AÇÃO E REAÇÃO
BIBLIOGRAFIA
01- Ação e Reação, toda a obra 02 - Animais nossos irmãos, pag127
03 - Atualidades de Allan Kardec, pag. 186 04 - Contos desta e outras vidas, pag. 59
05 - Dinâmica Psi, pag. 61 06 - Educação para a morte, pag. 75
07 - Enfoques cient. na Doutrina Espírita, 164 08 - Escravos do ouro, pag. 11ª, 222
09 - Eustáquio, 15 séculos de 1 traj., pag 73 10 - Felicidade se aprende, pag. 155
11 - Grandes pontos em peq. contos, pag. 49, 18 12 - Infidelidade e perdão, toda a obra
13 - Inicialização ao Espiritismo, pag. 63 14 - Mãos de luz, pag. 107

LEMBRETE: O NÚMERO DA PÁGINA PODE VARIAR DE ACORDO COM A EDIÇÃO DA OBRA CITADA.

AÇÃO E REAÇÃO – COMPILAÇÃO

01 - AÇÃO E REAÇÃO:

Rogério Coelho

"Não resistais ao mal..." - - Jesus (Mt., 5:39)

Uma lei física postula o seguinte: "Toda ação provoca uma reação de igual intensidade e em sentido contrário".

Essa lei, levada à Vida de relação, provoca verdadeiros desastres e tragédias!...

Há que se examinar com mais atenção os ensinamentos contidos em Mateus (5:40 e 41), quando Jesus proclama:

"Se pedirem para caminhar uma milha, caminha duas mil; se pedirem o vestido, dê também a capa".

Na verdade, muitos exegetas apressados vêem nessas assertivas apenas uma atitude de cobarde passividade. Não conseguem, em seu apoucamento mental, perceber a sua essência pacifista.

Jesus nunca reagia; mas sempre agia.

Acompanhemos uma narrativa de Divaldo P. Franco contida no livro (pág. 20/21): "Palavras de Luz".

"Quando Jesus estava com Anás (jo., 18:19 a 23) o Sumo Sacerdote Lhe perguntou sobre a Sua Doutrina; ao que Ele respondeu: "Nada falei em oculto, pergunte aos que Me ouviram." Um soldado que estava ao lado do representante de César, agrediu-O, esbofeteando-lhe a face".

"Para mim"- continua Divaldo - "este gesto é dos mais covardes: bater na face de um homem atado.

Então Jesus não reagiu. Agiu com absoluta serenidade. Pacifista por excelência, voltou-se para o agressor e lhe perguntou: "Soldado, por que me bateste? Se errei, aponta-me o erro, mas se eu disse a verdade, por que me bateste?"

É uma lição viva, porque Ele poderia apelar ali para a justiça do representante de César; poderia ter-se encolerizado; ter tido um gesto de Reação, mas Ele preferiu agir".

Quantos lares vivem em permanente estado de beligerância porque as pessoas estão sempre reclamando, blasfemando, atritando; vivendo lamentavelmente reagindo e raramente parando para agir.

Já lemos algures que treinamos a Vida inteira para sermos provados em apenas um minuto.

Em uma questão de segundos podemos felicitar nossa Vida (agindo) ou infelicitá-la (reagindo).

No Livro "Palavras de Luz", página 110, ensina Divaldo P. Franco, que é preciso, então, realizar um treinamento:

"Comecemos treinando-nos para as pequenas coisas. Toda vez que vier uma vontade de dar uma resposta grosseira, tentemos sorrir e não a dar. Se alguém nos dá uma indireta e podemos rebatê-la com uma alfinetada, tornemos a sorrir, achando que o agressor não está bem.

Não disputemos o campeonato para ver quem é o pior dos licitantes. De treinamento em treinamento, quando vier a agressão, estaremos tão acostumados a não reagir, que passaremos a agir".

Há muitos anos, disse Joanna de Ângelis a Divaldo:

"Quando alguém te atirar lama, não fiques teimosamente à frente, porque ela te baterá na face e te sujará por alguns minutos. Quando alguém o fizer, sai do caminho. A lama passa e quem a jogou ficará com as mãos sujas. Nunca revides, para que não fiques enlameado também".

