumes, no formato de 18,5 x 26 cm cada um. Esta série será ampliada com a edição de mais outros futuros trabalhos. Não entramos em mais detalhes no concernente às referências, para não fugirmos demais ao principal objetivo desta obra, o qual é relatar os casos de reencarnação pesquisados no Brasil.

A PESQUISA

O método de investigação deste tipo de evidência não usa nem a hipnose, nem a regressão de memória. Embora estes processos possam produzir resultados válidos na pesquisa da reencarnação, normalmente são evitados quando se trata de recordações espontâneas, especialmente as afloradas na primeira infância. A obtenção de dados evidenciais é feita mediante coleta de informações fornecidas pelo próprio paciente e pelas pessoas - parentes ou estranhos - que presenciaram os fatos ou declarações feitas pelo paciente, durante sua meninice. Estes depoimentos são cuidadosamente tomados em separado, registrados e comparados uns com os outros.

Sempre que possível, a criança é conduzida ao local onde ela afirma ter vivido, a fim de fazer os reconhecimentos, usam-se vários métodos de registro,, tais como notas escritas, gravações, fotografias e até filmagens. Formulários previamente preparados são utilizados na coleta das informações, de maneira a não deixar dados importantes escaparem sem registro. Há muitas informações complementares que se tornam utilíssimas para o estudo aprofundado da reencarnação. Entre tais dados, podemos citar os seguintes: local e natureza dos ferimentos recebidos pela personalidade anterior, caso tenha sofrido morte violenta; duração do período de intermissão (tempo decorrido entre o desencarne e o novo nascimento); fatos ocorridos durante a intermissão; se o reencarne do paciente foi precedido de avisos ou sonhos anunciadores; características físicas e psicológicas da personalidade prévia e da atual; sexo da personalidade anterior; a causa mortis é um dado importante, pois pode ter influência na saúde e comportamento da personalidade atual. Todos os dados são relevantes e, por isso, os questionários costumam ser extensos e minuciosos. (...)

NOTA: O autor expõem oito casos que sugerem renascimento no Brasil.

32 - TEMAS DA VIDA E DA MORTE - MANOEL P. DE MIRANDA - PÁG. 13, 19

REENCARNAÇÃO - DÁDIVA DE DEUS
Como é compreensível, a planificação para reencarnações é quase infinita, obedecendo a critérios que decorrem das conquistas morais ou dos prejuízos ocasionais de cada candidato. Na generalidade, existem estabelecidos automatismos que funcionam sem maiores preocupações por parte dos técnicos em renascimento, e pelos quais a grande maioria de Espíritos retorna à carne, assinalados pelas próprias injunções evolutivas.

Ao lado desse extraordinário automatismo das leis da reencarnação, há programas e labores especializados para atender finalidades específicas, na execução de tarefas relevantes e realizações enobrecedoreas, que exigem largo esforço dos Mentores encarregados de promover e ajudar os seus pupilos, no rumo do progresso e da redenção.

Sem nos desejarmos deter em pormenores dos casos especiais, referentes aos missionários do Amor e aos abnegados cultores da Ciência e da Arte, os candidatos em nível médio de evolução, antes de serem encaminhados às experiências terrenas, requerem a oportunidade, empenhando os melhores propósitos e apresentando os recursos que esperam utilizar, a fim de granjearem a bênção do recomeço, na bendita escola humana...

Examinados por hábeis e dedicados programadores, que recorrem a técnicas mui especiais de avaliação das possibilidades apresentadas, são submetidos a demorados treinamentos, de acordo com o serviço a empreender, com vistas ao bem-estar da Humanidade, após o que são selecionados os melhores, diminuindo, com esse expediente, a margem do insucesso. Os que não são aceitos, voltam a cursos de especialização para outras atividades, especialmente de equilíbrio, com que se armam de forças para vencer as más inclinações defluentes das existências anteriores que se malograram, bem como para a aquisição de valiosas habilidades que lhes repontarão, futuramente, no corpo, como tendências e aptidões.

Concomitantemente, de acordo com a ficha pessoal que identifica o candidato, é feita a pesquisa sobre aqueles que lhe podem oferecer guarida, dentro dos mapas cármicos, providenciando-se necessários encontros ou reencontros na esfera dos sonhos, se os futuros genitores já estão no veículo físico, ou diretamente quando se trata de um plano elaborado com grande antecedência, no qual os membros do futuro clã convivem, primeiro, na Erraticidade, donde partem já com a família adrede estabelecida...

Executada a etapa de avaliação das possibilidades e a aproximação com a necessária anuência dos futuros pais, são meticulosamente estudados os mapas genéticos de modo a facultarem, no corpo, a ocorrência das manifestações físicas como psíquicas, de saúde e doença, normalidade ou ou idiotia, lucidez e inteligência, memória e harmonia emocional, duração do cometimento corporal e predisposições para prolongamento ou antecipação da viagem de retorno, ensejando, assim, probabilidades dentro do comportamento de cada aluno à aprendizagem terrena...

Fenômenos do determinismo são estabelecidos com margem a alternâncias do uso do livre-arbítrio, de modo a permitir uma ampla faixa de movimentação com certa independência emocional em torno do destino, embora sob controles que funcionam automaticamente, em consonância com as leis do equilíbrio geral. São travados debates entre o futuro reencarnante e os seus fiadores espirituais, com a exposição das dificuldades a enfrentar e dos problemas a vencer, nascendo e se desdobrando a euforia e a esperança em relação ao futuro.

Em clima de prece, entre promessas de luta e coragem, sob o apoio de abnegados Instrutores, o Espírito mergulha no oceano compacto da psicosfera terrena e se vincula à célula fecundada, dando início a novo compromisso. Os que amam, na Espiritualidade, ficam expectantes e interessados pelos acontecimentos, preocupados pelos sucessos que se darão,e buscando interceder nas horas graves, auxiliando nos momentos mais difíceis, encorajando sempre...

A REENCARNAÇÃO, porém, que leva a parcial esquecimento das responsabilidades, em razão da imantação celular que se faz, é sempre cometimento de grande porte e alta gravidade. Conseguindo o êxito do renascimento, continua o intercâmbio, durante a primeira infância, com os Amigos da retaguarda espiritual e, à medida que o corpo absorve o Espírito ou este se assenhoreia daquele, vão-se apagando as lembranças mais próximas enquanto ressumam as fixações mais fortemente vivas no ser, dando nascimento às tendências e paixões que a educação e a disciplina moral devem corrigir a benefício do educando.

Nunca cessam, em momento algum, os socorros inspirativos que procedem da esfera espiritual, em contínuas tentativas pelo aproveitamento integral do valioso investimento a que o Espírito se propôs. O retorno é feito, quase sempre, com altos índices de fracasso, com agravamento de responsabilidades; de insucesso, em decorrência da invigilância e da indolência, dando margem à amargura e à perturbação; de perda do tentame, graças à fatuidade e aos graves comprometimentos do pretérito, de que não se conseguiram libertam...

Pode-se compreender a preocupação afetuosa dos Benfeitores Espirituais que acompanham os seus pupilos, à medida que estes se afastam da sua influência benéfica e se transferem espontaneamente de área vibratória, entregando-se aos envolvimentos perniciosos e destrutivos. Instam, esses nobres cooperadores do bem, para que os seus protegidos retornem ao roteiro traçado, usando de mil recursos sutis, ou de interferências mais vigorosas, tais como as enfermidades inesperadas, os acidentes imprevistos, as dificuldades econômicas, a carência afetiva, de modo a despertarem do anestésico da ilusão os que se enovelaram nos fios da leviandade ou se intoxicaram pelo bafio do orgulho, do egoísmo, da cólera...

A REENCARNAÇÃO é o maior investimento da vida ao Espírito em processo evolutivo, o qual, sem ela, padeceria a hipertrofia de valores intelecto-morais, pela falta do ensejo da convivência com aqueles que se lhe vinculam pelo amor santificado, pelo amor asselvajado das paixões dissolventes, ou pelo amor enlouquecido no ódio, na violência, na perseguição... A conjuntura carnal constitui valiosa aprendizagem para a fixação dos recursos mais elevados do bem e do progresso na escalada inevitável da evolução.

Sem dúvida, o parcial olvido dos compromissos assumidos responde por alguns fatores do insucesso, mas, ao mesmo tempo, isto constitui a mais expressiva concessão do amor do Pai, evitando que se compliquem os fenômenos da animosidade e do ressentimento, das mágoas e das preferências exclusivistas, que tenderiam a reunir os afins nos gostos e afetos, produzindo um clima de desprezo e agressão contra aqueles que se lhes opusessem.

Como jamais retrograda o Espírito, no seu processo evolutivo, os insucessos não atingem as conquistas, que permanecem, agravando, isto sim, o programa de responsabilidades de que se desobrigará, quando falharem as provações remissoras, mediante as expiações redentoras que serão utilizadas como terapêutica final. Todas as conquistas da inteligência - e sempre são logradas novas etapas, nesse campo, em cada reencarnação - permanecem, embora as aquisições morais, mais lentas, porém mais importantes, somente através de sacrifício e renúncia, de amor e devotamento conseguem ser alcançadas.

Com as luzes projetadas pelo Espiritismo, na atualidade, o empreendimento da reencarnação adquire hoje mais amplo entendimento pelos homens, que reconhecem a sua procedência espiritual, identificando-a e, por sua vez, preparando-se para o retorno à vida que estua e nela se encontra, inevitavelmente, seja no corpo ou fora dele.

REMINISCÊNCIAS E CONFLITOS PSICOLÓGICOS
O processo da reencarnação está a exigir estudos acurados por embriogenistas, biólogos e psicólogos, de modo a poderem penetrar nos seus meandros, que lhes permanecem ignorados, o que dá margem, nessas áreas de estudo, quando diante de determinados acontecimentos, a opiniões sem fundamentação, porque destituídas do conhecimento das causas, cujos efeitos contemplam. Iniciando-se, no momento da fecundação, alonga-se o processo reencarnatório até a adolescência do ser, quando, a pouco a pouco, atinge a plenitude. (Consultado o Espírito Manoel P. Miranda, este esclareceu, por intermédio de Divando Franco, que mesmo terminado aos 7 anos o processo reencarnatório, este se vai fixando, lentamente, até o momento da transformação da glândula pineal, na sua condição de veladora do sexo).

As impressões mais fortes das experiências passadas fixam-se no corpo em formação, através de deficiências físicas ou psíquicas, saúde e inteligência, de acordo com o tipo de comportamento que caracteriza o estado evolutivo do Espírito. Estabelecidos os programas cármicos referentes às necessidades de cada ser, outros fatores contribuem, durante a gestação e o parto, para ulteriores fenômenos psicológicos no reencarnante.