Certa feita, um confrade saiu às ruas a solicitar recursos para uma obra de assistência social de sua Casa Espírita. Chegando perto de um grupo de pessoas, recebeu de uma delas uma cusparada no rosto, ao solicitar o óbolo. Ao contrário do que todos esperavam, não reagiu. Calmamente pegou o lenço, limpou o rosto, e... agiu, dizendo: "Isto foi para mim que o mereço, mas agora, dê-me, em nome de Jesus, o óbolo que é para atender às desesperadas e urgentes necessidades dos filhos do Calvário.

Certa ocasião, um filho de pai Espírita foi violentamente agredido por uma dessas gangues mirins de rua. O pai agindo, empós, de forma coerente com o Evangelho de Jesus, levou às lágrimas alguns componentes da gangue, plantando na aridez daqueles corações revoltados e insubmissos a semente do amor e da fraternidade.

Estejamos sempre vigilantes, vez que não sabemos quando será o tal minuto de prova, quando então estaremos sendo observados pelos avaliadores de nossa fibra cristã.

02 - AÇÃO E REAÇÃO - Lei da Ação e Reação

Você está sempre criando a realidade existencial que experimenta segundo suas convicções e crenças. O Universo responde à natureza criadora da sua mente mais profunda e está constantemente dando forma a todas as suas convicções, criando continuamente circunstâncias que refletem o seu estado interior.

O acaso, a sorte, o azar e o destino não existem por si mesmos. Sua experiência de vida ocorre em resposta a uma lógica precisa, que sempre consiste na somatória dos seus pensamentos e das suas emoções.

A Vida em essência tem suas leis e princípios infalíveis que produzem um fluxo que devemos seguir. Se nos desviarmos dessa corrente, sofremos. Infelizmente, sofremos porque escolhemos justamente o caminho mais difícil, indo contra a corrente da vida.

Em algum momento da existência, quase sempre de forma inconsciente, redirecionamos a nossa energia vital para coisas que vão contra a alegria, a felicidade e a paz interior. Assim, provocamos uma grande confusão mental e emocional, ocasionando perdas, doenças, dores e fracasso. Isso decorre do fato de que nos convencemos ou deixamos os outros nos convencerem que somos criaturas frágeis, dependentes e incapazes.

A sociedade em que vivemos nos forjou de forma errônea. No entanto, Lei é Lei: afrontamos a Lei e colhemos o resultado negativo.

Punição?

Castigo?

Não!

Simplesmente efeito borboleta, ou seja: pequenas ações isoladas ou em conjunto que fizeram reverberar efeitos negativos em cascata que culminaram nas dores e sofrimentos que nos afetam enquanto indivíduos e raça.

A Lei da harmonia universal estabelece que para cada ação existe uma reação. Cada escolha que fazemos gera um resultado. Como não fomos instruídos a tomar consciência do poder criador dos nossos desejos, vontades e emoções, criamos indefinidamente de forma negativa, conforme formos forjados desde a infância. Assim, permanecemos presos a uma teia de circunstâncias que propagam a dor, a tristeza, o sofrimento, o medo e o fracasso.

Diante das situações negativas que vivenciamos, alimentamos o desejo superficial de mudança fundado na vontade de excluir os males. Acontece que no universo das emoções não existe a possibilidade da exclusão.

A mente trabalha com energias sutis que são alimentadas pela nossa atenção. Sendo assim, quando pensamos em excluir o que é negativo, inevitavelmente focalizamos nossa força criadora nisso, dando toda a nossa energia para o que tentamos eliminar. Dessa forma, os resultados são sempre os mesmos: continuamos a atrair situações das quais desejamos nos livrar.

Você já notou como os problemas ou as circunstâncias negativas se repetem em determinadas áreas da sua vida?

Pois bem!

Concentre-se um pouco nessas áreas críticas examinando suas crenças em relação a elas.

Se você tem problemas na área financeira, analise e tente identificar seu comportamento em relação ao dinheiro. Estenda esse comportamento aos seus familiares e amigos. É muito provável que hajam muitas crenças limitadoras advindas do meio que o cerca, influenciando diretamente a sua maneira de pensar, sentir e agir.

Continue analisando em seu íntimo todos os padrões negativos relacionados à riqueza. Seguramente você chegará à conclusão de que as circunstâncias negativas se repetem, fazendo com que ocorra um círculo vicioso composto por uma teia de eventos que fazem perpetuar as suas dificuldades financeiras.
Agora, faça o mesmo procedimento nas outras áreas onde você enfrenta problemas. Se você tiver coragem analisá-las com um senso analítico impessoal, verá que possui crenças limitadoras em todas elas.

Muito bem!

Agora pense em uma área da sua vida onde você tem mais facilidade com as coisas, onde tudo acontece com mais tranqüilidade. Você certamente irá notar que suas crenças são mais positivas e suas expectativas são melhores nessa área.

Se você possui uma boa saúde e tem absoluta consciência disso, pode se certificar de que seu sistema imunológico está forte. Seguramente algum fator desencadeante em algum momento de sua vida o levou a crer que você é saudável. A partir dessa concepção de saúde, seu subconsciente se encarregou do resto criando um padrão de saúde que se manterá até que uma forte convicção contrária quebre o bloqueio às doenças. Enquanto isso, pessoas à sua volta que vivem falando em doenças vão adquirindo mais e mais doenças a cada ano que passa.

Se você é uma pessoa alegre e extrovertida, notará que as circunstancias felizes simplesmente ocorrem do nada, continuamente para a sua experiência. Enquanto isso, olha para um vizinho infeliz e chega à conclusão de que o cara é um grande azarado pois tudo dá errado com ele.

Se você é um empreendedor de sorte, certamente há de concordar que as coisas simplesmente acontecem de forma que um sucesso leva a outro.

A nossa natureza criativa expande-se onde concentramos o foco de nossos pensamentos e emoções, em detrimento de outras áreas relegadas a um segundo plano.

Há um ditado que diz: feliz no amor, azar no jogo. Isso pode parecer hilário, mas exemplifica claramente o que acabo de dizer. Quando uma pessoa está apaixonada, esquece do mundo, deixando as demais áreas em segundo plano. Deixa de jogar o jogo da vida que exige tomada de decisões, ações, planejamento e cálculos porque seu foco está todo direcionado à pessoa amada.

Os relacionamentos são importantes, mas a vida é muito mais do que amar e ser amado. Na verdade, a vida exige que sejamos dinâmicos, agindo nas diversas áreas da existência com a finalidade de injetar energia e, por conseguinte, obter reações favoráveis em todas elas. É necessário direcionar o foco de nossa atenção para tantas áreas quanto possível, dentro das limitações da nossa mente. E isso exige dinamismo, entusiasmo e coragem.

Sejam lá quais forem as áreas da sua vida que apresentem problemas no momento, isso significa que as mesmas precisam de mais foco, de atenção. Aprenda a ser multifocal para que a vida possa dar mais do que aquilo que você está recebendo agora. Aja sabiamente, reconhecendo que as reações benéficas que você vai usufruir num futuro próximo serão diretamente proporcionais às suas ações positivas de agora.

A Lei da Ação e Reação é uma das leis fundamentais que governam os corpos celestes e terrestres, nas suas instâncias materiais e sutis.

03 - AÇÃO E REAÇÃO: - AÇÃO E REAÇÃO OU CAUSA E EFEITO?