Graças à simpatia ou animosidade que o vinculam aos futuros genitores, estes reagem de forma positiva ou não, envolvendo o filho em ondas de ternura ou revolta que o mesmo assimila, transformando-se essas impressões em fobias ou desejos que exteriorizará na infância e poderá fixar, indelevelmente, na idade adulta. Porque lúcido, acompanhando o mergulho na organização física, percebe-se desejado ou reprochado, registrando os estados familiares, bem como os conflitos domésticos do meio onde irá viver.

Vezes ocorrem, em que o pavor se torna tão grande, que o Espírito desiste da reencarnação ou, em desespero, interrompe inconscientemente o programa traçado, resultando em aborto natural a gestação em andamento. Os meses de ligação física com a mãe são, também, de vinculação psíquica, em que o recomeçante em sofrimento pede apoio e amparo, ou, se ditoso, roga ternura para o fiel cumprimento do plano feliz que se encontra em execução.

Adicionando-se às LEIS DO MÉRITO os fenômenos emocionais dos futuros pais, esses resultarão em heranças, que fazem pressupor semelhanças com o clã, estudadas pelas modernas leis da genética. - Tal pai, tal filho - afirma o refrão popular, demonstrando a força dos genes e cromossomos nos códigos da hereditariedade. A verdade, porém, é diversa. Se ocorrem semelhanças físicas e até psicológicas, estas adquiridas mediante convivência familiar, o mesmo não se dá nos campos moral e intelectual.

O Espírito é o herdeiro das próprias conquistas passadas, graças às quais se expressa no campo da atividade nova. No entanto, os comportamentos familiares influem sobre a conduta do reencarnante, que se impregna - especialmente quando se trata de Espírito imperfeito - dos conflitos e das vibrações perniciosas que lhe irão influenciar profundamente o procedimento.

Reações de várias ordens se manifestarão na criança, como resultantes da insegurança que experimenta no berço novo, desdobrando-se em rebeldia e insatisfação, nervosismo e incapacidade intelectual, durante a infância e a adolescência, com agravantes para o futuro, caso o amor dos pais não interrompa a caudal das reminiscências infelizes. O auxílio do psicólogo, a terapia cuidadosa ajudam no mecanismo de reajustamento da criança, todavia, aos pais cumprem a tarefa maior, assistindo e amparando o filhinho temeroso e desconfiado, necessitado de segurança e tranquilidade.

Não nos referimos aqui ao capítulo adicional das obsessões, que exercem forte interferência no quadro complexo da reencarnação, respondendo por graves injunções no comportamento infantil. Detemo-nos, apenas, nas reminiscências, ora do domínio do inconsciente atual, que irrigam a consciência com temores e conflitos, produzindo estados de desequilíbrio, que poderiam ser evitados. Enurese noturna, irritabilidade, pavores de toda espécie, timidez, ansiedade encontram nas ocorrências da vida fetal, em relação à mãe e aos demais familiares, muitas das suas causas.

Não obstante, é possível minimizar-lhes as consequências, através de uma atitude firme e afetuosa dos pais, particularmente da mãe, utilizando-se do sono do filhinho para infundir-lhe coragem e anular-lhe as impressões negativas, envolvendo-o em amor e conversando com ele, com sincero carinho, transmitindo-lhe a confiança de que romperá a barreira invisível das dificuldades, enfim, alcançando-lhe o íntimo.

Desde que ainda não esteja concluída a reencarnação, o Espírito ouvirá e entenderá as sugestões positivas que lhe são apresentadas, o amor que lhe é oferecido, toda a gama de afeição que lhe é destinada. Quantas vezes um conflito sexual não se originará, na criança em face da decepção da mãezinha que esperava um varão e recebeu uma menina, ou vice-versa, e, vítima, de imaturidade, declara o desagrado, explodindo em pranto injustificado, assim chocando o recém-chegado, que lhe recebe o rechaço, vindo a exteriorizá-lo, mais tarde, em forma de conflito!?

Sempre é tempo de reconsiderar-se a atitude, reconciliando-se com o ser menosprezado, graças ao grau de amor e à força do bem que se coloque no relacionamento afetivo lúcido, quando o mesmo estiver dormindo, portanto, em situação receptiva. O inconsciente receberá as novas informações, que serão arquivadas, e ressumarão, posteriormente, de forma agradável e cordial, estruturando a personalidade infanto-juvenil e proporcionando-lhe mais amplas aquisições que logrará com o tempo, conduzido por aqueles a cujo lado recomeça a caminhada redentora.

Mesmo na adolescência, quando não se soube agir antes, deve-se tentar recuperar o filho, reconquistá-lo, conversando com ele, em estado de sono, perseverando-se em um relacionamento tranquilo e gentil, também durante a fase em que esteja desperto, agindo com amor ao invés de reagindo com ira ou zombaria, quando o mesmo apresente seus conflitos, suas dificulddes...

Não será o ato de falar, pura e simplesmente, mas empatia, o contributo da emoção afetuosa com os quais a palavra se carregue, para alcançar a finalidade a que se destina. Por fim, é necessário que a carga de certeza do êxito se faça presente, conforme enunciou Jesus: "Tudo é possível àquele que crê", para que os resultados felizes coroem a empresa do amor.

34 - PASSOS DA VIDA - ESPÍRITOS DIVERSOS - EMMANUEL - TEMPO E REENCARNAÇÃO - PÁG. 40

Considera a tua ação e o modo pelo qual a exerces, a fim de que a paz te abençoe a vida. Surpreendeste o amigo de quem tiveste mágoa por algum desentendimento ... Reflete na carreira dos dias e esquece o conflito que te perturba. Entretanto, faze algo mais. Envolve-o nas melhores vibrações do sorriso fraterno para que o vejas tranqüilo.