NA ANÁLISE DA DOR, DEVEMOS ADMITIR QUE ALGUÉM ESTEJA SOFRENDO "PELA CAUSA" QUE ABRAÇOU, COM VISTAS AO SEU PROGRESSO ESPIRITUAL, E NÃO "POR CAUSA" DE UMA FALTA QUALQUER

O princípio de "Ação e Reação", conhecido como a Terceira Lei de Newton (Isaac Newton, Físico e Matemático Inglês - 1642-1727), tem o seguinte enunciado: A toda ação corresponde uma reação de igual intensidade e sentido oposto. De forma ortodoxa, e indiscriminadamente, esse princípio tem sido aplicado para justificar a razão do sofrimento do Espírito reencarnado em qualquer situação. Oportuno lembrar que o Codificador não usou desse raciocínio, não fez uso da Lei de Newton, e, sim, do axioma: não há efeito sem causa. Uma leitura superficial dos dois princípios poderá nos levar a conclusões erradas. Apliquemos, no caso do cego de nascença, os dois princípios, um de cada vez, e o leitor entenderá do que estamos falando.

Adotando o princípio da "Lei de Ação e Reação" (a toda ação corresponde uma reação de igual intensidade e sentido oposto), a situação do cego de Siloé deveria ser uma reação em sentido oposto a uma ação, no caso negativa. Teria cometido uma infração às Leis Morais do Criador. Mas vimos que não era o caso. Dessa forma, nem sempre podemos concluir que a dor seja uma reação.

O Mentor de Chico Xavier, Emmanuel, alerta-nos que é "imperioso interpretar a dor por mais altos padrões de entendimento. Ninguém sofre, de um modo ou de outro, tão-somente para resgatar o preço de alguma coisa. Sofre-se também angariando os recursos preciosos para obtê-la (...)". Com este entendimento é que devemos interpretar a situação do cego de nascença, que aceitou aquela condição para conquistar uma posição espiritual mais elevada. Se a dor corrige o passado e nos adverte no presente, também poderá estar construindo o nosso futuro. É a dor a serviço da evolução de todos nós, Espíritos imperfeitos.

Agora, aplicando o princípio não há efeito sem causa, à mesma situação, não resta dúvida de que encontramos no sofrimento daquele cego uma causa, que foi a sua avidez pelo progresso, seu desprendimento e amor à causa do Cristo. Permitiu-se nascer privado da visão para cooperar com a causa do Messias. A sua dor não era uma reação a nada, era a própria ação. Sofreu "pela causa" e não "por causa".

Como já dissemos, Allan Kardec adotou o princípio de causa e efeito e não de ação e reação para estudar e explicar as razões da dor e das aflições. Conhecia, sem sombra de dúvida, a Terceira Lei de Newton, mas não a usou na apreciação das coisas espirituais. Será que o "bom senso encarnado" percebeu que a lei do Físico Inglês não se prestava integralmente para a compreensão e esclarecimentos sobre as aflições? Entendemos que sim. O Mestre de Lyon trilhou com sabedoria, sem dogmatismo e com bom senso. Acompanhemo-lo neste texto:

"Os sofrimentos devidos a causas anteriores à existência presente, como os que se originam de culpas atuais, são muitas vezes a conseqüência da falta cometida, isto é, o homem, pela ação de uma rigorosa justiça distributiva, sofre o que fez sofrer aos outros. Se foi duro e desumano, poderá ser a seu turno tratado duramente e com desumanidade; se foi orgulhoso, poderá nascer em humilde condição; se foi avaro, egoísta, ou se fez mau uso de suas riquezas, poderá ver-se privado do necessário; se foi mau filho, poderá sofrer pelo procedimento de seus filhos, etc."

Observemos que teve o cuidado de alertar o seu leitor escrevendo as expressões "muitas vezes" e "poderá", em vários momentos, não afirmando categoricamente que a dor seja sempre uma punição. Continuemos.

"Não há crer, no entanto, que todo sofrimento suportado neste mundo denote a existência de uma determinada falta. Muitas vezes, são simples provas buscadas pelo Espírito para concluir a sua depuração e ativar o seu progresso. Assim, a expiação serve sempre de prova, mas nem sempre a prova é uma expiação. Provas e expiações, todavia, são sempre sinais de relativa inferioridade, porquanto o que é perfeito não precisa ser provado. Pode, pois, um Espírito haver chegado a certo grau de elevação e, nada obstante, desejoso de adiantar-se mais, solicitar uma missão, uma tarefa a executar, pela qual tanto mais recompensado será, se sair vitorioso, quanto mais rude haja sido a luta. Tais são, especialmente, essas pessoas de instintos naturalmente bons, de alma elevada, de nobres sentimentos inatos, que parece nada de mau haverem trazido de suas precedentes existências e que sofrem, com resignação toda cristã, as maiores dores, somente pedindo a Deus que as possam suportar sem murmurar."

Como conclusão, o Espiritismo não nos autoriza generalizar o sofrimento como sendo uma punição, conseqüência de erros cometidos. Léon Denis, um dos continuadores de Kardec, que muito bem compreendeu a verdadeira missão da dor, ensina: "Todos aqueles que sofrem não são forçosamente culpados em vida de expiação. Muitos são Espíritos ávidos de progresso, que escolheram vidas penosas e de labor para colherem o benefício moral que anda ligado a toda pena sofrida." E mais à frente: "Às almas fracas, a doença ensina a paciência, a sabedoria, o governo de si mesmas. Às almas fortes, pode oferecer compensações de ideal, deixando ao Espírito o livre vôo de suas aspirações até ao ponto de esquecer os sofrimentos físicos".

A causa do sofrimento não somente está no passado ou no presente, mas também no futuro. A dor-evolução não está corrigindo erros cometidos, mas construindo um porvir venturoso para o Espírito em evolução. Sabemos que muitos deles reencarnam em missão na Terra, com o objetivo de impulsionar o nosso progresso moral e científico. Tais Espíritos aceitam resignados, até mesmo com certa alegria, as adversidades e infortúnios de tal existência, por saberem que estão se adiantando na escala evolutiva (O Livro dos Espíritos, questão 178). Logo, sofrem as dores da evolução, aquela que vem de fora para dentro, ao contrário da dor-expiação, que vem de dentro para fora, pois é purgação.

A reencarnação não é um processo punitivo; é manifestação da misericórdia divina. Não reencarnamos somente por sermos devedores, mas, acima de tudo, porque a vida na matéria significa oportunidade de crescimento em todas as latitudes espirituais. A evolução é lei divina e, por isso, imperiosa. Sofremos, vez ou outra, pela causa que abraçamos e não somente por causa de alguma infringência às leis divinas.

Na apreciação das causas das dores e aflições por que passamos, nem sempre é correto adotar o princípio de "ação e reação", concluindo que a dor seja sempre uma reação oposta a uma ação ilícita. Os Espíritos Superiores nos ensinam que para todo efeito existe uma causa, mas não asseguram que o sofrimento seja sempre um efeito, pois no caso do cego de nascença, ele era isento de culpa. A causa da sua desdita existia sim! Estava no seu desejo de cooperar com a causa do Messias de Deus.

A despeito da nossa dificuldade de andar de braços com a dor, na condição de amiga, insistindo em nos conduzir aos píncaros da glória espiritual, esforcemo-nos para compreender, à luz da fé racional que o Espiritismo nos trouxe, a exortação de Jesus no Sermão do Monte, consolando os sofredores: "Bem-aventurados os que choram, porque eles serão consolados".

Waldehir Bezerra de Almeida

04 - Ação e Reação

Autor: Orson Peter Carrara

O Código penal da vida futura, apresentado por Allan Kardec na obra O Céu e o Inferno* (capítulo VII da primeira parte), é fonte de interessantes reflexões em torno da lei de ação e reação que rege os caminhos humanos.