Guardaste a obrigação de saldar essa ou aquela dívida ... Pensa na velocidade das horas e dentro das possibilidades de que disponhas, proocura resgatá-la. Não te circunscreva, porém, a isso. Oferece ao credor a tua mensagem de gratidão e alegria por te haver esperado.

Conservas a intenção de auxiliar alguém ou de levar a alguém o testemunho de tua confiança e carinho ... Medita na rapidez dos minutos e não atrases a manifestação afetiva, que te nasce do íntimo. Vai, todavia, mais além. Ajuda a pessoa a quem beneficias para que se convença de que assim procedes, por verdadeira fraternidade, sem a menor idéia de recompensa.

Encontraste o adversário que te criou inúmeros contratempos, hoje faminto de amizade e compreensão ... Observa a brevidade do tempo e não lhe negues a mão de companheiro. Realiza, entretanto, algo mais. Dá-lhe a bênção da palavra generosa, por certidão viva de teu respeito.

Em tudo o que seja tarefas a realizar, opiniões a emitir, providências a compor e questões a resolver, recorre ao amor para que o amor te inspire e age sem delongas na demonstração da tua capacidade de compreender e servir porque, em verdade, os minutos da REENCARNAÇÃO se escoam, vertiginosos, e realmente não sabes, quanto ao tempo que a reencarnação te reserva, se estás vendo e ouvindo essa ou aquela pessoa e fazendo isso ou aquilo pela última vez.

Emmanuel

35 - ESPIRITISMO APLICADO - ELISEU RIGONATTI

A REENCARNAÇÃO

O Espiritismo é uma doutrina reencarnacionista; prega a reencarnação do espírito.

Nós vivemos alternadamente no mundo espiritual e no mundo material. No mundo espiritual vivemos sem o corpo de carne; e para lá iremos através da morte, isto é, do desencarne. No mundo material vivemos num corpo de carne; e para cá
viemos pelo nascimento, isto é, pela reencarnação.

As finalidades da reencarnação são três:

1ª - o aprendizado,

2ª - a elevação

3ª - e reparação.

Por isso chegamos à Terra investidos de graves responsabilidades com um programa definido para cumprir.

Não estamos na terra em gozo de férias, ou para vivermos ao sabor de nossa fantasia.

A - Aprendizado

A Terra é uma escola na qual estamos matriculados para desenvolver as nossas faculdades nobres. Pelas numerosas experiências que a vida na terra nos proporciona, educamos o nosso sentimento, isto é, o nosso coração. A base da educação do sentimento é o grande primeiro mandamento:

- Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Derivam-se dele todos os outros preceitos educativos.

O aprendizado na terra também nos dá a oportunidade de instruir o nosso espírito, enchendo-o de sabedoria.

B - Elevação

À medida que vamos educando nosso sentimento e adquirindo sabedoria, no mesmo passo iremos elevando-nos a planos superiores do Universo, isto é, ingressando em colônias espirituais mais adiantadas. A nossa elevação é uma consequência da educação de nosso sentimento e da sabedoria já conquistada.

C - Reparação

Se formos maus e praticarmos o mal, teremos de arcar com as consequências do mal que tivermos praticado. E assim a reencarnação funciona Como um corretivo ao espírito culpado. Aquilo que tivermos feito os outros sofrer, isso mesmo sofreremos durante nossas reencarnações. Contudo, a reencarnação não é um elemento corretivo apenas: é também.um elemento reparador. Nas reencarnações sucessivas seremos postos em íntimo contato com aqueles a quem causamos males e infelicidades, para que possamos dar-lhes a justa reparação.

D - O CICLO DAS REENCARNAÇÕES

Quantas reencarnações teremos na Terra?

Não há um número preestabelecido de encarnações para cada um de nós. Reencarnaremos tantas vezes quantas forem necessárias para nosso aprendizado, elevação e reparação.

Unicamente de nós depende reencarnar mais ou menos vezes. Se nós nos comportarmos bem em cada reencarnação, reduziremos o número delas; do contrário o aumentaremos.

De um modo geral podemos classificar as reencarnações em cinco grupos que são: as felizes, as suaves, as semifelizes, as dolorosas e as sacrificiais.

D1 - As reencarnações felizes

Caracterizam-se estas reencarnações por conferirem a seus possuidores uma quase completa felicidade; estão isentos da maioria dos males que dificultam a vida na Terra; e, em qualquer posição em que estejam colocados, nada Ihes falta; estão ao abrigo dos grandes sofrimentos e da necessidade.

Merecem as reencarnações felizes os espíritos que não trazem grandes faltas a sanar das reencarnações passadas; sabem tirar bom proveito da aprendizagem e trilham o caminho da elevação.

À medida que a ignorância for sendo banida da face da Terra, o número de reencarnações felizes irá aumentando porque, então, saberemos dedicar-nos ao nosso verdadeiro bem e ao bem de nossos semelhantes.

D2 - As reencarnações suaves

As reencarnações suaves constituem um prêmio de repouso para o espírito. Há espíritos que, como desencarnados, trabalham arduamente e por longo tempo nas regiões inferiores e de trevas do mundo espiritual; conseguem assim grandes créditos a seu favor; e como ainda não estão em condições de ascenderem a colônias superiores e pouco ou nada devem de reencarnações anteriores, é-lhes concedida uma reencarnação suave. Caracteriza-se uma reencarnação suave por facilitar ao espírito todo o necessário para sua elevação espiritual, e pondo-o ao abrigo das lutas penosas da existência terrena. Na face da Terra são numerosas estas reencarnações, como justo prêmio ao trabalho nobre e ao esforço em prol do bem aos semelhantes.