Como pondera o próprio Codificador, no mesmo capítulo e com o subtítulo Princípios da Doutrina Espírita sobre as penas futuras, “(...) no que respeita às penas futuras, não se baseia num teoria preconcebida; não é um sistema substituindo outro sistema: em tudo ele se apóia nas observações, e são estas que lhe dão plena autoridade. Ninguém jamais imaginou que as almas, depois da morte, se encontrariam em tais ou quais condições; são elas, essas mesmas almas, partidas da Terra, que nos vêm hoje iniciar nos mistérios da vida futura, descrever-nos sua situação feliz ou desgraçada, as impressões, a transformação pela morte do corpo, completando, assim, em uma palavra, os ensinamentos do Cristo sobre este ponto. Preciso é afirmar que se não trata neste caso das revelações de um só Espírito, o qual poderia ver as coisas do seu ponto de vista, sob um só aspecto, ainda dominado por terrenos prejuízos, Tampouco se trata de uma revelação feita exclusivamente a um indivíduo que pudesse deixar-se levar pelas aparências, ou de uma visão extática suscetível de ilusões, e não passando muitas vezes de reflexo de uma imaginação exaltada. Trata-se, sim, de inúmeros exemplos fornecidos por Espíritos de todas as categorias, desde os mais elevados aos mais inferiores da escala, por intermédio de outros tantos auxiliares (médiuns) disseminados pelo mundo, de sorte que a revelação deixa de ser privilégio de alguém, pois todos podem prová-la, observando-a, sem obrigar-se à crença pela crença de outrem.”.

Esta transcrição inicial é importante para nos situarmos no universo de observações que se colocou o Codificador para elaboração da teoria espírita, advinda toda das revelações que os próprios espíritos fizeram.

O próprio O Livro dos Espíritos, obra lançada em 18 de abril de 1857 com os fundamentos doutrinários do Espiritismo e organizado em forma de perguntas e respostas, teve sua parte Quarta, com dois capítulos e exatas cem perguntas com suas respectivas respostas, totalmente dedicado ao tema das penas e gozos, terrenos e futuros.

No citado Código, que citamos no primeiro parágrafo acima, utilizaremos o 3º dos 33 itens, para orientar o desenvolvimento do tema. O texto original apresenta-se nos seguintes termos: Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e inevitáveis conseqüências, como não há uma só qualidade que não seja fonte de um gozo.

Ora, são as imperfeições ou as qualidades da alma humana que geram suas ações felizes ou equivocadas. E essas ações estão caracterizadas com o selo moral do estágio em que se situa o ser. Portanto, os pensamentos, os sentimentos, e as próprias ações executadas no transcorrer de uma existência geram reflexos na própria existência, na vida espiritual ou até mesmo na próxima ou futuras existências, a depender é claro da extensão ou gravidade da ação promovida.

A lei de ação e reação, ou o a cada um segundo suas próprias obras, baseia-se num perfeito mecanismo de justiça e igualdade absoluta para todos. Não há qualquer favoritismo para quem quer que seja. Agindo bem, teremos o mérito do bem. Agindo mal, teremos as consequencias. Não se trata de castigo, em absoluto, mas de consequencias.

Qualquer prejuízo que causarmos a nós mesmos ou a terceiros, ocasionarão consequencias inevitáveis em nossa própria vida. Isto é da Lei Divina. E qualquer benefício que distribuamos gerará méritos e benefícios correspondentes em nosso próprio caminho, ainda que haja ingratidão dos beneficiados.

Passamos a entender, portanto, que fazer o mal a quem quer que seja nunca será compensador, pois sempre responderemos pelo mal que causemos, inclusive a nós próprios. E, do mesmo modo, toda felicidade ou tranqüilidade que proporcionarmos ao próximo redundará, inevitavelmente, em bem para nós mesmos.

Não é por outra razão que Jesus ensinou a perdoar. O ódio alimentado, a vingança executada ou a perseguição contumaz a qualquer pessoa redundarão em estágios de sofrimento e dor a seu próprio autor. Perdoando, libertamo-nos.

Também é pela mesma razão que a recomendação sempre constante é para que promovamos o bem, ainda que este não nos seja espontâneo (estamos aprendendo a incorporá-lo em nós mesmos), pois todo bem gera o bem. O mal sempre gerará consequencias desagradáveis.

Fácil perceber, portanto, que muitos sofrimentos existentes hoje na vida individual, social e coletiva, inclusive a nível de planeta, poderiam ser evitados se houvesse o conhecimento dessa realidade das consequencias geradas por nossos atos. Quantos equívocos pelo desconhecimento dessa lei que simplesmente usa a justiça e a igualdade como parâmetros...