D3 - As reencarnações semifelizes

As reencarnações semifelizes são aquelas que proporcionam ao espírito alternativas de alegrias e de sofrimentos. Sempre há um quê a não deixar o espírito gozar a felicidade completa; contudo, analisando sua vida, não poderá dizer que ela foi totalmente de desgraças: às horas tempestuosas, sucederam-se horas bonançosas; repouso e tranquilidade depois de ásperas provações.

As reencarnações semifelizes constituem a grande, a imensa maioria na face da Terra, o que facilmente se explica: são raros os encarnados que não trazem dívidas de reencarnações anteriores; essas recaem no presente para serem pagas; e no momento de pagá-las, sobrevêm o sofrimento. Todavia, uma vez liquidadas as dívidas, o espírito caminha para a felicidade, se tiver o cuidado de não contrair novas dívidas.

D4 - As reencarnações dolorosas

As reencarnações dolorosas trazem em constante sofrimento o espírito que passa por elas. Infelizmente ainda são bastante numerosas. Merecem-nas os espíritos que muito erraram, fazendo muito mal aos seus semelhantes cm encarnações anteriores; agora recebem em seus próprios corpos o reflexo do sofrimento que infligiram aos outros.

Embora saibamos que sofrem porque merecem, nem por isso devemos deixar de estender-lhes nosso afeto, nosso carinho e nossas atenções; é nosso dever fraternal amenizar-lhes o rigor da expiação, ajudando-os na áspera senda da reparação.
É este um tipo de reencarnação que tende a desaparecer de nosso planeta. Na proporção em que o homem se for moralizando, irão acabando as reencarnações dolorosas.

D5 - As reencarnações sacrificiais

Reencarnações sacrificiais são aquelas que um espírito suporta com o fito de vir ajudar outros a se porem no bom caminho. Chamam-se sacrificiais, isto é, de sacrifício, porque os espíritos que as usam já alcançaram um grau de elevação tal que os isenta de virem passar por trabalhos e sofrimentos aqui na terra; entretanto, para aqui vêm e sofrem e lutam, dando o bom exemplo no meio em que se reencarnam; visam com isso a promover o progresso de entes queridos que tinham estacionado nas sombras do mal.

Estas reencarnações são comuns e os espíritos elevados se servem delas para promoverem a melhoria do planeta; a maior de todas foi a de Jesus.

E - POR QUE O ESPIRITO REENCARNA

Diante dos sofrimentos aos quais o espírito se expõe na terra, somos levados a perguntar por que ele se reencarna, submetendo-se, por vezes, a um duro viver.

Quando estamos desencarnados, habitando uma colônia espiritual, vemos as coisas de um modo diferente do que quando encarnados. Lá compreendemos que sem passar pelos trâmites da reencarnação, jamais adquiriremos força, poder, esplendor; nem nos será possível quitar os compromissos contraídos em antigas reencarnações; e convencemo-nos de que tudo isso só será possível mediante novas experiências na terra. E para conquistarmos graus espirituais mais elevados que constituirão nossa riqueza verdadeira, e para retificar o passado cheio de culpas, arrostamos de bom grado as incertezas das reencarnações.

O corpo humano funciona como um filtro depurador. A animalidade que trazemos de nosso passado inescrutável é retida pouco a pouco pelo filtro da carne; e de cada uma das reencarnações, o espírito sai um pouco mais depurado, um pouco menos animal, um pouco mais humanizado.

A consciência, torturada pelo remorso, encontra no corpo humano o remédio bendito de sua redenção. Os compromissos morais que assumimos conscientemente corno encarnados, somente como encarnados podemos solvê-los. E enquanto os compromissos morais não forem solvidos, o remorso não deixará de perturbar o espírito culpado.

Assim é que a reencarnação reúne de novo, embora em ambiente diverso, ofendidos e ofensores, vítimas e verdugos, os quais recapitulam juntos um passado de erros, procurando corrigi-los. E quando nós nos defrontamos com portadores de moléstias presentemente incuráveis, com os aleijões, com a idiotia, com a cegueira, com a surdez, com a mudez e tantas outras, vemos irmãos que no passado se entregaram ao crime, aos vícios, à perversidade e agora, por meio do filtro da carne, procuram curar seus espíritos doentes, mutilados, enlouquecidos.

Quando desencarnados, compreendemos a extensão dos compromissos-morais que assumimos e ansiamos por liquidá-los; vemos as deformidades que o vício, o crime, a perversidade, causaram ao nosso corpo espiritual; certificamo-nos, então, de que o único caminho a seguir é a reencarnação dolorosa para a obtenção da cura. E divisando novos e mais amplos horizontes, somos informados de que a reencarnação para o aprendizado e a elevação é que nos fornecerá os meios de alcançá-los. Tudo isso faz com que deixemos de lado os receios inúteis e mergulhemos nas sombras do mundo para conquistar as glórias do céu.

F - POR QUE ESQUECER O PASSADO

O que estudamos sobre a lembrança dos sonhos, aplica-se também às recordações de nossas existências anteriores. Quando reencarnamos, nosso cérebro carnal, reduzindo nossas impressões espirituais a zero, não permite que nós nos recordemos das reencarnações pregressas; guarda-as adormecidas nos refolhos de nossa memória espiritual que nô-las restituirá mais tarde, ao desencantarmos.
Todavia, além das causas próprias da matéria, há poderosas razões de ordem moral que impossibilitam a recordação do passado; vejamos as principais:

F1 - 0 remorso de crimes antigos

Assim como há pessoas que erram dolorosamente hoje, é provável que tenhamos cometido desatinos em nossas vidas passadas. E se nós nos lembrássemos, o arrependimento e o remorso voltariam a torturar-nos, não deixando nossa consciência livre para que nos apliquemos à correção dos erros e à reparação dos males que fizemos no pretérito longínquo.

F2 - A presença de antigos desafetos

Há duas forças irresistíveis que atraem os espíritos: o amor, força positiva; e o ódio, força negativa.

O amor é força positiva, porque o amor constrói.

O ódio é força negativa, porque o ódio destrói.

O amor atrai os que se amam; o ódio, os que se odeiam.

O ódio precisa ser transformado em amor e doce fraternidade deve unir-se a todos. Para que isso aconteça, os desafetos do passado são colocados juntos na reencarnação presente, comumente na mesma família, unidos pelos laços consanguíneos, para reabilitarem-se e aprenderem a amar-se uns aos outros. Por conseguinte, se não fosse o esquecimento transitório que esparge a paz nos corações, os lares terrenos em sua grande maioria seriam ninhos abomináveis de ódios inextinguíveis.

F3 - Situação presente inferior à passada

Em cada uma de nossas reencarnações, somos colocados em situações diferentes. E se a atual posição em que estamos, for inferior à da reencarnação passada, a lembrança da grandeza do passado, agora inatingível, ser-nos-á um tormento constante.

Do mesmo modo, se hoje estivermos reencarnados num corpo torturado por moléstias incuráveis, ou deformado, ou defeituoso, ao recordarmo-no de, que já tivemos um corpo perfeito, nossa dor seria bem maior.

F4 - Situação presente superior à do passado

Caso a nossa situação atual for superior à antiga, a lembrança do passado humilde em confronto com a grandeza do presente, daria ensejo a que o orgulho se apossasse de nós, comprometendo nossas realizações.

F5 - Saudade de entes queridos

Nem sempre em nossas reencarnações estamos reunidos a nossos entes queridos do passado. Pode dar-se que reencarnemos em ambiente totalmente estranho, onde iremos conquistar novos amigos, novas afeições, entrcgando-nos à tarefa da redenção.

Então a recordação de nossos entes queridos, dos quais estamos afastados provisoriamente, faria chorar os nossos corações.

F6 - Reincidência em vícios antigos

Outro grande inconveniente que a recordação do passado nos acarretaria, é o perigo de reincidirmos nos vícios antigos, continuando o nosso embrutecimento. Se no passado os vícios nos arruinaram e agora o esquecimento transitório possibilita nossa reabilitação, a lembrança das reencarnações mal aproveitadas dificultaria sobremaneira nossos esforços e os anularia em muitos casos.

F7 - Rotina

Somos ainda rotineiros. Se nós nos lembrássemos de nossas reencarnações precedentes, seríamos levados a viver do mesmo modo hoje, como já o vivemos anteriormente. Nossa tendência seria continuar a viver do mesmo modo, sem procurarmos novos campos de ação. Estacionaríamos. Não progrediríamos a não ser mediante esforços sobre-humanos, dos quais a maioria das criaturas fugiria.

Pela ligeira análise que acima fizemos, ficamos compreendendo por que é necessário o esquecimento de nossas reencarnações anteriores. Porque as lembranças penosas e as angústias antigas viriam juntar-se às dificuldades de hoje e, longe de abrandá-las, agravá-las-iam. Eis explicado, embora sucintamente, porque as lembranças do que fomos anteriormente não podem ser despertadas; caso o fossem, ansiedades inúteis amargurariam os dias que agora vivemos.

Na realidade, contudo, nós não. nos esquecemos de nosso passado; ele jaz latente em nosso íntimo e volta à nossa lembrança em forma de pendores, inclinações, gostos, simpatias e aversões. Todos nós temos tendências e faculdades que quase equivalem a uma lembrança efetiva de nossas vidas pregressas. Bastaria que nós nos puséssemos a analisar nossa vida presente, traçando um quadro de nossas inclinações, de nosso íntimo modo de pensar, para termos uma idéia bastante aproximada do que fomos no pretérito, porque hoje somos o produto dele.

E assim o homem inteligente evita queixar-se; sabe que através de suas queixas e lamentações, uma pessoa analisadora e observadora facilmente lhe descobrirá o passado, pelo menos em linhas gerais.

G - QUANTO TEMPO PASSAMOS NAS COLONIAS ESPIRITUAIS

Entre uma reencarnação e outra, medeia um intervalo que não é igual para todos os espíritos; alguns demoram-se pouco tempo nas colônias espirituais; outros, mais. Sucede o mesmo que aqui na terra: uns têm uma encarnação de duração longa; outros, mediana; e outros, curta.

O ditado, a vida começa aos quarenta anos, tem a sua lógica. O homem e a mulher reencarnados começam a viver plenamente a partir dessa idade. Até lá são os trabalhos para a aquisição da experiência. E atingindo a casa dos quarenta anos, pela experiência já adquirida, o homem e a mulher têm por obrigação viver uma vida em concordância com os preceitos da moral e das leis divinas.