Não temos o direito de ferir, de denegrir, de caluniar, de espoliar... Não temos igualmente o direito de matar, de roubar (bens, dignidade, oportunidades, paz, etc), de interferir na vida alheia, de impor idéias ou padrões que julgamos corretos. Entendamos que as criaturas são livres, desejam ser respeitadas, assim como queremos ser...

Este é o detalhe: as tentativas de dominação, imposição, de cerceamento da liberdade individual, sempre ocasionarão sofrimentos, pois todos somos seres pensantes, com vontade própria, responsáveis pelo próprio caminho. Poderemos, é claro, sugerir, aconselhar (se formos solicitados), auxiliar no que for possível, mas jamais violentar as consciências. Todas merecem respeito.

O tema suscita muitos debates, abre perspectivas imensas de estudo. Observa-se que as próprias leis humanas, refletindo as imperfeições do estágio evolutivo do planeta, muitas vezes são equivocadas, gerando também consequencias para o futuro. O que se observa atualmente é fruto de toda essa inconsciência coletiva dos mecanismos que nos dirigem a vida.

Há que se pensar no que estamos fazendo. Já não somos mais seres tão ingênuos que desconhecem as Leis Morais. Estamos todos num caminho evolutivo, onde os direitos são iguais. Tais direitos, abrangentes, devem ser respeitados pela igualdade e pela justiça.

E é justamente pelo desrespeito a tais princípios de igualdade e justiça que se observam os efeitos na vida material e na vida espiritual, com os depoimentos que os próprios espíritos trazem do estado em que se encontram, em virtude do padrão moral que adotaram no relacionamento uns com os outros ou consigo mesmos.

O próprio O Céu e o Inferno traz depoimentos, em sua segunda parte, de diferentes espíritos que descrevem a situação em que se encontraram após a morte. Mas a questão não é apenas para depois da morte. Há que se considerar a própria existência física, atual ou futura (s), onde os mesmos reflexos se fazem sentir.

Será de muita utilidade que possamos estudar e debater os itens do Código Penal da Vida Futura, constante do livro em referência, para espalhar tais esclarecimentos. Mesmo os depoimentos constantes da mesma obra, são de grande utilidade para estudos e reflexões.

São princípios desconhecidos da maioria dos espíritos encarnados no planeta, embora a consciência, onde está escrita a Lei de Deus (1), os avise de seus equívocos. Sufocados pelas imperfeições morais do orgulho, do egoísmo, da vaidade, ainda nos permitimos sufocar a própria consciência e agimos em detrimento uns dos outros. Daí as conseqüências inevitáveis e os sofrimentos...

Em tudo, porém, é preciso sempre considerar a misericórdia de Deus, que nunca abandona seus filhos e lhes abre sem cessar novas oportunidades de progresso. O tema é extenso, pois poderemos adentrar os domínios do arrependimento, expiação e reparação, mas desejamos mesmo é sugerir ao leitor a leitura atenta do Código constante em O Céu e o Inferno. Os itens enumerados, todos eles, abrem perspectivas imensas de entendimento e esclarecimento, o que seria impossível num artigo de poucas linhas. Melhor mesmo é buscar na fonte original a lucidez e clareza da própria Doutrina.

Para concluir, gostaríamos de oferecer à reflexão do leitor a frase de Joanna de Ângelis, na psicografia de Divaldo Pereira Franco, constante do capítulo 38 – A glória do trabalho –, do livro Lampadário Espírita (2): No lugar em que te encontras, sempre poderás semear a luz da esperança e do amor. Eis um programação de ação para modificar os panoramas da vida humana. Basta nos situarmos no esforço do bem, para gerar efeitos salutares de felicidade e saúde.

Se usarmos este roteiro nas atitudes de cada dia, pronto! Estaremos sintonizados com o bem, gerando efeitos de amor e alegria. Simples conseqüência da lei de ação e reação.

*Utilizamo-nos da 32ª edição da FEB, de 09/84, com tradução de Manuel Quintão.