Como não estamos aqui na terra para sempre e como não sabemos qual será a duração de nossa vida, é bom estarmos sempre com nossos negócios em ordem. Porém o fato de nossa partida poder dar-se de um momento para outro, inesperadamente por vezes, não significa que devemos cruzar os braços e esperar. 0 que devemos fazer é lutar, trabalhar, estudar, amar a vida até o último instante; empregar utilmente todos os nossos momentos; não desprezar nada que possa enobrecer nosso caráter; aplicarmo-nos o mais possível ao bem de nossos semelhantes e a realizações dignas; desfazer ódios e inimizades; aproveitarmos todas as oportunidades para corrigir tudo quanto notarmos que fizemos errado nos anos anteriores; sobretudo começar a desapegarmo-nos das coisas terrenas, uma vez que não poderemos levá-las conosco. E' preciso que saibamos que nossa tranquilidade no Além dependerá exclusivamente de como estamos empregando nossos atuais anos de vida na terra.

Quanto ao tempo que um espírito passa no espaço, isto é, em sua colônia espiritual, podemos agrupar as reencarnações em quatro tipos, que são: reencarnações rápidas, reencarnações demoradas, reencarnações difíceis e as reencarnações compulsórias.

g1 - Reencarnações rápidas

Reencarnações rápidas são aquelas que se seguem logo após a reencarnação anterior, ficando o espírito pouco tempo na colônia espiritual. Trabalham por reencarnar rapidamente os espíritos que deixaram muitas coisas por fazer na terra e compreendem que só quando as tiverem feito poderão adiantar-se e obter a tranquilidade de consciência. Outros procuram também reencarnar depressa para acompanharem o progresso do grupo a que pertencem e cujos componentes, por vezes, estão todos reencarnados.

g2 - Reencarnações demoradas

Quando entre uma e outra reencarnação medeia um longo intervalo, dizemos que a reencarnação é demorada. Poderemos permanecer por muitos anos em nossa colônia espiritual, por três motivos principais:

1º—Se tivermos cumprido todos os deveres que a última reencarnação nos impôs e nada, ou quase nada, deixamos por fazer, não há necessidade de uma reencarnação rápida.

2º— Outras vezes demoramo-nos a reencarnar, esperando os membros de nosso grupo desencarnarem para que, todos reunidos na colónia espiritual, tracemos em conjunto nossos planos de realizações futuras.

3º— E por fim, podemos permanecer por muito tempo desencarnados para que, com mais facilidades, dediquemo-nos a estudos prolongados na colônia espiritual em que habitamos.

g3 - Reencarnação difícil

Nem sempre conseguimos reencarnar com facilidade. Isto acontece quando não soubemos dar o devido valor à reencarnação precedente, malbaratando-a ou concorrendo para a destruição da reencarnação dos outros. Esses são os casos mais comuns que podem dificultar nossa reencarnação. Temos então de trabalhar arduamente por longo período, até mesmo por séculos, para conseguir uma oportunidade de reencarne. E assim aprendemos a valorizar o corpo humano, nosso instrumento de trabalho na terra..

g4 - Reencarnações compulsórias

Há espíritos que não querem reencarnar-se; grandes devedores querem fugir da reencarnação, esquivarem-se dela. Outros não cogitam absolutamente de se reencarnarem, ou por ignorância ou por comodismo. E como não podem ficar indefinidamente estacionários, são compelidos a rcencarnarem-se; do contrário não progrediriam.

H - O LIVRE-ARBITRIO NA REENCARNAÇÃO

À medida que o espírito se esclarece, despe-se da ignorância e aprende a pensar por si mesmo, vai usando cada vez mais o seu livre-arbítrio.

Os espíritos adiantados usam plenamente de seu livre-arbítrio, porque sabem respeitar as leis divinas.

Os espíritos atrasados têm o seu livre-arbítrio controlado até certo Iimite por seus superiores espirituais.

Os espíritos que se reencarnam compulsoriamente não usam de seu livre-arbítrio; suas reencarnações são preparadas por seus superiores de acordo com suas necessidades.

No estado de desencarnados usamos nosso livre-arbítrio no preparo dos planos de nossa futura reencarnação. Para isso, naturalmente, não deixamos de receber a supervisão e a cooperação de espíritos mais adiantados do que nós, os quais nos auxiliam com sua experiência. Damos então um balanço em nossas reencarnações passadas; vemos o que foi e o que não foi realizado; inteiramo-nos das obrigações que ainda nos faltam cumprir; cientificamo-nos dos erros que precisamos corrigir; percebemos as nossas faculdades morais e intelectuais que ainda estão por desenvolver. De posse destes elementos, estamos aptos a traçar o plano de nossa próxima vida na terra.

Vem-nos agora à mente uma interrogação: sabemos então, de antemão, o que nos aguarda na Terra, isto é, conhecemos nosso futuro?

Sim, é natural que, ao planejarmos nossa reencarnação, saibamos como ela se desenvolverá em linhas gerais, não se precisando as minúcias apenas. E quando entramos na posse de nosso corpo terreno, esquecemo-nos do que combinamos em nossa colônia espiritual e o plano começa a se desenvolver.

O desconhecimento do futuro, quando reencarnados, nos traz duas grandes vantagens:

1º— Caso soubéssemos que o futuro nos seria adverso, não teríamos coragem para nada e gastaríamos o tempo em lamentações.

2º— E no caso de nos ser ele próspero, cruzaríamos os braços e esperaríamos que ele chegasse.

E onde estaria o progresso de nosso espírito, como cumpriríamos nossos deveres de aprendizado, de elevação e de reparação? Tal como a irança do passado, o conhecimento do futuro seria carga pesada demais MM tios.

Uma vez reencarnados, a execução do plano depende de nossa vonla-dl , sempre que agirmos mal é sinal evidente de que nos estamos desviando do plano traçado na espiritualidade, porque jamais se formulam planos cujo escopo seja o mal.

Há três causas que podem induzir-nos ao mal: a fraqueza, a ignorância, o endurecimento.

A fraqueza é a falta de força moral para cumprirmos nossos deveres de amor para com nossos semelhantes. Frequentemente perdemos excelentes oportunidades de praticar o bem por comodismo, ou por não querermos esforçar-nos um pouco.
A ignorância das coisas espirituais nos leva com facilidade ao erro.

Quando erramos por endurecimento, erramos com conhecimento de causa. Sabemos como agir bem; sabemos que não devemos praticar determinadas ações; porém o orgulho nos endurece o coração e contrariamos as leis divinas.

O remédio contra a fraqueza é fortificarmo-nos moralmente pela prece e vigiar para que não nos escapem as ocasiões de sermos úteis.

Contra a ignorância espiritual, o remédio é a instrução religiosa e pautarmos nossa vida pelos preceitos morais evangélicos.

E contra o endurecimento, o remédio é tratarmos de desenvolver a humildade em nossos corações. Uma vez desenvolvida a humildade, acaba-se o endurecimento pela extinção do orgulho que lhe deu origem.

Por vezes reencarnamo-nos para terminar trabalhos iniciados em reencarnações anteriores. Certamente não vamos encontrar o ambiente terreno, nem as coisas tais quais as deixamos ao voltar para o mundo espiritual no passado. Tudo se modifica continuamente. Todavia, ao traçar os planos de nossa reencarnação, aproveitamos os elementos e conhecimentos de que dispomos, frutos de experiências já adquiridas, e os aplicamos às obras a que nos vínhamos dedicando, visando aperfeiçoá-las.

E muito útil, por conseguinte, que envidemos todos os nossos esforço? no sentido de criarmos desde já facilidades para nossas reencarnações futuras: um bem que fizermos, uma árvore que plantarmos, uma casa que construirmos, os filhos que educarmos, o cumprimento rigoroso de nossos deveres, as amizades que cultivarmos, as possibilidades de trabalho digno que criarmos para os outros, os amigos que conquistarmos, as boas leituras, os estudos, os bons sentimentos que desenvolvermos, a harmonia familiar, o amor e a fidelidade conjugais, o cuidado de não criarmos inimigos, tudo são fontes de facilidades para as reencarnações futuras, ajudando muito na preparação delas e possibilitando levar avante as obras pelas quais nos interessamos.

I - O ESPIRITO DURANTE A GESTAÇÃO

Logo que o óvulo é fecundado no organismo materno, inicia-se a reencarnação do espírito. E o futuro corpo humano vai formándo-se átomo por átomo, molécula por molécula; e o espírito vai ligando-se a ele também átomo por átomo e molécula por molécula, até o dia em que se completa a reencarnação com o nascimento.

Ao receber permissão para reencarnar-se, o espírito começa seus preparativos; primeiramente se desliga de seus compromissos na colônia espiritual onde habita; depois estuda o plano de sua futura vida terrena, procurando fixar na memória espiritual os principais problemas que o defrontarão na terra e as soluções mais acertadas; em seguida, acompanhado de amigos e dos encarregados de proceder aos trabalhos de reencarne, desce ao seio da família que o abrigará. E tão logo se der a concepção e a sua consequente ligação ao corpo que começa a formar-se, o espírito vai perdendo a memória espiritual e os movimentos livres, ficando como que entorpecido, para despertar depois, já reencarnado. Se durante a gestação nós pudéssemos ver o espírito, vê-lo-íamos já em forma de uma criancinha amorosamente enlaçada ao colo materno.

J - RECEPÇÃO DO ESPIRITO QUE SE REENCARNA

Enquanto do lado invisível a nossos olhos, os encarregados da reencarnação trabalham para que ela se efetue normalmente, ajudando o reencarnante até o último momento, cuidados especiais também se tomam de nosso lado.

Em duas partes se dividem as providências a ser tomadas para a recepção do espírito que se reencarna: uma delas é a parte material visando prover o recém-naseido do que ele necessitará como encarnado; a outra é a parte moral que visa a preparação espiritual do ambiente.

A preparação espiritual do ambiente do lar deve começar desde o primeiro instante da concepção. Devemos compreender que se está processando um ato dos mais respeitáveis, o qual acarreta consequências de profunda repercussão: de um lado temos um espírito imergindo na carne, com seu organismo espiritual completamente transformado para atender aos imperativos da reencarnação; do outro lado temos o organismo materno passando por alterações dolorosas. Daí a necessidade de se criar ao redor da gestante uma atmosfera de carinho, de tranquilidade, de júbilo, de Confiança e de respeito; todos devem concorrer para facilitar-lhe ao máximo a tarefa divina. Lcmbremo-nos de que a futura mãe está trazendo em seu rio não só o corpo que se está formando, como também um espírito que se reencarna; e de que ela está rodeada constantemente de amigos espirituais, invisíveis para nós, auxiliando-a e desejosos de nossa cooperação.

Os mais puros e nobres pensamentos devem envolvê-la.

Como poderoso meio de purificação do ambiente, recomendamos o cultivo da oração por todos os membros da família, não só em benefício do espírito que se está reencarnando, como também da futura mãe; esta, por sua vez, se esforçará por manter bons pensamentos e não se esquecerá de suas orações diárias.